A PALAVRA E O SILÊNCIO
Deus inventou as palavras e com elas criou o mundo. Assim mesmo. Faça-se isso ou aquilo e assim estamos. A palavra tem mesmo um poder imenso de criação. Ela, como mágica faz acontecer. Mas aí mora o perigo também. Palavras salvam e palavras matam. É uma escolha. Há algum tempo um amigo me dizia que a crise aconteceria. Seria plantada na sociedade a ideia da crise e ela se alastraria até que seus mentores tivessem seus objetivos alcançados... depois estes mesmos “semi deuses” espalhariam as sementes de um novo tempo. E eis que não mais existiria a crise. E não é que vi que era verdade?! Assim foi feito e não foi bom.
Justificando a crise muitos dizem que ela é mãe do movimento, da evolução, da mudança... Pode ser.
Ando com muito medo da palavra. Como pode? Justo eu... Mas é verdade. Ando impotente diante dela. Vejo seu poder e sinto-me enfraquecida. Até assustada.
Sigo enamorada do silêncio. Seu oposto?! Não. Há silêncios e silêncios... Sonho um silêncio totalmente ausente de palavras. Mas realmente desconfio de sua existência. O silêncio, este comum que nos cerca é puro grito. Palavras que estão sonambulas. Palavras sonhando mundos que poucos povoam.
Eu bem podia encontrar a raiz da palavra LUZ. Com ela eu podia, como os verdadeiros escritores, iluminar os caminhos tortos deste nosso tempo. Talvez descobríssemos que podemos acordar. Que é possível abrir os olhos. Mas como se até a luz ofusca e nos obriga a abrigos?! Qual caverna de Platão nos deixa ideias claras? São sombras ou realidade estas palavras enlouquecidas e confusas?
Volto cansada o olhar em direção as letras. Já não domino a língua dos poetas, tão pouco sei a língua das estradas, das poeiras, dos sertões de átrios, estômagos, intestinos. Eu sei é da dor de ouvir meu pai insistentemente repetindo em mim: a vida é rápida.
Então é urgente arregaçar as mangas e colocar as mãos na massa. Amar. O verbo salvador. O verbo natal que justifica estar vivo. Somente o amor pode viver. Somente a palavra amor pode mudar alguma coisa. Por amor eu até entendo qualquer coisa criada. O resto perde o significado. O resto não sabe o que estou dizendo. Falo a língua de Deus agora. Agora sim, posso criar qualquer coisa e será melhor que crise. Agora posso ficar em silêncio. E não é um grito
BANAIS SÃO AS GUERRAS QUE ACABAM COM OS JARDINS
Em meu jardim há um canteiro de papiros. É uma planta festiva, tem um quê de fogos de artifícios. Uma haste comprida que culmina numa cabeleira vasta de fios leves. Uma espécie de bambu, já conhecido no antigo Egito. Talvez minha predileção por esta planta passe também pela relação dela com o papel.
Mas, estou a falar do papiro para contar, na verdade, um episódio que muito me marcou nos últimos dias: um passarinho resolveu fazer seu ninho nesta planta do meu jardim. Achei desde o princípio que não se tratava de um lugar adequado. Mas quem sou eu para pensar a engenharia dos pássaros?!
Assistimos ao trabalho árduo de recolher pequenos gravetos, horas e horas “costurando” a cama prometida.
O ninho ficou pronto e começamos a gestar os novos vôos. Até que a chuva deu o ar da graça e molhou nossas expectativas.
Ao rufar dos ventos fortes eu comecei a ficar apreensiva. Ia e vinha vigiando o ninho. Já cansada de não ter certeza e entregue à minha impotência exclamei:
- Ora, se Deus cuida dos lírios do campo e das aves do céu, cuidará desta também. Ele deve ter aprovado esta construção maluca!
Bati em retirada e acalmei meu coração depois, é claro, de ter amarrado todas as hastes com um cordão, visando deixá-las menos a deriva.
