ANA DO MAR
Ana ficava na pedra a beira do mar.
Ana não era mais criança. Moça formosa vestia o corpo deixando as pernas à mostra. Pernas beijadas de sol. No pescoço usava colar de conchas.
Era moça da praia. Morava na aldeia em casa de sapé. Falava pouco a menina e tinha os olhos sempre perdidos no mar.
Ana vivia sozinha. Cuidava de um papagaio mudo que vivia em seu ombro. Ela não era dada a fazer amigos. Os rapazes já dispensavam olhares
compridos à sua volta, mas ela nem percebia.
Diziam na aldeia que Ana ficava dias e dias, a vida inteira, na pedra a olhar o mar, porque estava à espera de ver no horizonte o barco azul de seu pai
que um dia saiu a buscar o pescado e nunca mais retornou.
Ana não se banhava nas águas salgadas, apenas olhava as ondas, hora calmas, hora revoltas, que como braços, numa dança convidavam.
Ana ali permanecia silenciosa...
Mas o mar gritava apaixonado. Queria dividir com ela seus segredos e eram tantos e tão lindos que Ana sem perceber se envolvia e ouvia e ouvia...
Galanteador como nunca o mar romanceava e floreava e em paciência a conquistava.
Mas Ana ficava ainda mais calada...
Os dias foram passando, redondos como o silêncio e foi em silêncio que num abraço Ana ao mar se entregou.
Ninguém mais viu Ana... Na pedra da praia ficou Mariana e em seu ombro o papagaio.
Mariana era branca como leite. Vestia rendas. Cobria as pernas deixando as transparências.
No pescoço usava colar de perolas e falava pouco, mas cantava. E era suave e bela a voz de fazer calar o vento.
Na aldeia só diziam que Mariana era filha de Ana com o Mar e que cantava
Cantava tanto que o vento se enamorou e calava sim, pois era amor.
Mariana amava o vento. Pra ele é que cantava e suas canções falavam de histórias que o mar havia contado pra Ana.
O vento queria mais que canções. Queria poder viver cada nota, cada harmonia e também as pausas. Assim armou para Mariana uma surpresa. Levou
consigo o papagaio para que ao voltar pudesse convencê-la a fazer com ele uma grande viagem. Mas o papagaio não voltou.
Mariana perdoou o vento e entre desculpas se casaram.
Deste amor nasceu Maria que na pedra da praia não ficou.
Mas esta estória eu não sei contar.
ERA UMA VEZ UM REI KAIURA
O traçado primitivo do castelo de Kaiura foi determinado pelas grandes muralhas. Tudo crescia seguindo o curso dos rios, adaptando-se aos caprichos da encosta, até as flores nos jardins de desenho irregulares.
Pela torre avistava-se o mar. Kaiura, o grande rei, reinava sobre as terras infinitas e tinha fama de bondoso e sábio.
Kaiura era da dinastia Kutaraha e teve apenas uma filha que sua cegueira não permitiu admirar. Como a princesa nasceu em dia de grande ventania que deixou desnuda as árvores acabou recebendo o nome de Folha: aquela que chegou trazida pelo vento.
Os vestidos da princesa eram bordados de esmeraldas. Ela crescia em brilho e seu pai em orgulho. Ela nem era bela, mas tinha algo inexplicável que fazia parar o tempo. Gostava de gente e as vezes se misturava aos camponeses, pois amava as colheitas. Disfarçava-se e ia até a cozinha ajudar no preparo do pão.
Uma noite, enquanto dormia, sonhou que andava pelos jardins do palácio acompanhada por um grande número de crianças. Eram crianças cegas. Elas andavam trombando nas árvores e caiam. A princesa corria a socorre-las mas não conseguia fazer quase nada. De repente, ainda no sonho, ouviu uma canção que vinha de uma das árvores. Caminhou até lá e viu que a canção vinha de um pássaro dourado que ao vê-la voo para longe. Era o pássaro mais lindo que Folha havia visto em sua vida. Assim a princesa acordou.
Pressentindo que algo estava errado, foi até os aposentos de seu pai . Ainda no corredor pode ouvir a música do sonho e ao chegar ao quarto, em desespero, viu seu pai nas garras do grande pássaro que pela janela fugia desaparecendo por trás das muralhas. E Folha conheceu a tristeza.
O castelo de Kaiura fechou as portas e a escuridão invadiu todo o reino. Folha não se conformava, chorou por sete dias e sete noites. Tomada por um grande cansaço adormeceu. Sonhou que andava pelo jardim. Era um dia de sol. Usava um lindo vestido vermelho bordado com pequenas borboletas. Caminhando até a fonte avistou uma criança. Era pequena , chegava a caber na palma da mão. Assustada a princesa parou e ficou observando apenas. Sem que Folha compreendesse, a criança foi crescendo até se transformar em um rapaz robusto. Sentiu grande ternura e o abraçou sem palavras. Foi quando a música do pássaro dourado invadiu o silêncio. E ela percebeu que o rapaz tinha asas. Afastou assustada. Folha começou a gritar e chorar. O homem pássaro falou calmamente que ele podia tudo. Para ter o seu pai novamente bastava que ela entregasse os próprios olhos e ainda se casasse com ele. Folha não teve dúvida, aceitou a proposta e acordou. Pode ainda avistar o pássaro que batia em retirada.
E na tarde daquele dia, Folha perdeu a visão e teve seu pai de volta ao castelo. Ele já não era mais cego, mas seu reino ainda estava na escuridão.
O rei Kaiura ao saber que sua filha havia feito uma troca com o homem pássaro, mandou construir uma enorme gaiola de ouro. Acreditava que ao ver tamanho brilho o pássaro teria sua visão ofuscada e se tornaria presa fácil. Uma vez prisioneiro não mais levaria a princesa.
