Dissertação: DE GAROTO DE RECADOS A DETENTOR DOS SEGREDOS DO MUNDO: A REPRESENTAÇÃO DE EXU EM DEUSES DE DOIS MUNDOS, A TRILOGIA ÉPICA DOS ORIXÁS (BRASIL – SÉCULO XXI)
Autora: FIALHO, Laís Azevedo. Ano: 2019
Resumo: Neste trabalho, pretendemos analisar a representação de Exu, em Deuses de dois mundos, trilogia ficcional escrita por PJ Pereira e publicada pela Editora Livros de Safra, nos anos 2013, 2014 e 2015 – primeiro, segundo e terceiro volume, respectivamente. Enfatizamos, na criação literária, as apropriações e adaptações dos mitos de Exu, destacando que a obra se pauta nos mitos de construção representativa dos orixás, incorporados à religiosidade africana e afro-brasileira. Buscamos compreender a construção narrativa e enredo presentes na obra, uma trama que vai sendo produzida para referendar Exu, a divindade mais dinâmica e mal interpretada dentre as cultuadas nas religiosidades afro-brasileiras. Consideramos a trilogia épica dos orixás uma fonte histórica literária para o estudo da cultura afro-brasileira, percebendo como essa é representada na obra por meio da apropriação da mitologia ioruba. Analisamos as narrativas históricas sobre Exu nos estudos bibliográficos que contribuem para construção de algumas de suas representações históricas. Abordamos também as narrativas cinematográficas, literárias e fonográficas, que constituem o universo cultural de produção da nossa fonte, além do nosso próprio espaço de elaboração de hipóteses e problematizações científicas. Do ponto de vista metodológico, considerando a especificidade do trato da narrativa literária com vista à construção de uma representação mitológica, partimos das discussões presentes em Michel de Certeau (1982), voltadas ao lugar social, práticas e escrita, como componentes da operação historiográfica. Exploramos as contribuições de Roger Chartier (1990) sobre apropriação e representação, e de Sandra Pesavento (2008), que fazem aproximações entre história e literatura. Foram importantes ainda as discussões de François Hartog (1999) acerca das retóricas de alteridade, além de algumas considerações de Joseph Campbell e Moyers (1990) e Marcel Detienne (1992) sobre a historicidade dos mitos. Do ponto de vista teórico, nos detemos nos estudos de Chandra Mohanty (1991), Frantz Fanon (2008), Kabengele Munanga (2009), Stuart Hall (2006) e Gayatri Chakravorty Spivak (2010), que refletem sobre a lógica colonial, o embranquecimento cultural, a ocidentalização do saber e a ocidentalização da alteridade. Tais noções norteiam nossa problematização de como o pretenso universalismo eurocêntrico, de um modo único e racional de pensar, apaga e silencia as complexidades e conflitos que incidem nas representações mais controversas de Exu. Constatamos em nossa análise que a trilogia épica dos orixás inicia a narrativa admitindo Exu como um moleque de recados, comilão e trickster, para, paulatinamente, atribuir-lhe maior importância, como mensageiro, guardião dos caminhos e rei dos mercados, no segundo volume, e, finalmente, como detentor dos segredos importantes do mundo, no último. Mesmo assim, o que encontramos na obra são versões bastante ocidentalizadas, embranquecidas e, por vezes, atenuantes dos mitos de Exu. Em nossa visão, houve uma suavização da narrativa, uma tentativa de tornar a história de Exu mais palatável e higienizada. Acreditamos que essa foi a opção que PJ Pereira (2015) adotou para tornar o texto inteligível para todos os leitores, e não somente para os adeptos do candomblé ou conhecedores dos mitos iorubas. Por fim, indicamos que, para tornar Exu o protagonista de um best-seller, foi preciso embranquecer, suavizar e silenciar alguns de seus aspectos controversos, como o falo, a sexualidade e seu caráter não maniqueísta.
Palavras-chave: Representações; Exu; Mitologia ioruba; Candomblé; Embranquecimento cultural.