A incerteza foi a marca do ano de 2025. As tarifas de Donald Trump, a turbulência no mercado financeiro americano e a escalada das guerras trouxeram uma grande dose de insegurança e pessimismo em relação ao que iria ocorrer com o comércio e a economia mundial. Os cenários mais nebulosos, porém, não se concretizaram.
No Brasil, as altas taxas de juros, a desaceleração economia e os escândalos que colocaram o sistema financeiro nas páginas policiais contribuíram para um cenário adverso. A riqueza financeira, contudo, seguiu em franca expansão, com a bolsa quebrando recordes e juros gordos, enquanto o crédito e o mercado de capitais respondiam à política monetária contracionista.
A regulação e a supervisão financeiras foram colocadas a teste e inúmeras discussões sobre a institucionalidade do sistema financeiro brasileiro vieram à tona. O estímulo à competição das fintechs resultou em maior leniência e mais vulnerabilidades ao sistema financeiro brasileiro? As autoridades falharam e/ou demoraram a agir no caso do banco Master? Qual arquitetura institucional pode ser mais efetiva para garantir a solidez do sistema?
A Retrospectiva do Sistema Financeiro 2025 discute esses e outros temas, trazendo análises críticas que possam ajudar a compreender não só a conjuntura, mas também movimentos estruturais que influenciam o sistema financeiro e a economia no mundo e, principalmente, no Brasil.
Norberto Montani discute o contexto de incerteza após Donald Trump iniciar seu segundo mandato. O artigo discute os efeitos das tarifas, seus impactos nos mercados financeiros globais e seus impactos sobre a política de juros do banco central americano. O período de turbulência e a fuga do dólar foram contrapostos a um período de relativa calmaria e apreciação dos ativos, com um boom das empresas de Inteligência Artificial e uma valorização sem precedentes da riqueza na bolsa americana. O artigo chama atenção para o fato de que o ano de 2025 termina com um aumento da fragilidade financeira, em que a variável chave é o tempo: Quanto tempo levará para que novos choques exógenos, originados por Trump ou no processo de construção do novo ordenamento global, venham a surgir? Leia mais +
Os mercados de operações compromissadas nos EUA atingiram aproximadamente US$ 12,6 trilhões em 2025. É um volume enorme, que afeta a estabilidade e a liquidez tanto do sistema monetário americano quanto do internacional. Gabriel Porto e Ernani Torres discutem a volatilidade na precificação dos mercados monetários e o aumento da demanda de instituições não bancárias por liquidez de curtíssimo prazo, tendo como pano de fundo a atuação do Federal Reserve. A combinação entre os deslocamentos nas taxas dos mercados monetários dos EUA e as mudanças na condução da política monetária sugere uma correlação entre ambos, chamando atenção a substancial redução do balanço da autoridade monetária. Nesse arranjo, defendem, o Fed pode se ver obrigado a prover rapidamente um elevado volume de dinheiro para assegurar o bom funcionamento do sistema - o que serve de lição para autoridades de outras jurisdições. Leia mais +
Eduardo Mantoan e Bruno Mader recapitulam a trajetória restritiva da política monetária brasileira no ano que passou. Os autores discutem os elementos que justificaram as decisões do Banco Central do Brasil, colocando sob uma lupa as decisões da autoridade monetária em relação à taxa de juros e à política cambial adotada. Com a taxa Selic em patamar elevado, o aumento do comprometimento da renda das famílias, a escalada do custo do serviço da dívida pública e a retroalimentação entre juros altos e endividamento revelam um quadro em que a própria política monetária passou a criar novas fragilidades macroeconômicas, tornando seu êxito ambíguo. Leia mais +
Após praticamente dobrar em 2024, o mercado de crédito corporativo se expandiu apenas 8% em termos nominais em 2025 - ou cerca de 4% em termos reais. Ernani Torres argumenta que, embora as emissões tenham superado pela primeira vez a barreira do R$ 1 trilhão, é um resultado medíocre, porém esperado, tendo em vista a política monetária contracionista. As emissões de debêntures incentivadas e os desembolsos do BNDES foram os destaques do ano, com forte expansão das operações do banco de desenvolvimento. Contudo, o que movimentou o mercado foi a proposta de mudança da tributação dos títulos isentos, que levou a fluxos em prol dos ativos incentivados e afetou a precificação: em alguns momentos, alguns emissores chegaram a conseguir captar recursos a taxas inferiores ao custo dos papéis do Tesouro Nacional. Embora o Congresso tenha barrado a medida, ela ainda pode ser resgatada no ano de 2026. Leia mais +
A fragilidade financeira das famílias tem tomado conta dos noticiários econômicos em 2026. Para entender como chegamos a esse ponto, Paula Sarno e Rudrá Balmant analisam os principais dados do mercado de crédito, ressaltando a piora nos indicadores de endividamento e de qualidade dos empréstimos ao longo do ano passado. Descrevem também o Crédito do Trabalhador, que repaginou o consignado privado para permitir que as famílias pudessem substituir linhas de crédito sem garantia por crédito com garantia, o que, em teoria, resultaria em taxas de juros menores. Porém, ao não instituir limites de juros, viu-se, na prática, que a magnitude da garantia oferecida pelo trabalhador não foi refletida de forma justa nas taxas praticadas. Leia mais +
