Tese: CARTAS AO MONGE HISTORIADOR: A "CIRCULARIDADE CULTURAL" DO ZEN BUDISMO NO BRASIL (1970-1980).
Autor: LUIZ, Leonardo Henrique.
Ano: 2023
Resumo: Esta tese buscou demonstrar a circularidade do Zen Budismo entre grupos de classe média baixa no Brasil, nas décadas de 1970 e 1980. Para tanto, utilizamos de uma vasta documentação inédita, que compreende a coluna “Budismo”, escrita por Eduardo Basto de Albuquerque, para o jornal Notícias Populares, bem como as cartas dos leitores do referido jornal que eram endereçadas ao autor da coluna e, por fim, com o intuito de apresentar informações sobre a vida de Albuquerque, trabalhamos com a história oral, por meio de entrevista e com produções públicas intelectuais, como o Currículo Lattes, Memorial, entre outros. Metodologicamente, esses materiais foram abordados em sua especificidade enquanto documentos históricos, para os jornais partirmos das considerações apontadas por Maria Helena Rolim Capelato (1988), Tania Regina de Luca (2008), Heloisa de Faria Cruz e Maria do Rosário da Cunha Peixoto (2007), que destacam a necessidade de abordar os periódicos tanto em relação ao conteúdo como a própria materialidade dos impressos. No caso da epistolografia, tomamos como base as discussões oportunizadas por Angela de Castro Gomes (2004), Greyce Kely Piovesan (2009) e Vanessa Gandra Dutra Martins (2011), que ressaltam o papel das cartas para investigação da vida privada. As informações da vida de Albuquerque foram analisadasseguindo as discussões de Pierre Bourdieu (2006), Giovanni Levi (2006) e Jean-François Sirinelli (2003) a respeito dos cuidados na produção biográfica. Buscamos demonstrar que, ao lerem as colunas do jornal, os autores das cartas realizam um processo ativo de transformação nas ideias budistas apresentadas por Albuquerque, se apropriando dos elementos que faziam sentido em suas vidas. Ao se comunicarem por meio das cartas, esses autores tiravam dúvidas, solicitavam informações, questionavam e apresentavam outras perspectivas, se comparado com o discurso budista presente no jornal. Esse processo é aqui entendido como dialógico, pois entendemos que as cartas agem sobre as colunas na mesma intensidade que estas retroagem sobre elas. Em outras palavras, partindo dos conceitos que nos permitem teorizar e historicizar a discussão, constatamos uma “leitura tática” (CERTEAU, 2014) por parte dos autores das cartas, do mesmo modo que houve uma “representação estratégica” pelo autor das colunas. Portanto, da perspectiva teórica, esse processo é entendido por meio do conceito de “circularidade cultural” de Carlo Ginzburg (2006; 1988), ou seja, entre a produção de Albuquerque e a dos autores das cartas há trocas mútuas em um constante processo dialógico de negociação e reelaboração do discurso. Nesse processo, os autores olharam o Budismo a partir de seus próprios referenciais enquanto brasileiros de classe média baixa e que possuíam necessidades específicas. Argumentaremos que esse grupo específico da sociedade não foi privilegiado nos estudos acadêmicos sobre o assunto, uma vez que são distantes do tradicional recorte que analisa os interesses dos grupos de imigrantes ou setores intelectuais de classe média alta.
Palavras-chave: Zen budismo; Circularidade cultural; Cartas; Notícias Populares.