E foi nesta hora, que minha filha, em sua espiritualidade infantil, por isso mesmo mais verdadeira e profunda, dona de palavras tão parcas, porém certas nas horas certas completou:
- Deus ajuda sim, mas é através das pessoas. Ele quer que as pessoas façam a sua parte.
Dias depois leio “Massa e Meriba” do meu amigo Pe. Gabriel que termina o sábio texto assim: “Deus não resolve para nós aquilo que compete a nós mesmos resolver”.
A chuva passou e eu desamarrei a planta. Nova chuva, ainda mais forte chegou pela madrugada. O ninho tombou, não caiu, mas não conseguiu segurar os ovos. Um se espatifou. O outro ficou sobre uma folha, não quebrou. Subi na escada e aprumei o ninho arriado amarrando-o e devolvendo o único ovo restante.
O pássaro voltou. Acho que não compreendeu. Está ainda a espreita. Fico cheia de perguntas: terá ele aprendido, contudo, uma lição? Será que o fato de perder o ninho, as crias, de viver um fim tão dentro ainda do começo, teve para ele algum significado? Afinal, até o bem e o mal, nesta perspectiva ficam tão relativos. São apenas conceitos.
Os jardins são mesmo paraísos onde Deus se faz presente. Neles é possível tocar o milagre de cada flor, pássaro, inseto que venham ser neste mundo. Mas para tê-lo é preciso colocar as mãos na terra, plantar as flores, cuidar, regar, educar. Um jardim também precisa ser podado. No jardim, a fé acontece gratuitamente. Por tê-la eu planto e porque planto eu colho. Há o ato de plantar e colher. Em caso de flores, colher a beleza principalmente. É a ação e reação. Ação e conseqüência que estudamos em História.
Fiquei horas refletindo sobre o que ando plantado e o ando colhendo nesta vida... E é certo que precisamos arrancar as ervas daninhas que em surdina brotam entre as sementes que semeamos. Também vejo o milagre do movimento que garante a vida: o dia, a noite, o sol, a lua...E nesta caminhada diária deixar morrer o que é morto e transformar o fim em princípio. São reflexões. Devaneios, mania de poeta...
Leio para meu companheiro estes pensamentos e falo da minha vergonha de estar falando de jardins, ninhos falidos de passarinhos enquanto o mundo se digladia em guerras, mortes, catástrofes de toda monta e ele, lúcido, como sempre, sentencia: “banais são as guerras que acabam com os jardins.”
MANDANDO OS ANJOS PARA OS QUINTOS DOS INFERNOS
Como são as coisas... Ninguém vai acreditar, mas é verdade verdadeira. Para que você, meu leitor, não duvide, ou pense que estou ficando maluca, vou contextualizar.
Desde criança, escuto minha mãe dizendo quando saio: vá com Deus! Sei que em pensamento ela completa: com São Rafael, São Gabriel, São Miguel! Uma legião de ajudantes para cuidar desta filha e dos outros seis.
Agora, esposa/mãe, acabei herdando o mesmo texto: vá com Deus! E também em pensamento completo um pouco diferente: leve também o meu anjo da guarda. Não é por arrogância, prepotência, autossuficiência... Nada disto. Até que tenho mania de achar que dou conta de quase tudo, mas, o significado mesmo deste “empréstimo” é querer que meus amados tenham uma proteção extra.
Um dia destes, a cidade estava em pavorosa! Não deixei que eles fossem sozinhos com seus e o meu anjo particular. Achei que precisava estar do lado, meio GPS, ditando os caminhos, guiando os rumos... Mas eis que um “maluco” colou na traseira do carro, buzinando sem parar. A rua estreita. Carros estacionados, mão dupla impossível e a buzina insistente às costas. Sabe o que fiz? Primeiro devo dizer o que não fiz: não mantive a calma, não respirei devagar, não parei para ver o que o sujeito queria, não mantive o equilíbrio. Mandei o indivíduo para o quinto dos infernos com gesto e tudo! Assim que fiz a minha demonstração de impaciência, ele gritou de lá:
- A porta está aberta!!!
