Por: Gisely Alves Sousa
A população LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros – é vulnerável quanto ao respeito de seus direitos humanos e à preservação da integridade física e moral. A realidade da jovem Jeniffer Jaque Oliveira, de 19 anos, não é diferente. Mesmo após episódios de agressão física e violência psicológica, ela nunca perdeu as esperanças de um dia ser respeitada pela própria família.
Quando completou 16 anos, Jeniffer passou por uma transição de escolas e iniciou os estudos em uma instituição que a fez conhecer novas pessoas. Foi quando começou a conviver com jovens da comunidade LGBT. "Ter contato com esse meio foi um tanto impactante, pois ao mesmo tempo que eu sentia atração por meninas, na época eu também frequentava a igreja e carregava comigo um certo preconceito”, relata.
Reprodução: Acervo Pessoal
O processo de autoconhecimento ocorreu de forma natural, mas, de início, Jeniffer acreditava que fosse apenas empolgação de momento, devido ao período da puberdade e que logo sentiria atração somente por meninos.
Com o tempo, a garota permitiu conhecer a si mesma, porém, por medo da reação dos outros, ela se intitulava como bissexual apenas no ambiente escolar e do portão para fora, ela era a Jeniffer heterossexual. “Eu fingia ser o que não era”, diz.
A sensação de medo a todo instante e por conta do lar religioso em que cresceu, fez com que a jovem não se assumisse para a família. Diante disso, aos 17 anos, Jeniffer começou a ter um relacionamento escondido com Victoria (atual namorada).
“Nós tínhamos medo da reação dos meus pais e de ter que terminar nosso relacionamento caso alguém descobrisse, até que certo dia, a minha mãe descobriu”, lembra.
A garota relata de forma aflita, que a mãe começou a desconfiar do namoro, devido algumas pessoas contarem que a viram andando de mãos dadas na rua com Victoria. Dias se passaram e a mãe de Jeniffer descobriu a senha do celular da filha, e foi a partir daí que comprovou a existência do relacionamento, após ler algumas mensagens no WhatsApp.
Assim como grande parte dos jovens de sua idade, quando se trata da família, Jeniffer esperava receber amor, compreensão, carinho e conselhos, e que os pais fossem apoiá-la em sua decisão. Contudo, a garota ficou decepcionada com a reação negativa da mãe e do pai ao descobrirem sua orientação sexual. “Eu pensava que se contasse para minha mãe, talvez ela me entenderia, mas como diz o ditado: só é bonitinho na casa do vizinho”, relata.
A mãe da garota, que prefere não ter o nome revelado, rasgou todas as roupas que a filha usava para jogar futebol e a deixou trancada dentro de casa por um tempo. Já o pai, que também prefere manter a identidade em sigilo, ficou sem reação e a única coisa que conseguia fazer era chorar.
Apesar das reações negativas, Jeniffer imaginou que aquela situação tivesse sido encerrada, mas, na verdade, começou a evoluir. Ameaças, pressão psicológica e violência emocional passaram a fazer parte do cotidiano da jovem.
A garota trabalha como conciliadora de necessidades, em uma empresa que concede benefícios aos clientes por meio de um cartão de descontos.
Jeniffer e Victoria
Reprodução: Acervo Pessoal
E certo dia, quando retornou do trabalho e chegou em casa, se deparou com suas roupas jogadas na rua e a mãe dizia: “Se você não mudar, eu não quero você aqui, pois não aceito demônio agindo dentro da minha casa. Pega tudo que é seu, porque amanhã vai estar tudo queimado”.
A jovem ajoelhou, chorou e implorou para não sair de casa, mas, em contrapartida, a mãe bateu três vezes em seu rosto. “Eu já esperava que seria agredida, devido a minha mãe ter um sério problema de raiva excessiva e se descontrolar facilmente. A todo momento, eu sentia que precisava procurar outro lugar para morar. Eu estava sem rumo e acabei tendo que ir embora”, conta.
O irmão da garota, que na época era apenas uma criança, presenciou toda a cena e ouviu a seguinte frase da mãe: “Esquece, finge que ela não é a sua irmã, porque a partir de hoje, ela também não é mais a minha filha”, relembra. Após esse episódio, Jeniffer passou uma noite na casa da namorada e, no dia seguinte, retornou para seu lar, após receber inúmeras ligações e mensagens do pai, que arrependido, pedia para ela voltar.
Logo depois de se sentir humilhada, a jovem retornou para casa e afirma ter sido horrível voltar para um ambiente cercado de julgamentos e palavras malditas. Conforme os dias se passaram, a mãe da garota optou por cortar as relações com a filha e ambas ficaram sem se falar por cerca de três semanas.
Depois de um tempo, elas reestabeleceram seu relacionamento e finalmente Jeniffer ouviu o que tanto queria - o perdão da mãe. “Ela se arrependeu e eu senti que foi verdadeiro, sincero e de coração. Ela disse que estava pedindo perdão, pois sou a filha dela e não tomou uma atitude de mãe mediante a essa situação”, ressalta.
Mesmo com o pedido de desculpa, em nenhum momento, a mãe mencionou que se arrependeu pelo pensamento preconceituoso que carrega consigo e, sim, somente pelas atitudes que teve.
Atualmente, Jeniffer atribui as reações preconceituosas dos pais aos posicionamentos que a igreja impõe aos fiéis que, segundo ela, influenciou nas ações da família. Apesar disso, a garota continua frequentando uma outra congregação e admite se sentir bem nesse ambiente. “Minha família é muito alienada, devido aos ensinamentos da igreja que interferem na visão de mundo deles. Talvez, se a instituição fosse mais compreensível, seria diferente. A família da minha namorada não é religiosa e lá tudo flui facilmente”, conclui.
A família de Victoria sempre apoiou e acolheu bem a Jeniffer, o que fez a garota se sentir confortável. “Da mesma forma que a família da Victoria me acolheu, eu também queria que a minha acolhesse. Queria que houvesse reciprocidade e integração. Com o tempo, nós fomos aceitando a situação e vendo de outra forma. A Victoria se sente mal por não ser aceita, mas não deixamos isso influenciar a nossa relação”, afirma a garota que sempre tem o apoio da namorada nos momentos de dificuldade.
Jeniffer se emociona ao falar sobre seu relacionamento amoroso e destaca a importância de ter alguém para ser o porto seguro:
Devido a todos esses acontecimentos, Jeniffer foi diagnosticada com ansiedade e começou a fazer terapia com uma psicóloga. Ao longo do tratamento, foram utilizados calmantes e a garota aprendeu a realizar exercícios de respiração, que amenizam os sintomas da doença.
Por: Gisely Alves Sousa
A partir disso, compreendeu a importância de desenvolver pensamentos e atitudes positivas, que proporcionaram a ela um cotidiano mais leve. “A terapia foi uma válvula de escape, pois eu tinha alguém para me ouvir sem me julgar e que poderia me ajudar de verdade. Eu aprendi a mudar o meu pensamento, sentimento e comportamento para a lidar com as situações”, ressalta.
Agora Jeniffer se sente mais segura e realizada como mulher, livre para viajar, estudar e trabalhar, pois sabe que pode alcançar seus objetivos.
A perspectiva de futuro para ela é que, daqui a alguns anos, esteja em um emprego melhor e inicie a faculdade. “Quero viver e aproveitar a vida da melhor maneira possível, mesmo assim, o medo continua. Sei que tudo é e será um progresso”. E, continua: “Em um futuro próximo, planejo me casar com a Victoria”, conta sorrindo.