O livro ocupa um papel que vai além de apenas educar. Na infância, ele atua como mediador de emoções e um importante instrumento de criação e fortalecimento de vínculos entre a criança e o adulto responsável. Por meio das narrativas, temas que muitas vezes são complexos e difíceis de serem explicados a uma criança podem ser apresentados de forma acessível, criando espaços de diálogo, acolhimento e desenvolvimento emocional. Esse foi o eixo que conduziu o bate-papo apresentado no 12° e último episódio do podcast Podler.
Durante a conversa, Roseane destacou a importância de se pensar na leitura fora de sua forma estrutural e consolidá-la como um recurso importante para o desenvolvimento emocional infantil. Segundo ela, “a linguagem funciona como um intermediário simbólico”, isto é, um espaço em que fantasias, pensamentos e imaginação podem ser elaborados e futuramente comunicados de forma mais clara.
O episódio também explica a importância de encontrar formas adequadas de abordar temas delicados com as crianças. Como afirmou Roseane, “Se conseguirmos explicar o final da vida para crianças, conseguimos explicar para todos”. Nesse contexto, o livro surge como um importante aliado. Um dos exemplos citados foi A vó adormecida, obra indicada pela professora, que trata da morte da avó de maneira sensível e acessível ao público infantil.
Ao longo da entrevista, foi reforçada a necessidade de criar espaços de leitura tanto no ambiente familiar quanto no escolar. A discussão apontou ainda para a responsabilidade dos adultos em assumirem o papel de mediadores da leitura, não apenas incentivando, mas incorporando essa prática ao cotidiano e construindo vínculos afetivos por meio dela.
A Justiça Restaurativa é um conjunto de princípios, métodos, técnicas e atividades voltados à conscientização sobre os fatores que motivaram os conflitos e violências. Mais do que uma técnica de resolução de conflitos, promove espaços de escuta, responsabilização ativa e fortalecimento das relações humanas e institucionais.
A participação em áudio de Liliane ampliou o debate ao apresentar o funcionamento da justiça restaurativa nas escolas, destacando práticas baseadas principalmente no diálogo, base da justiça restaurativa. Sua contribuição dialoga com o tema do episódio ao mostrar que, assim como o papel dos livros citados por Roseane, esses processos movidos por compreensão e acolhimento, também favorecem a reconstrução de vínculos e o desenvolvimento socioemocional. A conversa abordou questões sociais mais amplas ao afirmar que “as crianças vivem da nossa violência”, afirmando que o ambiente que cerca a criança impacta diretamento no seu processo de crescimento.
O episódio encerra afirmando mais uma vez a importância do diálogo, da escuta e do incentivo à leitura como caminhos fundamentais para a promoção da saúde mental, do fortalecimento dos laços afetivos e da construção de relações mais conscientes desde a infância.
Livros indicados:
Podcast PROLER - Episódio 12
Da ficção à realidade: O livro como mediador de emoções, conflitos e reconstrução de vínculos.
Poder ler está no ar, uma temporada especial que nasce do encontro com Proler, Baixada Santista Unisanta. Aqui, cada episódio é um convite, ouvir histórias, incentivar a leitura e descobrir, entre conversas e indicações, novos caminhos literários. O Poder ler é produzido por estudantes do segundo ano de jornalismo da Unisanta.
Vem ouvir com a gente! Olá, começa agora um novo episódio do Poder Baixada Santista Unisanta, composto por nós, alunas do segundo ano de jornalismo, Lara Flores e Laura Andrade. No episódio de hoje, abordaremos o tema O Livro como Mediador de Emoções e Reconstrutor de Vínculos. Para esse encontro, convidamos a Rosiane Cordeiro, psicóloga e professora da Unisanta, com a participação especial também da Liliane Rezende, coordenadora do Programa Municipal de Justiça Restaurativa de Santos.
Seja muito bem-vinda, Rosiane! Muito obrigada, meninas! É um prazer estar aqui com vocês. Roseane, seja muito bem-vinda à nossa conversa e queria que você nos contasse um pouco sobre você e a ligação do livro com a psicologia. Tá, eu, a minha formação é, sou psicóloga, sempre trabalhei em hospital, então a minha vida profissional inteira foi em hospital, seja ele hospital psiquiátrico, e nos últimos, talvez, 25 anos trabalhei bastante em UTI, com captação de órgãos.
A minha especialização é psicanálise, embora seja psicóloga hospitalar também, e gosto muito também da temática da finitude. Em função de alguns acontecimentos profissionais, esse tema foi me chamando. Eu trabalho aqui como professora, tem seis anos, e uma das disciplinas que eu dou é cuidado paliativos, morte e suicídio, que é um tema tão delicado, tão importante, mas tão fora das nossas reflexões cotidianas.
Portanto, eu fui pensando, bom, eu sempre tive uma relação com o conhecimento, com a produção do conhecimento, que ele precisa estar próximo das pessoas, né? As pessoas precisam entender o que os especialistas falam, e aí como motivar pessoas, alunos, formá-los para discutir um tema tão difícil quanto a finitude. E me ocorreu que se a gente conseguir conversar com crianças sobre a morte, sobre o final da vida, sobre o final das coisas, seremos capazes de conversar isso com qualquer pessoa, em qualquer circunstância. E ninguém melhor do que os alunos de jornalismo para compor com a psicologia e pensarmos em estratégias para fazer algo que realmente pode ser interessante.
Que o aluno venha não só para tirar nota e passar naquela disciplina, que é uma coisa importante, mas que isso desperte interesse, desperte curiosidade, desperte uma série de outros conhecimentos que jamais estaria posto se não fosse essa atividade criativa, né? Então, talvez eu tenha fugido um pouco da pergunta de vocês, mas... não, mas a gente ia focar nisso, nesse projeto que você tem com a galera de psicologia, e como você acha que através do livro e tratar desses assuntos pesados, né? Doação de órgãos, a morte, para a criança até lidar com isso, como isso pode ser um mediador até de emoções e de conflitos, assim, que a criança possa se desenvolver. Não só a criança, também adultos. Então, as crianças, por incrível que pareça, elas têm, elas se aproximam desses temas com mais facilidade, muitas vezes mais difícil para um adulto, que na melhor da intenção de poupar a criança de um sofrimento a mais, supondo que ela não seja capaz de lidar com os acontecimentos naturais da vida, e, portanto, a morte faz parte dele, acaba desprotegendo essa criança.
Vamos imaginar uma coisa bastante concreta, sei lá, o conhecimento de matemática. É difícil, é complexo, e vamos imaginar que um pai e uma mãe, por considerar isso complexo, vai evitar com que a criança entre em contato com esse conhecimento. Longe de preparar a criança para se desenvolver nessa área, na área da lógica da matemática, você vai fazer justamente o contrário.
Então, quanto mais a gente retira esse tema da vida comum, menos a gente prepara essas crianças para se tornar um adulto e conseguir enfrentar temas como, por exemplo, o final da vida, porque isso vai acontecer. E não acontece só do ponto de vista da morte objetiva de uma pessoa. Acontece a morte daquele corpo da infância, a morte daqueles pais idealizados quando você entra na adolescência, a morte daquele primeiro amor que, na verdade, não se realizou como você supunha.
A gente vive uma série de perdas. Então, poder falar com crianças pequenas que perdem seus bichinhos, a avó que um dia some ou começa a ficar diferentona e aí você vai descobrir que a vovó está meio gaga. Então, isso tudo pode ser uma coisa bastante rica e interessante para a criança e não retirá-la desse contato.
A gente queria saber de que forma a leitura pode funcionar como uma ferramenta psicológica, mesmo sendo uma atividade individual. Então, a leitura, a linguagem, de certa forma, ela funciona como um intermediário simbólico. Vamos imaginar, o que eu estou querendo dizer com isso? Vamos traduzir os conceitos para que as pessoas possam se apropriar deles.
Eu estava aqui querendo me referir ao seguinte, eu lembrei de um evento muito trágico que aconteceu, acho que foi o ano passado ou retrasado, acho que foi o ano passado, de um jovem de São Paulo, um jovem de 13 anos, que teve um desentendimento com uma professora, uma professora um pouco mais idosa, acho que 73 anos, e ele mata essa professora com facadas e tal. Foi, acho que, escola Lucimontor, se não me engano. Veja, se esse jovem fosse incapaz de dizer para essa professora, eu tenho muita raiva do que os adultos fizeram comigo, ele já era a terceira escola que ele tinha sido expulso.
Ele deve ter tido uma série de dificuldades na sua vida anterior, na sua vida pregressa, desculpe. Então, se esse jovem fosse capaz de poder expressar com palavras, e a leitura vai ajudar nisso, por exemplo, se ele lê livros, coisas do nosso cotidiano, hoje talvez nem tanto, mas como, por exemplo, João e Maria, que tem a bruxa malvada, que aprisiona eles, e os dois sozinhos, e o sofrimento, etc., e tal. Se talvez esse jovem tivesse tido essa possibilidade, esse acesso à leitura, talvez ele não precisasse matar, concretamente, mas talvez ele pudesse matar imaginando coisas, ou falando coisas para aquela professora, que talvez tenha feito alguma coisa que para ele tenha sido muito difícil, ofensiva, etc, e tal.
Então, a linguagem tem uma função importante, e uma delas é intermediar, ser um lugar, um campo onde a gente realiza, com a nossa fantasia, uma série de experiências, e é muito enriquecedor. Você vai experimentar sentimentos, sensações, que talvez sem a leitura você não teria essa possibilidade, ainda que solitariamente. E na sua opinião, Rose, como a saúde mental vem se transformando ao longo dos anos? A gente pode relacionar isso com a falta de incentivo à leitura? Olha, cada vez mais o livro físico, e acho que existem outras formas de você ler, que não só no livro físico, eu não sei como nomear, cada vez mais o jovem ou a criança está sendo pouco estimulado a isso.
A gente vê alguns bolsões de algumas famílias muito preocupadas, muito preocupada com o excesso de tela, então a gente também vê essa preocupação. Mas é importante que a gente crie espaços nas escolas, nas famílias, e a gente só vai poder estimular uma criança a leitura se você for leitor. Então, muito mais do que dizer, você tem que ser exemplo daquilo, seja lá o que for.
Então, é uma coisa bastante importante. Eu lembro de um jovem pai, das minhas relações, estava contando que o filho de três anos entrou em contato com um livro, talvez tenha sido a primeira vez, ou as primeiras vezes, ele pegou o livro e batia na capa do livro tentando mudar a tela. Nossa! Então, era uma criança de três para quatro anos, de classe média, com boas escolas, etc, mas que não tinha o estímulo da leitura.
Então, eu fiquei tão impressionada com esse relato. Então, a gente precisa cuidar. Sim.
A gente notou que você trouxe livros para o encontro e queríamos saber por que você acha que eles são tão marcantes nessa geração de crianças, qual é a necessidade que elas têm de ler e como que eles são relevantes para isso. Tá. São livros diversos, tocam questões do meu interesse também.
Então, esse Serena Finitude está falando, o título por si só já diz, vai lidar com as questões da morte, a finitude. Esse livro aqui, A Avó Adormecida, conta a história de uma avó que vai ficando diferente, quietinha, parada, ou seja, fala da história de uma avó com Alzheimer e isso está cada vez mais presente na nossa vida. Tita e a Alegria que Doía fala dos afetos e fala dessa mocinha que é meio diferentona.
Então, traz questões da atualidade. Esse é um livro do Graciliano Ramos que tem ilustrações muito bonitas. Conta a história de um urubu que come os filhotes da coruja.
É uma coisa horrorosa. O meu neto tem muito medo desse livro. Ele não quer.
Não, vovó, eu só tenho medo. As crianças lidam com muita violência e agressividade da nossa própria natureza humana. As crianças mordem, as crianças pequenas.
Elas têm raiva, elas arremessam coisas. Então, esses afetos são muito a flor da pele. Então, você poder lidar com coisas muito nua e cruamente desses afetos ajuda a criança a imaginar coisas, a compreender os seus impulsos, ajuda a organizar afetos e sentimentos.
Então, por mais esquisitão que pode parecer, ele tem a sua função. As fábulas são todas muito horrorosas. A bruxa malvada, a madrasta, todas aquelas coisas.
Tem esse aqui que é muito interessante, chama O Mário que não era de Andrade, que é uma criança nascida em São Paulo, mas ele é o Mário, mas não o de Andrade. Então, traz as nossas tradições. Aqui de São Paulo já é para um público um pouco maior.
E todas as nossas lendas, do Saci Pererê e por aí afora. O Menino Maluquinho, que é uma delícia que atravessa gerações. Os pais de hoje leram e apresentam para os seus filhos.
Então, a gente tem uma variedade de possibilidades, de viagens. E é isso, a gente precisa apresentar para as crianças coisas da nossa natureza humana e ajudá-las a organizar esses afetos. Com certeza.
Que demais, Roseane. E para esse episódio também, a gente convidou a Liliane, que vai nos contar como funciona um pouco da justiça restaurativa. A justiça restaurativa nas escolas é uma abordagem que busca cuidar das relações e transformar conflitos em oportunidades de aprendizagem, diferente de uma lógica punitiva.
