Resenhas produzidas pelos participantes do NAC .
A rotina da “vida adulta” tende a nos fazer esquecer de hábitos que costumavam nos fazer muito bem e a leitura, para mim, foi um dos hábitos que aos poucos fui deixando de lado. Antes de entrar no curso de Técnico em Cozinha pelo IFPE, cursei Bacharelado em História pela UFPE, e como é de se imaginar a leitura era constante. Entretanto muitas dessas, eram leituras cansativas, obrigatórias e de difícil compreensão, a pilha de livro por ler foi se acumulando, já não tinha mais paciência e algo pelo qual era era apaixonada, passou a ser escanteado.
Uma nova fase da minha vida começou e tive a esperança de retomar o ritmo, contudo isso não ocorreu. Lia um ou outro romance de banca com suas escrita simples e seus finais sempre felizes e alguns romances online de uma escritora que conheço e admiro, mas não passava de um a cada (provavelmente) seis meses.
E foi no início do ano de 2020 que algo “inusitado” ocorreu, uma pandemia que insiste em ficar matou e continua matando inúmeras pessoas no mundo inteiro e nós nos vimos obrigados a nos trancar em nossas casas. Agora isolada, sem a correria de antes, tive e tenho bastante tempo para ocupar-me com minha antiga paixão, resolvi colocar algumas pendências do curso em dia, comprei livros sobre Gastronomia Molecular e de 3 só um foi concluído. Busquei por Fanfics, mas assim como os romances de banca, sempre com sua escrita de fácil compreensão e, às vezes, beirando a bobagem também acabou perdendo a graça. Cansei! Fui para fase de cursos online… Cansei!
Resolvi organizar meus livros e aproveitar um espaço que surgiu na casa dos meus avós para montar minha tão sonhada biblioteca. Missão cumprida! Ao concluir percebi que tenho muitos livros incríveis que não terminei ou nem sequer comecei, seja de História, Antropologia, Literatura Brasileira e Internacional, Gastronomia, mangás… enfim. O primeiro passo precisava ser dado. O que fiz? Admirei minha obra ( a biblioteca dos sonhos) e deixei para lá.
Porém eu gosto muito de finais felizes e não poderia finalizar de maneira diferente. Tive a oportunidade de conhecer a Oficina de Leitura do IFPE e como uma luz no fim do caminho vislumbrei uma solução, ou salvação, defina como achar melhor. Estou quase terminando o Diário de Anne Frank, me encantei com a escritora Conceição Evaristo e irei iniciar a tão temida por mim “A Metamorfose” de Franz Kafka.
Para uma nova fase, para uma nova vida, para mais novas histórias.
O anime e o mangá são dos gêneros: Fantasia, Shonen/Shounen que é voltado ao público jovem masculino. A obra conta a jornada de Asta e Yuno, jovens amigos que foram abandonados na porta de uma igreja no vilarejo de Hage na Região Esquecida do Reino de Clover. Os jovens compartilham o mesmo sonho, ambos desejam ser o Rei Mago, mas, Asta possui uma coisa rara nesse mundo onde magia é tudo; ele nasceu sem poderes mágicos, por outro lado, Yuno nasceu sendo um prodígio na magia, e os amigos e rivais ao mesmo tempo seguem fazendo tudo ao alcance deles para atingir seus objetivos.
Nesta obra pode-se notar alguns temas como a valorização da amizade, principalmente em momentos onde parece ser impossível de apoiar ou defender quem você ama, além disso, pode-se notar a grande diferença de classes, visto que grande parte da nobreza menospreza os plebeus e sequer os dá ouvido quando mais precisam.
A história ainda tem muito que desenvolver ao longo do tempo. O Mangá atualmente é distribuído no Brasil pela Panini e o anime pode ser encontrado tanto dublado quanto legendado no serviço de streaming Crunchyroll, nele pode-se encontrar outras obras de origem nipônica e asiáticas de uma forma genérica, e também é transmitido na TV aberta pelo canal Rede Brasil.