O estrago estava feito. Eu havia mandado os anjos para aquele lugar. Pode?! Que vergonha! Todos conhecem meu jeito zen de ver o mundo! Mas... Fazer o quê? Voltei para casa. Não conseguia me perdoar. Depois, como deve ser, achei graça disso tudo. Ri da bobagem que fiz, da minha malcriação. Percebi que o problema foi a tal comunicação. O rapaz queria me ajudar, mas fez de maneira precipitada e ao buzinar insistentemente parecia muito mais estar querendo ultrapassar, querendo que fôssemos mais rápidos... Sei lá. Não quero, de maneira alguma, justificar minha falta de educação. Falta de educação é sempre falta de educação. Mas quero é propor uma reflexão. Só assim podemos tirar proveito dos erros...
Primeiro: errar é próprio do humano. Neste erro em questão, ninguém saiu machucado. Faltou delicadeza. Faltou calma. Faltou jeito. Tudo isto anda mesmo em falta hoje. Podemos fazer diferente. Com certeza! Mas também podemos rir destas nossas bobagens.
Sempre afirmei que o céu é aqui e o inferno também... Podemos cuidar de sermos anjos uns para os outros. No trânsito isto é quase uma odisséia. Mas podemos.
O Gabriel, meu amigo padre, sugeriu que eu transformasse em crônica, este episódio catastrófico. Serviu para chorar e rir. Que sirva para você meu leitor. Se alguém fizer o mesmo com você, antes de qualquer atitude indecorosa, respire, pare e ouça os anjos. Eles podem estar querendo apenas avisar que a porta está aberta.
O CRUCIFIXO
No quarto dos meus pais, na parede, sobre a cabeceira da cama deles, um crucifixo antigo abraça o leito. Ele mede mais ou menos uns trinta centímetros. Feito em bronze e pregado em uma madeira escura, ele vem vencendo o próprio tempo.
Há muito, minha mãe deseja um texto sobre ele, mas o crucifixo é tão interessante em sua simplicidade, em seu silêncio centenário, em sua quietude de objeto que ele me inspira um livro inteiro, Não sei fazer para ele poema. Não sei de poucas falas...
Ele foi doado a ela pelo Pe. João da Matta. Pertencia a igrejinha do Cruzeiro, um arraial perto da cidade de Luz, quase alto Paranaíba. Um lugar pequeno, beijado de sol e esquecido. Se a terra de Luz é vermelha de fazer tristeza aos olhos, fico a imaginar as terras do Cruzeiro, suas gentes, suas histórias.
Olho agora para o crucifixo e fixo nele o desejo imenso de um tempo maior. A vida é tão ligeira... Minha mãe disse que ele será esquecido, talvez jogado fora, após sua ida. Eu disse que não. Como posso deixar algo que tanto me inspira? Prometi-lhe que caso eu parta depois dela, cuidarei dele.
É preciso ser mãe para saber a dor latente que pulsa à simples possibilidade da perda real de um filho... Todo filho já desejou ir antes, pensando não suportar a dor da orfandade. Mas, uma vez experimentada a maternidade /paternidade, o filho passa a não desejar aos pais dor tão grande e cruel e, assim, mesmo sofrendo mares, compreende a sábia natureza.
O crucifixo está pedindo restauração. Com as mãos mutiladas ele parece ter adquirido sulcos das estradas cheias de erosão que ele já trilhou. Pudesse eu tirá-lo desta eterna crucifixão e deixá-lo ressuscitar numa páscoa de eternidades.
De qualquer maneira, eu nunca saberei escrever o texto que minha mãe deseja... Talvez por ele já existir na mente dela que também é escritora e não precisa do meu ofício para se expressar. Por outro lado, sabemos que a pintura de Portinari não conseguiria dizer Renoir. Cada artista é único. E quanto à literatura, sua magia está em pegar o mesmo objeto, o mesmo sentimento e saboreá-lo de múltiplas maneiras.
