Texto produzido pelos participantes do NAC, a partir das impressões pessoais do livro "A Metamorfose", de Franz Kafka , tendo como mote uma das seguintes palavras-chave: PARASITA - METAMORFOSE - DOMINAÇÃO - ISOLAMENTO - APRISIONAMENTO.
O domingo quente e luminoso convida-nos às praças, aos parques, às ciclovias, às praias, mas, ainda sob a ameaça da pandemia, contento-me com a reclusão, os fazeres e prazeres domésticos. Após as abluções matinais e as tarefas imprescindíveis à manutenção da casa e do corpo, posso então partir para a sustentação da mente e da alma, àquilo que prefiro chamar do ócio criativo. Debruço-me sobre Kafka. Releio uma de suas biografias e “A Metamorfose”, além de trechos da “Carta ao Pai”, dos “Diários” e dos “Aforismos”. Em sua companhia, pergunto-me como um homem que faleceu aos 41 anos incompletos teve tamanha produção literária? Nasceu para a escrita e para a arte, respondo-me. Em certa ocasião afirmou: “Tudo que não é literatura me aborrece”. Diria mais do que isto. Suponho que todo o seu pensamento era literatura, e transcrevê-lo redundava em arte. Seus diários e cartas são bons exemplos disso. Sua percepção do cotidiano e da condição humana igualmente o demonstram. Busco encontrar no meu próprio cotidiano aquilo que possa ser transmutado em arte literária, mas esta transformação exige um esforço hercúleo e quase nunca alcança seu objetivo. Kafka, no entanto, assim o fazia no ato simples de escrever o que quer que fosse, imagino. Uma boa desculpa para me esquivar do trabalho da escrita, pois sei muito bem, como já se disse, que a boa escrita resulta de uma pequena percentagem de inspiração acrescida de muita transpiração, ou seja, muito trabalho. Sigo em frente.
Aproveito para fazer alguns breves e confusos comentários sobre a metamorfose de Gregor Samsa.
Gregor Samsa transforma-se em um gigantesco inseto. Várias poderiam ser as analogias com obra, à título de “interpretação”, e muitas já foram feitas. Não se sabe qual é o inseto, mas a tendência do leitor é ver o Gregor Samsa metamorfoseado no inseto que esse mais desqualifica, pois há insetos com os quais nos conciliamos como, por exemplo, as abelhas, que são inclusive cultivadas e, portanto, de alguma forma desejadas. Parece-nos, no entanto, que Gregor é transformado num inseto repulsivo, talvez uma barata. Mas o que está em questão é a transformação em si, e não a natureza do inseto. Pergunto-me então por que se deu essa transformação? Esta, como já foi observada por outros analistas, é coletiva, pois a metamorfose não se limita à pessoa de Gregor Samsa, mas se estende à sua família que, como se vê, também se transforma, passando de uma família acolhedora e passiva a rejeitadora e irrequieta, pois Gregor, que dava o sustento da casa, e com um acolhimento óbvio, passa a ser indesejado, sobretudo porque já não exerce o mesmo papel necessário ao conforto familiar. Kafka mostra como a família pode ser opressiva, a despeito da igual possibilidade de ser também um núcleo social estruturador e acolhedor, a depender dos interesses individuais e coletivos. No caso de Gregor Samsa, a família é para ele aquilo que ele menos podia esperar, pois essa o despreza completamente no único momento em que a situação se reverte e Gregor passa a precisar da família que há anos dele necessitava.
As transformações, tanto de Gregor quanto da família, parecem ser reflexos de um adoecimento social. Gregor, um metamorfoseado pela sociedade, transformara-se num trabalhador que já não tinha sequer vontade própria, a cumprir uma rotina de trabalhos sob a mira implacável do patrão ( “Eu que tentasse sequer fazer isso com meu patrão: era logo despedido” ) e sufocado pelo peso das demandas familiares ( “ Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido.” ). Ele próprio fora se acomodando à situação, coisa que de resto é comum ao trabalhador que se deixa levar pelos valores do capitalismo que se impõem como os valores maiores e desejáveis: trabalho – entenda-se por este a venda da força física ou intelectual do indivíduo em benefício maior do patrão cujos interesses estão acima dos quaisquer interesses sociais, mas que se impõem como se a serviço destes estivessem –; dedicação acima dos seus próprios interesses em benefício da sociedade que o ignora enquanto indivíduo; resignação em função da condição social inelutável na qual se insere: no caso de Gregor Samsa, um operário, à semelhança das abelhas operárias, um caixeiro viajante para o patrão, e um arrimo de família para os parentes.