Nesse período de pandemia, pesquisei livros sobre como melhorar o rendimento nos estudos, e o “Vida Intelectual - Seu espírito, suas condições, seus métodos”, do A. -D. Sertillanges, foi um dos descobertos, esse livro é fascinante, ele dá as diretrizes para que o estudante desenvolva uma vida intelectual, uma vida voltada para os estudos, para que se torne autodidata. O livro não é um manual de regras e métodos, é na verdade um guia para a vida e que pode levar o leitor a um outro nível de aprendizado. Ele traz recomendações, que mesmo sendo escritas em 1920, permanecem atuais. Para ele, o intelectual é um “consagrado”.
Livro que estou lendo: A vida intelectual - seu espírito, suas condições, seus métodos; escrito pelo Pe. Antônio -Dalmance Sertillanges, que também era filósofo e teólogo. Considerado um dos maiores expoentes do neotomismo da primeira metade do séc. XX. Publicado originalmente em 1920, e atualmente faz parte do catálogo da É Realizações Editora.
Nessa quarentena e nesse momento de isolamento, a série que me prendeu muito a atenção foi The Good Doctor. Um jovem médico com autismo vindo da calma vida do interior começa a trabalhar em um famoso hospital. Além dos desafios da profissão, Shaun Murphy precisa provar sua capacidade a seus colegas e superiores.
A série, estrelada por Freddie Highmore, que acompanha o residente de cirurgia Shaun Murphy. Mas Shaun é um caso raro. Ele é médico em formação, que apresenta autismo e síndrome de savant. Assim, Shaun é muito diferente do que em geral se espera de um cirurgião.
Shaun conhece o Dr. Aaron Glassman.
E é esse médico, chefe do hospital San Jose St. Bonaventure que luta com todos os seus argumentos para empregar Shaun. Glassman precisa enfrentar o corporativismo, o preconceito e o ego dos médicos do hospital que não acreditam que um médico autista possa ter capacidade de salvar a vida dos pacientes.
O primeiro episódio de The Good Doctor cumpre seu papel. Apresenta seu personagem principal, os principais conflitos que ele vai viver e já delineia quem serão seus principais algozes e aliados. Nos deixa aos prantos ao contar a história de amizade dos irmãos e esperançosos que depois de tudo o que ele já passou, enfrentar o preconceito e o corporativismo médico será apenas questão de tempo. Shaun vive bem dentro de suas próprias limitações sociais. Nos dá uma sacudida íntima mostrando que independente do que nos diferencia dele ou de qualquer pessoa que tenha alguma necessidade específica, somos todos seres humanos lutando contra nossos próprios demônios.
Para ser bem sincera antes de ler o "Pequeno Manual antirracista " acreditava que o racismo era "mimimi" "coisa pra chamar atenção " não entendia nada e muito pouco criticava nada relacionado ao tema, foi então neste período de quarentena que peguei para ler esse pequeno manual que ,de uma forma simples e belíssima, transformou meus pensamentos e crítica no antes e depois da leitura. Agora de uma forma bem escancarada enxergo o que antes estava na minha cara ou melhor na minha vida, e foi com essa simples leitura que fui libertar dos pensamentos do opressor, e quero antes de tudo que mais e mais pessoas se libertem e aprendam sobre o que é o racismo? Como e quando sofremos? Por que ele existe? E como posso ser Antirracista?
A autora trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. Ela apresenta sua percepção sobre discriminação racial estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas. O livro contém 85 páginas sendo dividido em 10 capítulos foi publicado em 6 de novembro 2019 pela editora Companhia das letras e tem como autora a filósofa Djamila Ribeiro. O pequeno manual contém uma escrita simples com objetivo de atender todos os públicos leitores, além de dar ótimas referências de autores negros, ele contextualiza com diversos temas e é referência para o estudo do Racismo no Brasil.
