A questão é que o ambiente urbano foi pensado para corpos que andam com agilidade e pressa, para quem enxerga as placas sem esforço, para quem ouve os sinais do trânsito sem hesitar. Os espaços, os edifícios, os transportes públicos foram desenhados para quem pode percorrer a cidade como se fosse uma continuidade natural de seu corpo. Quem não se encaixa nesse perfil vê o cotidiano se tornar uma luta silenciosa e exaustiva, feita de pequenos embates diários contra as barreiras que, na prática, restringem o direito de existir ali.
Nas calçadas, o caminho é um teste constante de resistência. Cada esquina representa uma negociação entre o desejo de ir e a impossibilidade material que grita "pare". E a cidade, na sua indiferença, parece construir essas barreiras como se fossem detalhes invisíveis, como se os degraus altos, as portas estreitas, as escadas infinitas não fossem problemas de ninguém em particular. A promessa de inclusão fica assim relegada ao campo da utopia, onde projetos e leis existem mais para compor relatórios do que para transformar a vida real.
Há quem diga que acessibilidade é um direito, mas na prática, é quase um privilégio. Poucas são as cidades que adotam a responsabilidade de construir espaços para todos, e menos ainda são as que aplicam essa promessa até suas bordas e periferias. Porque acessibilidade é um direito no papel, mas na realidade das ruas, é um detalhe ignorado, um custo que parece nunca valer o investimento. São raros os momentos em que as vozes daqueles que precisam de acessibilidade ganham o espaço que merecem. Suas necessidades são vistas como uma demanda a ser resolvida com o mínimo possível, o mais barato possível, o mais lento possível.
Os corpos que não cabem nos moldes das cidades são corpos que resistem, que habitam o espaço urbano como pontos de interrogação. Cada vez que se movem, são um lembrete de que aquele espaço é hostil, que cada passo exige mais esforço do que deveria. E, na solidão desse esforço diário, na rotina de calçadas que excluem e degraus que negam o acesso, surge a questão essencial: de quem é essa cidade?