Com certeza o crucifixo olha para nós de seu século com a mesma dor dos crucificados de ontem e de hoje.
Realmente muito me agradaria vê-lo reluzente, branco e pleno. Contrário símbolo de violência e dor. Mas, por quanto significa, eu silencio meu desejo de ressurreição e o vejo entregue à miséria por duas mil vezes celebrada.
Deixo-o preso à parede e em mim.
PALAVRA-PEDRA
Palavras podem matar. Minha irmã diz que seu médico manda colocar para fora toda angustia. Que faz mal “engolir sapo”. Não é bom levar desaforo pra casa. Mas estou muito convencida de que o melhor mesmo é não engolir o sapo nem tão pouco cuspi-lo nos outros.
Para não levar o tal desaforo pra casa, melhor é nem recebê-lo. Como? Sei que não é nada fácil, mas encasquetei que é possível. Criar escudos. Maldita necessidade humana de responder a tudo! Se não recebo não preciso retribuir. É claro que não estou dizendo de flores. Que a estas quero agradecer sempre.
No livro “Entre todos os homens” (maravilhoso) de Frei Betto, pág. 78, há uma frase: “Diluir as palavras na saliva para que não se transforme em pedras” Acredito que um remédio é este. Ao dissolver as palavras elas não virarão pedras nos rins, nem na vesícula e tão pouco poderemos mandá-las em alguém. Ou seja, nem pra dentro, nem pra fora.
O gosto é amargo. Ao diluir em saliva a “palavra-pedra”, ela perde a dureza, perde o motivo, a aspereza, o fel e vai se purificando. Longe de mim ser a favor do conformismo. Minha defesa é pelo equilíbrio, pela capacidade de escolher as próprias ações, sentimentos: meus e os que vêm dos outros. Mais ainda, pelo respeito e pela desconfiança. Desconfiança sim. Não no outro necessariamente. Desconfiar que eu possa estar errada. Que meu ponto de vista é falho, que posso equivocar. Que devo repensar. Que posso não saber.
O “ponto de vista” é o segredo. Trocar de ponto de vista para melhor enxergar. Um ponto de vista pode estar favorecido por uma luz mais intensa enquanto que outro pode estar prejudicado pelas sombras. A capacidade de experimentar vários pontos de vista é uma forma de ser maleável e não ter tanta rigidez nos pensamentos.
A vontade tem mesmo que passar pela vontade total, ou seja, pelo desejo intenso. Não é “quem pode e não quem quer”; conforme o dito popular. É quem quer, pode.
Neste desejo intenso está a gerência da vida, inclusive das emoções. O cuidado pessoal com os pensamentos e ações. A consciência de que “palavras-pedras” fazem mal não só a quem as recebe, mas também aos que a atiram. Ninguém fica impune às conseqüências. Acaba tendo de admitir o desequilíbrio e a imaturidade.
O prêmio é saber que temos a capacidade de resistir às tempestades, sobreviver às intempéries...
Somos tão frágeis! O que todos queremos é amor. Somos humanos. Na origem desta palavra: terra, humos. Pó. Deveria nascer aí a nossa humildade. Mas acabamos trocando os pés pelas mãos. Mostra de como às vezes retrocedemos.
É comum ouvirmos: fulano atira pedras pra todo lado. É uma maravilha esta nossa língua portuguesa! Qualquer um compreende que este fulano é um tanto desequilibrado, agressivo, nervoso, impulsivo, grosseiro e rude. Talvez o que esquecemos de compreender é que este tal fulano está cheio de medo de receber umas pedras também. Talvez até tenha tantas pedras pra mandar por ter recebido tantas e não ter jogado todas fora. Agora está sobrando. E sabemos que damos facilmente o que sobra.