Esta leitura pretende refletir na tomada de atitude anti racista sobretudo para quem busca uma postura ética em sua existência. E se você é do tipo de pessoa que fala que racismo é "mimimi" recomendo esse livro , mas se você é do tipo de pessoa que - não tolera racismo e se diz antirracista- não se engane ele também foi feito para você, o livro é um ótimo guia para todos(a) negros(a) que querem se descobrir sobre negritude, e um ótimo aliado para a branquitude reconhecer seus privilégios. Enfim este pequeno manual antirracista é para todo público leitor de crianças a idosos que querem de alguma forma ter uma postura ativa com pequenos atos antirracista.
A autora Djamila Ribeiro nascida em Santos em 1 de agosto de 1980 é filósofa, feminista negra escritora e acadêmica brasileira. Pesquisadora e mestre em filosofia política pelo Unisfesp e atualmente colunista do Jornal Folha de São Paulo.
Durante os tempos de pandemia a coisa da qual mais sinto falta é sair para rever e visitar os lugares que mais amo. Como diria uma personagem de um dos meus livros favoritos, Kate Mayhew de Um Amor Escandaloso, livros são como parentes distantes. Quando sentimos saudades relemos. É como se fizéssemos uma visita boa depois de bastante tempo. E por isso falo desses livros com tanto carinho. Minha adolescência foi mais doce na companhia de Cate, Maura e Tess Cahill.
As Crônicas das Três irmãs Bruxas é uma trilogia composta pelos títulos Enfeitiçadas, Amaldiçoadas e Predestinadas. Conta a história das irmãs Cahill nascidas no século XIX que enfrentam uma série de problemas. Catherine, a mais velha, é escolhida pela mãe Anna, em seu leito de morte, para cuidar de suas duas irmãs mais novas: Maura e Teresa. Aos 13 anos ela já carregava uma responsabilidade acima dos seus limites, pois o trio de irmãs possuem habilidades de bruxaria, que em tal época eram consideradas uma maneira de corromper a moral das mulheres, pois estas deveriam ser verdadeiros poços de castidade, doçura e obediência primeiro aos seus pais; depois aos seus maridos, se viessem a se casar; ou ao Senhor, se decidissem ter uma vida de devoção religiosa. Cate aos 16 anos, esconde a si e as suas irmãs da Fraternidade e da população da pequena cidade de Catham. Com a aproximação da sua maioridade, 17 anos, ela precisa tomar uma grande decisão: se casar ou ir para o convento da irmandade que fica em Nova Londres, contudo a promessa de cuidar das irmãs para que não sejam pegas pela fraternidade lhe cai nos ombros e ela se vê pressionada pela situação. Além desse dilema, Ela, que adora sua cidade, sua casa e as boas lembranças lá cultivadas, se vê sem saída quando descobre o diário de sua mãe através de uma carta que recebeu com as iniciais Z.R lhe dizendo que lá estariam as orientações para saber como controlar e aprender sobre sua magia. A partir desse momento ela faz a descoberta de uma profecia das filhas de Perséfone que irá determinar o seu destino. Cate mergulha numa jornada cheia de escolhas. Suas irmãs, sua magia, a Irmandade, o domínio dos Irmãos e seu romance inesperado estão todos em jogo e ela terá de tomar decisões que podem afetar o seu futuro.
