Conto produzido pelos participantes do NAC, a partir da leitura do romance "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, tendo como mote o capítulo " O menino mais novo".
Era aniversário da minha irmã e como de costume, sempre que ganhamos presentes, devemos espalhá-los pela cama de maneira que fique exposta para que todos possam ver o que ganhamos (eu sinceramente acho desnecessário tamanha exposição, mas sabe como é, se vovó mandou, quem é inteligente só acata).
Dentre roupas, perfume, acessórios, uma caixa em particular me chamou atenção; ela era uma caixa muito bonita e no seu interior haviam inúmeros cubos coloridos. Em meio a tantos um, em específico, chamou minha atenção, a forma como ele me parecia um chocolate espetacularmente apetitoso, era surreal.
A horas se passaram, vi minha irmã agradecer aos que lhes davam felicitações,o parabéns foi cantado, comi, bebi (muito bem por sinal, vovó sempre fora muito afamada pelos seus dons com confeitaria), brinquei com meus primos, mas a imagem da caixa e seu chocolate, claramente delicioso não saía de meus pensamentos. Se essa situação me ocorresse atualmente com certeza estaria me questionando a localização de tal chocolate, (Suíço, será?), para justificar tamanha beleza, de certo, viera de alguns país reconhecido mundialmente por esta produção. Mas não compreendia a cores dos outros cubos, será que na verdade era algum outro tipo de doce? Estava ansiosa para saber e antes mesmo do fim da festa resolvi perguntar a minha irmã:
-Thallita, o que é isso? É chocolate? - Perguntei apontando para a caixa.
Ela me olhou, olhou para onde estava apontando e nada me respondeu. Os convidados começaram se despedir, um a um, apenas uma de suas amigas insistia em continuar, não entendia porque adolescentes falavam tantas coisas supérfluas e sem fim, (até virar uma). Ela parecia uma metralhadora com uma carga infinita, eu até tentei esperar para que ela fosse embora, mas com certeza pela velocidade em que ela falava e quantidade de nomes e situações que ela expunha, definitivamente ela não estava nem um pouco próxima do fim. Cansei, não iria esperar mais, queria provar nem que fosse uma lasca dele, então perguntei outra vez:
-Thallita, isso é chocolate mesmo ? - Ela me olhou com cara de desaprovação por atrapalhar sua conversa, porém mais rápido que a troca de Ministros da Saúde do atual (des)governo, sua feição se modificou. Um sorriso surgiu, o que era algo estranho de se ver, principalmente vindo dela, e a frase tão esperada saiu de sua boca “É, experimenta!”.
Mais que o sorriso, essa frase sim me soava muito estranha. Ela nunca fora de oferecer as coisas que ganhava(na verdade escondia, dizia que havia acabado..., as desculpas eram inúmeras), mas aquele era um momento especial, ela acabara de ter uma festa pequena, porém bem divertida, com certeza queria se livrar de mim para voltar a conversar com sua amiga tagarela, (no fundo ela sabia que enquanto ela não me oferecesse, ou me colocasse para fora do quarto eu não deixaria de insistir) e definitivamente, algum tipo de iluminação divina resolvera apoderar-se de seu corpo e a caridade que antes parecia não ser uma de suas características, pousou por entre seus ombros e ali ficou. Sim, ela estava me oferecendo um chocolate.
Não sabia por quanto tempo o lapso de bondade duraria e não queria esperar para saber. Ela abriu a belíssima caixa delicadamente, era algo muito preciso para se abrir com avidez, e assim que os cubos começaram aparecer, uma luz era emanada deles como imagens de cinema. Por mais bela que fosse a cena diante de meus olhos, eu não tinha tempo para esperar, agarrei-me com o cubo que havia me chamado atenção desde o início para me certificar de que tudo não passara de uma miragem, e nele havia escrito “Cacau”. Antes mesmo que o cheiro dos outros cubos tomassem minhas narinas, abri a boca e fui logo dando uma mordida naquele magnífico chocolate.
Tudo aconteceu em milésimos de segundos. Eu em pé com parte do cubo na boca e outra na mão, minha irmã olhando para mim com aquele maldito sorriso estranho, a sua amiga que pouco tempo atrás não parava de falar agora estava de olhos arregalados (surpresa com a caridade súbita, pensei me sentindo lisonjeada por presenciar esse momento), minha língua tocava o cubo e antes mesmo que meus dentes pudessem arrancar uma lasca do tão desejado chocolate, pude notar um sabor diferente do esperado.
