Por Caio Campos Barbosa
Data: 16/09/2026
Na última quarta-feira (16), ocorreu, em Seul, a primeira Cúpula Empresarial Coreia do Sul-Ásia Central. Reunindo os líderes das cinco nações da Ásia Central, Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão e Tadjiquistão, a cooperação em minerais críticos, energia e cadeias de suprimentos esteve no centro dos esforços de Seul para aprofundar os laços com a região.
Para além do simples comércio de matérias-primas, o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, demonstrou o interesse em “fortalecer a cooperação em toda a cadeia de valor dos minerais críticos, desde a exploração e o refino até o processamento de materiais de alto valor agregado e a fabricação de produtos acabados."
A cúpula marca uma nova fase nas relações entre Seul e a Ásia Central, à medida que o país, carente de recursos, busca diversificar o suprimento de petróleo bruto, urânio e outros minerais estratégicos, ao mesmo tempo em que amplia oportunidades para suas empresas. Sabina Insebayeva, cientista política da Nazarbayev University, afirma que “atualmente, a Coreia do Sul possui uma base de recursos domésticos limitada e uma significativa dependência da China em sua cadeia de suprimentos, principalmente em materiais críticos, componentes e outros insumos industriais. A Ásia Central pode oferecer à Coreia do Sul minerais críticos, energia, oportunidades de produção alternativa e maior diversificação da cadeia de suprimentos. Em contrapartida, a Coreia pode fornecer tecnologia, capital e expertise industrial.”
A reunião estabeleceu uma estrutura para cúpulas regulares, bienalmente, sendo o Cazaquistão definido para sediar o próximo encontro em Astana, em 2028. A Coreia do Sul e o Cazaquistão assinaram, nesta semana, acordos abrangendo energia nuclear, petróleo bruto e minerais críticos, além de elevarem suas relações ao nível de parceria estratégica abrangente. Reuniões com Uzbequistão, Turcomenistão, Quirguistão e Tajiquistão também resultaram em acordos que contemplam minerais estratégicos, energia, infraestrutura, comércio, investimentos e tecnologias digitais.
REFERÊNCIAS
PIKULICKA-WILCZEWSKA, Agnieszka. South Korea embraces Central Asian leaders, looking to boost regional clout. Al Jazeera, [S.l], 15 sep. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/9/15/south-korea-embraces-central-asian-leaders-looking-to-boost-regional-clout . Acesso em: 16 set. 2026.
PUTZ, Catherine. South Korea embraces the Silk Road spirit with Central Asian leaders. The Diplomat, [S.l], 16 sep. 2026. Disponível em: https://thediplomat.com/2026/09/south-korea-embraces-the-silk-road-spirit-with-central-asian-leaders/ . Acesso em: 16 set. 2026.
SHIM, Kyu—Seok. South Korea puts critical minerals, energy at forefront of inaugural Central Asia summit. Reuters, Seoul, 16 sep. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/south-korea-puts-critical-minerals-energy-forefront-inaugural-central-asia-2026-09-16/ . Acesso em: 16 set. 2026.
Por Bárbara Braga Barbosa
Data: 15/09/2026
A RODOVIA TRILATERAL CQU
A ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão (CQU) teve sua construção iniciada oficialmente em 27 de dezembro de 2024, em Jalal-Abad, no Quirguistão. O projeto cria uma nova conexão ferroviária entre a China e a Ásia Central e, posteriormente, com outros mercados da Eurásia, oferecendo uma alternativa às rotas atualmente utilizadas. Além de reduzir a dependência desses corredores, a nova ligação é projetada para diminuir em sete a oito dias o tempo de transporte de mercadorias entre a China e destinos a oeste.
Com aproximadamente 450 km em território quirguiz, a ferrovia partirá de Kashgar, na região chinesa de Xinjiang, atravessará a fronteira pelo passo de Torugart e seguirá pelo território montanhoso do Quirguistão até Kazarman e Jalal-Abad. A partir daí, entrará no Uzbequistão, chegando a Andijã, onde será integrada à rede ferroviária já existente.
Imagem 1 - Túnel Kosh-Tyubyo Norte 2, o primeiro do trecho da Ferrovia CQU em território quirguiz
Fonte: Primeiro túnel da… (2026).
