Introdução
Nesta seção é apresentado o relato da aplicação do produto em uma escola pública municipal com estudantes de duas turmas da segunda série do ensino médio.
Selecionei como Tema Raiz o assunto Ressonância Magnética Nuclear (RMN) que foi desdobrado em quinze subtemas. Vale destacar que consideremos Temas Raiz assuntos que tem potencial para desencadearem outros temas.
Acreditamos que esse relato poderá servir de inspiração para você desenvolver, uma vez que mostra que é viável fomentar a liberdade de expressão dos estudantes, obtendo resultados interessantes de aprendizagens para além da física curricular.
Relato
No segundo semestre de 2018 eu, que sou professor de física, propus aos meus estudantes, de duas salas da segunda série do ensino médio (2aA e 2aB) uma de uma escola pública de Barueri um trabalho diferente do habitual para eles, e para mim. Os estudantes deveriam elaborar, em grupos pequenos, sites de com conteúdos de física que tivessem relação com o fenômeno da ressonância magnética nuclear (RMN).
Notei que eles ficaram bastante espantados, pois sou um professor bastante tradicional. Além disso a maioria deles apenas utilizam a internet de forma pragmática, ou seja, para distração em jogos e interagirem nas redes sociais.
Deixei claro aos estudantes que queria desenvolvessem habilidades e competências além das propiciadas pelo estudo da física (como o protagonismo, a elaboração e organização de um site e a divulgação de conhecimento científico).
A minha motivação para aplicar essa metodologia de criação de sites se deu pela necessidade de promover um maior interesse dos meus estudantes pelo estudo da física e pela minhas aulas, se aproveitando das tecnologias da informação e da comunicação, que a cada dia que se passa está mais presente nas ações cotidianas e que, geralmente, os alunos se interessam. Além disso, tinha a expectativa de me aproximar mais dos estudantes e melhorar nossas relações interpessoais, uma vez que esse trabalho exigiria uma maior interação entre nós, extrapolando até mesmo os momentos na escola.
Escolhi o assunto RMN como Tema Raiz após conversar com o meu orientador do mestrado. Esse tema tem a potencialidade de ser desdobrado em vários assuntos de física e tecnologia. Além disso, o exame de imagem por ressonância magnética nuclear (IRMN) provoca bastante curiosidade nas pessoas por causa da qualidade das imagens, das características equipamento de RMN (forma e tamanho), dos procedimentos para a realização do exame (que muitos tem medo em fazer), e, além de tudo isso, por que não é difícil ver noticiários famosos realizaram esse exame.
Resumindo, o objetivo principal da proposta era se aproveitar dos interesses dos estudantes pelo uso das tecnologias e de assuntos de física diferentes aos tradicionalmente presentes no currículo escolar do ensino médio, como a RMN, para obter ganhos diferenciados de aprendizagem e melhorar as relações interpessoais.
Antes de iniciar o trabalho, levei as duas turmas no laboratório de informática e apliquei um questionário, usando o Google Forms, para saber alguns conhecimentos prévios dos meus estudantes sobre o assunto. As questões foram bem gerais, e incorporaram desde assuntos vistos costumeiramente na escola (como ondulatória básica) até perguntas sobre a natureza da energia nuclear (em nível bem básico). Para a minha surpresa, eles se saíram muito bem.
Após a aplicação do questionário, fiz uma aula em formato de palestra apresentando aos alunos uma visão geral sobre o exame da imagem por RMN. Os estudantes gostaram e alguns disseram que parentes e conhecidos deles já haviam realizado esse exame.
Desmembrei o Tema Raiz RMN nos seguintes subtemas:
1 - Energia (transformação);
2 - Medicina nuclear;
3 - Ondulatória (Princípios básicos);
4 - Ressonância (Amplificação do som);
5 - Spin (relação com magnetismo);
6 - Som (aplicações na medicina);
7 - Ondas eletromagnéticas (ondas de rádio);
8 - Equipamentos de diagnóstico (formação de imagens);
9 - Modelos atômicos (modelo nuclear);
10 - Radiações ionizantes;
11 - Radiações não ionizantes;
12 - Magnetismo;
13 - História do desenvolvimento do equipamento de Ressonância Magnética Nuclear (cientistas que contribuíram);
14 - Notícias veiculadas sobre a Ressonância Magnética Nuclear (cientistas que contribuíram);
15 - Procedimentos para a realização do exame de Ressonância Magnética Nuclear.
