As Oficinas de Leitura, promovidas pelo Núcleo de Artes e Cultura (NAC), têm como finalidade contribuir para a formação do letramento literário. Em oposição à concepção de leitura unívoca e de um ensino transmissivo, em nossas discussões damos voz ao leitor em formação, o qual traz para a leitura suas experiências de vida. Dessa forma, destacamos o caráter plurissignificativo do texto literário. Realizamos encontros semanais para partilhar a leitura de textos literários, bem como propor atividades de produção autoral. Os encontros, com duração de uma hora, são abertos ao público e acontecem no IFPE- Campus Cabo de Santo Agostinho.
10 de julho de 2004
Muito se discute, nos círculos pedagógicos e intelectuais, sobre a melhor forma de se disseminar o gosto pela “boa literatura”, sobretudo entre os jovens estudantes.
Jorge Luis Borges foi professor de literatura inglesa, na Universidade de Buenos Aires, entre os anos de 1956 e 1968; falando, ocasionalmente, sobre sua prática docente afirmou: “A expressão leitura obrigatória para mim não faz sentido” (...) “Por acaso se fala em prazer obrigatório, felicidade obrigatória?!” “Só se pode ensinar é o amor sobre alguma coisa. Não ensinei literatura inglesa, mas o amor por essa literatura. Ou, melhor dizendo, já que a literatura é virtualmente infinita: o amor por certos livros, certas páginas, talvez por certos versos.”
Não é de todo seguro que uma experiência porventura bem sucedida para umas poucas pessoas possa, igualmente, servir a outras. No entanto, nada nos impede a reflexão. Conto como fui iniciado no gosto literário.
Meu pai é um homem de natureza quixotesca. Hoje, já com os seus 77 anos de idade e aposentado, mantém ainda hábitos e disciplina tão rigorosos que provocam, ao mesmo tempo, o riso e o desdém dos que com ele convivem. Quase ninguém suporta, por muito tempo, suas exigências no cumprimento de horários - um verdadeiro espírito kantiano -, de regras e formalidades que transformam as coisas mais simples nas mais entediantes rotinas. Grande apreciador da literatura, encarna, à semelhança do Cavaleiro da Triste Figura, e como que possuído de fantasmas, as personalidades dos heróis romanescos: seus pensamentos, seus achaques, suas manias, suas grandezas e suas mesquinharias; até mesmo uma “Dulcinéia” (minha mãe) veio povoar-lhe o imaginário, ocupando lugar de destaque nos seus “delírios” e crises de verdadeira “loucura”.
Das suas grandezas destaco, por ora, o amor pela literatura e a maneira como fez para que nós, os filhos, desenvolvêssemos a mesma paixão. Além da prática deleitosa de leituras coletivas com os filhos, era comum, também, sermos castigados, quando crianças, por alguma falta cometida, não com o “chicote”, mas com a imposição da leitura de um conto, novela, poesia ou mesmo romance, numa espécie de “pena alternativa”, com a qual, segundo ele cria, acabaríamos por descobrir o valor dos livros. Por outro lado, éramos também estimulados com prêmios em pecúnia pela leitura espontânea de alguma obra qualquer de sua variegada biblioteca. Ora, os livros tanto serviam aos “castigos” como deles também advinham prêmios.
Um dia, estive a comentar com um amigo sobre essas ações de meu pai, e ele opôs-me o argumento de que castigar uma criança com a pena de uma leitura obrigatória desenvolveria na mente infantil a ideia de que a leitura é algo ruim e não uma coisa boa, e que as consequências seriam opostas às desejadas; também, que os prêmios fariam com que as leituras fossem feitas visando apenas a recompensa material. Fiz-lhe as seguintes perguntas e objeções: 1. Quantas pessoas ele conhecia que foram assim castigadas? 2. Se, em sendo ele advogado, acreditava no valor de penas alternativas para pequenos delitos em que o infrator fosse obrigado a prestar serviços à comunidade, e se isso não traria como consequência se desenvolver no espírito do infrator a ideia de que servir seria indesejável? 3. Se à criança “transgressora”, em se reconhecendo o valor do seu argumento, em vez de castigada com a leitura, lhe fosse imposta a pena de assistir ao Domingão do Faustão, se ela, a criança, também acabaria por repudiar o programa intragável da TV? 4. É claro que seria impossível para meu pai prever as consequências daquelas suas ações, mas os resultados foram exatamente os esperados: acabamos por descobrir, surpresos, por mais paradoxais que fossem os castigos associados também aos prêmios, que ler era bom.
Com certeza aparecerão os pedagogos, os psicólogos e os defensores de plantão dos direitos individuais, e sobretudo da criança e do adolescente, a querer me crucificar, e a dizer-me que castigos são os métodos pedagógicos autoritários do passado, e que crianças não devem ser castigadas jamais, pois, as penas violam seus direitos, além de lhes deixar traumas indeléveis. Afirmarão, também, que aquele que estas coisas escreve deve ser um autoritário, um retrógrado, um pai estúpido, um bruto, etc. Direi que estou apenas a contar uma experiência por mim vivida.
Lembrei-me, por último, do conto Um General na Biblioteca, de Italo Calvino. Quem quiser saber o final dos meus argumentos será “obrigado” a ler o conto - caso não o tenha feito ainda - que se encontra no livro, de mesmo título, editado aqui no Brasil pela Companhia das Letras