PANORAMA HISTÓRICO DAS NEGOCIAÇÕES
A ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão foi idealizada em 1997, quase 16 anos antes de o secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, lançar a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), em 2013. O megaprojeto foi pensado a fim conectar os três países e facilitar o trânsito leste-oeste. Em 1997, a construção da ferrovia foi proposta pela iniciativa do Corredor de Transporte Europa-Cáucaso-Ásia (TRACECA) e se fundamentava em dois documentos: o Memorando de Entendimento trilateral assinado entre os ministérios de transporte e ferrovias dos três países e o Protocolo da Primeira Reunião (Bishkek, novembro de 1997).
Os três governos criaram, então, uma comissão conjunta, responsável pelo trabalho inicial de pesquisa no território de seus países. No entanto, após esse momento inicial, o projeto enfrentou atrasos significativos por conta de desafios financeiros, políticos, técnicos e geopolíticos. Um dos principais empecilhos foi justamente a instabilidade política no Quirguistão, que paralisou o projeto por 15 anos.
Imagem 2 - Askar Akayev – presidente do Quirguistão de 1990 a 2005
Fonte: History of Kyrgyzstan ([20–?]).
Ainda em 2002, a China forneceu uma subvenção técnica ao governo do Quirguistão para a elaboração de um Estudo de Viabilidade Preliminar, que concluiu as vantagens em comparação a corredores já existentes e a viabilidade técnica, econômica e em relação à segurança ambiental do projeto. Com base nesse estudo, especialistas quirguizes-chineses concordaram com uma opção de rota considerada competitiva na época. Superados alguns entraves, o projeto foi revitalizado em 2012, após uma visita a Pequim do então presidente quirguiz Almazbek Atambayev. Na ocasião, foi anunciado que o projeto seguiria em duas etapas: uma primeira, com a construção da estrada China-Quirguistão, com custo de implementação de 2,5 bilhões de dólares e uma segunda, ligando o norte e o sul do Quirguistão, avaliada em 2 bilhões de dólares.
Em um projeto com custos tão elevados, questões sobre o financiamento da construção eram um ponto-chave. Antes da fase mais ativa das negociações, mais uma vez, o Quirguistão estava sob forte pressão: não tinha os recursos próprios para tal iniciativa e precisou explorar várias opções para encontrar investidores externos. A opção óbvia, a China, não poderia conceder um empréstimo ao governo quirguiz, pois o mesmo não conseguia oferecer uma garantia nacional para seu retorno. Opções como transferência de depósitos para a China, mais lucrativo para essa, e até um possível abandono do projeto por insatisfação popular foram ponderadas.
Ao longo de 2012, os países se reuníram diversas vezes para negociar aspectos da ferrovia. Dentre eles, dois foram fontes notáveis de desacordo: o financiamento e as normas técnicas (bitola). As negociações se viram congeladas novamente ao longo de 2012 e 2013, quando o presidente quirguiz, respondendo questões sobre os possíveis motivos para a suspensão da execução do projeto, anunciou que a estrada China-Quirguistão-Uzbequistão era uma estrada que não tinha utilidade para o Quirguistão – muito mais interessado na sua conectividade norte e sul.
Após novas consultas, as operações foram retomadas no final de 2014, em ocasião de uma missão do representante especial do de Xi Jinping com o presidente do Quirguistão. Em 2015, o Quirguistão propôs um novo acordo mais econômico e, visando reduzir o custo do projeto, a rota foi alterada. Chegou-se a um novo acordo sobre questões técnicas, a bitola russa foi aprovada e, quanto ao financiamento, o partido quirguiz propôs a criação de uma empresa conjunta à China, que foi recebida positivamente. A parte quirguiz assumiria o fornecimento de terrenos, enquanto a chinesa financiaria a construção e a infraestrutura. Finalmente, em maio de 2023, a China e o Quirguistão chegaram a um acordo para dar início ao projeto ferroviário CQU durante uma visita oficial do presidente quirguiz a Pequim, tendo a China Railway Construction Corporation concluído um estudo de viabilidade no mesmo ano.