Vale destacar que o objetivo principal não era aprender com profundidade a RMN, mas a partir desse assunto, rever tópicos de física já estudados anteriormente (como a energia) e antecipar alguns (como o magnetismo).
Os estudantes formaram grupos entre 4 e 5 componentes. Não interferi nessa etapa. Cada grupo teve que escolher um líder. Esse aluno teria a responsabilidade representá-los e fazer contatos comigo quando necessário. Foram montados 7 grupos por sala.
Resolvei sortear os subtemas, usando um sorteador on-line, para tornar o processo mais lúdico e ser isento nesse processo. Cada grupo ficou responsável por desenvolver os sites com pelo menos dois subtemas.
Como em geral os estudantes estão bastante habituados com o uso da internet, usei apenas duas aulas para orientar os alunos na criação de uma conta do G-mail e mostrar como montar um site usando o Novo Google Sites. Realizou essa orientação no laboratório de informática usando o Data-show.
Frisei aos estudantes o cuidado que eles deveriam ter com plágio, orientando da necessidade de indicarem as fontes das informações pesquisadas e da imagens utilizadas.
Nessas mesmas aulas, os estudantes tiveram que compartilhar comigo os sites que acabaram de ser criados (mesmo quase sem conteúdos) para o acompanhamento dos trabalhos, o que foi essencial para o desenvolvimento dos sites. Uma vez que eles compartilharam os sites comigo, foi possível acompanhar e cobrar as produções dos sites. Nesse processo, verifiquei que alguns grupos eram bastante autônomos e outros necessitavam de mais incentivo e atenção.
Uma vez que tive acesso aos sites dos estudantes, pude realizar apontamentos e orientações nos próprios sites. Algumas vezes também realizei as orientações pessoalmente em sala de aula.
Os estudantes tiveram aproximadamente um mês para fazerem pesquisas, esclarecerem dúvidas e realizar a tarefa.
Na última semana para a conclusão dos sites reuni novamente os estudantes no laboratório de informática para permitirem que os eles mexessem nos sites e notei que alguns grupos mais autônomos ajudaram espontaneamente os grupos com mais dificuldades.
É importante destacar que nessa metodologia a avaliação dos estudantes aconteceu durante todo o processo de desenvolvimento dos sites. Para os alunos ficou claro que ela teve caráter formativo.
Todos os grupos conseguiram finalizar os sites dentro do prazo estipulado, e como era esperado, os trabalhos tiveram níveis de qualidade e de complexidades diversificados - grupos que ficaram com assuntos como Spin e radiações produziram sites mais superficiais, por outro lado, os grupos com temos mais simples conseguiram aprofundar uma pouco mais. É importante destacar que, mesmo com muita dificuldade, os estudantes procuraram estabelecer as relações entre os temas que lhes forma atribuídos e a RMN, e para isso, muitas vezes conversavam comigo nas aulas.
Vale destacar que como a RMN não é um assunto simples os estudantes procuraram dar uma noção desse fenômeno, usando imagens, vídeos no Youtube e textos simples, mas, mesmo na superficialidade, acredito que aprenderam muito.
Posso dizer que, através da metodologia de elaboração dos sites inspirados na RMN os alunos:
Reviram tópicos de física;
Anteciparam assuntos de física, como magnetismo e ondulatória;
Conheceram uma aplicação da física – O exame de ressonância magnética nuclear;
Aprenderam/usaram elementos da TIC (elaboração dos sites);
Desenvolveram a autonomia;
Trabalharam em grupo;
Cumpriram prazo;
Melhoraram a relação com o professor;
Se engajaram na tarefa;
Se interessaram mais pela ciência.
O relato exposto acima explicita a potencialidade da metodologia de produção de sites pelos estudantes, já que eles, além de terem se interessado pela tarefa, aprenderam conceitos de física e usaram as TIC de forma não pragmática.
Temos abaixo alguns sites desenvolvidos pelos estudantes: