Crônica produzida pelos participantes do NAC sobre o cotidiano na Quarentena.
ROTINA - hábito de fazer algo sempre do mesmo modo, mecanicamente; rotineira.(Definição retirada do Google)
Dormindo durante a madrugada e acordando no início da tarde, caminha minha minha quarentena, o corpo claramente incomodado, o espelho mostrando diariamente a decadência e o desleixo com o próprio corpo gritando por mudança. Hábitos novos e bons devem ser implantados.
Escutando uma sequência de podcasts do MC, cantor, compositor, desenhista, escritor… Leandro Roque de Oliveira, mais conhecido como Emicida, pude perceber o quão preciso mudar, estabelecer um ritmo, um equilíbrio. Iniciei então fazendo exercícios físicos, o que surpreendeu todas as pessoas que convivem no mesmo ambiente que eu, compreensível, já que sempre odiei me exercitar e falo sempre que posso sobre.
Durou pouca mais de uma semana. Tentei outro caminho, comprei sementes para plantar, precisava de uma motivação para levantar cedo, com isso aguar as plantas seria minha missão diurna e assim como Emicida fala, é preciso ter paciência, pois elas têm seu próprio tempo. Hoje se encontram numa luta diária de crescer e antes de se desenvolver, morrer, porém ainda estão vivas, o que é algo a se comemorar. Mas a missão de acordar cedo não deu certo, percebi que posso agua-las durante o período da tarde.
Então como estabelecer uma rotina? O que me fará acordar cedo, praticar exercícios físicos, me alimentar bem, estudar, ler…? Gostaria de ter essa resposta mas ainda estou a procura. Esses dias parei para pensar, se rotina é algo que devo fazer sempre do mesmo modo, mecanicamente, o ato de dormir tarde, acordar tarde, comer bobagens e perder tempo em redes sociais é minha rotina, eu já tenho uma, não preciso ir em busca de outra, o que eu preciso é adaptá-lo para que não me mate antes dos 30.
Porém que desanimador é levantar cedo, tomar café e escutar as notícias logo ao amanhecer, “ Cresce casos de COVID no Brasil”,”Criança morre dentro de casa no Rio de Janeiro por bala perdida da polícia”, “Cadeira de Ministro da Saúde vazia”, “Criança cai de prédio de luxo no Recife.” “Não temos Ministro da Educação”,”Homem é morto após ser sufocado por policiais nos E.U.A.”, “Presidente aperta mãos de apoiadores em frente ao Palácio do Planalto após chamar a pandemia de gripezinha.”. Com que força posso continuar meu dia? Talvez eu queira fugir do caos em que nos encontramos, não sei! A minha única certeza é que é preciso mudar, que precisamos mudar e se para isso seja necessário uma rotina, que esta seja consciente e que possa trazer benefício não só pessoal mas a todas e todos, sem que ninguém seja deixando para trás.
Esses dias, ainda no começo do período de quarentena, sentada embaixo do pé de carambola, na frente da casa em que moro, observei que havia mais borboletas voando pelas ruas. Isso me chamou bastante atenção, então comecei a pensar sobre as borboletas, comecei a pensar nos motivos de tantas estarem pelas ruas. Será que elas sempre estiveram lá e eu nunca as vi por completo? Será que a quarentena deixou o ar mais limpo e isso teria influência direta nessas belas criaturas?
Pensei nisso por alguns minutos e tentei descobrir. Depois de uma pequena busca falha por uma explicação na internet, resolvi perguntar a minha amiga Joy sobre isso. Ela faz zootecnia e já tentou engenharia florestal, se alguém em minha vida saberia sobre aquelas borboletas, essa pessoa seria ela, mandei uma mensagem no Whatsapp e ela não demorou para responder. Temos conversado bastante nesses dias, apesar de nos vermos apenas umas 4 ou 5 vezes durante o ano, por causa da correria da vida, em nossas conversas dizemos o quanto temos saudades e vamos nos ver pós pandemia.
Joyce me explicou que borboletas não gostam de bagunça. Por serem criaturas extremamente delicadas e sensíveis, elas gostam de lugares calmos e, provavelmente, pelo baixo número de pessoas na rua, elas se sentiram mais à vontade pra voar por aí, ou morreram menos devido a falta de interferência humana.
