O SUICÍDIO NA CONCEPÇÃO DA OBRA ROMEU E JULIETA; João Pessoa; 2019 - CARINA FABRICIO FERREIRA DA SILVA
O SUICÍDIO NA CONCEPÇÃO DA OBRA ROMEU E JULIETA; João Pessoa; 2019 - CARINA FABRICIO FERREIRA DA SILVA
O suicídio, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), é a causa da morte de 800 mil pessoas por ano, entre elas são jovens da faixa etária de 14 e 24 anos, onde os riscos são o álcool, distúrbios mentais, fatores da vida cotidiana, família, assim como questões financeiras, dores crônicas, doenças e términos de relacionamentos” (SILVA, 2019). É um problema que não é devidamente debatido, porém, a partir da obra Romeu e Julieta é possível abordar o assunto e fazer com que o aluno compreenda a importância da narrativa da obra e a pessoal, pois não é possível ignorar o problema, ao invés disso, deve possuir uma ação para que exista a melhora nos fatores que podem fazer com que o indivíduo considere a realização de tal ato. Sendo assim, devido ao alto índice de mortes e a faixa etária a qual isso atinge, optou-se por trabalhar com o tema que aflige notoriamente o público alvo ao qual o projeto se dedica. A literatura é o caminho para o mundo fantasioso, como também, fornece a compreensão de nós mesmos por meio disso. Desse modo, tornar os aspectos da literatura, em especial o suicídio em Romeu e Julieta, visíveis e abertos a debate é essencial para que a literatura demonstre o seu poder de realizar uma positiva mudança na sociedade.
“o suicídio pode ser desencadeado por alguns aspectos como os fatores biológicos, os sociais, sua história de vida, a cultura, questões psicológicas” (Barbosa et. al, 2016 apud SILVA, 2019) relacionado a esses fatores, na obra eles podem ser notoriamente observados como a transição da fase infantil para a adolescência de Romeu e Julieta, a sociedade dividida a qual eles vivem aplicando julgamentos e preconceitos, a história da qual eles querem alterar-se e isso diretamente ligado a cultura patriarcal que afeta Julieta a fazendo ser diminuída e recorrer a ações desesperadas e Romeu acreditar em provar sua masculinidade e amor ignorando ações devidamente pensadas. Como resultado, o psicológico dos personagens é levado ao limite no ato IV a partir de sua separação e imposições forçadas do estado e da família que elevam o lado triste da vida que já era levemente comentado no I ato. A partir disso, existem três níveis nos quais o suicídio se enquadra: “a ideação suicida (pensamento, planejamento), tentativa de suicídio (atitude) e suicídio consumado (ato realizado).” (SILVA, 2019).
Nesse quadro, o casal realiza os três níveis, por isso se observarmos os alunos e apresentarmos esses níveis para os professores compreenderem os indícios de cada nível e lidar com esses aspectos. Especialmente por meio da cobrança e novos questionamentos, já que, isso revela a fragilidade dos adolescentes com comportamentos que são determinados por insegurança, imaturidade, angústias, frustrações e medos. Desse modo, o ambiente escolar não deveria ser um gatilho para esses aspectos porque a partir de novos contextos, novos amigos, mudanças corporais e mentais e cobrança acadêmica e familiar juntam-se e fazem com que o aluno não consiga organizar essa enorme bola de neve que parece que pode ser solucionada pela morte, pois é gerado um sentimento de “desesperança, desamparo e estresse insuportável.” (SILVA; PAZ, 2016 apud SILVA, 2019).
“É neste período que estão vivenciando o conhecimento do eu, o crescimento, a busca da identidade, havendo interferência no contexto biopsicosicial, o que gera desavenças, conflitos, incertezas, na tentativa de se tornar independentes (MOREIRA, 2015 apud SILVA, 2019)” é notável que em fases de grande mudanças é necessário um amparo maior para o aluno de modo a ele estar vivendo o conhecimento dele mesmo nessa busca de identidade. A obra de Romeu e Julieta pode auxiliar nesse fato por apresentar esse cenário de conflitos e incertezas que se assemelham à fase vivenciada pelos alunos e seria o processo para a independência que muitas vezes não é apoiada pelo esfera do aluno fazendo com que ele se sinta sozinho. Por isso, é necessário promover ações para auxiliar essa esfera da vida do aluno.
