PUNHOS DE AÇO: O despertar de um lutador
Renato Frossard
CAPÍTULO I
A DURA VIDA DE LEE SAN
Lee acordou ás 6 da manhã na pequena casa onde morava com seu irmão e sua mãe. Lavou o rosto e escovou os dentes. Depois, tomou um pouco de chá e comeu alguns biscoitos. Afinal, não havia muita coisa para comer, já que sua família enfrentava sérias dificuldades financeiras. Ao sair, deixou dormindo a mãe e o irmão, e preparou-se para enfrentar mais um árduo dia na cidade de Eagle Dive.
As ruas de Eagle Dive eram perigosas. Havia sempre o risco iminente de ser abordado por algum ladrão. Lee se apressou pois não queria ser surpreendido. Porém, hoje sua sorte o trairia, e o levaria para uma terrível emboscada. De repente, 5 homens o cercaram com bastões e nunchacos em punho. Assustado, Lee gritou: "O que vocês querem? Não tenho dinheiro." Ele disse. Mas os homens se aproximaram e começaram a golpeá-lo fortemente.
CAPÍTULO II
DESPERTAR
Sem se lembrar direito o que acontecera, Lee acordou em um quarto de hospital. Estava com os braços e pernas bastante feridos e tinha a cabeça enfaixada. Abrindo lentamente os olhos para se acostumar à claridade, Lee vê sua mãe e seu irmão, que ficam felizes por vê-lo acordado. Aos poucos a memória dos momentos de terror nas mãos dos bandidos vai voltando e Lee pôde contar à sua família o que havia acontecido.
Um mês mais tarde, já recuperado dos ferimentos, o jovem Lee começa a pensar sobre sua vida, e decide que precisa mudar radicalmente seu destino. Preciso aprender a lutar, pensa, para me vingar dos meus inimigos e para proteger minha família. Preciso encontrar um mestre que me ensine os segredos das artes marciais.
Então, Lee separa alguns poucos pertences e prepara-se para iniciar uma longa e perigosa jornada rumo ao seu sonho de tornar-se um grande lutador. Seu irmão e mãe tentam a todo custo fazê-lo desistir da idéia, sem sucesso. Ele se despede rapidamente a fim de evitar as lágrimas, promete que voltará logo, e parte, olhando uma última vez para a casinha, que aos poucos fica para trás.
Capítulo III
A SUBIDA
Após caminhar por muitos dias, Lee San se depara com uma enorme montanha. Ali, dizia a lenda, habitava um velho mestre das artes marciais, que dificilmente aceitava discípulos. O primeiro teste para se tornar o seu aluno, era vencer a árdua subida da montanha, e chegar até a casa do ancião. Olhando para o alto, onde apenas podia ver nuvens, Lee inicia seu primeiro desafio. Sem trégua, o vento açoitava o corajoso (ou tolo) viajante. O sol escaldante de dia, e o frio implacável à noite, eram outros inimigos que Lee precisava vencer para alcançar seu objetivo. Além disso, ele ainda enfrentou a fome – pois tinha levado pouco alimento consigo – e o medo de animais selvagens, serpentes e insetos peçonhentos. Para driblar os inúmeros perigos, o rapaz se escondia próximo a rochas à noite, onde podia acender uma fogueira para se proteger dos animais, além de se aquecer do frio noturno. Foram muitos tombos e tropeções até que, após longos dias de caminhada, o aventureiro chega finalmente ao topo da montanha, onde encontraria seu provável professor.
Num rochedo cercado de orquídeas e outras plantas ornamentais, Lee avistou uma pequena casinha, rústica e simples, mas de aparência aconchegante. Uma fonte de água limpa e fresca jorrava de uma rocha próxima, e nosso sedento viajante achegou-se para saciar-se. Ouvindo o canto dos pássaros e observando a bela paisagem, esqueceu-se por instante de seus problemas e do real motivo que o levara até ali. Porém, após algum tempo, lembrou-se de sua missão e se pôs a procurar pelo lendário mestre. Bateu na porta da casinha, mas não foi atendido. Gritou, mas não obteve resposta. Cansado e faminto, acabou adormecendo ali mesmo, em frente à casinha, aparentemente vazia.
CAPÍTULO IV
O ENCONTRO COM O MESTRE PAI MEY
Ao amanhecer a claridade faz com que Lee desperte de seu profundo sono. Ele esforça os olhos para se acostumar com o clarão. Olhando ao seu redor, fica maravilhado. Vê o revoar de pássaros e o cirandar de borboletas. O som das águas de um regato próximo é música para seus ouvidos, agora não tão cansados. Ele se levanta e pensa em preparar algo para comer. Começa a vasculhar a área em busca de alguns gravetos que possa queimar. De repente, Lee San ergue os olhos e avista ao longe, no alto de um penhasco, um ancião sentado na posição de lotus. Com aparência majestosa e calma, o homem meditava, parecendo não perceber a presença de seu visitante. Lee desvia o olhar por um instante. Quando busca novamente pelo mestre, fica surpreso em ver que não havia ninguém naquele lugar. Estaria ele tendo uma alucinação?
