Muitos tem interesse de seguir carreira acadêmica buscando mestrado e doutorado, outros ainda querem apenas buscar uma maior especialização técnica com mestrado ou pós-graduação. Afinal, há um mundo cada vez mais competitivo lá fora. Já recomendei diversos ex-alunos para programas de mestrado em Engenharia Elétrica e Microeletrônica (da UFRGS), de Computação (UFRGS e UFPel) e de outras instituições (FURG, UFSC).
Vejo que muitos não tem bem noção do que seja uma carta de recomendação e ficam na dúvida se podem ou não pedir uma. Por isso, e achei por bem colocar essas orientações aqui...
1) O que é uma carta de recomendação?
É uma carta em que algum docente com grau acadêmico de pesquisa (em geral doutor) responde uma série de perguntas objetivas a respeito do desempenho do aluno. Em geral é confidencial e entregue direto no PPG. As perguntas são simples e não dizem se o aluno é bom ou não. Na verdade elas pedem que o aluno seja comparado com outros alunos que o professor conheceu ao longo de toda sua vida. Por exemplo, se pergunta se o candidato é um dos 5% ou 10% melhores alunos em diversos quesitos (como expressão oral, iniciativa, trabalho em grupo, capacidade de pesquisa, expressão escrita e assim por diante).
Se pede também que o recomendante dê exemplos de coisas que o candidato fez para ilustrar sua opinião a respeito. Em todo caso se tem a opção de indicar que não se sabe o bastante para avaliar o aluno em qualquer um dos quesitos. Uma carta que tem pouco a declarar não atrapalha, mas também não ajuda.
Cartas são, portanto, objetivas e demandam que o recomendante conheça bem tuas habilidades, ou terão pouco efeito.
2) Para quem posso pedir uma carta de recomendação?
Para qualquer docente que tenha a titulação requerida e que te conheça. Se foi meu aluno pode pedir para mim, mas tem uma coisa importante: se o professor não conhece bem o candidato, vai acabar tendo pouco para dizer a seu respeito e a carta vai ter pouco peso. No meu caso se você já fez alguma eletiva comigo e foi muito bem, ou já foi meu bolsista ou orientado de PFC eu teria todas as condições objetivas de avaliar a maior parte dos quesitos que são solicitados. Lembrem que todo semestre são até quarenta alunos diferentes, se destacar nas disciplinas é importante.
Existe uma segunda questão na escolha de quem vai te recomendar: a área específica do mestrado. Uma carta de recomendação é objetiva, mas a experiência na área de pesquisa desejada conta bastante na avaliação subjetiva do candidato. Nesse caso o recomendante ser alguém com produção na área de interesse é algo que pesa. Minha experiência é em microeletrônica, instrumentação, biomédica, processamento de sinais e imagem e computação.
3) Como sei se tenho vocação para carreira acadêmica?
A melhor maneira é sendo bolsista de IC. Vai te dar uma boa experiência na coisa toda. Toda carreira tem seus ossos do ofício, coisas que não gostamos muito mas são fundamentais e temos que fazer. Carreira em pesquisa significa sempre ler muito (em inglês), escrever muito (em inglês) e apresentar muito. Também significa se enterrar no trabalho feito por outras pessoas, entender algo desse monte de coisas mal documentadas, e conseguir seguir adiante. O pesquisador NUNCA desenvolve nada sozinho. Mesmo se faz algo sem nenhuma equipe, está sempre fazendo em diálogo com a pesquisa de outros que concorrem ou colaboram com ele em algum outro lugar do mundo. O primeiro passo é sempre ver como a tarefa é feita pelos outros. Nunca se reinventa a roda, quem parte do zero pode até se divertir e aprender, mas não inova, nem gera produção acadêmica.
Ser pesquisador também significa trabalhar com especificação, material e documentação incompleta e ainda assim entregar resultado. Sobretudo significa trabalhar com metas e por prazos, independente de carga horaria. No mundo todo* há trabalho de primeira sendo feito sem qualquer forma de bolsa apenas pela experiência e recomendação. Então, se tiver a sorte de ter uma bolsa (como muitos aqui têm hoje em dia) entenda que toda bolsa não é salário nem auxilio. Bolsas de IC** são um gasto de mais de quatro mil reais por uma ÚNICA tarefa bem-feita. Uma tarefa para a qual se tem mais de dez meses até a conclusão. Essa tarefa é sempre o artigo publicado. Se um IC foi concluído sem artigo submetido, ficou devendo. Essa é a realidade. Não se engane pela atual abundância de bolsas, sempre é a produção que se olha para ver se a experiência significou algo para o currículo.
É normal haver alguns aspectos ruins em cada profissão. O segredo é não ter nada insuportável. Assim, se qualquer uma desses aspectos é insuportável, não recomendo a carreira em pesquisa de forma alguma. De fato, também não recomendo o magistério na área tecnológica onde a atualização técnica do docente é um grande e constante problema. Não importa se a carreira no magistério é uma das poucas opções próximas, se essas coisas forem um problema para vocês, você SERÁ um mau professor e um problema para a instituição.
4) Com quantos alunos sou comparado?
Hoje, em minhas avaliações de recomendação, comparo todo candidato com pouco mais de quatrocento alunos que lecionei nos últimos dez anos. Isso significa que apenas quatro alunos ficam no 1% melhor, vinte nos 5% e oitenta nos 20%.
5) Qual o caminho a seguir?
Sou bastante ativo em minha política de estimular quem percebo potencial para entrar na lista e seguir carreira acadêmica. Em geral, sugiro a esses que pensem a respeito quando os identifico ainda em EE321. Se recebeu essa sugestão de mim ou de outro professor lembre: eletivas da área, IC/Pesquisa, PFC. Esse é o caminho mais adequado para se especializar e se preparar para futuros mestrado e doutorado.
Se quiser saber mais dê uma olhada nas minhas diretrizes para orientações ou na página do Grupo de Pesquisa (GET).
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* Inclusive no Brasil, vale lembrar que bolsas são raríssimas nas privadas, mesmo nas que se destacam em pesquisa.
** Bolsas em projetos tem exigências ainda maiores e prazos ainda mais rígidos que IC.