Analista de Cultura na Pinacoteca de São Bernardo
Grupo:
Gostaríamos de saber sobre a relação da Pinacoteca com a cultura e como é o processo para exposições: se a Pinacoteca convida os artistas ou se os artistas procuram vocês?
Camila Rosa:
A Pinacoteca trabalha com cultura e arte. É um espaço de fruição artística. A exposição do Sarará (Laerte) é um exemplo. Ele participou de um edital nacional da Lei Aldir Blanc. O edital era federal, mas os municípios se inscrevem e adaptam as orientações. No caso dele, havia categorias de cotas (indígenas, PCD, artistas gerais etc.). Ele foi contemplado e escolheu expor aqui. O processo para seleção das exposições se chama curadoria. Existem três formas principais de selecionar exposições:
1. Editais – artistas se inscrevem e, se contemplados, podem expor aqui.
2. Convite – quando conhecemos o artista e o convidamos.
3. Proposta espontânea – o artista envia seu projeto e nossa equipe avalia.
A avaliação analisa se a proposta dialoga com o acervo e com nosso perfil de museu de arte. Por isso, não fazemos exposições muito voltadas para ciência, por exemplo. Também buscamos diversidade temática. O Sarara trabalha fotografia ligada ao movimento hip-hop, enquanto a Juliana Brandão, também contemplada no mesmo edital, trabalha com vídeo, escultura, pintura, som… ela é uma multiartista.
Grupo:
A Pinacoteca possui um público-alvo que tenta ser atingido através das exposições?
Camila Rosa:
Sobre o público alvo, não temos um em específico, porque somos um museu público. Pertencemos a todos. Mas a maior parte do público que recebemos é escolar: municipal, estadual, universitários. Também recebemos idosos, pessoas em vulnerabilidade e usuários do CAPS. Tentamos desconstruir a ideia de que arte é elitista. Por isso, trazemos exposições que dialogam com diferentes grupos. Tivemos, por exemplo, um fotógrafo que trabalha com pichações. Essa exposição trouxe um público que nunca havia visitado a Pinacoteca.
Grupo:
O que diferencia a Pinacoteca de um museu?
Camila Rosa:
Não há diferença. O nome “Pinacoteca” tem origem grega. “Teca” significa coleção (como em biblioteca). “Pina” se refere a pintura. Tradicionalmente, Pinacoteca seria uma coleção de pinturas. Hoje, o termo se ampliou e inclui escultura, fotografia, desenho etc. Em resumo: é um museu de arte.
Fotógrafo e Educador Social
Grupo:
Para começar, do que se trata a exposição que está sendo apresentada aqui?
Sarará:
A exposição é uma coletânea de fotos de dançarinos de breaking do Grande ABC. São registros feitos por mim, Laerte, ao longo de 15 anos, trazendo dançarinos que marcaram a cultura hip hop na região. A ideia foi reunir pessoas que tiveram um papel relevante no movimento, destacando especialmente a presença feminina.
Grupo:
Por que a escolha desse recorte histórico e desse foco?
Sarará:
A cultura hip hop no ABC tem uma história rica e pouco documentada. Esses artistas construíram cenas, grupos, batalhas, espaços de resistência. Então eu quis apresentar essa história pela minha perspectiva e honrar, ainda em vida, pessoas que contribuíram e deixaram um legado para o nosso movimento. Esse registro tem uma importância social, cultural e política.
Grupo:
Como surgiu a oportunidade de expor na Pinacoteca?
Sarará:
Esse sempre foi um sonho. Em 2024, conseguimos transformar isso em realidade por meio de um edital da Lei Aldir Blanc. Foi uma conquista enorme, porque ocupar esses ambientes também é um ato político, principalmente para quem vem da periferia e tem dificuldade de encontrar incentivo para produções culturais.
Grupo:
Além das fotos, há outro elemento central na exposição. Pode nos contar?
Sarará:
Sim. Para mim, o ponto central da amostra é o livro “Breaking e Suas Expressões – O legado de São Bernardo do Campo”, que eu escrevi. Nele, eu exploro desde as raízes do hip hop até os impactos positivos do movimento em diferentes áreas sociais, como o feminismo, a educação, a psicologia e o combate ao racismo. A dança não é só estética; ela é transformação social.
Grupo:
Sua trajetória pessoal dialoga com essa visão política da arte?
Sarará:
Totalmente. Eu cresci na periferia do bairro do Areião, em São Bernardo. Desde jovem, eu percebia a arte como um instrumento político. Fui muito influenciado pelo B-Boy Soul; a dança foi, para mim, uma válvula de escape, assim como é para muita gente.
Grupo:
E como você passou da dança para as artes visuais?
Sarará:
Eu sentia que estava ficando atrasado em relação aos colegas que dançavam comigo. Não me enxergava ganhando dinheiro com a dança, então fui migrando para o grafite, pensando em talvez ser professor de artes. Depois, incentivado por uma amiga, entrei para a fotografia e percebi uma lacuna: ninguém estava documentando o Breaking do ABC como ele merecia.
Grupo:
E o que a fotografia representa hoje na sua trajetória?
Sarará:
Eu fui pegando gosto e entendi que fotografar é uma forma de mostrar a força e a resistência daqueles que acreditam na dança como um trabalho de transformação social e desenvolvimento humano. Minha fotografia é militância, memória e homenagem. É o meu jeito de retribuir ao hip hop tudo que ele me deu.
Grupo:
Espero que as pessoas entendam que o hip hop é movimento, é história, é educação. É a construção de um legado feito por gente comum que transforma vidas. E que a arte, assim como a dança, é ferramenta de libertação.