Será que aquele chocolate era amargo, por isso ela me ofereceu? Até poderia ser, ninguém além dos mais velhos da casa gostavam dos amargos ( não sabia eu que viraria uma fã de carteirinha dos chocolates amargos).
Mas não, não era isso! O gosto definitivamente não era de chocolate, e assim como uma corrida de fórmula 1 vista a olho nu, com carros chegando muito próximos à linha de chegada, não consegui perceber o que fez minha ficha cair primeiro, se a risada da minha irmã ao se deparar com minha cara de total desaprovação para o que estava na minha boca, o gosto que passava longe de chocolate ou o claro cheiro de sabonete que agora emanava com clareza dos outros cubos da caixa.
Larguei de imediato o cubo. Agora o silêncio fora tomado pelas gargalhadas estridentes e infinitas da minha irmã misturadas com a frase que se repetia de sua amiga “A coitada, Thallita.” que era dita com pequenos risos entre uma palavra e outra.
Sim, eram sabonetes. Um kit com pequenos sabonetes a base de frutas que existem no Brasil, cacau, pitanga, açaí… não direi de qual fabricante é para não ter o risco do leitor, apesar de ler toda minha lamúria, ousar procurar e comprar tamanho desrespeito a uma criança. Contentem-se com seus sabonetes de mercados e farmácias e faça uma criança feliz.
Olinda parecia um universo de possibilidades até conhecer Garanhuns. Aos 3, quase 4 anos de idade, era uma garotinha não tão assim como as outras. Pretinha de olhos castanho escuros de trancinhas na altura do pescoço. Corria de um lado a outro do ônibus de viagem.
-Mamãe, a gente tá chegando?
E a mãe com paciência carregando outra criança em seu ventre passava a mão em seu cabelinho crespo como um sinal de afeto. Naquela época, tudo parecia muito inocente, tão sublime, colorido. Um mundo só de brincadeiras. Com uma calça cheia de desenhos infantis e uma blusa minúscula de cor laranja pintava o corredor do ônibus. Sua avó, Isaura, tão afetuosa e cuidadosa sempre alertava.
-Evelynha, fique quieta, minha filhinha. Você vai acabar se machucando.
Ela abria seu sorriso maroto marcado por um diastema charmoso que a deixava ainda mais com o aspecto marcado de inocência infantil. E assim foi durante toda a manhã. Aquele ônibus tão simples era preenchido da sua risadinha tão minúscula e cheia de alegria. Uma parada no famoso Rei das Coxinhas e a mesma pedida de todas as vezes, frango catupiri. Ah o delicioso sabor que preenchia seus pequenos lábios rosa escuro. As viagens em família pareciam sempre harmoniosas e cheias de diversão. A pequena sempre era a gracinha da família. A cada palavra, gestos ou dancinhas inventadas todos se viravam encantados com os olhos brilhando e sorrisos felizes.
Por volta do meio da tarde Garanhuns estava fria e o céu em tons de laranja, azul e lavanda era a recepção calorosa naquele dia. O relógio florido da cidade foi um dos marcos daquela viagem. A cidadezinha repleta de hortências, todas azuis, amarelas, verdes e cor de rosa e a menina se metia no meio das flores enfiando seu nariz gordinho nelas para tentar sentir o seu cheiro, tão coloridas, tão cheias de beleza e tão minuciosas haveria um perfume por ali. Espantada soube que aquela graciosidade só tinha a bela aparência, mas cheiro ali não havia.