Em junho de 2024, autoridades da China, Quirguistão e Uzbequistão assinaram um acordo trilateral para implementar o projeto, estabelecendo uma base legal sólida para a construção da ferrovia. A linha começará em Kashgar, Xinjiang, passará pelo Quirguistão e se estenderá até o Uzbequistão, com planos futuros de expansão para o oeste e sul da Ásia.
Imagem 3 - Xi Jinping na Cúpula da Ásia Central em 2023
Fonte: China recebe líderes… (2023).
IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA
A ferrovia CQU representa uma transformação importante na conectividade da Ásia Central. Atualmente, Quirguistão e Uzbequistão não possuem ligação ferroviária direta com a China, enquanto a conexão ferroviária entre a China e a região centro-asiática ocorre principalmente por meio do Cazaquistão. A nova rota cria, portanto, um corredor alternativo de transporte leste-oeste, permitindo à China diversificar suas vias de comércio e reduzir sua dependência das rotas que atravessam a Rússia e o Cazaquistão.
Para o Quirguistão, cuja rede ferroviária interna possui apenas cerca de 424 km, a construção representa uma oportunidade de expansão da infraestrutura nacional, geração de empregos e obtenção de receitas com o trânsito de cargas. Já o Uzbequistão busca ampliar sua inserção em novos mercados e fortalecer sua posição como país de trânsito regional. A ferrovia poderá facilitar o acesso uzbeque ao mercado chinês e a outros mercados asiáticos, ao mesmo tempo em que se conecta a projetos como a ferrovia transafegã. Estimativas citadas sobre o projeto apontam ainda para a possibilidade de o Uzbequistão obter US$150 a 200 milhões anuais em receitas provenientes do trânsito de cargas.
DESAFIOS E O FUTURO DA COOPERAÇÃO
Apesar de seu potencial estratégico e econômico, a implementação da CQU envolve desafios significativos. Primeiramente, o território montanhoso do Quirguistão exigirá a construção de 81 novas pontes e 41 túneis, aumentando a complexidade e os custos da obra. Estimativas situam o investimento total em cerca de US$8 bilhões, dos quais aproximadamente US$4,7 bilhões correspondem ao trecho quirguiz e, para um país cujo PIB gira em torno de US$9 bilhões, o volume do investimento representa um importante desafio financeiro. Nesse contexto, o Quirguistão solicitou um empréstimo de US$2,35 bilhões à China para financiar sua participação no projeto, reacendendo debates sobre a sustentabilidade da dívida e dependência financeira.
Imagem 4 - Traçado do projeto ferroviário China-Quirguistão-Uzbequistão
Fonte: SMEC (2025).
Além disso, os governos envolvidos destacam questões relacionadas à mão de obra local, aquisição de materiais nacionais, proteção ambiental e preservação do patrimônio histórico e cultural. Também foram ressaltadas a necessidade de transparência na construção e a adoção de medidas para reduzir riscos de corrupção. No campo da segurança, análises sobre o corredor apontam preocupações com seu possível uso para o tráfico transfronteiriço de drogas e pela circulação de grupos militantes, especialmente diante da proximidade de áreas consideradas sensíveis. Assim, o futuro da cooperação dependerá não apenas da conclusão da infraestrutura, mas também da capacidade dos três países de administrar conjuntamente seus impactos econômicos, ambientais e de segurança.
REFERÊNCIAS
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CHEREVYK, Konstantin. КИРГИЗСКО-КИТАЙСКИЕ ПЕРЕГОВОРЫ О СТРОИТЕЛЬСТВЕ ЖЕЛЕЗНОЙ ДОРОГИ «КИТАЙ-КИРГИЗИЯ-УЗБЕКИСТАН». Актуальные проблемы гуманитарных и естественных наук. 2016. 12-4. 121-126.
CHINA recebe líderes da Ásia Central em cúpula para fortalecer aliança regional. ISTOÉ Dinheiro, [S.l], 18 maio 2023. Disponível em: https://istoedinheiro.com.br/china-recebe-lideres-da-asia-central-em-cupula-para-fortalecer-alianca-regional. Acesso em: 16 set. 2026.
