Memoriar o começo
Você já pensou no quanto seu corpo e sua cidade se escrevem mutuamente?
Antes de qualquer palavra escrita, houve um sopro.
E nesse sopro, a lembrança do primeiro gesto — aquele que acende a chama e nos chama a guardar.
É isso que faço agora: memoriar o começo, para que ele nunca deixe de nascer.
Carta #1 – Agosto 2025
Começar é sempre um gesto de coragem.
Para pessoas como nós, não existem coisas como modelo.
Somos convocados constantemente a criar nossos modelos.
— Ousmane Sembene
A Memoriar nasce como um quintal aberto, onde histórias, afetos e ideias se encontram. E talvez não seja coincidência que ela comece agora: no dia em que completo 30 anos. É como se este projeto fosse também um presente que me dou — e que ofereço a quem quiser costurar memórias comigo. Memoriar é verbo. Diz sobre registrar, lembrar, contar para que não se perca. Aqui, memória, arte, política e educação se entrelaçam como fios de um mesmo tecido. É ação e intenção: costurar memórias para que o tempo não as leve.
E você, o que gostaria de guardar para o futuro?
Raízes que ensinam
No quintal da minha avó materna, a sombra da mangueira era sala de aula. Ali, entre o cheiro doce da fruta e o som das conversas, aprendi que o saber não cabe só nas páginas — ele mora no corpo, na voz e no gesto. Como uma vez disse Davi Kopenawa,
Não precisamos, como os napëpë, de peles de imagens para impedi-las de fugir da nossa mente. Não temos de desenhá-las, como eles fazem com as suas. Nem por isso elas irão desaparecer, pois ficam gravadas dentro de nós.
É assim que nossas histórias atravessam o tempo: vivas, respirando em quem as conta, mesmo quando não estavam escritas em nenhum livro.
Hoje, no Brasil, mais de 56% da população é negra e indígena, mas nossas histórias e culturas seguem sub-representadas nos currículos escolares e universitários. É por isso que, para mim, educar é também um ato de memória: lembrar o que tentaram apagar e cuidar para que siga vivo.
Escrevo estas linhas sabendo que, para muitos, a palavra só ganha peso quando se fixa no papel ou na tela. Mas o que trago aqui nasceu antes da escrita, veio da fala, do corpo, do gesto, da memória que respira. A Memoriar é, assim, um quintal aberto onde a palavra viva encontra o registro escrito, não para se aprisionar, mas para atravessar outros caminhos e chegar a quem talvez só aprenda a ouvir quando lê.