"Melhor dia da minha vida!". Foi essa frase que eu imaginei que se passava na cabeça das borboletas, isso óbvio, se elas tivessem consciência das suas vidas, até porque o ciclo de vida das borboletas não é longo, podem durar apenas algumas semanas, ou com sorte, pouco mais de um ano. Mas como eu disse borboletas são frágeis, qualquer coisa poderia quebrar suas lindas asas e fazer com que sua vida seja ainda mais prematura.
Quando pensei sobre as borboletas também tive outro pensamento sobre a vida, mas dessa vez a minha e das pessoas que amo, a vida é frágil, é delicada, qualquer coisa pode a fazer quebrar e despedaçar, assim como as asas de uma borboleta...
Interessante pensar que estamos em uma velocidade estonteante seguindo a vida e de repente, vi uma geração tão imediatista da qual faço parte, parar. Algo inesperado fez com que eu visse o mundo com outros olhos, lembrei me de quando eu estava no terceiro ano, escrevi uma carta cheia de expectativas no final daquele ano, o início de um novo ciclo, uma carta cujo destinatário era o meu eu do futuro, decidi abri - lá e me dei conta de que havia esquecido daquele sentimento, estava deixando pra amanhã sonhos antigos e me senti naquele lugar, de alguma forma, seria essa carta uma máquina do tempo? O que estou fazendo para chegar ao que me move? Estou parada ou em movimento? na física temos como resposta uma grande DEPENDE em relação a quê, em relação a outra pessoa eu posso estar parada, mas ao universo estou em movimento. Toda essa situação veio mostrar que o que achamos ser uma perca de tempo, um ano perdido é uma oportunidade de nos movimentar, de pensar, de se conhecer, de relembrar o que nos movia. Esse foi um ano de parar, no geral, mas um ano de movimento em relação a nossos pensamentos. Quando iríamos repensar atitudes? Quando iríamos frear? Agora.
Tempo. Torna-se interessante o ato de analisar esse senhor, por assim conhecido, dia após dia. Se, por um lado, vivíamos dizendo que não tínhamos esse bem precioso; pelo outro, gozamos abundantemente na hodiernidade. Século XXI, 3º milênio, geração Z: tornamo-nos máquinas, não mais à vapor ou carvão, como era na revolução industrial, máquinas eletrônicas, indivíduos incessantes pelo novo e moderno. Um modo de vida totalmente ficcionado numa realidade alternativa, submergidos numa espécie de matrix realista. Graças à constante evolução benéfica, ou maléfica, de tal advento, as próximas edições dos dicionários brasileiros vão pensar se colocam, ou não, o significado da palavra “distante” no leque de vocábulos. Provavelmente, a carta de Pero Vaz de Caminha chegaria mais rápido à corte portuguesa, elucidando a riqueza paisagística brasileira e dispensando os 15 longos dias para o transporte marítimo de uma simples carta. Por vezes, hoje, à distância de um click. Quanto tempo o tempo tem? Para o Chronos, uma predefinição existente; já o Kairós, uma perpetuidade. O cotidiano era conturbado, movimentado, frenético. Sim, era. No entretanto, revolucionariamente, vivemos uma pandemia global que, arrebatadoramente, colocou-nos no avesso de tudo que era corriqueiro. “Se eu tivesse mais tempo para isso, para aquilo”, “o dia deveria ter mais de 24 horas”, “como o tempo passou voando”, indubitavelmente, todas as pessoas já falaram ou ouviram alguém proferir tais lástimas, resultado do que a nossa era foi transformada, modificada. Ironicamente, o tempo é algo subjetivo. De fato, para um determinado indivíduo, um dia equivale a uma infinitude; para outros, é completamente ínfimo e faz-se necessário, talvez, que o movimento de rotação fosse mais lento, possibilitando, efetivamente, que o dia tivesse mais horas. Todavia, encontramo-nos encarando esse marco da história pós-moderna. Primeira semana, primeiro mês, seis meses, prestes a completar um ano, especialistas projetam mais um ano completo de isolamento em determinadas áreas. Quiçá existisse realmente uma máquina do tempo como, emblematicamente, é apresentado no filme “De Volta Para o Futuro”. Irrisoriamente, é mais fácil que uma nova franquia da série seja lançada com o título “De Volta Para o Passado”, do que acordarmos numa realidade em que podemos tocar uns aos outros, aglomerar, abraçar, beijar, seguir o nosso biologicamente normal. Anteriormente, suplicávamos por mais tempo; hoje, perdemo-nos na abundância do mesmo, na onisciência da displicência.