Uma história de bullying no passado: a violência entre jovens, na sociedade esclavagista do Brasil, no século XVII.
Uma história de bullying no passado: a violência entre jovens, na sociedade esclavagista do Brasil, no século XVII.
"Paisagem no Brasil com vista para Olinda", pintura de Frans Post, 1680, Rijksmuseum, Amsterdão.
Estamos no ano da graça de nosso Senhor Jesus Cristo de 1670, e reina sua majestade, o ilustríssimo rei D. Afonso VI, O Vitorioso.
Josevaldo Maria é uma das muitas crianças que corre no átrio da casa grande, com a ardósia debaixo do braço, na direção do mestre-escola, que as espera debaixo do alpendre desta magnifica fazenda açucareira em Pernambuco, no Brasil. Este mulato, nascido na sanzala, talvez da idade dos dedos das mãos, é o único aluno de cor que está a aprender a ler e a escrever. E não é por acaso que está ali e não nas plantações de açúcar ou na fábrica, como todos os outros filhos dos escravos da propriedade. “Teve sorte! É filho do patrão…” – Diziam as bocas dissimuladas.
Hoje, Jô, como lhe chamam, está triste e com vontade de desaparecer, de fugir até àquelas cascatas lá longe no serrado, para nunca mais voltar. E logo ele, que tanto gosta de aprender e até o mestre-escola respeita a sua inteligência e aptidão para as letras e para as matemáticas. Mas, a humilhação é dupla e difícil de aguentar. Por um lado, os colegas brancos não o aceitam, ignorando-o e discriminando-o, constantemente, dizendo-lhe que ali não é o lugar dele.
E as coisas pioraram, quando o filho mais velho do capitão do mato, um adolescente muito violento, o começou a tratar como escravo. Desde o prender no tronco, chicoteá-lo, até atiçar-lhe os cães, colocando a sua vida em risco.
O pior é que Jô nem podia contar com a ajuda dos seus antigos amigos da sanzala, pois estes não o aceitavam mais, por já não ser um deles. Era um escravo liberto. E nem sequer preto era! E ainda por cima, filho enjeitado do patrão a armar-se em doutor. Também eles, quando podiam, lhe arreavam por quantas tinham.
E assim, andava Jô desesperado. Via os seus sonhos a desvanecerem-se e sentia-se cansado e magoado, sem qualquer capacidade para resistir. O mestre-escola ignorava a situação, dizendo que era tudo brincadeira de rapazes. A mãe nada podia fazer, e a família do pai não o aceitava, pois não passava de mais um bastardo.
Um dia, quando o sol caiu no horizonte do sertão, o menino Josevaldo Maria não voltou. Voara para a liberdade do cimo do penhasco da sua cachoeira preferida...
Comenta com os teus professores de Cidadania e História e Geografia de Portugal esta triste história e compara o passado com o presente. O que se mantêm? O que se alterou? Qual é a nossa realidade atual? De que forma podemos evitar a violência, o bullying e o racismo e promover a igualdade e o respeito entre todos?
Texto: Fernando Oliveira, professor.