Rudrá Balmant reconstitui os cinco anos do Pix, um arranjo de pagamentos inovador, que se tornou o principal meio de transferência e pagamento eletrônico no país. O autor rememora a evolução do sistema de pagamentos brasileiro desde o início do século XXI, ressaltando a posição de vanguarda da nossa regulação e infraestrutura. O desenho do sistema de pagamentos instantâneos, a arquitetura do Pix e os principais dados do sistema de pagamentos são destrinchados na sequência. Rudrá conclui que o Pix se consolidou como uma das bem-sucedidas inovações gestadas pelo setor público brasileiro: sua rápida difusão, com elevada taxa de adoção, principalmente entre pessoas físicas, evidencia a capacidade de uma infraestrutura pública bem desenhada transformar mercados e formar novos hábitos. Leia mais +
Em 2025, o sistema financeiro passou a ocupar também as páginas policiais dos jornais. Pedro Faulhaber e Luiz Fernando de Paula realizam uma análise detalhada sobre o caso do banco Master, liquidado pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025. Ao gerar um prejuízo de R$ 41 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — um terço do caixa do Fundo — e 1,6 milhão de investidores a serem ressarcidos, o caso pode ser classificado como a maior fraude financeira da história econômica brasileira. Os autores mostram como o Master atuava e discutem o imbróglio político associado à falência da instituição. Apontam também que essa experiência reabre o debate sobre o grau de preparo da regulação prudencial brasileira para lidar com a tendência recente de aumento da competição do setor financeiro. Leia mais +
Luiz Macahyba explora a discussão do artigo anterior com mais profundidade: como competição e regulação financeira se relacionam? O autor recapitula elementos da teoria de regulação financeira e discute como são concebidos os arcabouços regulatórios, ressaltando que o modelo de regulação ideal não existe: o ideal é aquele que considera as particularidades históricas, culturais, políticas, além do tamanho e da complexidade de cada jurisdição. Macahyba analisa, então, a decisão do Banco Central do Brasil e do Conselho Monetário Nacional de refletir na regulação brasileira a abordagem que tem por princípio a ideia de que atividades que carregam os mesmos riscos devem estar sujeitas a uma mesma regulação, independentemente do tipo de instituição autorizada a funcionar. A aplicação do princípio “same activity, same risk, same regulation” é detalhada a partir de suas implicações sobre as diferentes instituições financeiras, inclusive, fintechs. Leia mais +
Após quase três décadas, as finanças sustentáveis se consolidaram. Sua evolução reflete um esforço internacional para transformar o sistema financeiro num motor da transição para economias de baixo carbono, mais inclusivas e sustentáveis. Fernanda Feil, Carmem Feijó e Lorena Holanda discutem esse histórico de iniciativas e analisam como o Brasil se posiciona nessa agenda. As autoras argumentam que o Brasil tem um grande potencial de expansão das finanças sustentáveis e, dada a riqueza de sua biodiversidade e sua capacidade de geração de energia com recursos renováveis, pode se colocar como líder na formação de agendas nesse mercado. Apontam ainda que o país tem demonstrado maturidade ao avançar em um arcabouço regulatório robusto, no desenvolvimento de uma taxonomia nacional e em políticas como o Plano de Transformação Ecológica. Leia mais +
Uma taxonomia sustentável é um sistema de classificação estruturado que estabelece critérios para identificar quais atividades econômicas, setores, projetos e inovações podem ser considerados sustentáveis, ou alinhados a objetivos ambientais e sociais. Elas servem para operacionalizar políticas públicas e estratégias de mercado em prol da transição verde. Carmem Feijó, Fernanda Feil, Luiz Fernando de Paula e Pedro Ludovico discutem os princípios que orientam a elaboração de taxonomias ao redor do mundo e analisam a Taxonomia Sustentável Brasileira. A taxonomia brasileira adota a equidade social como dimensão operacional, com métricas obrigatórias. Sua articulação com políticas industriais verdes também é tida como um diferencial da abordagem do país. Leia mais +
Sergio Páez traz um novo enfoque à discussão do sistema financeiro brasileiro, analisando a transformação que a digitalização dos serviços bancários acarretou em termos da organização dos territórios e do espaço urbano. Entre 2018 e 2024, mais de cinco mil agências bancárias foram fechadas no Brasil. Essa é uma tendência global, mas que foi acentuada no país, com importantes disparidades regionais. Os dois principais bancos privados, Bradesco e Itaú, responderam conjuntamente por aproximadamente 70% de todas as agências fechadas. Já Banco do Brasil e Caixa também reduziram suas redes, mas numa proporção muito menor, refletindo o papel institucional dessas entidades, que continuam operando como instrumentos de políticas públicas e mantendo presença territorial. O autor aponta que o fechamento de milhares de agências pode intensificar a degradação urbana, o esvaziamento de bairros e a perda de dinamismo econômico local, o que irá demandar a formulação de políticas urbanas e habitacionais que permitam lidar com o novo panorama. Leia mais +