O hotel do Sesc, onde ficaram hospedados, tinha um aspecto bem simplista. Em algum lugar do hotel- o qual não me recordo bem- tinha uma passagem, coberta por um pé de uvas que na época estava cheinho de cachos. Estava frio e o dia anoiteceu rápido. Lá estavam a mãe, Cristiane, uma mulher grávida negra de olhos grandes e cabelo também crespo, quase parindo aquela criança que a pequena Evelyn tanto desejara ter por irmã; a avó, Isaura, ao contrário da filha ela era branca de olhos acinzentados que observavam tudo através daqueles óculos bifocais, com a pele cheinha de sinais que variavam entre vermelho e marrom e um cabelo repleto de cachos e da cor branca que faziam um degradê com os que ainda eram pretos, a matriarca da família; Isabel, a tia, uma mulher alta que usava óculos de grau e era bem sorridente; Isaias e Laudiceia, os filhos de Isabel, os dois altos também negros como a mãe, jovens por volta dos 17 anos e que estavam sempre juntos. Mais pessoas da família estavam juntas mas não fizeram um papel crucial que valesse a pena guardar na memória. Todos em quartos que ficavam pertinhos uns dos outros e a pequenina lá correndo com seu pijaminha quentinho já para hora de dormir. Sempre a chamar atenção com suas gracinhas dançando, pulando e ela sempre foi bastante falante. De tanto brincar e rir com aqueles dentinhos delicadamente separados sua prima Laudiceia, a quem ela chamava de Lai, lhe disse:
-Quer chamar atenção é? Bota um abacaxi na cabeça e sai gritando “Olha a manga espada”.
A mini Evelyn lhe fitou com seus olhos de jabuticaba e impressionou a todos com a resposta dada com aquela vozinha de criança:
-Tu quer chamar atenção é? Bota um abacaxi na cabeça e uma melancia no bumbum.
Naquele momento ninguém conteve o riso com fala inesperada. Aquele pequeno quarto de hotel foi pequeno para aquela família que ria incessantemente com a ousadia inocente daquele pinguinho de gente. Lai ficou surpresa e fez comentários engraçados sobre o acontecido. Com as pequenas mãos pretinhas, Evelyn acomodou as bochechas no formato de concha delas e exibiu seu sorriso maroto e divertido. Tão pequenina mas tinha uma luz em seu rostinho. No dia seguinte, depois do café da manhã ansioso e corrido como o vento a coisa que Evelyn mais esperava fazer era brincar no parque do hotel. Escorrego, balanço, gangorra e tantos outros que era difícil escolher. E então ela aprontou uma cena nunca esquecida por toda a família. Ela que adorava uma fotografia, ao ver a câmera era a primeira a sorrir e para registrar os momentos daquela viagem memorável eles levaram consigo uma câmera daquelas com aqueles filmes amarronzados. O escorrego era tentador, quanto mais alto melhor a sensação. Ao chegar no topo dele, sua mãe lhe gritou:
-Evelynha, olha pra cá!
E ela com sua imaginação cheia dos desenhos e animações pronunciou a frase de um dos seus personagens favoritos, o Buzz lightyear, de Toy Story:
-Ao infinito e além!
Sua vozinha alta era como um fôlego que lhe entrava de pulmão a dentro e lhe dava asas mágicas. O escorrego era como uma pista de voo que lhe dava impulso assim como o próprio Buzz fazia. Tudo imaginação, mas a alegria daquela lembrança contagiava seus bracinhos negros abertos até seu pouso no chão. A menina era assim cheia de fantasias que trazia dos filmes que amava assistir. Com suas perninhas negrinhas saltitava ao chegar ao chão e aquele parquinho foi seu refúgio.
Seguiu em direção a uma outra cidade interiorana, talvez a mais significativa localidade de seus anos de meninice, mais ainda que sua terra natal. Garanhuns fora uma cidade fria, mas aqueceu-se tanto, que se elevaram, como vapores, muitas lembranças que agora pairam sobre os telhados de velhas casas com portas rentes às calçadas, quintais compridos, estreitos e cercados de muros encimados por vasos donde pendem avencas e erguem-se flores coloridas de naipes variados; sobre suas praças vicejantes, suas ladeiras pachorrentas, seus conventos, suas escolas, seu bares, sua gente.
Em Caruaru não deixara parentes, todavia, no município conhecido como a “Cidade do Clima Maravilhoso” muitos familiares ainda vivem.