FAZL-E-HAIDER, Syed. Shifting Geopolitics Threaten to Shelve China–Kyrgyzstan–Uzbekistan Railway Project. Jamestown - Economic Diplomacy, [S.l], v. 21, i. 70, 05 jul. 2024. Disponível em: https://jamestown.org/shifting-geopolitics-threaten-to-shelve-china-kyrgyzstan-uzbekistan-railway-project/ . Acesso em: 16 set. 2026.
FAZL-E-HAIDER, Syed. The China-Kyrgyzstan-Uzbekistan railway: China’s strategic expansion in Russia’s backyard. Central Asia-Caucasus Analyst, [S.l], 16 jan. 2025. Analytical Articles. Disponível em: https://www.cacianalyst.org/publications/analytical-articles/item/13837-the-china-kyrgyzstan-uzbekistan-railway-chinas-strategic-expansion-in-russias-backyard.html . Acesso em: 16 set. 2026.
HISTORY of Kyrgyzstan. History Maps, [S.l], 17 dez. 2024. Disponível em: https://history-maps.com/story/History-of-Kyrgyzstan. Acesso em: 16 set. 2026.
ISSUES related to the implementation of the China–Kyrgyzstan–Uzbekistan railway project were discussed. Ministry of Transport and Communications of the Kyrgyz Republic, [S.l], 10 jul. 2026. Disponível em: https://egov.kg/en/ministry/transport/news/24166 . Acesso em: 16 set. 2026.
KOSH, Alan. Why Does China Need Another Railway Through Central Asia? – Analysis. Eurasia Review, [S.l], 26 jun. 2024. Disponível em: https://www.eurasiareview.com/29062024-why-does-china-need-another-railway-through-central-asia-analysis/ . Acesso em: 16 set. 2026.
KWAN, Sergey. Important Deal Signed for China-Kyrgyzstan-Uzbekistan Railway Project. The Times of Central Asia, [S.l], 23 dec. 2024. Disponível em: https://timesca.com/important-deal-signed-for-china-kyrgyzstan-uzbekistan-railway-project/ . Acesso em: 16 set. 2026.
KZ, Vlast. The China-Kyrgyzstan-Uzbekistan railway: Between optimism and concern. Global Voices, [S.l], 01 jul. 2024. Disponível em: https://globalvoices.org/2024/07/01/the-china-kyrgyzstan-uzbekistan-railway-between-optimism-and-concern/ . Acesso em: 16 set. 2026.
PRIMEIRO túnel da ferrovia China–Quirguistão–Uzbequistão em território quirguiz é concluído. Diário de PE, [S.l], 06 set. 2026. Disponível em: https://diariodepe.com.br/cri/2026/09/06/primeiro-tunel-da-ferrovia-china-quirguistao-uzbequistao-em-territorio-quirguiz-e-concluido/. Acesso em: 16 set. 2026.
SMEC. Technical Assistance for Kambarata 1 Hydropower Plant Project. Draft of Environmental and Social Impact Assessment Report. v. 2, [S.l.], 11 aug. 2025. Disponível em: https://documents1.worldbank.org/curated/en/099081525111183703/pdf/P509251-3e5b7efe-71a2-4c14-9654-6746a528a091.pdf. Acesso em: 23 set. 2026.
THE New Era of central Asia-China cooperation: The case of the China-Kyrgyzstan-Uzbekistan railway. Eurasian Research Institute, [S.l], 6 jun. 2024. Disponível em: https://www.eurasian-research.org/publication/the-new-era-of-central-asia-china-cooperation-the-case-of-the-china-kyrgyzstan-uzbekistan-railway/ . Acesso em: 16 set. 2026.
Por Sofia Comunian de Carvalho
Data: 08/09/2026
CONTEXTO
A Ásia Central se tornou uma área de destaque nos últimos anos tanto pelo posicionamento estratégico geográfico, quanto pelo desenvolvimento econômico e tecnológico recente. Nesse sentido, a região tenta acompanhar o mundo em um avanço na exploração sustentável de materiais críticos como lítio, cobalto, urânio, entre outros. Esses materiais eram em sua maioria importados, geralmente, de fornecedores consolidados, porém, os países da Ásia Central estão impulsionando parte da transição verde devido ao vasto estoque de minerais essenciais, incentivando a mineração. O Cazaquistão, Uzbequistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Turcomenistão, que antes eram vistos como regiões periféricas, estão ganhando cada vez mais espaço na geopolítica global de gestão de recursos naturais.
