ISAURA PERES
Falta de autonomia, dificuldade em envolver os estudantes nas aprendizagens e problemas com a internet ou equipamento informático foram alguns dos entraves no ensino à distância. Mas globalmente, na perceção de alunos, pais e docentes, o balanço Plano de E@D do Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro foi positivo.
Perante a pandemia que vivemos, o ensino foi uma das áreas que sofreu profundas alterações. Desde o encerramento das escolas em 16 de março até ao final do terceiro período letivo, alunos, professores, famílias e órgãos de gestão pedagógica tiveram que reinventar os métodos para promover as aprendizagens, passando repentinamente de um ensino presencial para um ensino exclusivamente à distância, exceto para os alunos do 11º e 12º ano que, de 16 de maio a 26 de junho, retomaram o regime presencial nas disciplinas com exame nacional, bem como o Pré-Escolar, a partir de 1 de julho. A reabertura da escola para estes alunos decorreu com normalidade.
As salas de aula ficaram vazias, mas o Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro prosseguiu na sua missão educativa e social assegurando a todos os alunos as condições básicas para o processo de ensino à distância. Assim, em colaboração com a autarquia, foi cedido, a todos os alunos que não o dispunham, equipamento informático (tablet ou computador) e pontos de acesso à Internet. Acolheu também os alunos filhos de profissionais prioritários e serviu refeições a alunos com ASE que o solicitaram.
Foi definido e implementado o Plano de E@D, com readaptação dos horários de trabalho, mobilização dos recursos necessários e priorização das metodologias de ensino. Foram mantidos os apoios especializados no âmbito da educação inclusiva, procurando respeitar os diferentes ritmos de aprendizagem dos alunos. Recorreu-se a todas as formas necessárias para manter a comunicação com os alunos e encarregados de educação, inclusive o contacto por intermédio da GNR. O plano de ensino à distância traçado constituiu-se como um instrumento dinâmico, permitindo encontrar as respostas mais adequadas e potenciadoras em cada situação, de modo a promover o sucesso educativo de todos os alunos. Ainda assim, no balanço final que se faz deste plano verifica-se que alguns alunos do agrupamento não acompanharam as atividades letivas acentuando-se as desigualdades de aprendizagem.
Para avaliar o grau de satisfação da comunidade educativa face ao plano de E@D implementado no AEMD, no final do 3º período, procedeu-se à recolha de dados através de questionários. Participaram neste estudo alunos e encarregados de educação do 1º ciclo ao ensino secundário (65% dos alunos e 80% dos encarregados de educação) e docentes do pré-escolar ao secundário (80%).
A capacidade de utilização das tecnologias da Informação e comunicação não foi considerado um entrave no processo de ensino à distância, com 88% dos alunos a considerar que foi fácil.
A forma de acesso à Internet mais usada pelos alunos foi a rede fixa em casa (83%), mas 7% acederam normalmente com dados móveis no telemóvel e 3% tiveram problemas recorrentes em consequência de uma rede fraca ou instável.
Na comunicação com os professores (gráfico 1), “videoaulas” foi a preferida dos alunos e encarregados de educação do 2º e 3º ciclo e do secundário, não se verificando nenhuma tendência preferencial por parte dos alunos do 1º ciclo. Também gostaram de comunicar por email e por whatsapp em grupo. Alguns alunos e encarregados de educação preferiram receber informação em papel, o que se poderá relacionar com dificuldades ao nível das TIC.
Os docentes recorreram a vários meios para disponibilizar materiais aos alunos (gráfico 2). 93% enviou materiais e planos de trabalho em digital. O manual escolar também foi um recurso muito valorizado, sendo sempre ou quase sempre a base de trabalho para 66% dos docentes. As aulas síncronas com videoaula foi um recurso utilizado sempre ou quase sempre por 53% dos docentes. Também o email, telemóvel e WhatsApp foram muito utilizados.
Foi também frequente o recurso a plataformas digitais (60% dos docentes utilizou com regularidade). As plataformas mais usadas foram a Escola virtual (53% dos docentes), o Zoom/Skype (30%), Aula digital (20%), Teams (20%, o que representa metade dos professores do secundário que eram os que tinham acesso). Também utilizaram o Classroom (12%), o Padlet (15%) a Escola Mágica (13%) e outras (10%). Alguns docentes (10%) não recorreram a nenhuma plataforma.
O #EstudoEmCasa foi um recurso valorizado quer pelos alunos quer pelos encarregados de educação, acompanhado com regularidade por 86% dos alunos do 1º Ciclo e 65% no 2º e 3º Ciclo, e valorizado por 60% dos professores.
