Centro de Referência Intelectual do IFCH
Michel Foucault e a História Genealógica em Vigiar e Punir
Ano: 2006
A concepção de história genealógica de Michel Foucault propõe modificar muitos dos conceitos com que opera a produção do conhecimento histórico. Ao sugerir novas formas de concebê-la, o autor problematiza conceitos que já foram muito discutidos pelos historiadores, como origem, acontecimento, neutralidade, necessidade, finalidade, e continuidade. Essas reflexões sobre o método da história, porém, estão longe de estarem finalizadas. As observações deixadas por Foucault, portanto, revelam um novo olhar, tanto sobre a história, quanto sobre o próprio passado, possibilitando, ainda, uma nova forma de pensar a relação que se estabelece entre o passado e o presente. Um dos textos mais importantes do autor francês sobre o assunto intitula-se “Nietzsche, a Genealogia e a História”, no qual ele explicita o método genealógico. Esse texto, escrito em 1971, baseia-se nas noções do filósofo alemão Nietzsche que, como destaca Foucault, opõe a “história dos historiadores” à “história efetiva”. A genealogia nietzscheana, assim, não se opõe à história, mas a uma forma de concebê-la, fazendo um uso crítico do método histórico e problematizando as noções metafísicas que o compunham. Um dos conceitos baseados no ideal metafísico e criticado por Nietzsche e Foucault será o de Ursprung (origem). Diz Foucault: “a genealogia se opõe à pesquisa da ‘origem’”. Essa oposição ocorreria porque a pesquisa da origem pretenderia conter a essência exata da coisa e desvelar a sua identidade primeira. A origem também seria o lugar da perfeição, onde a verdade se encontraria definitivamente instalada. Estas noções são criticadas por Nietzsche e Foucault ao ressaltarem que, assim como a essência é construída detalhadamente, a verdade é uma idéia criada dentro da história e, desse modo, não podemos tratá-las como conceitos absolutos. Dessa maneira, a genealogia não se confundirá com a busca da Ursprung, de um momento anterior a tudo, inclusive da própria história, mas tentará encontrar os conflitos e as discórdias presentes no começo histórico, notando sua complexidade e suas múltiplas faces. É a partir dessas discussões que Foucault sugere duas noções para se modificar a pesquisa da Ursprung. A primeira delas diz respeito à idéia de Herkunft (proveniência). Esta se preocuparia com os começos inumeráveis e não com a síntese coerente e absoluta. Como afirma Foucault, o genealogista, seguindo a proveniência, manterá o que se passou na dispersão que lhe é própria, demarcando o acaso, os acidentes e os desvios. Ainda, atento às diferenças e às historicidades presentes no percurso histórico, distancia-se de uma visão histórica que privilegia as semelhanças e as identidades e acaba naturalizando o passado ao interpretá-lo através de uma evolução progressista, contínua e necessária.
Autora: Priscila Piazentini Vieira