Atualmente é conhecida a importância da primeira hora após o parto para que o bebê permaneça em contato pele a pele e possa ter oportunidade de contato com o seio e até sugar. Aproveita uma característica fisiológica dos bebês de permanecerem mais alertas nessa primeira hora após o parto que é considerada a hora de ouro. Na maioria das vezes a mãe cujo bebê vai para a UTI Neonatal não passa por essa experiência.
No entanto, não é apenas essa primeira hora, mas as 6 primeiras junto com os primeiros dias de vida que vão definir a cena para a lactação adequada. As pesquisas mais atuais com os biomarcadores do leite humano demonstram claramente que os primeiros cinco dias são críticos para a efetiva iniciação da lactação, para obtenção da ativação secretória (aumento na produção de leite) em tempo e para atingir o volume (500 ml/dia). Fatores importantes na programação do seio para bons resultados posteriores na lactação (SPATZ, DL, RODRIGUES SA, BENFILANY S et al, 2024).
A transição do controle endócrino para a função exócrina na amamentação envolve uma complexa interação de mudanças hormonais que ocorrem na época do nascimento. Essa transição é impulsionada pela queda abrupta da progesterona, que ocorre com a expulsão da placenta após o parto, removendo a inibição da síntese de leite permitindo que a lactação (ativação secretória) comece. Esse processo é muito influenciado pela secreção pela hipófise de prolactina (crucial para a produção de leite) e pela ocitocina (facilita a ejeção de leite ao contrair as células mioepiteliais das glândulas mamárias) ambas estimuladas pela sucção pelo bebê. (HANNAN FM, ELAJNAT T, et al, 2023; CROWLEY WR, 2015).
A prolactina aumenta muito com a sucção do seio (geração de pressão negativa), especialmente nas primeiras semanas após o parto. É importante na transição da diferenciação secretora (que ocorre na gestação) pra a ativação secretória com produção de leite. A prolactina tem diversas funções:
Regular para cima genes que promovem a proliferação de lactócitos (células produtoras de leite) e a produção de leite;
Prevenir apoptose de lactócitos;
Catalisar o fechamento das junções de edesão no epitélio da glândula mamária, impedindo então a recaptação da lactose produzida, levando ao aumento no volume do leite (HOBAN R, BOWKWE RM, GROSS ME, PATEL AK, 2020).
A manutenção da secreção de leite depende inicialmente da secreção de prolactina e posteriormente também pela remoção adequada do leite produzido.
A lactogênese é considerada atrasada quando os sinais de aumento na produção de leite não ocorrem dentro das 72 primeiras horas após o parto. Mulheres lactantes que experimentam atraso na ativação secretória (>4 dias) podem ser menos capazes de manter aos 4 meses leite materno exclusivo ou qualquer leite materno (BROWNELL E, HOWARD CR, LAWRENCE RA ET AL, 2012). Alguns fatores de risco materno (HOBAN R, BOWKWE RM, GROSS ME, PATEL AK, 2020 e SPATZ DL, RODRIGUES SA, BENFILANY S et al, 2024) estão associados com esse atraso e são relativamente frequentes nas mães com bebês na UTI Neonatal.
Obesidade. É um fator de risco para outros como prematuridade, trabalho de parto prolongado, estresse excessivo no parto e parto cesáreo que podem atrasar a ativação secretória. Também demonstram uma diminuição na resposta da prolactina a sucção, que é importante para a produção de leite nos primeiros dias. Geralmente apresentam um estado de inflamação crônica que pode prejudicar a captação pelas células mamárias de ácidos graxos que é crucial para a produção de leite (WALKER RE, HARVATINE KJ, ROSS AC et al, 2023).
Primiparidade.
Parto prolongado (>24 horas) ou estressante.
Parto cesáreo. Está associado a respostas reduzidas a oxitocina e a prolactina durante a amamentação. Pode ser complicado por parto prolongado com estresse psicossocial, prejudicando a produção de ocitocina, e pela dificuldade de movimentação no pós-operatório pelo desconforto ou dor.
Diabetes ou diabetes gestacional. A insulina é parte do processo de ativação secretória e produção de leite.
Pré-eclâmpsia. Pode afetar diretamente a lactação através de alterações no meio ambiente hormonal sistêmico ou placentário ou indiretamente devido ao edema pós-parto que pode dificultar a remoção do leite. Além disso, o sulfato de magnésio, utilizado nos casos severos, foi associado a atraso na lactogênese e na amamentação e na retirada de leite.
História de infertilidade e/ou uso de fertilização in vitro.
Síndrome de ovários policísticos
Hemorragia pós-parto.
Tabagismo.
Uso de antidepressivos.
Em um trabalho publicado (NORTON J, 2009) realizado em um hospital com grande investimento em leite materno, o uso combinado da expressão manual e da bomba elétrica de grau hospitalar (iniciados de forma precoce e frequente) permitiu superar estes fatores de risco com a obtenção de boa produção de leite por essas mães de risco. Um trabalho mais recente (MEDIAN-POELINIZ C, SIGNORTLE H, JAMES J et al, 2024) utilizou bomba elétrica de grau hospitalar com programa de iniciação (estimula a produção de leite) seguido por programa bifásico (retira efetivamente leite) bem como medições seriadas de sódio no leite (permite avaliar a ativação secretória). Eles levantam a questão que o atraso na ativação secretória nessa população de risco possa ser parcialmente modificado usando a tecnologia descrita juntamente com retiradas frequentes.
