Ali, aprendi que o breaking não era apenas dança; foi fundamental para o início do Hip Hop em São Bernardo e no ABC, chegando ao Brasil nos anos 80. Descobri que bairros como o Calux foram berços onde crianças aprendiam os passos, e que lendas como King Zulu Nino Brown moraram ali. Fiquei fascinada ao entender a conexão geográfica: no final daquela década, jovens de SBC, incluindo Nino Brown e Thaíde, iam até a Estação São Bento em São Paulo para encontrar outros b.boys. Mas o mais interessante foi ver como a juventude de SBC criou seu próprio território. Em 1991, a pista de skate do centro virou o palco da Posse Hausa, reunindo rap, grafite e dança.
Depois de absorvermos o conteúdo, começamos a discutir nossas impressões em grupo. No início, tivemos uma opinião simplista: achamos que a exposição era apenas um corredor por falta de orçamento. Mas, conforme conversávamos sobre o público-alvo e visitávamos a segunda exposição disponível, nossa ficha caiu. Estávamos completamente errados. Aquela exibição "direta ao ponto" não era pobreza de recursos; era uma estratégia de aproximação. Era uma forma de fazer o público se sentir representado, sem os afastamentos que a pompa de grandes museus às vezes causa. A simplicidade era intencional: era sobre fazer a arte de todos ser, de fato, para todos. Essa visita me fez refletir muito sobre nossos hábitos culturais. Temos a tendência de achar que cultura só existe no centro de São Paulo e ignoramos o que está ao nosso lado. Conversando com um recepcionista muito atencioso, ele me disse uma frase que marcou: “Se 15% da população de São Bernardo conhece esse lugar, é muito”. Isso me lembrou que a arte está sempre mais perto do que imaginamos.
Sobre o breaking em si, nunca fui muito chegada ao movimento, mas minha visão mudou completamente. Entendi que não se trata apenas de fazer poses difíceis — e haja força, porque só de olhar meu corpo já pediu socorro! O breaking ofereceu um mecanismo de expressão para a juventude negra que não encontrava espaço na sociedade. Foi uma ferramenta de autoestima, uma forma positiva de canalizar energia e resistir à marginalidade. Saí de lá com a certeza de que o legado do breaking em SBC é a prova de que a cultura popular é uma força política, capaz de formar agentes de transformação e construir uma cidade mais justa e plural.
Costumo ir à exposições de arte com frequência, mais com a necessidade de conhecer novos lugares e viver experiências culturais do que a de entender aquilo de sinto ou penso diante das obras apresentadas. O Breaking foi diferente ao me fazer prestar atenção nos meus próprios pensamentos e sensações diante do que eu vejo, a partir da própria proposta do trabalho. Fui impactada pela própria exposição por enxergar nela uma resignificação do que o senso comum costuma entender como arte. As imagens de diferentes pessoas em movimento, estas que sequer precisaríamos conhecer às histórias por seus pormenores, nos apresentaram de forma tão clara quanto às fotografias tiradas, a identidade e liberdade do povo periférico.
Fazia muito tempo desde a minha última experiência numa saída de campo com um grupo tão grande, o que foi muito legal principalmente por ter nos proporcionado uma oportunidade de nos conhecermos um pouco mais e trocar nossas impressões e opiniões sobre o tema e o que encontramos na exposição. A graça foi justamente ter as expectativas quebradas e reformuladas a partir do contato com os profissionais e suas experiências na área da cultura. Além disso, acredito que as fotografias do Sarará serviram de grande complemento à visita que eu realizei em agosto deste ano ao Museu das Favelas, especialmente para prestigiar a exposição sobre os Racionais MC’s e a história da trajetória do grupo e dos seus integrantes. A cultura periférica se esbarra em muitos aspectos, mas principalmente em que os pratica e consome. Para quem veio da periferia, aqueles registros fotográficos não eram novidade, na verdade eram bem familiares, quase como se fosse meu tio ou meu primo naquelas fotos.
