AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.
Resenha
O Cortiço é um romance naturalista do autor Aluísio Azevedo, publicado pela primeira vez em 1890, e apesar de ser uma obra escrita há muito tempo, ainda consegue ser atual em sua temática, mostrando a desigualdade social e denunciando as péssimas condições de moradia dos cortiços no Rio de Janeiro do final do século XIX. A obra é narrada em terceira pessoa, por um narrador onisciente, e possui uma riqueza de detalhes na descrição de aspectos importantes da imagem do povo brasileiro.
O enredo aborda como João Romão, um comerciante de origem portuguesa bastante ganancioso, almeja subir na vida. Junto dele, mora a negra Bertoleza, que começa a ter uma relação com João Romão. Bertoleza confia tanto em Romão que acaba compartilhando a quantia que vem guardando para comprar sua carta de alforria. Consumido pela ganância, o português forja a carta de alforria da escrava e usa suas economias para comprar alguns terrenos, onde constrói casas simples e de aluguel barato, o cortiço. Ao lado do cortiço, há um sobrado onde mora a família do comendador Miranda, um rico português recém chegado ao Brasil, que abomina a vizinhança, tendo também uma rivalidade com João Romão em consequência da ambição de ambos.
Também conhecemos outras personagens como Estela e Zulmira, esposa e filha, respectivamente, de Miranda; Rita Baiana, uma mulata moradora do cortiço; Firmo, capoeirista e amante de Rita Baiana; Jerônimo, português honesto e trabalhador casado com Piedade, entre outras que são desenvolvidas ao longo da obra.
Cabe aqui destacar que um dos aspectos que chamam mais atenção na narrativa consiste na própria humanização do cortiço. O ambiente é considerado o personagem principal da obra, sendo um organismo vivo. Ao mesmo tempo, podemos notar o processo de animalização dos personagens, que são tratados como animais que sofrem influências do local em que vivem, seguindo apenas seus instintos e desejos.
Também podemos observar características do movimento naturalista, o qual o autor faz parte, ao retratar o homem como sendo um produto do meio em que vive, ao vermos trabalhadores considerados honestos sendo corrompidos moralmente pelo ambiente do cortiço. Ou seja, a influência direta do meio sobre o indivíduo. Também observa-se a descrição da realidade humana e a animalização das características e atitudes das pessoas.
O autor também tece uma crítica ao aumento populacional da cidade do Rio de Janeiro que culminou com o surgimento de habitações populares, denominadas de cortiços, onde residiam pessoas das camadas mais baixas da sociedade, além de indivíduos com comportamentos moralmente condenáveis, representando a divisão social de classes que começava a surgir no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, e que perdura até os dias de hoje.
Por fim, durante uma confusão, vemos o cortiço pegar fogo, sendo posteriormente transformado no edifício Avenida São Romão, que passa a ser habitado por uma população de melhor condição financeira. Os moradores mais pobres se mudam para outro cortiço e o autor encerra o romance demonstrando que sempre existirão desigualdades sociais e econômicas.
Podemos concluir após a leitura que esse contraste entre diferentes classes sociais ainda é muito atual, já que trata das relações entre os diversos grupos sociais e raciais que compõem a sociedade brasileira, sendo, também, uma forte crítica acerca da sociedade daquela época que deixou suas marcas na base da atual sociedade brasileira.