Desde 2002 os Tikmũ’ũn vêm colaborando com várias iniciativas de pesquisadores e etnomusicólogos para traduzirem parte deste imenso patrimônio de cantos e histórias que atualizam, e que compõem os complexos ritualísticos Yãmĩyxop. Os Yãmĩyxop são conjuntos de povos, que traduzimos como povos-espírito, e ao mesmo tempo conjuntos de repertórios de cantos, bastante diversos e complexos entre eles. Esses 'corpora' podem ser enumerados em doze grandes conjuntos, entre os que eles rememoram atualmente em suas aldeias. São todos distintos entre si. A arte de cantar e narrar as histórias que se entrelaçam aos cantos é cuidadosamente ensinada pelos mais velhos Tikmũ’ũn. Seus cantos são considerados por eles seu bem mais preciso, que contém a fonte da cura, dos conhecimentos e dos encontros necessários que realizam em seus caminhos. Esta seção traz o registro de longos processos de tradução desses repertórios, pacientemente realizada pelos pajés e jovens tradutores Tikmũ’ũn – observados e avaliados pelas mulheres, que são a razão das visitas cantadas dos Yãmĩyxop nas aldeias. A presença das filmadoras nas mãos dos jovens auxiliares dos pajés transformou esses processos de tradução em extensões de momentos ritualizados de cantos e narrativas das histórias dos ancestrais e de seu território.
Os Mõgmõka, povos gavião-espírito, são aliados dos Tikmũ’ũn que sempre vêem às aldeias para cantar e renovar os conhecimentos e seus laços de parentesco com seu povo. Eles nasceram de um ancestral Tikmũ’ũn que se transformou em gavião. Como os parentes não gostaram de vê-lo se transformar em gavião, o depenaram, e de seu corpo morto nasceram inúmeros pássaros que pertencem ao Mõgmõka. Entre 2002 e 2009, os pajés, professores, ilustradores e as mulheres narradoras Tikmũ’ũn de Água Boa (Santa Helena de Minas/MG) se empenharam em registrar os encontros que realizam com os povos gavião-espírito.
Os Xunĩm, povos morcego-espírito, são importantes auxiliares nos processos de cura entre os Tikmũ’ũn. Os rituais de cantos com os Xunĩm são frequentes nas aldeias e necessários em quaisquer momentos de trabalhos de cura. São grandes visionários e trazem cantos relacionados a tudo o que vêem em suas viagens. Os Tikmũ’ũn contam que os conheceram em uma roça de banana, quando um ancestral fez uma troca perene com o morcego-espírito: os Tikmũ’ũn lhes servem comida e as bananas de suas roças e os morcegos cantam e visitam suas aldeias trazendo-lhes todo o conhecimento. Entre 2002 e 2009, os pajés, professores, ilustradores e as mulheres narradoras Tikmũ’ũn do Pradinho (Bertópolis/MG) se empenharam em registrar os encontros que realizam com os povos morcego e Hemex-espírito.
Filme realizado a partir de um acervo de imagens gravadas entre 2006 e 2011 na Aldeia Verde (Ladainha/MG) e no assentamento em Campanário (MG), durante o processo de transcrição e tradução de cantos dos povos macaco-espírito, Popxop – grandes caçadores aliados dos Tikmũ’ũn. As imagens registram gestos, mitos e depoimentos dos Tikmũ’ũn sobre suas relações com o território e com a Mata Atlântica. Registram sobretudo a pictografia como escritura eficaz, quando traduzir pode ser compreender que, mais do que um só mundo – este fixado pelo Ocidente – os saberes desses povos-espírito nos abrem uma multiplicidade de mundos.
Toninho Maxakali e os pajés da aldeia do Pradinho (Bertópolis/MG) reúnem-se para trabalhar na transcrição dos cantos dos povos morcego-espírito. A câmera dos pesquisadores registra esse processo de tradução em diversas superfícies: quadro negro, papel, manuscrito, impresso. O rosto do pajé Toninho Maxakali aparece sorridente, deixando-nos alegres e com saudades.