A pesquisa de campo não termina quando o espetáculo acaba. Seguindo a proposta reflexiva da disciplina, registramos aqui o impacto subjetivo da experiência. Relatamos como acordamos no dia seguinte, quais sentimentos perduraram e como a visita ao Circo Stankowich afetou nossa motivação para continuar a pesquisa, conectando a vivência prática com o nosso 'eu' acadêmico e pessoal.
Percepções do Grupo
Nossa visita revelou que o circo opera em uma zona de fronteira entre a fantasia e a realidade urbana administrativa. Ao chegarmos, a presença de uma lixeira idêntica à do parque da cidade e a exibição ostensiva de alvarás e leis de incentivo nos lembraram que, apesar da lona mágica, o circo é uma estrutura sujeita às regras municipais. Observamos o contraste entre o local escuro com estrutura de tapumes e o interior vibrante, sugerindo que o circo cria seu próprio "lugar" dentro de um espaço em revitalização.
Apropriação Cultural e Adaptação: A identidade do Stankowich se mostra híbrida e adaptável. Notamos o uso deliberado de ícones da cultura de massa para gerar conexão imediata com as famílias presentes. A "magia" não é isolada; ela dialoga com o que o público consome externamente. A introdução do tema natalino e decorações reforça essa estratégia de sobrevivência comercial e adaptação ao calendário cultural.
A Estética do Risco e o Corpo: A performance é construída sobre uma progressão calculada de impressionabilidade: observamos nos malabares o aumento da dificuldade de 3 para 4, 5 objetos e, finalmente, o fogo. Há uma manipulação consciente da física e do corpo, exemplificada na força capilar da moça pendurada pelo cabelo e no uso de músicas sensuais e figurinos que realçam atributos físicos específicos. Tudo isso, somado à sensação de falta de rede de proteção, gera uma atmosfera de apreensão proposital , a tensão é parte do produto oferecido.
Percepções individuais
Fazia muitos anos que eu não ia a um circo e minha memória estava associada a um modelo menos tradicional que o Circo Stankowich. Por isso, fiquei surpreendida pela atmosfera. Talvez eu jamais tivesse ido se não fosse o trabalho da disciplina e, pensando agora, teria perdido uma experiência muito especial.
Uma das coisas que mais me encantaram foi observar a euforia das crianças. Todas pareciam completamente imersas na experiência, sorrindo, vibrando e reagindo a cada apresentação com uma espontaneidade que, como adultos, muitas vezes perdemos. Enquanto observava, fiquei me questionando por que os pais não levam mais seus filhos ao circo. Talvez, para os adultos, o circo pareça algo ultrapassado, repetitivo ou já conhecido, mas para as crianças, tudo ali é inédito, mágico e inesquecível. Saí de lá decidida a recomendar a todos os pais que conheço que levem seus filhos ao circo. Além de ser uma atividade acessível financeiramente, proporciona um momento de diversão verdadeira, tanto para as crianças quanto para os adultos, que muitas vezes se surpreendem ao sentir nostalgia e encantamento.
As apresentações foram muito bonitas e bem executadas, mas nenhuma delas me marcou tanto quanto o Globo da Morte. Eu já sabia da existência desse número e vi na internet que fazia parte do repertório do Stankowich, mas acreditava que só acontecia em outras unidades ou em apresentações específicas. Assistir ao vivo foi uma experiência intensa: eu não esperava me sentir tão nervosa. O barulho das motos, a velocidade, a sincronia e a fragilidade implícita naquilo tudo me deixaram muito apreensiva, fiquei fascinada e assustada. Pensei no número durante todo o dia seguinte e sei que jamais vou esquecer.
No fim das contas, o circo me surpreendeu muito mais do que eu imaginava. Entrar ali foi reencontrar uma parte da infância, não só a minha, mas a infância como fenômeno social, vivo, ruidoso e encantado. Foi uma experiência que mexeu comigo emocionalmente e até mesmo filosoficamente, me fez refletir sobre como vivemos, como sentimos e o que deixamos de viver por achar que já conhecemos.