“o suicídio está entre as dez principais causas de morte, e ainda mais recorrente na adolescência, possivelmente por essa fase passar por bastantes acontecimentos que podem afetar as emoções, onde fica evidente que acontece o suicídio por alguma insatisfação com a vida que vem provocando a manifestação de sentimentos de culpa, vergonha, tristeza, raiva, refletindo na relação com as pessoas com quem convive. (RIGO, 2013 apud SILVA, 2019)” - por isso a literatura pode auxiliar os alunos a se encontrarem na mesma dor dos personagens amparado com o professor para que a dor seja reconhecida e trabalhada e não espelhada. É necessário falar sobre suicídio e não romantizá-lo como algumas pessoas podem ter essa visão ao final da obra e isso precisa ser aberto a debate. Reconhecer as emoções seria o primeiro passo e a literatura pode auxiliar a realizar esse fato.
A adolescência é “considerada a fase de desenvolvimento, e transição da infância para a vida adulta, marcada pela maturidade, seu desenvolvimento está associado as questões biológicas (transformações corporais, hormonais, puberdade, com suas particularidades sexuais, iniciando a maturação sexual), psicológicas (alterações no humor), sociais e jurídicos (FERRONATO, 2015 apud SILVA, 2019).”, dentro desses conflitos o jovem irá se moldar e é uma fase de grande confusão mental e descobertas. Cada um amadurece no seu tempo, portanto, é possível existir muitos conflitos dentro da própria turma como uma pessoa que já cresceu e já se desenvolveu em diversas dessas áreas e outra que ainda está iniciando essa fase e pode possuir bloqueio em relação a elas. “No processo de socialização o adolescente que busca sua autonomia, pretende tomar as decisões sozinho, sem a ajuda dos pais, experienciando assim os papéis e as funções que o contexto social e a cultura estabelecem e ditam como obrigações, vivenciam as relações de amizade, na qual procuram pessoas que compartilhem as mesmas características e pensamentos, avaliando as particularidades, e quais seriam os pontos positivos (confiança, companheirismo, reciprocidade, lealdade, apoio em momentos bons e ruins) e negativos (brigas, rivalidade, dominância, crítica) para que possa se relacionar (CARVALHO, 2017 apud SILVA, 2019).” é a busca do eu e da saída querendo se sentir adulta, mas na obra Julieta ainda possui uma jovialidade em relação a tudo o que pode auxiliar a pensar em turma sobre às questões: “mesmo diante dos conflitos, Julieta ainda age da mesma maneira doce que no início, porém com maior determinação. É preciso abandonar a infância em detrimento do crescimento? Como é possível amadurecer de verdade e não forçar a entrada na vida adulta?” e auxiliar os jovens em sua nova autonomia que não vem sem os conflitos, por exemplo “ensinar o debate saudável, escutar os dois lados e não precisar concordar com o outro, mas o aceitar” e “como os alunos observam a lealdade de Mercúrio, ele foi levado pela sua própria rivalidade ou a lealdade deve possuir um limite”, “como vocês observam às atitudes de Tibaldo? Vocês acreditam que é correto exercer a dominância de maneira violenta?”. Além disso, nessa fase eles desenvolvem maiores frustrações que podem ser expelidas em formato de raiva e com isso pensar sobre os aspectos “a lealdade justifica a violência?”, “o que você faria se alguém de confiança lhe traísse?" e “discordar é necessário para crescer, como você lida com essas críticas em seu dia a dia?” para que eles também observem que os sentimentos negativos não devem ser reprimidos ou expelidos de maneira a machucar outras pessoas verbalmente ou fisicamente.