O livro é uma bela mistura de resistência feminina, amizade, amor de irmãs, auto-aceitação e um romance que mescla clichê com novas sensações e descobertas. Cate ensina como desafios exteriores podem vir como uma maneira de descobrir sua própria força. É o poder do feminino que está em destaque nesses livros, uma vez que somente as mulheres são capazes de executar magia. Apesar das dificuldades enfrentadas como a desvalorização, machismo, preconceito e submissão feminina, as Cahill e suas amigas quebram paradigmas e se mostram capazes de serem mulheres incríveis e que podem ser donas do seu corpo e vontades. É também possível observar como se dão as relações familiares das irmãs e como essas podem vir carregadas de pré-significados diante das escolhas tomadas. Partindo do fato que Cate teve de se responsabilizar cedo demais para sua idade por duas outras pessoas que, apesar de mais novas, são seres humanos diferentes que têm vontades e anseios distintos. Maura, que é apenas um ano mais nova que Cate, idealiza e sonha com uma realidade totalmente diferente onde as mulheres e/ou bruxas podem ser quem quiserem, inclusive, comandar o país que vive nas mãos dos Irmãos e por isso ao longo da trama, toma atitudes radicais que nos fazem questionar sua lealdade a Catherine. Tess, que tem apenas 13 anos se vê encurralada entre as diferenças de suas irmãs, contudo ela tende a seguir e aceitar as opiniões e atitudes de sua responsável. Isso impacta bastante por Cate se colocar no papel de mãe-irmã que passa a ter atitudes que ela considera que irá manter as irmãs fora de perigo, observando que as três foram criadas pelo pai, que passa bastante tempo cuidando de negócios; pelo casal O’Hare zeladora e cocheiro da família; e Lili, sua criada que não sabem da existência de suas habilidades. Outro fator importante é o laço existente entre Catherine e algumas personagens que se tornam suas amigas por lealdade. Sachi, Rory, Mei, Rilla, Prue e tantas outras que apesar das dificuldades se mantém juntas para o que der e vier. A Fraternidade é algo que bastante chama atenção em todo o enredo por se tratar de um grupo religioso composto por homens que caçam as últimas bruxas que restaram por todo País. Além disso condenam tudo que dá conhecimento às mulheres. A leitura, os estudos, a autonomia feminina, os romances homoafetivos entre mulheres e, claro, a magia são coisas abomináveis aos olhos dos Irmãos que prezam pela não educação de mulheres, castidade e “pureza” mente de coração, isso reflete sobre as questões de gênero e como os homens são desprezíveis, nesse sentido, por terem uma posição preconceituosa e de superioridade. A Irmandade, que é um grupo feminino religioso, também tem características bastante curiosas, visto que abrigam mulheres estudiosas que aos olhos da sociedade praticam a caridade e são devotas ao Senhor. Abdicando assim da sua vida com uma família para se dedicarem à mocinhas prestes a se casar, tornando-se, por consequência, governantas ou ficando em Nova Londres para ensinarem pintura, bordado, agricultura, etiqueta e deveres religiosos às alunas do convento quando na verdade guardam um dos grandes segredos de todo o enredo e vão de contra a tudo que a Fraternidade prega.
A obra também traz uma reflexão sobre posições e privilégios sociais. O desprezo ao verdadeiro conhecimento e alienação religiosa também estão bastante presentes nos três livros nos fazendo pensar sobre a democratização do aprendizado e do conhecimento, seja ele de qualquer âmbito, princípios de igualdade social, liberdade religiosa e cultural. Feminismo, confiança, força, autoconhecimento, amizade, empatia e determinação ilustram o livro do início ao fim e tudo isso com uma boa pitada do romance de Catherine com um personagem bastante característico no livro que nos fazem suspirar com as qualidades que todo relacionamento deveria ter: respeito, amizade, confiança, força e bastante amor pra enfrentar todas as dificuldades.
Essa está sendo minha viagem da quarentena, que inclusive já chega ao fim por esses dias.
09 de julho de 2020.