Achei muito interessante visitar a Pinacoteca, faziam alguns anos que eu não visitava um museu. Foi uma surpresa muito boa para mim. Mesmo sendo um espaço relativamente simples, a experiência foi bem bacana. Especialmente após entender a visão e motivação do Sarará dentro dessa exposição, abre um horizonte bem grande do impacto que a dança e a união de pessoas podem causar dentro de uma cultura um pouco mais periférica
Fazia bastante tempo que eu não visitava um museu ou exposição de arte e achei muito legal “precisar” encontrar um tempo para dedicar a isso, me inspirou a tentar fazer mais isso na minha rotina. A exposição em si me encantou bastante pela forma como ela se comunicava com o público, o movimento dos corpos sendo transmitido através da fotografia em diferentes cenários e a forma como ver aquilo faz acreditarmos que nós mesmos somos capazes.
Enquanto caminhava entre as fotos e vídeos, aprendi sobre jovens que, sem recursos ou apoio, transformaram a rua em palco e a música em voz. Vi depoimentos de dançarinos que encontraram no break uma forma de existir, de se expressar, de sobreviver a realidades duras.
Ali, percebi que o break dance não é apenas dança — é resistência, é cultura, é comunidade. É uma forma de existir no mundo. A energia daquele momento me inspirou profundamente; parecia um convite para que eu também me movesse, para que encontrasse minha própria forma de me expressar.
A exposição e a visão do artista me fizeram encarar o break como retrato do cotidiano, onde a partir disso sim é que podemos entender ou elaborar qualquer texto sobre.
Além de expressão, ele traz e significa uma comunidade, que envolve o sentimento de pertencimento e libertação, como uma fuga pertencente ao cotidiano e relativa ao mesmo. Para mim, ele se materializa na ideia de que precisamos de brechas no dia a dia, e como isso faz bem, a final, pude olhar para os rostos nas fotos.
O trabalho do Sarara onde ele além de pessoalmente ter uma conexão com o break, traz muito mais do que ele, mas abraça as lacunas sociais, onde fugimos da relação escola/trabalho e tudo aquilo que é em função disso.
De qualquer maneira, no dia seguinte não pude deixar de pensar no próprio proveito da pinacoteca e sobre como podemos explora la melhor. Acabamos não vendo movimento ou sinal maior de significatividade nas artes de maneira explícita.
Fazia tempo que eu não visitava uma exposição com calma, e o Breaking acabou me surpreendendo. As fotos transmitem movimento de um jeito que parecia que os dançarinos iam saltar da parede, e isso me aproximou muito da energia real da dança, algo espontâneo, vivo e acessível. Ver pessoas comuns retratadas ali, sem exageros ou adornos, me fez sentir que aquela arte também me dizia respeito.
A visita também me lembrou o quanto esse tipo de experiência faz falta no meio da rotina. Voltei pra casa pensando que quero incluir mais momentos culturais no meu dia a dia, porque sair de uma exposição assim muda a forma como a gente enxerga as coisas. O Breaking me fez olhar para a arte de um jeito mais simples e humano, como algo que conecta e representa.
Enquanto caminhava pelos corredores da Pinacoteca e observava a exposição, fiquei me perguntando se aquelas fotografias, que retratam um movimento da periferia, são realmente acessíveis para todos, especialmente para as pessoas que aparecem diante das lentes. Durante nossa conversa com a guia da Pinacoteca, ela contou que o espaço recebe poucas visitas, possivelmente por causa da localização ou simplesmente porque muitos sequer sabem que ele existe, mesmo sendo um espaço gratuito.
No artigo “Cultura popular: as construções de um conceito na produção historiográfica”, Petrônio Domingues explica que a cultura popular não é algo formulado ou separado da cultura erudita, pois muda com o tempo, mistura influências e até conflitua com a elite. A exposição “Breaking e suas expressões” mostra bem isso, já que o breaking nasceu na periferia, da convivência entre jovens e da criatividade coletiva, expressando identidades e histórias locais. As fotos revelam gestos, emoções e a memória cultural de São Bernardo do Campo, mas, ao mesmo tempo, estão dentro de uma Pinacoteca apoiada por políticas públicas, mostrando que a cultura popular pode e deve ocupar espaços formais, a fim de ser valorizada por instituições e apreciada por todos.