Ela convida estudantes, educadores e toda a comunidade escolar a dialogarem sobre o que aconteceu, compreenderem os impactos e, principalmente, construírem juntos formas de reparar os danos. Na prática, isso acontece por meio das práticas restaurativas, como círculos de diálogo, que são espaços seguros de escuta, fala e responsabilização. Essas práticas estão em consonância com a educação restaurativa, que integra o nosso currículo santista e o projeto político-pedagógico das escolas, fortalecendo uma cultura de paz no cotidiano escolar.
Isso é essencial, porque deixa de ser uma ação pontual e passa a ser uma diretriz educativa. Ou seja, a escola passa a ensinar, intencionalmente, empatia, diálogo, corresponsabilidade e a transformação de conflitos. E, nesse contexto, o livro se torna uma ferramenta extremamente potente de mediação.
Eu sou co-autora de dois livros que são trabalhados nas escolas com esse propósito. O primeiro é Um Dia de Paz Restaurativa, que é a primeira literatura infanto-juvenil a abordar as práticas restaurativas no ambiente escolar, trazendo temas como o bullying, a gordofobia, o racismo, preconceito de gênero, dentre outros, de uma forma acessível e sensível. E o segundo é O Paz do Coração, uma obra que escrevi com Vanessa Raton e que tem como objetivo ajudar a conversar com crianças sobre paz, sobre o enfrentamento do machismo e, especialmente, sobre a violência doméstica.
Este livro propõe algo muito importante, dialogar com as crianças de forma sensível, contribuindo para a prevenção da violência e para a construção de uma sociedade mais consciente, desde a infância. O livro, nesse processo, funciona como um mediador. Ele ajuda a iniciar conversas difíceis de maneira mais acolhedora.
Por quê? Permite que os estudantes se identifiquem com as histórias, reconheçam as emoções e reflitam sobre suas próprias vivências. Além disso, ele desloca o foco da pessoa para a narrativa, facilitando a escuta e reduzindo julgamentos. Muitas vezes, aquilo que é difícil de dizer diretamente acaba encontrando espaço por meio da história.
Assim, o livro não é apenas um recurso pedagógico. Ele é um instrumento de construção de sentido, de desenvolvimento emocional e de fortalecimento de vínculos. Portanto, a justiça restaurativa nas escolas, alinhada à educação restaurativa no currículo santista e no projeto político pedagógico e aliada ao uso do livro como ferramenta de mediação, contribui diretamente para formar não só estudantes, mas cidadãos mais empáticos e conscientes e comprometidos com uma cultura de paz.
Porque quando a escola ensina a restaurar relações, ela não transforma apenas conflitos. Ela transforma o futuro. Obrigada, Liliane, pela sua participação.
E, Roseane, a gente queria saber qual o livro, o seu livro favorito, um só, que você indicaria na nossa conversa. Isso é difícil um livro favorito, mas eu vou contar, em vez do livro favorito, as últimas leituras e que eu gostei bastante. Tudo bem.
Eu li um livro que eu estava muito curiosa de ler. É uma antropóloga, que eu não vou lembrar o nome dela. Ela é francesa e chama-se Escute as Feras.
A história é que ela foi mordida por um urso e poucas pessoas sobrevivem a esse encontro. Ela vai narrando a relação dela com esse urso, com essa fera, e o que ser mordida e ter vivido essa situação limite transformou a vida dela. Junta com as lendas, isso foi lá na União Soviética, e tem uma lenda que quando você é mordida por um urso e sobrevive, parte do urso habita você.
E ela, como antropóloga, faz uma viagem muito interessante. Então, eu gostei bastante. E eu estou lendo agora o livro Tortuarado, que também está acima da minha expectativa.
Estou muito encantada com a escrita, muito forte, muito poderosa. Bom, Roseane, a gente agradece pela sua participação. Tem alguma coisa para dizer? Se você quiser deixar algum canal de contato, um Instagram, se os ouvintes gostam... eu sou ruim disso.
Eu tenho Instagram, mas não é movimentado. É pouco uso. Então, qualquer coisa bate aqui na UniSanta, né? Isso, isso.
Então, tá bom. Eu que agradeço, meninas. Obrigada, Roseane, e obrigada, ouvintes, por acompanhar até aqui.
Tchau, tchau.
Transcrito por TurboScribe.
Por: Lara Flores e Laura Andrade (apresentação) Giovanna Lorca (produção) Maria Eduarda Rodrigues (gravação)