“o adolescente passa por diversos sinais que apresentam desequilíbrios e instabilidades no contexto social e econômico, na qual se faz necessário para que se atinja a maturação, neste processo de desenvolvimento, tais características são representadas pela “síndrome normal da adolescência”.” é possível observar que dentro dos 10 critérios da ““síndrome normal da adolescência" se adequam fortemente aos tópicos citados anteriormente e podem ser associados a história de Romeu e Julieta:
Todos esses fatores fazem sentido na obra e na vida real, que são temas que representam os adolescentes. Esses 10 processos que deveriam ocorrer são ocasionados por fatores turbulentos na vida do casal gerando o sentimento de desamparo levando ao suicídio. Como nessa fase há todos esses novos sentimentos, eles vivem um turbilhão de emoções e alterações de tudo que eles acreditam estar certo. Relacionando esses aspectos a vida do aluno podem ser apresentados os temas: pressão da família, pressão da cultura, dilemas morais, conflitos em relacionamentos, e religião.
Romeu e Julieta apresenta um conflito entre famílias que impede os jovens de realizarem seus desejos a ponto deles cometerem o ato do suicídio. Isso pode ser espelho para diversas interpretações como a pressão da família (especialmente no ensino médio em relação a faculdade), pressão da cultura (às pessoas não se sentirem aceitas na sociedade e sofrerem preconceitos e ataques verbais e físicos como a xenofobia, homofobia e ataques contra pessoa trans relacionado a comunidade LGBTQIA+ de modo geral, racismo, social-econômico, antissemismo, religioso, gordofobia, capacitismo, sexismo e machismo), dilemas morais (entrada do aluno como ser social que pode exercer seu poder na legislação e define seus ideais políticos), conflitos em relacionamentos (enfrenta o mundo dos relacionamentos com mudanças corporais e de como adequar esses novos sentimentos em sua vida), e a religião (que pode levar o aluno a sofrer preconceitos e molda o caráter do mesmo, porém dentro das religiões há diversas vertentes e visões que nem sempre o aluno pode concordar e entrar em conflito de qual discurso seguir, além disso, a religião entra em dita fatores sociais como relacionamentos e construção do arco moral do aluno que é divergente entre uma turma).
Determinado isso, é necessário pensar na obra como um auxílio para observar que a morte dos jovens pode se assemelhar a qualquer mudança e conflito em uma ou mais desses âmbitos na vida do aluno. Romeu e Julieta são adolescentes que foram impedidos de seguir seu amor devido ao ódio da família, como muitos podem ser religiosos e viver em um ambiente homofóbico que danifica o aluno da comunidade e a literatura pode ser o apoio para pensar em soluções como “qual seria uma solução para Romeu e Julieta não terem se matado?”, “o que poderia ser diferente em relação às atitudes das famílias e do casal?” e “como pode se pensar em evitar a tragédia final?” de modo a gerar um debate entre os alunos e fazer com que eles procurem soluções positivas que podem fazer com que ele se abra a esses problemas (ele pode se sentir confortável em pedir por ajuda ou reparar em seu problema interno para pensar em como lidar com isso por meio de um sistema de apoio) e enfrente esses pensamentos de maneira positiva por meio do apoio da escola e da literatura.
O “adolescente pensa em tirar sua vida é porque não suporta mais e estar num momento de vulnerabilidade, ele já não consegue expressar seus sentimentos, angústia, tristeza, solidão” (BARATA, 2016 apud SILVA, 2019). Por isso, se mostra ainda mais necessário abrir o debate para os alunos e professores fornecendo um ambiente seguro para que isso seja expresso e libere às ideias presas em sua mente de modo a que o sofrimento seja “conhecido, compreendido, classificado e catalogado” (SILVA; ALVES; COUTO, 2016 apud SILVA, 2019).
