Arquivos vivos

Escrevo hoje com a sensação de estar abrindo um baú que não é só meu.

Há memórias que não se deixam aprisionar em papel, tela, gavetas ou prateleiras. Elas caminham conosco, no corpo, na voz, no gesto repetido até se tornar herança. Entre os povos de terreiro, aprendi que memória é resistência: guardada nos cânticos, nas rezas, nas danças, nos objetos sagrados que atravessam gerações.

Carta #2Setembro 2025

Lembro de uma conversa com Mãe Evelane Faria, Yalorixá do Terreiro — Ilê Axé Yeye Omin Yo, que me disse:

O que não se escreve, a gente canta. O que não se canta, a gente dança.
E o que não se dança, a gente sonha até virar canto outra vez. 

Foi nesse instante que entendi: arquivar não é congelar — é manter quente. É cuidar para que o que é vivo continue vivo. É reconhecer que cada história é um território, e que perder uma memória é como perder um pedaço de chão.

Você já pensou quais histórias da sua família ou comunidade só existem porque alguém as contou antes de você?

Raízes que ensinam

Em 2021–22, participei de um processo que me ensinou mais sobre tempo do que qualquer relógio: o Inventário dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro do Ceará. Foram meses atravessando o estado, ouvindo histórias, registrando práticas e fotografando territórios sagrados. Tudo isso acompanhado de um percurso formativo sobre etnodesenvolvimento, relações étnico-raciais, história e memória dos povos de terreiro, metodologias de pesquisa e políticas públicas.

Mas, mais do que dados, colhemos afetos e, sobretudo, aprendendo com quem mantém viva a memória ancestral. 

O inventário não é só um documento, é um gesto político. Ele reconhece direitos, protege territórios sagrados e afirma a importância dos saberes de matriz africana e afro-brasileira. Como pesquisadora e parte dessa equipe, pude testemunhar a força de mais de 500 comunidades espalhadas por 57 municípios, cada uma com sua forma única de garantir que saberes ancestrais não sejam apagados. 

Em um dos dias mais quentes da pesquisa, cheguei a Camocim. O vento vinha do mar, mas o que me atravessou foi a fala de uma liderança de terreiro, dita com a firmeza de quem carrega séculos na voz:

A memória é a argamassa que mantém unida a identidade de um povo.

Escutei essa frase como quem recebe um chamado. Porque naquele momento, entre registros, cantos e gestos, Camocim me ensinou que há territórios onde o tempo não passa, ele permanece. E que a escuta é também uma forma de resistência.

Nessa minha primeira vez conhecendo o litoral leste do Ceará e a Princesa do Mar, também aprendi que, por aqui, essa argamassa é também feita de folhas, rezas, tambores, histórias de iniciação e de luta.

Parte desse trabalho ganhou corpo no livro Inventário dos Povos de Terreiro do Ceará, fruto de um esforço coletivo da Associação Afro Brasileira de Cultura Alàgbà com apoio da Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Ceará. São mais de 500 comunidades visitadas em 57 municípios, reunindo histórias, práticas e vozes que, juntas, formam um mapa afetivo e político, onde cada página é uma voz, um canto, um gesto de resistência. 

Ler o Inventário é sentar-se numa roda e ouvir histórias que não cabem só no papel — elas respiram no corpo e na memória de quem as vive. E é por isso que, para mim, indicar este livro é também convidar você a fazer parte dessa roda.

E te faço pensar: se você pudesse inventariar um saber da sua comunidade hoje, qual seria o primeiro da lista?