Centro de Referência Intelectual do IFCH
A Crítica do Livre-Arbítrio por Arthur Schopenhauer
Ano: 2012
ISSN Impresso: 22369759
Esse trabalho pretende estudar o conceito de liberdade do querer na filosofia de Arthur Schopenhauer, tendo em vista caracterizar sua crítica frente à teoria do livre-arbítrio. Mais precisamente, procuraremos analisar os argumentos utilizados pelo filósofo para desestruturar os empreendimentos filosóficos que se fundamentam, segundo o autor, na pressuposição da liberdade do querer. Esses argumentos são precípuos na explicitação de três importantes objetivos dessa comunicação: (i) referente à impossibilidade da demonstração da liberdade da volição pela autoconsciência; (ii) compreensão da rigorosa necessidade dos atos humanos, como produtos do caráter individual e dos motivos externos; (iii) reconhecimento da liberdade da vontade, mas somente em-si e fora do mundo fenomênico. Primeiramente, esclareceremos a noção schopenhaueriana de liberdade do querer,buscando sua adequada definição, para, em seguida, compreendermos a que exatamente o autor se contrapõe. Na visão schopenhaueriana, o vocábulo livre é, normalmente, utilizado para designar o homem que se move conforme sua própria vontade, isto é, quando nenhum obstáculo material se opõe à sua realização - definição usual que implica simplesmente no poder (Können), entendido como poder de agir. Contudo, o que dizer no caso em que um homem, sem ser impedido por obstáculos materiais, é desviado de sua ação por simples motivos, tais como: ameaças, promessas, perigos etc., podemos dizer que esse homem é livre? O verdadeiro problema que se apresenta é saber se o próprio querer é livre, pois a liberdade que está em causa diz respeito ao querer (Wollen). Seria preciso que o problema se colocasse assim: será que tu podes querer? Apesar do sentimento da autoconsciência 'Sim, posso fazer o que quero', seu testemunho de nada vale, porque, de acordo com a definição schopenhaueriana, ela é demasiado limitada e voltada apenas para o conhecimento interior - sente tãosó os movimentos da vontade e conhece o resultado das ações somente a posteriori. A faculdade dirigida para o conhecimento externo é o entendimento, intermediário na motivação (uma espécie de causalidade própria do reino animal), que tem a função exclusiva de clarear os motivos à vontade. Assim, ele obtém as informações a priori das ações, porque tem acesso aos motivos, objetos que constituem a matéria e a força propulsora de toda e qualquer volição. Esses motivos incitam o caráter inato, imutável e peculiar do individuo a demonstrar aquilo que cada um contém: a sua essência. E do mesmo modo que cada efeito na natureza inorgânica é o produto necessário de dois fatores: (1) a força natural e primitiva, cuja essência se revela nele e (2) a causa particular que provoca a manifestação, igualmente, cada ação do homem é o produto necessário do seu caráter e do motivo que entrou em jogo. Resulta disso que, dadas as mesmas circunstâncias, o homem agirá novamente como agiu antes, não podendo realizar uma ação diferente. Por outro lado, considerando que a essência de todo homem é a Vontade, livre em-si, bem como todas nossas volições são, na verdade, desígnios ocultos dessa essência, também podemos considerar a vontade como livre, ainda que ela seja invisível no mundo empírico. Portanto, a liberdade não é abolida na filosofia de Schopenhauer, ela só não se encontra no operari (na ação), mas reside no esse (no Ser).
Autora: Gleisy Picoli