“MASSA E PODER”
“É na massa que o homem se pode libertar do receio de contacto, a mediação do receio de contacto faz parte da massa. A repetição exacta e familiar de determinados ritos, assegura-se à massa um género de vivência domesticada de si própria. Todos se tornam muito semelhantes uns com os outros, comportam-se de modo igual.” (Elias Canetti)
O desejo de converter homens em “animais” é um forte impulso para a expansão da escravatura. Quando os homens conseguiram possuir tantos escravos juntos como animais, num rebanho, está colocada a primeira pedra para a construção do estado e para a tomada de poder; o desejo de ter toda uma população escravizada ou animais, torna o senhor, tanto mais forte quantas mais pessoas constituírem a população de escravos. Na contemporaneidade o cidadão comum adaptou-se aos seus muros, é um prisioneiro feliz que não se opõe à sua condição. Foram os muros que o formaram, ele reconhece os muros como uma nova natureza e não quer transpo-los. O homem “livre” é unicamente aquele que percebeu como evitar os muros e não aquele que posteriormente se liberta deles.
Já foi demonstrado que a ordem na sua forma domesticada, como esta se apresenta na coexistência das pessoas, representa apenas uma pena de morte suspensa. O sistema de ordens é universalmente reconhecido e foi nos exércitos que este tornou-se mais marcante. Muitas outras áreas da vida civilizada o adoptaram e são caracterizadas pelo mesmo. Sistemas eficazes e afinados de tais ordens já se tornaram habituais. A massa deseja ser um rebanho obediente. É usual considerar os crentes como ovelhas e louvá-los pela sua obediência. O sentimento de unidade é-lhes ministrado de forma doseada (Futebol, Fado, Pátria). A massa anseia crescer, pois, no seio da massa reina a igualdade. A massa gosta de densidade e precisa de uma direcção, aquele que não se enquadra é penalizado com a exclusão.
A massa torna cada um em “carrasco” público, através do jornal, internet e redes sociais. Não se é responsável por nada, nem pela sentença, nem pela testemunha ocular, nem pelo seu relato e nem tão pouco pelo jornal que publicou esse relato. No seio dos leitores mantém-se viva uma massa acossadora, atenuada, devido à sua distância relativamente aos acontecimentos. Como nem sequer precisa de se reunir, também evita a sua desagregação, ao passo que a repetição diária do jornal se encarrega de duplicá-lo. Quanto mais as pessoas vão se perdendo, mais vão ficar unidas no seu destino.
A massa sente-se desvalorizada, quando o dinheiro está desvalorizado. Todas as massas se formam em tempos de crise e com muita frequência, encontram-se sujeitas à pressão do dinheiro desvalorizado. Se uma pessoa sozinha vale pouco, então muitas pessoas juntas valem igualmente pouco. A inflação suprime as diferenças entre as pessoas. Uma desvalorização súbita da pessoa jamais será esquecida, pois, é demasiado dolorosa. É algo que o indivíduo carrega consigo uma vida inteira.
Foi como perseguidores que os homens viveram e é como perseguidores que continuam a viver. Procuram a carne alheia, retalham-na e alimentam-se do tormento dos fracos. Liberta-os da culpa de matar e do medo de que a morte os atinja também.