O livro se baseia na vida de Eva Khatchadourian, em cartas que ela escreve sobre sua vida e o comportamento de seu filho, Kevin Khatchadourian, desde em que estava na barriga até completar 16 anos e ser autor de uma chacina que matou 9 pessoas, para o pai ausente, Franklin. O livro é incrível, e as cartas que Eva escreve vão desde o medo ter um filho, a detalhes sórdidos de uma trajetória familiar, e as perdas e os ganhos de se ter uma criança. É um livro que fala de culpa e empatia, retribuição e perdão. Thriller psicanalítico, mostra o quanto as mães são encarregadas de culpa e de ter o sentimento de "onde foi que eu errei?" Ao ver que seu filho se transformou em um monstro. É mórbido, e causa muita angústia, e a escrita de Lionel Shriver é completamente detalhada e fria, e em muitas vezes a mãe, Eva, se pergunta "será que eu posso odiar meu filho?". É um livro para ler com paciência, calma, e do meio pro final, você simplesmente se vê preso, com todas as personalidades ruins do filho, o desespero de uma mãe, e um pai ausente. Você se vê dividido por Eva, que vê todo o mal do filho, e Franklin, que simplesmente passa a mão sobre sua cabeça. Totalmente bem construído, Shriver faz com que nos sintamos incomodados com toda as atrocidades de Kevin, até o gran finale: matar seus colegas, sua professora e um funcionário do ginásio. No mais, o livro, no começo, me pareceu difícil de ler, porém, depois de uns capítulos, eu fiquei totalmente presa e desejava por um final, que foi totalmente surpreendente.
Amor e Gelato é um romance jovem publicado pela editora intrínseca em 2017, com 320 páginas, da autora norte americana Jenna Evans Welch.
É contada em primeira pessoa, a história de Carolina Hadley Emerson, mais conhecida por Lina, que se vê em um ambiente de mudanças após a morte de sua mãe por um câncer terminal, a pedido da mesma, deixa os Estados Unidos e vai morar durante o verão em Toscana, na Itália, com Howard “ o amigo da mãe dela”, mas, que segundo a revelação dos avós de Lina, é seu pai.
Perguntas como: “ por que minha mãe escondeu meu pai por 16 anos?” ou “ ele sabia?”, “por que ele não me procurou?” surgem, trazendo uma resistência a adaptação dela a sua nova casa durante o verão, que aliás, é um cemitério memorial da Segunda Guerra Mundial, onde seu suposto pai trabalha e reside. Com a descoberta de um diário da mãe dela, escrita na época em que ela morava e estudava na Itália, novos mistérios surgem como a descrição de um amor secreto. Juntamente a curiosidade da jovem em desvendar esse mistério, nascem novas amizades, como a de Lorenzo Ferrara, um italiano americanizado, que ajuda ela adigerir sua história e a guia pela bela cidade de Florença em novas aventuras, inclusive novos amores.
“ Duas coisas fazem você voltar a Itália: Amor e Gelato.”
O livro "Amor e Gelato" traz muitas questões reais, como relacionamentos e segredos familiares e a amizade, não é um livro que fantasia um romance, ele traz realidade ao leitor e é justamente o que faz com que fiquemos tão presos a obra, uma leitura leve, apesar dos relacionamentos conturbados.
O diário que é um estopim para a curiosidade da jovem, a leva a novas aventuras e a conhecer melhor sua mãe, a juventude de Hadley Emerson e sua dúvida entre Howard e Matteo Rossi, com revelações que mudam o destino da jovem Lina. O mistério do livro estava resumido a um diário, contudo, a autora abordou dilemas da vida de Lina, equilibrando muito bem presente e o passado da mãe.
Além disso, mostra a clichê paixão pelo melhor amigo Lorenzo, ignorado pelos dois durante um bom tempo, tão usada nos livros em geral, mas, que ganha novo contexto, quando apresentado junto ao grupo de amigos: Elana Médici, Marco, Mimi e Thomas (o inicial interesse dela), que se tornam também amigos dela.