Gregor tivera sonhos inquietantes, como de costume entre as quatro paredes que lhe eram familiares de seu quarto, o qual se transformará na sua prisão. Samsa tornara-se um autômato: dormir para o lado direito, acordar pontualmente às quatro da manhã, viajar dia sim dia não. Gregor lembra-se do porteiro, segundo ele “um instrumento do patrão, invertebrado e idiota”, talvez também um inseto como ele próprio agora se encontrava, o que de resto parece ser comum a outros trabalhadores.
Gregor está a fazer uma retrospectiva do seu passado, dos seus 5 anos como caixeiro-viajante, está transformado em um grande inseto, mas ainda não tem plena clareza do que está acontecendo consigo, sendo a sua grande preocupação encontrar uma maneira de chegar ao trabalho, também não vai perceber que a sua transformação fora um processo cumulativo de pequenos “erros trágicos” que culminou com a metamorfose definitiva.
Gregor era um prisioneiro da sociedade, do espírito capitalista, da burocracia, do patrão, do trabalho, das suas metas, do transporte, dos horários, do despertador, da família, do pai, das dívidas e da fraqueza deste, do amor pela irmã, da indiferença da mãe, dos seus valores imutáveis e de si mesmo. Gregor transformara-se há muito anos num inseto diante de uma vidraça a rodopiar sobre esta e sem o tino necessário para se mover noutra direção e escapar da armadilha sem travas em que vivia. Um enclausurado mental, vítima da sociedade, das três faces do fascismo: pai - nas pessoas do genitor e da igreja com seus valores morais -; pátria - na figura do Estado -; e patrão - na pessoa do empregador e do sistema capitalista (“ o próprio patrão certamente iria lá a casa com o médico da Previdência,.... que, evidentemente, considerava toda a humanidade um bando de falsos doentes perfeitamente saudáveis.”); e também de si mesmo por se deixar aprisionar numa cela sem grades de ferro, nem de madeira, nem de vidro, mas tão somente de uma ética burocrática. Gregor é apenas uma variante Joseph K, este condenado e executado por um crime que desconhece e num processo que sequer tem acesso, e ele metamorfoseado simplesmente por cumprir, a risca, os desígnios de uma sociedade, patriarcal, opressora, burocrática e capitalista. Gregor é apenas um personagem tipo do indivíduo alienado no sistema de produção capitalista, é como o cidadão comum observado por Belchior: “Era feito aquela gente honesta boa e comovida, que caminha para a morte pensando em vencer na vida; era feito aquela gente honesta boa e comovida, que tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida”.
Ao pensarmos na palavra metamorfose, possivelmente a definição que aprendemos durante o ensino fundamental com a mudança física da borboleta surge em nossa mente. Para alguns, a mudança da borboleta pode ser interpretada como um crescimento, uma maior visibilidade, holofotes... Aposto que algum religioso(a) ou coaching já deve ter feito essa associação, entretanto observar a metamorfose de uma borboleta simplesmente por esse ponto de vista é ignorar o maior ganho que ela tem, a LIBERDADE.
A liberdade de conhecer o mundo, observar as coisas a partir de outros pontos de vistas… ela sai da “comodidade” da lagarta, que se instala numa árvore ou planta, tem comida em abundância e diferente da borboleta com suas cores, a lagarta pode passar despercebida, camuflada.
Pensar a metamorfose como sinônimo de liberdade tanto se encaixam -no meu ponto de vista- as borboletas como para Gregor, personagem metamorfoseado de Kafka. Preso no universo de seu emprego, Gregor não fazia nada que não fosse voltado para o trabalho, dormia pensando nos serviços que deveria prestar, acordava com mesmos pensamentos, e nos intervalos que só os tinha para poder se alimentar, estava trabalhando. A alienação em que este se encontrava o consumia até a última gota de suor, pois tudo o que fazia em sua mente tinha a justificativa de poder contribuir com sua família.
A partir do momento em que ele se transforma em inseto, seu ponto de vista modifica, assim como as borboletas, outros horizontes passam a fazer parte da sua vida. Mas que pontos de vistas são esses?
