Era véspera de Dia dos Namorados, e, por coincidência, início da Copa do Mundo de 2014. Lá por volta do meio-dia, um jornalista estava sentado à mesa de um restaurante no centro do Rio de Janeiro. Não era um restaurante chique. Era um daqueles que se senta ao balcão, e que se come um almoço volumoso, na proporção do seu magro salário mensal. Não se sabe de onde veio, mas ao lado dele, surgiu um trabalhador mais humilde que ele. Diante de seus trajes, não restava dúvida de que era um simples pedreiro.
— Desculpe-me senhor, mas gostaria que o senhor escrevesse uma carta para mim – falou o pedreiro para o susto do jornalista que parou a garfada antes de alcançar a boca.
— Eu? Por que eu? – perguntou desajeitadamente o jornalista.
— É que me disseram que o senhor é jornalista e como tal eu acho que é a pessoa mais certa para me ajudar. Não que eu não saiba escrever. Como o senhor pode ver...
O pedreiro fez questão de mostrar um caderno com suas anotações, em um garrancho que dava para notar que o homem não havia passado da oitava série.
– Só que esse tipo de assunto eu não levo jeito – concluiu o trabalhador.
Curioso com a inusitada situação, o jornalista indagou:
— E que tipo de assunto seria este?
— Uma carta de amor.
— Uma carta de amor? E para quem seria?
— Para ela doutor. Para ela!
O pedreiro retirou uma foto de sua carteira e a entregou ao jornalista.
— E o que você quer que eu diga?
— Não sei doutor. Se eu soubesse não estaria aqui te incomodando.
Vendo que o jornalista estava relutante, o pedreiro insistiu um pouco mais.
— Doutor, ela está na Paraíba e faz mais de um ano que não nos vemos. Quero mandar essa carta amanhã que é Dia dos Namorados.
Solitário, o jornalista se deu conta da realidade da data comemorativa. De repente, começou a lembrar de todos os sinais que ele ignorava em seu trajeto diário. A floricultura, a bomboniere, a joalheria, os restaurantes e, principalmente, os motéis. Estavam lá, estampadas em cartazes e outdoors para todos não perderem a data mais romântica do ano.
Aquela situação o levou a assumir a encomenda e durante toda a noite ele, o jornalista, que não tinha um relacionamento amoroso há muito tempo, colocou-se a rabiscar e escrever linhas e mais linhas para ela, a amada do pedreiro. Mas, faltava-lhe inspiração. Como poderia ele escrever palavras bonitas se ele não estava apaixonado?
A foto entregue pelo pedreiro não o ajudava, pois além desgastada e suja, apenas aparecia parte do rosto da mulher. Talvez por timidez dela ou falta de habilidade do fotógrafo, o que se via não revelava muito ao jornalista e depois de quatro doses de whisky barato, uma carteira de cigarro e uma lixeira cheia de papéis amassados, esgotado de tanto forçar uma criatividade estéril, ele desistiu da empreitada e simplesmente desmaiou no sofá.
Em seu sono, geralmente profundo, pois ele só se deitava quando deveras cansado, o jornalista sonhou. E em seu sonho a mulher do pedreiro apareceu. Das poucas e tímidas imagens do seu rosto na foto, a criatividade morta do jornalista renasceu e preencheu tais lacunas, revelando uma mulher linda e inteiramente nua. Desnudada por completo e simplesmente perfeita, a mulher sem cerimônia se entregou ao jornalista que já não sabia mais como era bom possuir uma mulher com desejo e paixão. A volúpia foi tamanha, que não foi apenas uma vez, mas a noite toda de prazer no deleite de uma deusa, que ele, em sua vida real, nunca tivera.
Ao amanhecer, já no Dia dos Namorados, revigorado de um sono que não se quer que termine e, de certa maneira, ainda excitado de tanta luxúria, o jornalista se pôs a escrever freneticamente. Escreveu como jamais havia escrito, pois amou como jamais havia amado.
Ao ir ao trabalho, o jornalista pôs a carta em seu bolso, mas não sabia se iria entregá-la ou não. Estavam tão intensas e profundas suas palavras que ele ficou receoso quanto à possível reação do pedreiro.
Passou a manhã assim: na dúvida. Mas, o clima de abertura da Copa do Mundo desviou seu pensamento e já na concentração para a partida do Brasil e Croácia, em companhia de seus amigos, num bar de uma das inúmeras esquinas do centro da cidade, ele sentiu um toque em seu ombro. Era uma mão forte e áspera, mas gentil. Era o pedreiro.
— E aí doutor? O senhor conseguiu escrever?
Hesitante e surpreso por ter sido encontrado, o jornalista puxou a carta do bolso e a entregou. A encomenda foi prontamente lida pelo pedreiro, que, de tão feliz, suspirou:
— É isso! É justamente isso que eu queria dizer doutor. Só não sabia!
Agradecido, o pedreiro saiu imediatamente para pôr a carta nos Correios. O jornalista voltou seus olhos para a TV, junto a seus amigos de bar. Ao som do hino nacional e com a imagem da Seleção em campo, o jornalista sorriu, pois nunca imaginara ter uma noite tão boa justamente no Dia dos Namorados.
...Seja feliz!
Adaptado de Carta de Amor de Salomão Schvartzman: homem de voz tão marcante quanto sua inteligência.
Salomão Scvartzman foi um icônico jornalista, sociólogo e apresentador brasileiro, cuja voz grave e inteligência afiada marcaram época, especialmente em suas célebres crônicas de fim de noite. Com passagens marcantes pela TV Manchete, no programa Frente a Frente, e mais tarde na rádio BandNews FM e no programa Salomão Dois Pontos no BandNews TV, ele conquistou uma audiência fiel com suas análises perspicazes sobre política, cultura e o cotidiano. Seus textos, que mesclavam erudição, ironia e um olhar crítico sobre o mundo, convidavam o público à reflexão em um horário mais tardio, tornando-se uma companhia indispensável para muitos. Ao final de cada comentário, despedia-se com o bordão que se tornou sua marca registrada e um convite à resiliência: "Seja feliz!".