ANTES QUE O MUNDO AMANHEÇA
Eu quero beijar a face do sol
Na manhã do ano bom, em janeiro
E beijarei mais mil vezes
Antes que o mundo amanheça
Correrei pela horas,
Vencerei o oceano inteiro, montanhas
A ladeira de Nosso Senhor do Bonfim na Bahia
E na Penha no Rio de Janeiro
E é aqui que cantarei o hino ao ano bom
Aos santos padroeiros
Porteiros dos sonhos
Dos desejos de janeiros.
AS MALAS
As malas nas fábricas sonham viagens
Juram que conhecerão Paris, Passárgada
As malas pouco sabem que podem
Morrer em armários.
Missão de mala é ser casa fora de casa
Mas qual?
Malas só sabem o caminho das mãos e pés
Que nelas depositam mais que bagagens
Pobre destino dos objetos
Que sonham sozinhos um universo
Como violões, flautas, oboés
Esquecidos nos sótãos ou porões
Pobre de nós
Isto não é metáfora.
É, talvez, loucura de poeta.
CONSTATAÇÃO
Ontem achei minha mãe tão miúda...
Meninando, serena, sentada a espera.
De quem?
De que?
Eu me fiz mãe.
Ela faz o caminho inverso.
Invade meu útero, quer morar minha eternidade.
Disse que está indo...
Para onde?
Para quando?
E eu já nem posso chorar
Devo cantar embalando:
“Tutu Marabá, não venha mais cá
Que o pai da menina te manda matar”.
SOL, SOL, SOL
Sol, sol, sol.
Toco repetidamente em clamor de brilho, luz, clarividência.
Mais do que música.
Toca um silêncio em sol.
Toca a cantiga do meu coração deserto.
Sol que acorda a coragem.
Assusta o medo da roca que fere fundo o peito.
Sol que insistentemente bateu em minha janela: abre, bela!
Eu alumeio seu caminho.
Já não há paradeiro.
A morte está dormindo.
A CASA DA ESQUINA
Quando eu passo de madrugada
Ela espreita toda rua,
Está acordada. É mulher adulta.
Não fala, silencia uma vida toda.
Triste, percebe que passo.
Quando, pela manhã, a encontro,
Ela já está assustada.
Finge que dorme, mas, em prece,
Reza a Deus que o dia passe.
À tarde, ela adormece e então
Passo desapercebida.
Ela ressona e sonha.
Não escuta os carros,
Não ouve os gritos.
Às vezes, treme num roçar aflito,
Mas em nada ainda suscita.
A tarde cai mansa
Colorindo seus cabelos,
Suas rugas então percebo.
Ela, feito criança,
Brinca de ser bela ainda.
E, quando a noite sobre ela habita,
Novamente ela se vê esquecida.
No silêncio, ela então acredita
Poder viver mais vidas...
DEDICADO A MINHA MÃE
Sina de mãe é esperar.
Espera a barriga dar sinal.
Espera a barriga crescer
Espera o filho nascer.
E espera o sinal da escola,
Espera as horas passarem
Na varanda
a espera da volta.
E o filho ganha mundo, rios e fundos.
E a mãe espera
O abraço,
O beijo,
A vida mais calma.
Vida de mãe é espera.
SÓ AMOR
Veja, amor
Não invento histórias
Nem brigas amargas
Para com você fazer as pazes
Eu quero mesmo só amor
Calmo
Feito de lua, estrelas
Música e poema.
Não quero conhecer
Saudade pra viver
Abraços
Quero seu braço
Envolvendo os segundos
Sem tempo deste existir.