De repente, Lee ouve um ruído e se vira, apenas para se encontrar face a face com um velho de baixa estatura. O homem tinha uma aparência frágil, mas perguntou, com uma voz firme e poderosa:
- o que faz em minha propriedade?
Com a voz trêmula Lee responde:
- Senhor, eu esperava que o senhor pudesse me ensinar a lutar.
Com tom de desdém, o ancião responde: Você acha que só porque subiu a montanha eu vou te ensinar a lutar? Que patético! Pode dar meia volta e ir embora.
- Mas senhor, eu vim de muito longe, viajei muitos dias para chegar até aqui - tentou argumentar Lee.
- Isso não me interessa! respondeu o mestre.
Desapontado e irado Lee junta suas coisas e dá meia volta, começando a descer a montanha apressadamente, pensando em como havia sido tolo de pensar que pudesse ser ensinado pelo mestre. Quem esse velho pensava que era, afinal, para desprezar todo o seu esforço. Ele tinha boas intenções, mas nem teve tempo de se explicar. Um grande fanfarrão, isso é o que ele é, pensava.
Após certo tempo, porém, pensa em sua mãe e em seu irmão, pensa no sofrimento que enfrentavam e recorda-se das perigosas ruas de Eagle Dive. Resolve voltar, pensando: “Vou me humilhar perante o mestre. Vou me prostrar diante dele e implorar que me ensine. Talvez assim ele me aceite como discípulo.” Quando chega de novo ao topo da montanha, encontra a porta da cabana aberta, a refeição posta à mesa e o mestre que lhe aguardava para cear.
-Sente-se disse o mestre. Sirva-se e coma à vontade. Seu treinamento começa amanhã.
Emocionado e com lágrimas nos olhos, nosso amigo compreende que havia passado em seu primeiro teste. O teste da humildade.
Capítulo V
O TREINAMENTO COMEÇA
O dia amanheceu claro e ensolarado. Ainda bem cedo, Pai Mey ordena que Lee se levante e se prepare para os treinamentos. Ele levanta-se rapidamente, lava-se, toma um rápido desjejum e então aguarda pelas instruções do mestre, acreditando que finalmente irá aprender o segredo das artes marciais.
Pai Mey o chama, mostra-lhe dois baldes e ordena que vá até o riacho, lá embaixo, no vale, e encha os baldes, retornando em seguida, subindo a infindável escadaria. Por um momento, Lee permanece atônito, parecendo não acreditar no que o mestre está lhe pedindo. O mestre porém, vira as costas e se afasta, deixando o discípulo a sós com seus baldes para encher. Vendo que o mestre não estava brincando, se resigna, apanha os baldes e inicia a descida. Duas horas mais tarde, retorna trazendo os baldes cheios d'água e o mestre manda que os derrame em um reservatório maior. Em seguida, o mestre lhe ordena que retorne e traga mais água. Lee fica chocado e boquiaberto com esse pedido de seu professor. No entanto, sem ousar questioná-lo, simplesmente abaixa a cabeça e cumpre o que lhe foi pedido.
Vários dias passam, e o mestre não parece preocupar-se em ensinar a Lee nenhuma técnica de luta marcial. Tudo que ele lhe pede é que ordenhe as cabras, que regue as flores, que traga água, que cuide da colheita, e diversos outros trabalhos. O aluno se torna cada vez mais desanimado e confuso. Irrita-se e esbraveja contra o mestre. Começa a sentir-se um tolo e pensa seriamente em desistir. Mas ao lembrar-se de seu objetivo, encontra forças para prosseguir. O que ele não sabia, é que o mestre o observava atentamente, e conhecia os seus pensamentos. Com o passar dos dias, o espírito do discípulo foi sendo lapidado e educado. O mestre nota a mudança em seu comportamento. Suas atitudes mudam. O trabalho é feito com alegria, já não há mais resistência, não há mais murmurar durante a execuação de suas tarefas. Até que um dia, ao acordar, o discípulo encontra à sua cabeceira um kimono e um bilhete dizendo: “vista-se. O treinamento começa agora”.