Addie, sua melhor amiga que mora nos Estados Unidos, aparece com frequência na trama, dando conselhos amorosos e ajudando Lina a fazer planos para a sua volta para casa e para o seu futuro, o que nem sempre eram os melhores conselhos, junto a isso há o esforço de Howard em construir laços com Lina e sua disposição incansável em ambientalizá-la, em contradição a indiferença da mesma, que chega a ser irritante em alguns momentos, mas, que é justificável se levar em conta toda situação e mudança que ela estava passando. Nos últimos capítulos do livro você sente como se soubesse o que vai acontecer, mas há uma reviravolta e a descoberta do verdadeiro pai e esclarecendo os motivos pelos quais a mãe de Lina nunca falou sobre isso.
Ademais, a descrição com riqueza de detalhes da autora nos faz sentir em
Florença , o que é um dos melhores pontos da obra, embora nunca tenha ido a Itália, me sinto como se já tivesse ido lá, sem dúvida o livro aflora a vontade de conhecer o país, as pessoas, o idioma e de o de provar o tão falado gelato. Recomendo, pois, com certeza é um bom livro para quem quer espairecer e viajar, mesmo sem sair de casa.
Chimamanda é uma escritora e feminista nigeriana que nasceu em 15 de setembro de 1977 e vive atualmente nos Estados Unidos da América.
“O Brasil não conhece a África, mas a África sabe bem do Brasil”
Gonzaguinha
A lei 10639/2003 tornou obrigatório no Brasil o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no Ensino Fundamental e Médio. Apesar disso, o que se tem observado é que esta obrigatoriedade não tem redundado numa prática efetiva das escolas particulares ou públicas. Da minha parte, tenho me empenhado em ler de divulgar livros de autores africanos, negros, como uma maneira de combater o racismo estrutural existente nas nossa sociedade e disseminar o conhecimento da cultura africana e a afro-brasileira para os nossos estudantes.
A literatura quer seja de cunho histórico, filosófico, religioso ou com qualquer outro viés pode ser extremamente significativa para o conhecimento e compreensão da cultura e da história de um povo. O romance de natureza histórica, por exemplo, enquanto obra ficcional, não pode ser cobrada quanto ao seu embasamento documental, todavia, como colocado por Aristóteles, a ficção pode apresentar o real e o possível do ponto de vista da verossimilhança.
Trago o romance “Meio Sol Amarelo” que trata do fato histórico nigeriano da guerra de Biafra na década de 60. Apesar de não ter a pretensão de ser relato histórico, o livro apresenta uma trama dentro de um contexto histórico real que não se desvirtua em função do seu caráter ficcional. Pelo contrário, o espaço, tempo, ambiente e fatos históricos que envolvem os protagonistas do romance narrado em terceira pessoa, pode-se dizer, foram ou são reais, e possíveis quanto a verossimilhança dos seus personagens, pois as experiência por eles vividas no enredo representam apenas um fragmento das experiências similares de milhares de outras pessoas reais que porventura ou desventura viveram, morreram ou sobreviveram àquela guerra e àquele massacre.
A trama é riquíssima, com dezenas de personagens a retratarem o drama de uma sociedade dividida em disputas étnicas e políticas que culminaram na chamada Guerra Civil Nigeriana ou Guerra de Biafra, a qual durou de julho de 1967 a janeiro de 1970, com um saldo de milhares de mortos em combate ou por inanição, estes como resultado do cerco à autoproclamada República de Biafra, cuja bandeira revolucionária, representada por meio sol amarelo, dá o título do livro.
denigbo, Olanna, Kainene, Richard e Ugwu protagonizam o romance com o seu cotidiano inserido no contexto da problemática social e política nigeriana dos anos 60. A trama do seu dia a dia não se desenrola apenas de forma paralela aos acontecimentos históricos, pois eles participam ativamente das lutas sociais, como que protagonizando também organizações políticas dos povos africanos na peleja pela sua independência e autodeterminação. Temos assim personagens plenos, não planos, passíveis de todas as fraquezas humanas, mas também de todas as suas grandezas e que bem podem corporificar anseios diversos de povos africanos nos seus embates seculares contra a colonização, a exploração, a pilhagem resultantes de interesses políticos e econômicos predadores de outras nações sobre a África. O Brasil, historicamente, tem tudo a ver com isso. Conhecer a história e cultura dos povos africanos significa não voltarmos as costas para as nossas origens, pois de África somos filhos, muito mais do que de portugueses, mas por causa destes mesmos que para cá trouxeram milhões de negros africanos escravizados que com a sua força impregnaram a nossa cultura das suas cores e sobretudo da sua capacidade de resistência à opressão.