Uma das críticas apontadas pelos encarregados de educação, que terá dificultado o processo de ensino à distância, foi a diversidade de plataformas utilizadas pelos professores, não havendo uma uniformização por turma. Este problema poderá ser ultrapassado no próximo ano, tornando o Teams extensível a todos os níveis de ensino. Sendo uma plataforma fechada do Agrupamento permite uma melhor gestão dos seus membros.
As dificuldades foram várias na perspetiva de todos os intervenientes (gráfico 3). Os encarregados de educação do 1º ciclo referiram a “dificuldade na realização das tarefas de forma autónoma”, seguida da “dificuldade dos pais/enc. educação em prestar apoio” como sendo as dificuldades mais sentidas.
No 2º e 3º ciclo os alunos referiram como maior dificuldade “outra”, mas não especificaram qual, seguida de “dificuldade na realização das tarefas de forma autónoma” e “problemas com a internet”. Este último foi o maior problema assinalado pelos alunos do secundário. As opiniões dos encarregados de educação são de um modo geral concordantes com as dos alunos, e admitem que tiveram dificuldades em prestar apoio ao seu educando.
Também se destacam positivamente 8% dos alunos do secundário que não sentiram nenhuma dificuldade. Nas outras razões foram indicadas pelos encarregados de educação algumas tais como: Dificuldades na utilização das plataformas, falta da rotina escolar e convívio, dificuldade de concentração, muitas tarefas, dificuldade em tirar dúvidas. Foi também salientado por muitos encarregados de educação que seria benéfico um maior recurso a videoaulas.
Os docentes consideraram como maiores entraves à aprendizagem “dificuldade na realização das tarefas de forma autónoma”, “dificuldade dos pais/enc. educação em prestar apoio” e “falta de interesse dos alunos”.
A avaliação foi sem dúvida uma das práticas mais difíceis de implementar. Esta foi sobretudo formativa com recurso a processos diversos para recolha de dados (Gráfico 4). Os mais utilizados pelos professores foram o grau de concretização das tarefas propostas, a assiduidade e a participação dos alunos nas aulas síncronas.
No que concerne ao trabalho realizado pelos alunos, os professores defenderam que estes realizavam por norma as tarefas, no entanto 97% assinalou entre 1 a 9 alunos que nunca ou quase nunca o fazia.
Tanto os alunos como os encarregados de educação consideram que a maioria dos professores (79%) forneceu feedback pelo trabalho realizado pelos alunos. De acordo com os professores o feedback foi distribuído de diversas formas, sendo as mais frequente: “Quando os alunos realizavam uma tarefa” (85%), “Sempre que era solicitado para esclarecer dúvidas” (68%), “Quando os alunos participavam nas sessões síncronas” (48%), mas também quando o aluno não cumpria a realização da tarefa (50%).
Globalmente docentes e encarregados de educação manifestaram-se muito satisfeitos com implementação do Plano de E@D do AEDM (gráfico 5).
Estas mudanças implicaram, para a grande maioria dos professores novas formas de preparação de material e novas estratégias para ensinar. Cerca de 70% dos docentes sentiu necessidade de formação, sendo que 55% realizou alguma formação durante este processo.
Todo este processo implicou, como é natural, algumas dificuldades. A falta de contacto direto entre docentes, alunos, pais e encarregados de educação foi uma delas. O trabalho de equipa entre os vários intervenientes do processo educativo ficou mais limitado. As reuniões através das plataformas digitais não têm a mesma eficácia na resolução dos desafios. Alguns alunos não se adaptaram a este processo de ensino à distância e o apoio específico a alunos foi mais difícil. Esta modalidade de ensino exige aos alunos uma maior motivação, organização e sentido de responsabilidade. É necessária uma melhor gestão de tempo, do horário das sessões síncronas e assíncronas, dando resposta ao cumprimento das tarefas propostas por cada professor.
Também surtiram vantagens. Tanto os alunos como os docentes desenvolveram novas competências ao nível da utilização das plataformas e recursos digitais, contribuindo para aumentar a literacia digital.
Toda a humanidade foi posta à prova perante os desafios da pandemia Covid-19. A comunidade educativa demonstrou capacidade de adaptação à mudança, mas é preciso um maior investimento na formação de professores e responder às necessidades das escolas, docentes, alunos e famílias no acesso a recursos digitais e equipamentos.
No próximo ano, iremos certamente enfrentar vários desafios, mas com a experiência passada estaremos mais bem preparados para os enfrentar do que estávamos em março de 2020.
Vai ficar tudo bem!