Estive no Circo Stankowich com minha família três semanas antes da visita com o grupo e antes mesmo de decidirmos pesquisar sobre eles, fiquei muito entusiasmada de voltar para ter outra perspectiva do espetáculo. O Stankowich é uma memória marcante de minha infância pois lembro de quando ele chegou a Santo André quando tinha cerca de 9 ou 10 anos, e de como foi um ótimo passeio com minhas amigas de escola. Desde então, o circo sempre foi um lugar bem presente na minha vida, desde apresentações maiores até aquelas de ingressos solidários.
Estar ali novamente, agora com o olhar voltado para o trabalho, foi bem diferente. Fiquei feliz por ver a parte natalina que não estava presente na última vez, e por observar a energia contagiante dos artistas e como ela transforma todo o público.
Ao ver as crianças ao redor tão imersas e encantadas, pensei na possibilidade dos alunos da escola em que trabalho viverem aquele momento também. Muitos deles são apaixonados por arte, mas a escola raramente consegue oferecer experiências culturais fora de sala de aula. Saí do espetáculo com a sensação de nostalgia da minha infância e, ao mesmo tempo, com ideias para realizar um projeto pedagógico que permita que meus alunos também vivenciem essa experiência.
O circo já parecia especial desde a entrada, poucas pessoas, famílias espalhadas em um clima leve e acolhedor. Dentro da lona, o cheiro de pipoca salgada e morango com chocolate criava um ambiente infantil e aconchegante. As luzes coloridas — azul, rosa, roxo, verde — mudavam a cada artista, deixando tudo vibrante e mágico.
As risadas e aplausos da plateia tornavam o espaço ainda mais vivo, sem distinção entre ninguém, todos compartilhavam a mesma alegria. O espetáculo passou rápido, leve e divertido. O momento mais marcante foi ver meu marido, sempre tímido, sendo chamado ao palco e se divertindo como nunca. Saímos de lá encantados, com a sensação de termos vivido algo único.
Na manhã seguinte, ainda estávamos na magia do circo, rindo enquanto fazíamos café. O cheiro do café até se misturava com a lembrança da pipoca da noite anterior. Sentados à mesa, meu marido dizia não acreditar que subiu no palco, e eu ria só de lembrar da expressão dele. A energia leve do espetáculo deixava tudo mais gostoso, como se a noite anterior ainda estivesse ali conosco.
Nos dias seguintes às visitas, acordei com uma sensação de leveza e entusiasmo, como se o circo tivesse reativado algo muito afetivo da minha infância. O corpo estava disposto, apesar do cansaço acumulado, e o humor seguia animado, com uma mistura de nostalgia e curiosidade. As lembranças mais fortes eram as luzes, as cores vibrantes, os sons marcantes e o comportamento do público e sobretudo as crianças, sempre muito presentes.
O espetáculo me fez pensar sobre como o circo cria um universo próprio, próximo ao que eu imaginava quando assistia a filmes de infância, como Madagascar: não pelas figuras animais, mas pela estética da tenda, pelo jogo de luzes, pela música e pela fluidez das cenas. Fiquei particularmente impressionado pela ausência de um interlocutor, a narrativa se construía apenas pelas transições de música e performance.
No dia seguinte, a entrevista com o palhaço ainda ecoava bastante. Em um momento, ele disse calmamente: “aqui é a minha casa… quando a gente entra na lona, tudo faz sentido de novo”. Essa frase marcou muito porque sintetiza, em poucas palavras, o vínculo profundo que ele tem com o circo — não como trabalho, mas como modo de vida. Em outro momento, quando falava sobre se apresentar todos os dias, reforçou: “o público muda, mas a energia é sempre de família”.
Essas falas ajudaram a reforçar a percepção de que o circo é mais do que entretenimento: é um território de identidade, circulação afetiva e pertencimento. Isso me motivou ainda mais a continuar o trabalho, porque ficou claro que a análise cultural não estava apenas no espetáculo, mas também nas histórias, vínculos e sensibilidades que mantêm o circo vivo.