Recomendo o livro, pois, além de rico do ponto de vista histórico, revela extrema sensibilidade artística da parte da sua autora no tocante à compreensão da natureza humana, seja das suas mazelas, das suas fraquezas ou das suas grandezas, sem se deixar levar por suas possíveis mágoas ou ressentimentos.
Recife, 06 de julho de 2020
“O homem nasce bom, a sociedade o corrompe” - Jean-Jacques Rousseau
Neste momento hodierno, denominado “novo normal”, deparamo-nos inseridos num cotidiano completamente avesso do que, para nós, era, de fato, o nosso normal. Ao passar dos longos e entediantes meses, vi-me na constante obrigação da busca por meios que instigue o devido crescimento intelectual, a fim de ampliar meu conhecimento de mundo e desenvolver o pensamento crítico acerca dos temas que rondam nosso meio social. Ironicamente, nunca li tantos livros, fisicamente e de forma online, como tenho lido durante este processo vigente de pandemia global que, de certo, já caracteriza-se como um fato histórico da humanidade.
Dentre os variados livros que li e continuo lendo neste processo pandêmico, separei o livro São Bernardo, de Graciliano Ramos. Publicado em 1934, o livro em destaque é um dos mais famosos da segunda fase do modernismo brasileiro e enquadra-se no gênero romance; entretanto, essa fase modernista retrata o regionalismo brasileiro, sobretudo, o nordestino, ao explanar os problemas sociais, tais como: a seca, a fome, a miséria, os retirantes e a ignorância do povo.
A narrativa baseia-se na história de Paulo Honório, um homem nordestino, analfabeto e de origem humilde que lutou muito em sua juventude para conseguir obter o prestígio social e, sobretudo, a posse da fazenda São Bernardo, no sertão de Alagoas, luta essa que por muitas vezes ele utilizou meios antiéticos, como roubos, ameaças e assassinatos. Por suas experiências negativas quando mais jovem e por todo o peso que a vida o trouxe, Paulo herda, além de todos os fatos supracitados, uma característica de vida robusta, rude, egoísta e extremamente ignorante perante tudo que o ronda.
No entretanto, mesmo ao retratar uma trama romântica-regionalista, ao decorrer do causo, inferimos que São Bernardo vai muito além de ser mais um livro com um gênero comum da época. A trama em voga retrata os limites da estrutura psicológica humana ao mostrar o quão prejudicial a ignorância, na vida de um indivíduo, pode fazer.
Mesmo com o lado humano não aflorado, o personagem principal casa-se com Madalena, professora da escola do município, para conseguir um herdeiro de todas as suas posses. Incapaz de entender, humanitariamente, como sua esposa vê o mundo, Paulo começa a desconfiar do relacionamento que tem com Madalena, questionando seus interesses por política e por assuntos do coletivo, aderindo um ciúme possessivo ao ponto de anulá-la de forma autoritária; e, mais tarde, no completo desgastamento do casamento entre ambos, vê-se mais desgraçado ainda com a súbita morte de sua esposa. Por fim, a trama encerra-se ao colocar Paulo em um profundo sentimento de amargura por tudo que acontecera desde então, seu modo ignorante com tudo e todos e sua implacável desconfiança, que resultou na perda de sua esposa e amigos de longa data, vivendo o resto da sua vida inundado em uma profunda tristeza.
Cabo de Santo Agostinho, 03 de outubro de 2020