A arte das Mantas de Minde terá nascido no século XVII, no Convento dos Frades Arrábidos, que já faziam mantas grosseiras. Com o desenvolvimento do trabalho dos religiosos, o Rei D. João V estabeleceu em Minde um mercado anual de lãs, em julho, por altura das festas de Santana. O fabrico das mantas, herdeiro dos panos e das estamenhas, foi a principal atividade de Minde a partir dos finais do séc. XIX. Depois da crise económica e social sofrida pela população, na sequência das invasões francesas e das lutas liberais, a segunda metade de oitocentos permitiu o ressurgimento daquela comunidade. Quando o século XX chegou, e durante largas décadas, as mulheres de Minde, em teares artesanais, teciam as mantas que os homens se encarregavam de vender um pouco por todo o país. Lã lavada, cardada, fiada, urdida, tecida. O processo sofre vários passos e está recheado de um vocabulário já pouco conhecido. O fabrico das mantas atingiu o seu apogeu nos anos cinquenta do século passado, mas passadas pouco mais de três décadas, já não havia nenhum tear manual a laborar permanentemente, em Minde. As técnicas têm sido esquecidas e as mantas confundidas com as restantes mantas de retalhos do país. Os teares foram desaparecendo, uns porque se estragaram, outros foram desmanchados, muitos serviram de lenha. Poucos se salvaram e, se um ainda hoje é manipulado, deve-se ao empenho com que o CAORG- Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro tem procurado aliar a tradição e a memória com a contemporaneidade. O Minderico: Pensa-se que o seu uso se tenha iniciado no princípio do século XVIII por antigos cardadores e negociantes de lãs com o objetivo de esconderem as suas negociações. É um código ou gíria de um grupo profissional que vivia em comunidade fechada num vale entre as serras d'Aire e Candeeiros. Este calão é constituído por palavras e expressões que permitia aos falantes dessa comunidade falarem entre si e combinarem a estratégia de preços, de compras e vendas sem serem entendidos por pessoas estranhas ao seu negócio e assim o protegerem. O minderico era usado por um elevado número de negociantes que deviam abastecer e vender o produto de quase duas centenas de teares nos finais do século XVIII. Os homens iam comprar lãs e couro. Percorriam todos os sítios, mesmo longínquos, onde pudesse haver os materiais que procuravam para comprar e também para vender as mantas que as mulheres fiavam e teciam. Nestas deslocações faziam não só as trocas de produtos como também algumas trocas linguísticas, transportavam, na ida e na volta, palavras e expressões que integravam no seu linguajar. A evolução dos costumes, a alfabetização e os meios modernos de comunicação e informação levaram a que a língua portuguesa se uniformizasse e a que o minderico perdesse o seu uso. Atualmente só a população adulta o conhece e alguns têm trabalhado para preservar esse património linguístico, resgatado e muito bem trabalhado recentemente pelo CIDLeS – Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social.
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Mantas e Minderico - Minde © 2021 by Miguel Munhá - Município de Alcanena is licensed under Attribution-NoDerivatives 4.0 International
Mantas e Minderico - Minde © 2021 by Miguel Munhá - Município de Alcanena is licensed under Attribution-NoDerivatives 4.0 International. To view a copy of this license, visit http://creativecommons.org/licenses/by-nd/4.0/