Nos primeiros 7 dias o processo de ativação secretória pode ser afetado negativamente seja pela diminuição no número de retiradas ou pelo usou exclusivo da extração manual. Trabalhos recentes (HOBAN R, POELINIZ CM, SOMERSET e, et al, 2020 e HOBAN R, PATEL A, POELINIZ CM ET AL, 2018) demonstraram, em um novo achado, que numa população de mães prematuras (dependentes do uso da bomba elétrica) o fechamento das junções de adesão do epitélio mamário é dinâmico na primeira semana após o parto. Dessa forma, basta apenas 1 dia com redução ou parada nas retiradas de leite para que ocorra a reabertura dessas junções, com um rápido aumento nos níveis de sódio do leite, que se reflete na diminuição da produção de leite. Demonstrando assim, a fragilidade dos primeiros dias de lactogênese nessa população. Um outro trabalho (LUSSIER MM, BROWNELL EA , PROULLX TA et al, 2015), numa pesquisa com teste cruzado com mães de bebês de muito baixo peso ao nascer, demonstrou que o grupo que começou após o parto a retirar leite usando apenas a expressão manual e no 7º dia passou a usar a bomba elétrica com extração dupla nunca atingiu ao final do 1º mês o volume de leite do grupo que começou a retirar com a bomba. Sugerindo uma diferença na programação do seio com o uso da extração manual durante a primeira semana após o parto. Isso acontece porque a expressão manual acarreta um aumento mínimo na liberação de prolactina e oxitocina quando comparada ao bebê sugando ou ao uso da bomba elétrica com pressão negativa eficaz (ZINAMAN MJ, HUGHES V, QUEENAN JT et al, 1992), apesar de remover leite do seio seu uso frequente ou exclusivo, sem o uso concomitante da bomba elétrica, pode afetar negativamente e de forma permanente a programação do seio materno e a produção de leite.
Na população de mães cujo bebê foi encaminhado para a UTI Neonatal é fundamental que sejam seguidos vários passos para que ela possa atingir o volume (produzir 500 ml /dia até o 7º dia após o parto) e ter uma chance maior de manter essa produção quando chegar na 6ª semana (HILL PD, ALDAG JC, 2005) , com maior possibilidade alta do bebê em aleitamento materno exclusivo com bom ganho de peso. Várias estratégias podem ser utilizadas (veja abaixo) mas para que possam ter seu efeito pleno acreditamos que seja necessária a garantia de estadia materna na enfermaria por 5 dias além do dia do parto. Esse período já vinha sendo utilizado em algumas mães selecionadas em nossa maternidade com bons resultados (dados não publicados). Está em consonância com recente pesquisa (MEDIAN-POELINIZ C, SIGNORTLE H, JAMES J et al, 2024) onde foi possível a obtenção da ativação secretória em 5,8 dias (média), em mães dependentes da bomba elétrica, e com a nova noção que o período crítico para obtenção da ativação secretória é de apenas 7 dias, e não mais 14 dias como se pensava anteriormente (HOBAN R, MEDINA-POELINIZ C, SOMERSET J et al, 2018; MEDINA-POELINIZ C, HOBAN R, SCHOENY EM et al, 2021 e MAGO-SHAH DD, ATHAVALE K , FISHER K te al, 2023).
As estratégias a serem utilizadas para essas mães já vinha sendo usadas na pesquisa em curso Retirada eficaz de leite materno – estudo experimental com mães prematuras combinando expressão manual e bomba elétrica e foram publicadas no final do ano passado no livro Expanding Frontiers of Neonatal Care - An Interdisciplinary Approach no capítulo Mother's own milk for the preterm baby in the NICU: a practical guide, publicado pela Cambridge Scholars Publishing vide: Cartaz. Segue um resumo dos aspectos mais importantes:
Treinamento das equipes da enfermaria de mães, da UTI Neonatal e da Unidade Intermediária.
Início precoce das retiradas, quando possível na própria enfermaria no dia do parto e a partir do segundo dia no Banco de Leite Humano.
Utilizar nos primeiros dias frasco de coleta < 20 ml (5, 10 ,15 ou 20 ml).
Realizar 6 a 7 retiradas de leite por dia.
Nos primeiros 3 dias iniciar com a expressão manual (técnica de Marmet) seguida da retirada na bomba elétrica no programa INICIAR com coletor duplo, terminando novamente com o uso da expressão manual.
Após atingir por 2 vezes consecutivas o volume de 20 ml de extração passar para o programa MANUTENCÃO da bomba elétrica seguida pelo uso da expressão manual.
Prontuário materno com dados da mãe e do bebê, orientações e volumes retirados.
Manual para as mães com orientações, registro das retiradas e gráfico evolutivo.
Orientações 2 vezes por dia com expressão manual pelo profissional, fornecimento de orientações e da meta de produção do dia.
Nossa experiência nos últimos 2 anos com a primeira pesquisa em curso nos deu a impressão que as mães que conseguimos que ficassem internadas por mais 5 dias após o dia do parto conseguiam melhores resultados na produção de leite em relação as mães que recebiam alta mais precoce. No entanto esses dados nunca foram coletados e tabulados por não fazerem parte da pesquisa original, Nossa intenção atual é de ter uma amostra maior para poder comprovar, de forma mais firme, a validade da abordagem conjunta da estadia materna na enfermaria por 5 dias (além do dia do parto) com a retirada eficaz de leite materno combinando expressão manual, bomba elétrica no hospital e bomba manual para casa.