Um aroma característico penetrou pela janela aberta do ônibus que adentrava a cidade, embalsamando seu interior e denunciando o lugar de chegada. Junto com o perfume de flores de eucalipto, inalou Sísifo as lembranças de várias décadas passadas desde a sua mais tenra idade quando, ainda criança, provavelmente de chupeta na boca, estivera ali à primeira vez. Nesta cidade, junto aos avós e tios paternos, passara muitas férias juninas, num período que coincidia com a sua própria data de aniversário, o que lhe rendia, sem falhas, o ganho de muitos presentes dados pelos familiares. Visitar o lugar sem ver a avó carinhosa e jamais esquecida era triste - porque esta já não vive –, mas as lembranças enchiam-no de uma saudade boa que valia a pena ser experimentada. Recordaria, passo a passo, cada um daqueles recantos de sua infância: as ruas, as praças, as calçadas, as casas, onde o tempo remoto parecia se condensar à sua passagem.
Para isso segui a pé da rodoviária, passando ao lado do Parque Euclides Dourado - também conhecido como Parque dos Eucaliptos onde, pela primeira vez, experimentara o prazer de equilibrar-me em duas rodas e sentir o gozo de uma liberdade veloz como o vento - e descendo pela Rua Quinze. Depois de um contorno pela Rua Afonso Pena, passando pela Praça Guadalajara, desci novamente até a Rua do Recife, dando de frente com o antigo Cinema Veneza e, logo adiante, com a “Padaria dos Gordos”. Daí até o centro da cidade e, em seguida, descendo ainda, pela Rua Dom José até a Boa Vista onde moram as minhas tias. Pra diante o movimento será de ascendência.
À Rua Quinze, deparei-me com a casa mais remota da minha memória por aquelas bandas. A construção, que outrora tinha uma fachada tão larga, parece ter diminuído na razão inversa do meu crescimento ou da minha idade. Como bolinhas de espuma vindas de um passado distante, visualizo a criança magrela com um canudo na boca e um copo de sabão na mão. Em seguida, vejo-a saindo vestida com uma calça Lee cinza, um tênis conga azul-celeste e um casaco xadrez de tonalidades verdes, puxando um carrinho de brinquedo. É o dia do seu aniversário. A calça, o tênis, o casaco, a camisa colocada por baixo deste, que não consigo ver, e o carrinho foram todos presentes. No bolso tem umas cédulas velhas com as quais comprará bombons na mercearia do alto da rua. Depois correrá ladeira abaixo, puxando o seu Jeep veloz, num retorno heróico de uma viagem em volta do mundo.
A gata Bichana estava pejada, mas o meu avô – não sei por que cargas d’água – queria deixá-la passar a noite do lado de fora. Reclamo, choro, imploro, esperneio – meus desejos são sempre atendidos; sou o netinho mimado, o “criado-com-vó”, como diziam meus irmãos e meus tios por parte de mãe – mas desta vez fui vencido. Alguns tios, em defesa do meu avô e contra a minha avó que sempre me satisfazia as vontades, alegaram que eu estava muito malcriado e corroboraram com a intenção do pai que se determinara a fazer a gata passar a noite ao relento. Abriram a porta e afugentaram-na. Um vento frio invadiu a casa. Olhei lá no alto, avistei as sombras das bananeiras cujas folhas agitavam-se com estrondo e assemelhavam-se a monstros do outro mundo. Tive maus pressentimentos.
Bichana dormiu no quintal. Na manhã seguinte, a gata não apareceu em casa como de costume. O dia se foi passando. Nada da Bichana dar as caras. A tarde começava a cair sob estridente zunido das cigarras. Resolvemos procurá-la: eu, meu irmão mais novo e duas tias. Percorremos o quintal imenso, procurando nas bananeiras e em todos os recantos. Escalei o muro dos fundos e chamei-a fazendo chiados e estalando os dedos. No topo do muro, olhei para baixo, do outro lado.Vi-a estirada e morta. Caí em prantos. Minha primeira experiência com a morte, talvez.
Na Rua Afonso Pena, não identifiquei mais uma das antigas moradias dos meus avós. Tudo fora transformado. Foi como se uma lembrança passada tivesse se desbotado. Andei para um lado e para o outro, passando várias vezes no local onde provavelmente estivera a casa, mas de nada me adiantou o esforço. O lugar e a casa evadiram-se, levando consigo todas as lembranças.