E por falar em sobras, um dia desses, eu estava lendo e me detive frente à palavra esmola. Comecei a repeti-la: esmola, esmola, esmola... E notei o quanto esta palavra é gosmenta, escorregadia, molenga, sutil. Se houvesse jeito de colocá-la no colo provavelmente ela escorreria lânguida até o chão e deixaria um rastro de lesma. Coisa horrível! Melhor usar então: Ajuda. A palavra ajuda, diferente de esmola, trás uma firmeza, uma vontade e ao mesmo tempo uma finitude tão necessária a quem dá como a quem recebe.
Assim são as palavras. Elas têm alma. Precisamos cuidar para que ao dizê-las estejamos sendo fiéis a esta sua essência de palavra e ainda abertos a suas várias fantasias, pois também elas sabem dissimular, esconder, oferecer novas interpretações. Estou cada vez mais apaixonada pelas palavras. Pronuncio a palavra: caminho. E logo sinto o vento na cara, o horizonte à frente, os encontros possíveis e os desencontros necessários.
Mas agora volto a “palavra-pedra”, que pode ser qualquer palavra que tenha a capacidade de ferir, para molhá-la em saliva e em um gesto de total delicadeza contribuir para a paz. Guerra, afinal, é uma “palavra-pedra” e como mata!
PODA DAS BULGANVILIAS
Ao chegar lá, a primeira coisa que vi foi a buganvília podada. Uma poda drástica e triste.
Hoje lido bem com as podas, pois aprendi a entender suas causas, seus motivos. Mas ainda sofro...
E a buganvília podada, sem uma única flor me deixa estarrecida. Não entendo a ausência de flores. Há tanto a ser podado! Por quê?! Enquanto me lembro desta visão feia que me fere ainda, olho a luz tênue do lustre antigo da sala. Sinto a paz quase como palpável. Uma paz tão inteira que podia ser sentida com todos os sentidos. Eu poderia sentir seu cheiro de paz. Sua textura de paz, sua cor, seu sabor... Eu poderia vê-la. Uma paz, no entanto, resignada. Uma paz que aceita todas as podas. Que olha a ausência das flores e nem chora. Mas que descobre as flores em mundos particulares. O mundo das escolhas.
Eu resolvi podar em mim mesma as dores sem soluções. Resolvi olhar minha alegria diária com o respeito do jardineiro que sabe exatamente onde cabe uma ou outra semente. Resolvi olhar com gratidão esta alegria nem tão gratuita que mora neste mundo e habita as horas. Eu vou olhando com piedade, mas sem pensar que está em minhas mãos qualquer mudança. Sigo ouvindo música e pensando que a vida realmente não é igual. Cada um vive a vida que lhe é cabida. Mas qual vida vive a buganvília? Ela que se enfeita gratuitamente e faz um canto qualquer mais belo e assim mesmo se vê destituída de sua beleza? Que vida lhe é de direito um canto para ser bela que não lhe baste?! Eu queria que tudo fosse pequenos cantos que pudessem abraçar nossos medos das feiúras que tomam conta do espaço todo. Eu queria, mas isso é pouco. Então me resigno. Não posso florescer o mundo. Posso olhar e lamentar.
Haverá de ter respostas que talvez um dia eu entenda. Por agora sigo a vida lamentando as podas doloridas das buganvílias. E ouvindo música.
“TEMPO DA DELICADEZA”
Vejo sua delicadeza em acreditar que o ser humano pode ser sempre muito delicado.
Vejo sua delicadeza também quando me priva de seus pequenos problemas pessoais e mau-humor;
E quando em exercício de função pública, despacha com rapidez ao telefone e deixa pra depois o cafezinho; criando soluções para problemas burocráticos.
