Sessão de terapia acessível à todos
Na vida psíquica, não raro, nos vemos presos em jogos relacionais que parecem repetir-se como se fossem guiados por um roteiro invisível. Stephen Karpman nomeou um desses roteiros como Triângulo do Drama, composto por três posições: vítima, perseguidor e salvador. Movimentos circulares, quase coreografados, que podem aprisionar sujeitos em relações marcadas pela queixa, pela agressividade ou pela necessidade compulsiva de resgatar o outro.
A psicanálise reconhece nesse modelo algo que toca o inconsciente: papéis que repetem cenas infantis, transferências antigas, e que funcionam como defesas diante da angústia. A “vítima” revive algo do infantil desamparado, o “perseguidor” encarna a face punitiva do superego, o “salvador” ocupa o lugar onipotente de quem busca reparar, mas também controlar.
Se olharmos para esse triângulo através da lente de Howard Gardner e suas inteligências múltiplas, ampliamos o campo. Cada posição pode estar associada a modos específicos de mobilizar, ou de limitar, as inteligências humanas:
Vítima e a inteligência intrapessoal: a dificuldade em reconhecer recursos internos e lidar com emoções cria um campo fértil para o aprisionamento no papel de impotência.
Perseguidor e a inteligência lógico-matemática: usada de forma rígida, a racionalização pode se tornar arma de controle, julgamento e frieza relacional.
Salvador e a inteligência interpessoal: capacidade de se conectar ao outro, mas quando distorcida, transforma-se em invasão, dependência ou anulação de si.
Recordo-me de um paciente que, em meio a um casamento marcado por tensões, chegava sempre à sessão dizendo: “Não adianta, eu sempre sou o problema. Ela reclama de tudo que faço, e eu fico sem saída.” Ao se colocar no lugar de vítima, acionava apenas uma parte da sua inteligência intrapessoal: aquela que reconhece a dor, mas não a capacidade de escolha. Seu discurso era como um monólogo, um espelho trincado que só refletia a impotência.
Em outra situação clínica, uma jovem executiva trazia suas relações profissionais sempre permeadas por críticas ferozes: “Se eu não apontar os erros, tudo desanda. As pessoas precisam de alguém que as coloque no eixo.” No papel de perseguidora, sua inteligência lógico-matemática brilhava ao organizar processos, mas ao mesmo tempo tornava-se uma couraça que impedia qualquer aproximação afetiva. Havia ali um gozo na ordem, mas também um isolamento profundo.
Já uma terceira paciente dizia frequentemente: “Não consigo descansar, porque sempre tem alguém que precisa de mim.” Na posição de salvadora, sua inteligência interpessoal aparecia de forma exacerbada, transformando empatia em sobrecarga. A onipotência do cuidado escondia a dificuldade de entrar em contato com o próprio vazio, um medo antigo de não ter valor se não fosse útil ao outro.
Essas narrativas mostram que o triângulo dramático não é apenas um modelo teórico, mas uma experiência viva que atravessa consultórios, famílias e ambientes de trabalho. A saída, no entanto, não é moralizar os papéis, como “pare de ser vítima” ou “não salve mais ninguém”, mas sim deslocar o olhar para o que está em jogo no inconsciente.
É nesse ponto que introduzo a noção de consciência relacional. Trata-se da capacidade de perceber os próprios papéis no drama, reconhecer como eles são alimentados pelo desejo inconsciente e, ao mesmo tempo, ampliar o campo de escolha diante do outro. Não é apenas autoconsciência (intrapessoal), nem apenas empatia (interpessoal), mas a integração criativa das inteligências múltiplas a serviço do encontro humano.
A consciência relacional emerge quando o sujeito deixa de reagir automaticamente ao roteiro inconsciente e passa a sustentar a pergunta: “O que de mim se atualiza nesta cena? E como posso estar com o outro sem cair no automatismo do drama?”
Em outras palavras, trata-se de romper a circularidade do triângulo e abrir espaço para uma experiência simbólica, em que a inteligência deixa de servir à repetição e passa a servir à criação.
A vida psíquica não precisa ser refém de roteiros antigos. Quando o sujeito acessa a consciência relacional, as inteligências múltiplas deixam de ser distorcidas pelas defesas e tornam-se recursos para uma vida mais autêntica. O drama, antes inevitável, pode se transformar em narrativa criativa, e é nesse ponto que a o processo terapêutico faz lugar de reinvenção.
Gardner, H. (1995). Inteligências múltiplas: A teoria na prática. Porto Alegre: Artmed.
Karpman, S. (1968). Fairy tales and script drama analysis. Transactional Analysis Bulletin, 7(26), 39–43.
Freud, S. (1923). O ego e o id. Obras completas.
Laplanche, J., & Pontalis, J.-B. (1991). Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.