Sessão de terapia acessível à todos
Em tempos em que a gente vive sobrecarregado, tentando dar conta de tudo e de todos, tem uma frase que parece atravessar direto o coração: deixe estar.
Ela ficou conhecida por causa de um poema escrito por Cassie B. Phillips. Ali, ela diz algo como: deixe que escolham outra pessoa em vez de você, deixe que não liguem, deixe que não saibam como te amar. Pode soar duro no começo, mas também é libertador. Porque às vezes, tentar manter o que já não nos quer, o que não nos acolhe, nos machuca muito mais do que simplesmente soltar.
Deixar estar não é desistir. É respeitar os próprios limites. É parar de insistir em relações que exigem esforço demais para existir. É lembrar que o outro é livre, e que você também é.
Se alguém se afasta, deixe.
Se confunde ou não valoriza o que você oferece, deixe.
Se faz escolhas que machucam, mesmo que você tente entender, deixe.
Deixar não é desprezar. É escolher a sua paz.
Tem coisas que não dá pra forçar. Nem no amor, nem na amizade, nem na vida. Quando a gente tenta mudar o outro, insistir para que ele veja o que a gente vê, só aumenta a frustração. E quanto mais resistimos, mais ficamos presos ao que nos machuca.
Às vezes, soltar é o que faz surgir o que é verdadeiro. Nem tudo o que vai embora é perda. Às vezes é só uma verdade que demorou a se revelar.
A gente aprende muito sobre o amor quando ele não corresponde exatamente ao que esperávamos. Quando a pessoa erra, falha, se ausenta, e mesmo assim ainda existe afeto. Freud falava sobre isso: que amar alguém de verdade exige abrir mão da fantasia de que o outro existe para nos preencher.
Lacan dizia que amar é oferecer o que nem sempre temos, a alguém que nem sempre quer. No fundo, o amor vive também nesse desencontro, nesse risco de frustração.
E Winnicott lembrava que amar é aceitar que o outro não veio ao mundo para nos satisfazer. Que ele tem as próprias dores, limites, ausências. E mesmo assim, se houver encontro, pode nascer algo bonito.
Amar de verdade não é amar só o melhor do outro. É olhar para aquilo que nos decepciona e ainda assim permanecer inteiro. Reconhecer que o outro tem o direito de ser quem é, mesmo quando isso nos frustra.
Deixar estar é um ato de confiança. Confiar que o que for verdadeiro vai permanecer. Que o que tiver que se afastar, mesmo que doa, talvez esteja apenas abrindo espaço para algo mais leve.
Nem toda ausência é abandono.
Nem todo silêncio é rejeição.
Às vezes, é só a vida tentando te devolver a você.
Deixar estar é um movimento interno. Uma forma de dizer: eu não preciso mais me perder tentando segurar o que não se sustenta.
É, no fim das contas, um jeito simples e corajoso de voltar pra casa, para dentro de si.