Vejo sua delicadeza ao respeitar o pensamento tão diverso do outro;
E ao ouvir música baixa, não obrigando os vizinhos ao seu gosto pessoal;
Vejo sua delicadeza sendo discreto quanto aos seus investimentos e esforços em favor de outros;
E também ao não se julgar conhecido;
Vejo sua delicadeza ao não se achar conhecedor do mundo;
E ao assumir seus erros e ao calar os erros dos outros;
Vejo sua delicadeza ao pagar o devido e ao devolver o encontrado;
E ao freqüentar velórios, mesmo sem prazer, por solidariedade, amizade e respeito;
Vejo sua delicadeza ao confirmar presença e inspirar confiança na pontualidade;
Também vejo sua delicadeza ao medir as palavras para dizer a verdade sem ferir, sem magoar;
Vejo sua delicadeza ao evitar uma guerra, pondo panos quentes e não alimentando mal-entendidos;
No trânsito, vejo sua delicadeza ao dar passagem, ao usar a buzina só em caso de necessidade, ao respeitar os sinais e a velocidade permitida;
Vejo sua delicadeza ao olhar, pensar e falar com bondade antes de tirar conclusões precipitadas;
Vejo sua delicadeza em querer ajudar, nunca envenenando os relacionamentos com comentários maldosos que provocam ciúmes, desconfianças, desentendimentos;
Vejo sua delicadeza em preservar a privacidade das pessoas que ama;
Vejo sua delicadeza em saber esquecer o que precisa ser esquecido e lembrar o que precisa ser lembrado...
Meio como anjo, a delicadeza não é moça nem é moço, não tem sexo. Não é criança mas nunca é velha. Anda sumida, sem dúvida. Até falam que faleceu, escafedeu, morreu. Casou, mudou. Só não dizem “não te convidou” porque sabem que não convidar não é próprio da delicadeza.
Mas ela anda tão desaparecida que muitos nunca tiveram o prazer de vê-la, ouvi-la, admirá-la. Que pena! Tão bela a delicadeza!
Ouvi dizer que a delicadeza é tão poderosa que poderia mudar o mundo... Que ela sim, tem o poder de acabar até com as guerras. O respeito ostenta a fama de tal faculdade, mas só a delicadeza seria capaz desta façanha. Se os países dominadores fossem delicados não matariam, não destruiriam, não invadiriam... Haveria conversa calma, respeitosa, sem imposições de ideias, mas a delicadeza nasce no dia-a-dia, em casa, à mesa, no trabalho, nas ruas, no trânsito. Ela aparece de repente, envolta em palavras mágicas: Por favor, desculpe-me, com licença, boa noite, obrigado, bom dia, meus sentimentos, um abraço, meu amigo, uma lembrança, um ombro, um sorriso. É assim, leve e simples sua vestimenta e ela começa a fazer a vida da gente ser mais que pura rotina.
É a delicadeza que vai a nossa frente, abrindo caminho, ela sabe ganhar a “briga”, pois tem como aliada a gentileza. Sempre muito elegante, a delicadeza é nobre em atitudes, amável em sentimentos, garbosa em humildade.
A cultura elegeu a delicadeza como própria do feminino quando, na verdade, é mesmo preciso mais que útero para ser delicado. É por isso que é preciso pensar a delicadeza em sua essência, em sua alma, para ver que ela está no ser humano (ou deveria estar) independente do sexo.
Não é a delicadeza, muitas vezes, que serve um bom jantar, mas é ela que deseja o encontro. Não é a delicadeza que usa a franqueza. A delicadeza, muitas vezes, prefere o silêncio. A delicadeza não manda só flores, ela gosta de embrulhar com flores o agradecimento, os sentimentos. E a delicadeza é tão sensível que sabe exatamente ser perspicaz para não ouvir, não falar, não ver se for preciso. Ela é ligeira em abrir portas, dar a passagem, a preferência, o lugar, mas não é só isto. Ela sabe mesmo é o quanto somos frágeis e, por isso é que ela é tão suave, sutil, esmerada, primorosa em buscar a melhor atitude, a melhor palavra, a compreensão de tudo.
É preciso ser muito homem, muito mulher para ser delicado.