Eu nunca havia ido ao circo e, sinceramente, não tinha expectativas muito altas. Eu imaginava que a apresentação seria extremamente infantil e que eu não iria aproveitar muito, mas estava completamente enganada. A qualidade das apresentações e o profissionalismo foram algo que me encantaram. Bailarinos e artistas profissionais proporcionarem um show tão completo, com tantas atrações, por um valor tão acessível, foi algo que me deixou boquiaberta.
Eles estavam sorrindo o tempo todo, mas não aquele sorriso falso de apresentação; eles realmente pareciam estar se divertindo, sabe? E pessoas de diferentes idades fazem parte do circo: desde as crianças ajudantes do Papai Noel até o palhaço mais velho. Isso me fez repensar bastante sobre o modo de vida tradicional e sobre como o circo é um movimento de resistência. Além disso, deu pra ver como eles são uma família, às vezes literalmente de sangue, e, para além disso, era nítida a sinergia entre eles, o que possibilitou uma sincronia muito bonita de acompanhar.
Se a mesma apresentação fosse num teatro ou shopping, certamente custaria dez vezes mais.
Há mais de década que não ia a um circo, e previamente estava até um pouco desanimado, pois imaginava ser um local destinado apenas a crianças. Tudo mudou quando as apresentações começaram. Apesar de toda a narrativa do espetáculo conversar claramente com crianças, desde a linguagem oral até a circunscrita no teor das apresentações, danças, músicas e roupas, as apresentações são tão impressionantes e dinâmicas que é de fazer qualquer público ficar na ponta da cadeira e se entreter.
Conduzindo as entrevistas, o que mais me chamou a atenção no foram seu caráter único no tempo e espaço, ou seja, como toda a identidade formada pelo circo tem uma limtação temporal e espacial por onde passa: os próprios membros põe o seu local de vivência em oposição ao "da cidade", e transitam por diversas localidades ao longo dos anos, levando suas casas, famílias e vidas junto por onde passam, mantendo acesa a noção identitária apesar de tanta volatilidade.
Formação identitária essa inclusive que também fica muito demarcada, não apenas nas apresentações, na longa história do circo Stankowich de 180 anos no Brasil, mas também nas famílias que o compõe, vindas de outros circos e experiências, mas de longa tradição familiar e transmissão vertical, sem deixar de lado a transmissão horizontal das possibilidades que uma lona pode por sobre a vida de tantas famílias que compoem o circo e que vão o prestigiar.
Saí de lá com um encantamento renovado por essa tradição, um novo olhar menos enviesado, e com a certeza de que quero voltar com minha afilhada para que ela possa também experenciar um pouco da mágica que pode acontecer na vida.
No dia seguinte, acordei cedo, pouco antes do alarme, com a sensação de que havia descansado o suficiente, apesar de ter dormido por menos de seis horas, ao todo. Levantei devagar, prestei atenção em minha energia corporal, embora sinta uma habitual letargia pela manhã, pois geralmente prefiro dormir e acordar mais tarde; percebi que minha disposição geral era boa: meu ânimo estava estável, com uma clareza mental tranquila e um leve entusiasmo, tornando cada tarefa matinal bem direta.
Enquanto me arrumava e preparava o café, algumas imagens da tarde anterior no circo vinham de modo ainda desordenado: as cores variadas e vibrantes das apresentações, o ruído ritmado da plateia se misturando, naturalmente, com o espetáculo, a expectativa agitada e atenta do público a cada intervenção dos artistas conosco... Passei a manhã refletindo sobre o fato de que aquilo não alterou minha inclinação já favorável à cultura popular, mas, de certo modo, a reorganizou: tornou-me mais ciente de como esses espetáculos dependem de uma lógica interna, tão exigente quanto qualquer atividade acadêmica bem feita, e até mais do que coordenar uma banda de músicos, por seu caráter tão variado.
Com isso em mente, terminei o café e fui para o trabalho com a sensação de que o dia seguiria de modo fluido, guiado por uma espécie de continuidade entusiasmada e tranquila que ainda derivava da noite anterior. Essa expectativa não se confirmou, e, assim, os afazeres do dia-a-dia ocuparam minha mente, de modo que só fui retomar um pouco desse sentimento à noite, ao escrever este relato.