Sete anos se passaram. Sete rugas riscaram as faces de Kaiura, o rei sábio.
Numa tarde, antes do anoitecer, todo o reino ouviu a música encantada. Era como o toque de uma corneta avisando o início de uma batalha. Mas aos poucos o reino caiu em sono profundo. Somente Folha ficou acordada esperando ser levada pelas garras do grande homem pássaro. Isso não aconteceu. A música encantada saia de dentro dela como se ela mesma fosse o pássaro dourado que cantava.
Quando o encanto terminou o rei correu até o quarto da filha levando consigo homens de seu exército. Mas com que surpresa o rei encontrou sua filha ainda sem movimento esboçando um leve sorriso nos lábios. Ela estava calma e explicou que somente agora compreendia que para voltar a enxergar precisava libertar o pássaro dourado prisioneiro em sua alma. Era preciso deixa-lo voar até o alto das muralhas sagradas e desfazer o sortilégio.
O rei Kaiura não sabia o que dizer. Naquela mesma noite, em sonho, o pássaro dourado foi libertado
Todos no reino de Kaiura ouviram a música encantada enquanto dormiam. Como fumaça todo o reino desapareceu. No lugar, folhas secas rodopiaram ao vento e foram aos poucos ganhando rumos incertos no mundo inteiro.
Contam que somente uma velha camponesa viveu para contar esta história.
MEU CONTO DE RAPUNZEL
O galo cantava às três da tarde. Cantava e era respondido por outro e outro mais adiante. Uma espécie de sinfonia ia se fazendo. O que eles cantavam eu nunca soube. Lembro-me a estória do galo que dizia que seu canto acordava o sol. Mas este galo que cantava às três da tarde, cantava a quase despedida do sol? Não sei. O que me impressionava era essa corrente sonora que se fazia. Havia algo de triste no canto. Ou seria naquela hora?
Lembro-me a claridade das tardes. Era um sol preguiçoso, pachorrento, que deitava a colorir a rua íngreme que dava pra janela onde eu ficava. Uma janelinha pequena de madeira sem tinta onde eu debruçava e ficava a tarde inteira. Em dias mais quentes eu preferia a sombra do pé de goiaba no quintal. Todo quintal era um mistério envolto em hortas, pomar, um jardim de vó das mais variadas flores e, é claro, os galinheiros. Terra batida, varrida. Lá, a terra era branca, mas na terra dos meus pais ela era sangue.
Hoje, o galo cismou de cantar novamente. Eu não estava na janela, mas fui pra lá, imediatamente. Esperei as respostas dos outros galos e elas tardaram, mas vieram. Tímidas e com a mesma tristeza de antes.
Eu, da janela, ouvi a tarde, os ruídos da cidade hoje tão outra. Lá, dependurada, eu perguntava aos que passavam aonde iam e, qualquer que fosse a resposta, eu queria que queria acompanhá-los.
Sempre segurava nas mãos uma panelinha para deixar cair e ter o mote do início da conversa com o passante. Mas, passante mesmo era o tempo na minha janela e ele trouxe outra casa.
Esta, da janela, nem reboco tinha. O chão de tijolo era lavado e fresco. Na cozinha, um fogão de lenha e um caibro que ameaçava levar o telhado abaixo. A nova casa era melhor. Ficava num beco perto da zona boêmia e mais do que galos eu ouvia...outras músicas.
No dia da mudança, minha irmã segurou minha mão e fomos subindo a rua da janela enquanto o galo cantava dizendo adeus e os outros iam respondendo, respondendo e minha vida inaugurando outro tempo, outros cantos, outros contos de Rapunzel.
ONDA DO MAR
Certa vez, o mar que até então era robusto, faustoso, de suntuosa riqueza milenar, se perdera em solidão e cansaço. Tornara-se apático, entregue ao desânimo, e deitado sobre os dias não mais manifestava sentimento algum. Visto à distância, bem podiam dizer que ele havia morrido.
Mas o vento, seu amigo, que há anos o conhecia, preocupado com o estado de lastimável abandono em que se encontrava, resolveu chamá-lo de imediato. Mas o mar estava adormecido. Ele só ressonava em um sono antigo, às vezes soltava um leve suspiro e novamente se perdia em noite profunda.
O vento desconsolado, que amava tanto o compradre, não tardou a buscar ajuda. Foi atrás das nuvens negras das tempestades e pediu que fossem até o mar e chovesse trovoadas. Elas que também muito admiravam a grandeza e opulência do mar fizeram as malas e partiram. Com a ajuda do vento logo chegaram.
Raios se cruzaram no céu e o barulho podia ser ouvido a milhas e milhas do mar, que continuara quieto, desanimado, já curvado em seu cansaço. As nuvens então choraram muito sobre o mar e nada. Ele permaneceu amuado em seu marasmo.
O vento entristecido, não sabia como ajudá-lo. Já cansado deitou-se sobre uma pedra as margens do mar. A pedra tocada pelo vento, sentiu um arrepio frio, pois o vento lhe tocara a pele empedrecida. Seu acordar foi tão sublime que o mar de longe e lento despertou. O mar ficou enamorado.
Num esforço abissal, buscou se recompor para aquela nova sedução. O vento que a tudo assistia, com tamanha alegria, soprou com tanta forca sobre o amigo que ele a pedra alcançou, dando-lhe um beijo apaixonado.
A pedra pesada tão leve ficou que rolou mar adentro entregue ao amor.
E o mar cresceu, se inundou. Nasceu assim as ondas do mar. Por isso há mar no amor e amor é onda do mar.