Entre corpo e cidade
E se cada rua que você percorre fosse uma frase escrita no seu corpo?
Cada rua que atravesso em Fortaleza carrega um pedaço de mim. O calor que queima a pele, as pernas cansadas, as avenidas largas em contraste com os becos e ruas estreitas, a pressa dos ônibus, o vento que chega do mar, tudo grava marcas no corpo. E, ao mesmo tempo, meu corpo também deixa rastros na cidade: os passos, o som dos pneus, a sombra que cruza a calçada, os olhares que cruzam o meu, os silêncios e até as ausências da presença de um corpo trans que insiste em ocupar o espaço público. Habitar a cidade, sendo eu quem sou, é também me inscrever nela.
Carta #3 – Outubro 2025
Como diz Conceição Evaristo:
Meu corpo negro é poesia que se escreve na resistência diária.
E escrevo a cidade com minha corpa-cicatriz
Isso que um dia sou
Já foi vento
A saber o que resta em mim:
Pó… poeira estrelar.
O que lês,
Minha cicatriz aqui contigo,
Marca a vida que tu vês e
Ainda não sabes
Que és tu
Também cicatriz.
És história de glória e sapiência.
És um poema que nos ganha no crescer.
Pó… Poeira estrelar
A saber o que há em mim,
Que já foi vento
Ou isso que um dia fui.
— Tea Marcelo
Entre corpo e cidade, existe sempre uma tensão: o que a cidade acolhe e o que ela rejeita. Fortaleza é um território que pulsa, mas também que exclui. Na periferia, aprendi que a vida se reinventa nas brechas, no campinho de areia improvisado, na calçada que vira palco, no muro que se transforma em tela. O corpo cria frestas onde a cidade não planejou.
Ser uma pessoa trans caminhando e pedalando pela cidade é afirmar presença onde muitas vezes esperam ausência. É ocupar o espaço público com o próprio ritmo, criando rotas que não estão nos mapas oficiais, mas que existem na memória de quem as percorre.
Meu pedal… meu passo é mais que deslocamento: é um ato de leitura e escrita da cidade. É sentir onde ela acolhe e onde ela tenta expulsar. É descobrir que, sobre duas rodas, posso costurar bairros, histórias e afetos que, de outro modo, ficariam distantes.
Qual foi a última vez que você atravessou a cidade e voltou para casa diferente de como saiu?
Raízes que ensinam
O Cine Descoberta me ensinou que a cidade não é uma só, ela se multiplica a cada trajeto. A cada ida de bicicleta ou ônibus até uma escola, um sarau ou um centro cultural, eu atravessava não somente ruas, mas fronteiras invisíveis: de classe, de cor, de história.
Chegar com o cinema era abrir uma janela para que outras janelas se abrissem. Na tela, histórias que falavam de nós; na plateia, corpos que se reconheciam e se surpreendiam. E, no caminho de volta, eu também voltava diferente porque cada bairro, cada conversa, cada olhar trocado deixava uma marca no meu corpo e na minha forma de ver a cidade.
O Cine Descoberta não é só sobre exibir filmes. É sobre costurar territórios: ligar a periferia ao centro, o passado ao presente, a experiência individual à memória coletiva. É sobre entender que as cidades são muitas e que o cinema pode ser a ponte entre elas.
Como lembra o escritor e educador indígena Daniel Munduruku:
Um povo sem memória ancestral é um povo perdido no tempo e no espaço.
Cada sessão, cada deslocamento, cada conversa depois do filme é também um ato de preservar essa memória, feita de vozes, gestos e saberes que resistem ao esquecimento.