“De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o desespero, desamparo e desesperança são os sentimentos que estão presentes na maioria dos adolescentes (SILVA, 2019)” por isso tem-se a questão: como oferecer amparo durante essa fase? Uma ação seria relacionar e apresentar às questões da obra e da vida real em formato de questões (algumas apresentadas previamente) e debater abertamente para que exista o diálogo com os alunos. De modo que “para entender os motivos que levaram a pessoa a se suicidar, ou ao menos aqueles que tiveram a ideação suicida, é necessário conhecer a história e principalmente sua dor, apurando os fatores desencadeadores que incomoda, para se seja um meio de ajuda para eliminar esse pensamento. (BOTEGA et. al, 2005 apud SILVA, 2019)”
Além de apresentar às questões é possível apresentar mais mídias que possuem o tema, especialmente às que são referências prévias dos alunos, e fazer a ponte entre a obra shakespeariana e as atuais em relação a como o tema é retratado.
ROMEU E JULIETA, THE TRAGEDY OF ROMEO E JULIET. A DISCUSSÃO SOBRE O PODER FAMILIAR, GISELE LEITE, 2021.
“refletir sobre a imaturidade e analisada detidamente”
“O antigo Código Civil de 1916 utilizava a expressão "pátrio poder", já que o poder era exercido exclusivamente pelo pai (...) O poder parental faz parte do estado das pessoas e por isso não pode ser alienado nem renunciado, delegado ou substabelecido.” (LEITE, 2021). O poder paterno era o superior e se assim era o desejo, deveria ser realizado os desejos paternos. O pai de Julieta se mostra resiliente até questionarem sua autoridade fazendo com que ele machucasse sua própria filha e Julieta é uma grande crítica a esse modelo social “Você acredita que as atitudes de Julieta demonstram determinação feminina contra o sistema?” “Nos dias atuais o pai ainda é detentor do poder familiar?”, “você acredita que Shakespeare estava questionando esse sistema?”
O código mudou, mas em muitas famílias a figura do pai ainda é vista como inquestionável e o poder familiar de modo geral é exercido. Muitas vezes o poder é usado de maneira correta, mas a partir de qual ponto a autoridade sobressai do poder da fala da criança? “O artigo 1.630 do Código Civil brasileiro afirma que os filhos estão sujeitos ao poder familiar enquanto menores.”
Além de apresentar às questões é possível apresentar mais mídias que possuem o tema, especialmente às que são referências prévias dos alunos, e fazer a ponte entre a obra shakespeariana e as atuais em relação a como o tema é retratado.
Ideia atividades:
Debates gerados pelos temas com perguntas selecionadas
Escrever uma história mudando o aspecto do suicídio pensando em maneiras como isso poderia ser resolvido (quadrinhos, narrativa, peça/construção de roteiro, minisaga
Histórias “e se” - por exemplo, o professor deixará em aberto o que os alunos podem alterar e obsrvar qual parte da história eles mais discordam e “e se Romeu e Julieta se passasse em 2022 no Brasil?” e observar como eles conseguem associar a obra a realidade e gerar discussões em relação ao tema
Os alunos podem escrever obituários sobre os personagens para o professor analisar qual o ponto de vista que eles possuem da obra e como isso refletirá no tema do suicídio. Como também, realizar um segmento de um jornal como Modern Love ou escrever um acontecimento como algum programa brasileiro como Casos de Família e observar de maneira sátira os aspectos discordantes da obra antes de se iniciar o debate.
Os livros da PNBE/PNLD podem auxiliar nos debates, por exemplo, Romeu e Julieta da Mariana Massarini e Ruth Rocha divide às borboletas por cor, e os alunos mais jovens podem ser questionados em quais critérios a nossa sociedade é dividida e por que segregar às pessoas é um conceito sem fundamentos.
A PNLD literária de 2021 aborda os tópicos: a vulnerabilidade dos jovens, bullying e respeito às diferenças, cidadania, diálogos com sociologia e antropologia, inquietação dos jovens e protagonismo infantil. Pensando dessa forma, Romeu e Julieta se enquadram em vulnerabilidade dos jovens, bullying e respeito às diferenças, inquietação dos jovens e protagonismo infantil, como também, esses temas são trabalhados em atividades do Shakespeare Vive nas Escolas que podem ser realizados exercícios com os alunos e o professor selecionar reportagens atuais para acrescentar aos temas e realizar o paralelo com a obra.
Suicídio na adolescência: [x], [x], [x].
Poder Familiar: [x]