Capitulo VI
O Duro Método de Pai Mey
De Frente para seu aluno, Pai Mey apanha de repente uma pedra e arremessa contra ele. Instintivamente o aluno agarra o objeto, atônito. Assim é que você precisará se tornar caso deseje ser grande nas artes de combate, disse o mestre. Depois disso, o discípulo foi levado a um local cercado por bambus e no qual havia alguns aparelhos para treinamento. Sacos de areia pendiam de suportes de madeira. Havia também uma makiwara, objeto para treinamento de socos. Vasos cheios com areia e pedras estavam em um lado da área cercada. Em um outro ponto, havia várias armas como lanças, espadas, bastões e nunchakus. Lee olhava tudo com emoção e ao mesmo tempo com preocupação.
Ataque os sacos de areia, disse Pai Mey. Lee começa a atacar vigorosamente os sacos de areia, e pensa que não é uma tarefa difícil. O mestre então o interrompe e lhe diz para colocar uma venda em seus olhos.
- Tente agora, diz o mestre.
O aluno se esforça para cumprir a tarefa. Porém, tropeça e cai na primeira tentativa. Logo acerta um soco em um dos sacos de areia, mas é atingido na cabeça pelo mesmo e lançado ao chão novamente. Ele segue tentando, até que o mestre lhe ordena que passe para a makiwara. Após ordenar que o discípulo retire a venda dos olhos, o mestre se posiciona diante do aparelho e desfere um soco, tão potente que o faz estalar. Repita isso 100 vezes, diz Pai Mey. Logo no primeiro golpe, Lee sente uma forte dor na mão. Com dois ou três socos, sua mão já começa a se ferir e a sangrar. Sentindo fortes dores retrai sua mão, temendo piorar seus ferimentos. O mestre o repreende, e ordena que continue. Ao terminar a tarefa, o aluno quase não pode manter-se de pé. O mestre então lhe mostra os vasos cheios de areia e pedras e ordena que introduza suas mãos neles, retirando-as em seguida. O mestre o manda repetir essa operação diversas vezes. Depois, requer diversos outros exercícios do discípulo, que parece não acreditar no que está ouvindo. Após um dia inteiro de treinamentos pesados, o mestre decreta o fim da rotina de exercícios. Já estava escurecendo quando o destruído aluno entrou na cabana de seu professor. Encontrou a mesa posta com legumes, frutas e arroz quente. Como estava muito faminto, lançou-se sobre o alimento para comer, mas o mestre disse para ir mais devagar. Não era bom comer muito, nem rápido demais após um treinamento tão árduo. O discípulo obedece e come lentamente apesar da fome excessiva.
Os treinamentos seguem por vários meses. Lee sente-se mais forte e leve a cada dia. Já consegue socar os sacos de areia com relativa facilidade, apesar da venda nos olhos. Consegue dar saltos fenomenais. Já não se cansa facilmente durante os treinamentos, e a dor já não o assusta tanto como antes.
Capítulo VII
Tornando-se Um Lutador
Lee desce para buscar água no riacho e sobe correndo as escadas, chegando em um terço do tempo que costumava levar para executar a tarefa. O mestre observa satisfeito o desenvolvimento do discípulo, mas não é homem de elogiar. Mas Pai Mey não se preocupa apenas com o exterior. Senta-se todos os dias com seu aluno e os dois conversam por um longo tempo. Para se tornar um lutador, diz o mestre, primeiro você precisa derrotar o seu próprio ego. Você precisa quebrar e destruir todas as formas de orgulho próprio. Se você acredita ser grande, então é pequeno. Se você pensa que é um grande guerreiro, então não passa de uma criança. Enquanto estiver praticando, deve se considerar o mais fraco dos humanos, e procurar fortalecer cada parte de seu espírito, vestindo-se de uma armadura impenetrável, que é o bom caráter e a humildade. Mas então, quando for enfrentar o inimigo, você deve ter certeza de que é o maior de todos os guerreiros, e que o inimigo não terá a menor chance de derrotá-lo. Só assim você será invencível.
Ouvindo isso, o discípulo fica confuso e pergunta: Mestre, perdoe-me, mas primeiro o senhor disse que devo me achar o mais fraco dos humanos, e depois disse que devo me considerar o maior dos guerreiros. O que o senhor quer dizer?
Diante da simplicidade do aluno, o mestre esboça um sorriso. Apontando para a águia, ele diz: veja como são as águias. A cada dia elas têm consciência de que precisam se alimentar e sabem que têm todas as armas para isso. Porém, as águias conhecem suas fraquezas e sabem que podem morrer se falharem por um só momento. A águia avista o peixe a nadar próximo à superfície. Então ela calcula a sua rota de ataque e inicia o mergulho. Ela precisa atingir o animal com precisão, fazendo um vôo perfeito, para que não se molhe e morra afogada. Apenas suas garras devem tocar a água brevemente. Apenas o tempo suficiente para agarrar a presa e levantar vôo, levando o alimento para os filhotes. Isso significa ter humildade, conhecer suas limitações. E isso significa saber que é invencível, conhecer sua própria e infinita superioridade frente ao seu adversário. Torne-se uma águia, e seu inimigo será um peixe.