Muitos teóricos discutem sobre a coisificação do trabalhador, Karl Marx é um deles. Enquanto a pessoa serve ao sistema sem questionar, dando tudo de si a ponto de se esquecer, é um trabalhador perfeito. A partir do momento que ele percebe que está se anulando em nome de algo que não lhe trará benefício algum, ou seja se metamorfoseando, este passa a ser um inimigo, este passa a ser inútil para o regime e apagá-lo passa a ser uma necessidade.
Assim como a vida de uma borboleta, a vida de Gregor e a vida de um trabalhador pós metamorfose, o horizonte apesar de inicialmente muito bonito e encantador, trazás uma série de obstáculos, e consequentemente uma existência mais curta, pois quem questiona pode influenciar outros, e antes que ganhe grandes proporções, o silenciamento destes deve ser instantâneo.
A família de Gregor tem uma representação dupla, pois em dado momento se colocam como seres que fazem parte do sistema, que aceitam a exploração e acreditam que esse caminho é o certo e confortável a se percorrer, são alienados, porém eles também têm consciência de que ir de encontro a esse sistema poderá trazer enormes problemas, por isso o esconde, o cala. Já em outro momento eles representam os que se beneficiam da exploração de pessoas, com uma vida cheia de regalias a partir do esforço de Gregor, que diferente deles não tem ao menos tempo para si, percebem que o abandono do filho do lugar de explorado, pode lhes causar grandes problemas, com isso eles fazendo de tudo para que Gregor desapareça, deixando-o em lugar precário, sem alimentação, e se sentindo aliviados quando ele morre.
Metamorfosear-se é uma processo libertador para todos, se desligar das amarras que nos impedem enxergar o mundo e tudo que este pode nos oferecer é maravilhoso, entretanto junto com tudo isso somos expostos a um poderio muito maior que assim como esmagou, com sua bota de couro, outros metamorfoseados, está preparado para nos esmagar e esmagar os que ainda estão por vir.
Com uma maneira única de escrever, Franz Kafka nos presenteia com "A metamorfose" que já se inicia com uma grande incógnita e abre caminhos para diversas possibilidades ao imaginário. "Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto." Ao ler o trecho do livro apresentado acima, meu primeiro pensamento em relação a situação, era que só podia ser uma ilusão, ou poderia ser apenas uma metáfora para os pesos que claramente o protagonista enfrenta ao abdicar de seus desejos para o bem comum da família, algo relacionado a falta de autonomia daquela pessoa, que se abandonava para satisfazer ambições coletivas e não em um bom sentido. Claramente cansado de sua prisão, cujas grades eram invisíveis, fazia planos sonhando com sua liberdade, planos interrompidos pela sua transformação, que acredito ter sido cravada pelo dia a dia, pelas amarras sociais, causando grandes consequências, que podem não ter sido físicas e sim, podemos analisar de diversas formas. Contrário ao que muitos imaginam, em meu imaginário o "gigantesco inseto" era uma mosca, apesar da descrição dar a entender que era uma barata. Ao achar inicialmente que o problema era algo físico , mergulhei no livro com uma convicção, que caiu por terra ao me dar conta do que estava acontecendo com a família, a mudança de Gregório foi impactante, mas a metamorfose aconteceu no núcleo familiar, ali Gregório passou a ser desumanizado e excluído, mostrando que até às melhores intenções são atingidas pelos padrões impostos pela sociedade. Gregório, que anteriormente era posto em um pedestal, visto como essencial para a sobrevivência da família, viu interesses ficarem claros e máscaras serem retiradas. O que mais chama atenção, é a diferença de tratamento a Gregório Samsa no início da narrativa e no final, fora jogado a uma posição de coisa sem importância, um parasita incomodando o hospedeiro (sua família), e apesar disso, o sentimento dele, que embora sua aparência negasse a presença da razão, persistia o desejo de ajudar a família. O autor traz denúncias sociais no livro, sem dúvidas vemos vários Gregórios, se sentindo metamorfoseados e pressionados, mas no geral, os isolamos, parte por seguir uma sociedade em um comportamento de manada, parte por padrões que acreditamos que existam, onde o diferente é ruim e não pode ser aceito, denúncia que se apresenta tão atual e se encaixa tão bem a problemas vividos em nossa época. O livro nos mostra que na vida real, nem sempre as pessoas têm finais felizes, por muitas vezes, como dizia Sartre "o inferno são os outros".