O Cinema Veneza fora desativado, da mesma forma como os outros dois da cidade: o Cine Jardim e o Dourado. O primeiro transformou-se em residência e bar; o segundo em supermercado; e o outro, igualmente, em casa comercial. No Veneza, gozava, naquela época, o privilégio de ser sobrinho do gerente e do confeiteiro. Não precisava pagar a entrada e ganhava chocolates grátis. Às vezes, punha-me na bilheteria, ao lado do tio de bigode basto, e fitava com meus olhos adolescentes e lascivos as garotas que vinham comprar seus ingressos. Valia-me do suposto status que me era conferido por estar no lugar reservado à gente “importante”. As sessões eram longas e terminavam na frieza das noites geladas. As pessoas saiam engurujadas, braços cruzados, mãos nos bolsos, cabeças baixas e dispersavam-se, aos poucos, pela rua e adentrando pelos becos adormecidos. Eu voltava para casa com os bolsos cheios de bombons que seriam devorados no dia seguinte, antes mesmo do café da manhã.
A Igreja-Matriz estava fantasiada de um cor-de-rosa. Quase um choque: os sinos badalaram à minha passagem. Era meio-dia. Os badalos ribombaram no meu interior e despertaram fantasmas: os fantasmas da perdição, dos deuses pagãos, do demônio, do pecado. Minha formação religiosa protestante denunciava, na minha puerilidade, as crenças católicas e os seus ritos como práticas do demônio. Todas as imagens do templo foram para mim, naquela época, representações do maligno. Ir à missa com minhas tias causa-me verdadeiro pavor. Elas, as tias carolas, por sua vez, satanizavam os cânticos protestantes que diziam serem balidos de bodes. Em meio a estas querelas religiosas, os adultos serviam-se de mim como um joguete. Não posso lembrar-me, pois era muito novo ainda, mas descobri, há muito tempo, que fora levado à pia batismal desta igreja, sob o amparo secreto dos meus avós, que o fizeram contra a vontade de minha mãe cujas crenças não admitiam tal prática.
Meus genitores professavam religiões diferentes, embora fossem ambos cristãos. Meu pai dizia-se católico por tradição e jamais ia à missa. Minha mãe, protestante, reservava todos os domingos à devoção - prática que mantém até hoje -, levando junto consigo os filhos. Todos os seus desentendimentos derivavam, suponho, dessas divergências doutrinárias.
Segui pela rua central do comércio, inalando, junto com o ar fresco, a despeito do sol a pique, lembranças embaralhadas de festas de São João e natais felizes passados na cidade, da infância à juventude.
Virei à esquerda na Rua Dom José. Caminhei, descendo a ladeira, até o número 347 e deparei-me com a velha casa que pertencera a um dos irmãos da minha avó e que no passado ostentara certa opulência. Agora a construção apresentava marcas de decadência: a pintura encardida, o jardim à mingua, partes do reboco caídas, com os tijolos à mostra, parecendo ferimentos de um corpo onde se pudesse vislumbrar o esqueleto, como fraturas expostas. Uma espécie de calafrio invadiu-me, provocando-me um estremecimento corporal, como se o passado, como um vento gélido, me tivesse penetrado os poros.
Entrei, tentando não fazer ruídos, e topei logo com as duas tias e o tio extremamente carcomidos, como a casa, pelo tempo e pela pobreza. Amparei-os nos braços, lembrando-me da época, na infância, em que eles é que me davam o amparo da gente grande. Alegraram-se. A visita dos mais jovens sempre traz alegria aos mais velhos, quase abandonados e envolvidos por uma bruma de cinzas que aos poucos decantam, levando consigo a vida.
Permaneci por dois dias e duas noites. Olhei fotos antigas, espalhadas pelas paredes e em porta-retratos sobre os móveis. Conversei, escutei suas queixas, suas lamentações. Presenciei suas brigas eternas. Ouvi insultos do tio ébrio; relevei-os, mas angustiei-me. Recordei-me dos sofrimentos da minha avó, carregando, como cruz, por toda a vida, o fardo de um filho alcoólatra.
Visitei mais duas tias nas suas respectivas moradias. Outras lembranças, mais amenas, assomaram ao meu espírito. Valeu a pena.
Despedi-me.
Parti mais velho, porém com a consciência de que a vida até aqui havia sido um pouco mais longa do que quando da minha chegada, pois, as memórias dilatam o tempo passado.