O discípulo pondera as palavras do mestre e as guarda em seu coração. Procura se dedicar mais aos aprendizados a cada dia. Observa a tudo com um novo olhar. Até mesmo o caminho de uma formiga se torna interessante. Seus modos e a sua voz já não são os mesmos. Seu semblante é mais calmo e feliz.
Já se passaram 5 anos desde que Lee chegou à montanha. Ele salta e atinge vários alvos, chutando, antes de cair ao chão. Seus braços e pernas estão fortes como o aço. Seus movimentos são ágeis e seus golpes precisos. O mestre o chama e lhe diz que já é tempo de que ele continue em busca do que havia ido buscar. A libertação de si próprio e de sua família. Chegara o momento de partir. Os olhos do discípulo se enchem de lágrimas. Mas ele sabe que o mestre tem razão. Ele então se prepara para deixar a montanha e voltar para sua casa e para a sua família.
Capítulo VIII
A Volta pra Casa
Chegando à vila da qual estava distante a anos, Lee acha tudo deprimente e desolador. Sente desejo de abandonar seu ideal e voltar correndo para os ensinos de seu mestre. Mas ele mesmo, agora um conhecedor das artes de combate, sabe que não pode fugir à luta.
Considerando-o um forasteiro, logo surgem alguns ladrões querendo obter alguma coisa dele. Cercando-o por todos os lados ameaçam-no com paus, facas e correntes. Saltando sobre os inimigos, Lee passa adiante deles e os ignora. Insistindo, os bandidos os seguem. Um deles o ataca com o bastão, pretendendo atingir-lhe as costas. Lee se esquiva com facilidade e contra ataca o agressor com um chute, arremessando-o metros para trás. Com isso, os demais se assustam e fogem. Ao chegar à sua casa, a mãe e o irmão mal o reconhecem. Mas após alguns instantes, correm para abraçá-lo. Lee Sam lhes conta sua história, lhes conta sobre seu mestre e sobre tudo que aprendeu. Seu irmão lhe pede que lhe mostre alguns "truques". Lee vai até a cozinha e lhe pede que arremesse algumas facas contra ele. Meio relutante o irmão obedece. Lee se esquiva com facilidade das armas e segura algumas delas, sem sofrer qualquer lesão. O irmão e a mãe ficam maravilhados! Nessa noite ficam conversando até tarde, e só então vão dormir.
Pela manhã Lee se levanta e resolve caminhar um pouco pela vizinhança para pensar um pouco e decidir qual será o seu próximo passo em busca de uma vida melhor para ele e sua família. Talvez abrisse um pequeno restaurante, ou quem sabe uma escola de artes marciais. Antes que se dê conta, está cercado de bandidos. Entre eles, vê alguns dos que o atacaram no dia anterior. De repente um deles o ataca. Um golpe certeiro na face o derruba instantaneamente. Então todos os outros partem para cima do herói que se movimenta como uma raposa, esquivando-se, rebatendo os ataques dos inimigos, e contra golpeando. Chutes rápidos e certeiros contra as articulações derrubam os oponentes, golpes aplicados com as pontas dos dedos contra os pontos vitais os tiram de combate, paralisando-os ou fazendo com que percam a consciência. Saltos incríveis tiram Lee do alcance dos bandidos, rasteiras os fazem voar pelos ares, e se esborrachar no chão.
Capítulo IX
VIDA NOVA EM EAGLE DIVE
A escola de artes marciais Pai Mey é uma das mais frequentadas de Eagle Dive, e o mestre Lee San, é o mais requisitado. Todos querem ser seus discípulos. Lee os ensina com seriedade e dedicação. Ele demonstra por seus alunos um amor tão grande quanto o seu mestre demonstrou por ele. Sente-se feliz e realizado, e sente-se grato por ter um dia se aventurado a encontrar o caminho das artes marciais. Seu irmão é seu aluno mais dedicado. Sua mãe se dedica ao restaurante, ajudada por Lee e seu irmão. Os bandidos e arruaceiros, não se atrevem a aparecer ali, pois conhecem a fama do grande lutador, e não se arriscam.
Lee visita seu mestre anualmente, e passa algum tempo com seu professor. Pai Mey fica feliz em vê-lo. Logo estarei ensinando a seus filhos o que ensinei a você, diz o mestre. Lee concorda com a cabeça, e se sente feliz pelo que ouviu o mestre dizer. Logo amanhece e nosso herói retorna para casa, mas sabe que nunca mais será o homem que subiu pela primeira vez aquela montanha. Despede-se do mestre e inicia a longa viagem de volta para casa.
FIM!