Aqui na Zabelê, fazemos questão de falar em infâncias. No plural, sim! Porque consideramos a infância como tempo/espaço poderoso em sua multiplicidade de caminhos e expressões. Enxergamos a necessidade de encará-la em sua amplitude de formas de ser, respeitando e reverenciando saberes e devires das mais diversas formas de ser criança nesse mundo.
Compreendemos as crianças enquanto seres singulares e integrais, dotados de dimensões sociais, físicas, culturais, emocionais e intelectuais, que precisam ser nutridas e potencializadas em suas possibilidades de expressões e inter-relações. Acreditamos que, na primeira infância, o Brincar seja a melhor maneira de compreender e contemplar essa multidimensionalidade.
Além disso, para nós, o Brincar é uma linguagem do conhecimento e do aprendizado. Assim, proporcionamos um tempo/espaço com materiais e condições que permitam que esse brincar se exerça em sua máxima potência, impulsionando a autonomia de cada criança, levando em consideração sua fase de desenvolvimento, seus interesses e desejos de encontro com o mundo.
A educação tradicional costuma separar as crianças em idades, seriando as turmas. Acreditamos que essa separação pode muitas vezes impossibilitar interações importantes que ocorrem entre crianças de diferentes faixas etárias e fases de desenvolvimento. Aqui na Zabelê, crianças de diversas idades podem se encontrar e trocar entre si, se observar, aprender e ensinar conforme seus interesses.
Em contraponto a um tempo disciplinador que determina as interações das crianças, trazemos um tempo acolhedor, no qual as crianças têm liberdade e autonomia para optar por quanto tempo se envolverão em cada uma de suas pesquisas e brincadeiras. Para isso, trazemos materiais não estruturados, elementos da natureza, contextos investigativos, experiências sensoriais, circuitos motores, brincadeiras tradicionais da cultura da infância, contações de história, culinárias e trabalhos manuais que convidam as crianças a exercerem sua imaginação, criando cultura através de seus brinquedos e investigações. Assim, nosso tempo/espaço é pensado e preparado a fim de propiciar um contexto afetivo, provocador e seguro para que as crianças possam desenvolver suas interações consigo, com o outro e com o mundo.
Aqui, as crianças têm liberdade e autonomia para optar em que pesquisas e brincadeiras se envolverão. No começo dos períodos os ambientes são preparados a fim de incitar curiosidade às investigações e ao longo do dia, permanecemos sempre atentas às demandas das crianças para proporcionar-lhes o que for preciso.
Além disso, reconhecemos a natureza como grande mestra e assim, propiciamos às crianças momentos e propostas em que esse contato tão potente possa se desdobrar. Brincadeiras no quintal, na praça, na areia, na terra, na água, no conviver, semear, cultivar e colher. Para nós, é essencial que a natureza faça parte do brincar, do crescer, do respeitar e do contemplar. Em suas formas, cores e movimentos, nos ensina a estar junto, nos convidando a fluir com seus ciclos, em uma dinâmica em que o externo e o interno se refletem.
Por fim, entendemos a importância do território e do pertencimento enquanto fatores fundamentais no desenvolvimento integral das crianças. Para nós, todo território é potencialmente educativo e por isso, nos propomos a ocupá-los com essa intenção. Consideramos essencial nos reconhecermos enquanto brasileiros, terra de tantas preciosidades naturais e culturais. Assim, trabalhamos na intenção de nutrir esse pertencimento para que as crianças possam se reconhecer enquanto cuidadores e construtores responsáveis por essa realidade. Como nos diz Paulo Freire, “O mundo não é. O mundo está sendo” e enxergamos as crianças como seres históricos, construtoras de cultura e abridoras de novos caminhos mais humanos, sensíveis e sustentáveis. Com isso, damos início a essa construção pelo território em torno do espaço: a rua, a feira livre, a praça, a vizinhança, suas árvores, cheiros, intervenções, as pessoas, o bairro… Zabelê se propõe a existir para além de seus portões e a permitir que tudo que vem de fora, também possa ali habitar.
Ocupar, cavar, imaginar, jogar, encantar, passear, semear, colher, cuidar, abraçar, girar, contar, ler, escrever, descansar, medir, regar, correr, criar, procurar, esconder, empurrar, rolar, encontrar, pendurar, puxar, balançar, investigar, testar, construir, aprender, errar, equilibrar, escorregar, escalar, tocar, sentir, contemplar, falar, escutar, observar, fantasiar, separar, juntar, encher, esvaziar, encaixar, ser, estar… brincar.
Que possamos juntos fazer da educação uma prática transformadora, na qual todos esses verbos e tantos outros possam fluir em sua inteireza.