Apesar de sua abundância em recursos naturais, a Ásia Central esteve historicamente inserida em contextos de baixo desenvolvimento econômico, o que limitou a capacidade dos países da região de explorar e transformar esses recursos em instrumentos de crescimento, integração e projeção geopolítica. Com a Nova Rota da Seda, a Ásia Central ganhou mais espaço econômico e expandiu suas oportunidades. No entanto, essa ascensão é complexa, pois exige equilíbrio, sustentabilidade ambiental e desenvolvimento de infraestrutura em meio de uma intensa competição geopolítica.
A RIQUEZA ENERGÉTICA DA ÁSIA CENTRAL
A Ásia Central possui uma parcela considerável das reservas globais de minerais essenciais como o manganês, chumbo, zinco, e outros. Esses materiais são essenciais para várias tecnologias de energia limpa, desde painéis solares, turbinas eólicas, até sistemas de armazenamento de baterias. Assim, os países da Ásia Central já figuram entre os 20 maiores produtores mundiais de muitos desses recursos estratégicos. O Cazaquistão, por exemplo, ocupa o quinto lugar mundial em reservas de zinco e o oitavo em reservas totais de minério, além de possuir quantidades significativas de cobre, cádmio e bauxita. O Uzbequistão também se destaca sendo o quinto maior fornecedor mundial de urânio e ocupando a 11ª posição global em reservas comprovadas de cobre.
A RÚSSIA E O ANTIGO MONOPÓLIO DAS ROTAS
Durante décadas, as vias de acesso econômico da Ásia Central estiveram fortemente ligadas à Rússia (ou antiga União Soviética), uma vez que a infraestrutura energética da Ásia Central foi construída de maneira integrada ao território russo. Dessa forma, mesmo após a independência das antigas repúblicas soviéticas, muitas dessas conexões continuaram funcionando, o que permitiu a permanência da Rússia em uma posição privilegiada sobre a exportação de petróleo e gás da região. O Consórcio do Oleoduto do Cáspio (CPC) exemplifica essa relação, ele é uma das principais rotas de exportação de petróleo no Cazaquistão, indo de Tengiz até o terminal marítimo Novorossiysk, no porto russo. Essa estrutura criou uma relação de dependência, visto que para alcançar alguns mercados - seja o europeu ou chinês - os países centro-asiáticos precisavam utilizar infraestrutura ligada à Rússia.
A CHINA CONSTRÓI SEUS PRÓPRIOS CORREDORES
A entrada da China na disputa energética da Ásia Central está diretamente relacionada à necessidade de garantir sua segurança energética. Com o crescimento econômico e industrial, o país tornou-se o maior consumidor e importador de energia do mundo. No caso do petróleo, por exemplo, a produção doméstica não é suficiente para atender à demanda chinesa, fazendo com que o país dependa cada vez mais de fornecedores externos. Diante dessa dependência, a China passou a buscar diversificação de fornecedores e de rotas de abastecimento. Nesse contexto, a Ásia Central torna-se especialmente importante porque sua proximidade geográfica permite que petróleo e gás cheguem ao território chinês por vias terrestres, reduzindo a necessidade de depender exclusivamente das rotas marítimas. A China está investindo na construção de oleodutos e gasodutos que conectam diretamente os países centro-asiáticos ao mercado chinês, visando garantir o abastecimento da China e ampliar sua presença econômica na Ásia Central. Portanto, a China não está apenas comprando energia da Ásia Central, mas também construindo os caminhos que permitam que essa energia chegue até ela.
CONCLUSÃO: QUEM CONTROLA OS CAMINHOS DA ENERGIA?
A disputa pelos corredores energéticos mostra que a geopolítica da Ásia Central não se resume à quantidade de petróleo ou gás existente no subsolo. O verdadeiro problema é quem consegue controlar as rotas que conectam esses recursos aos grandes mercados consumidores.
Nesse cenário, enquanto a Rússia busca preservar sua influência histórica, a China constrói novos corredores para garantir seu abastecimento e ampliar sua presença econômica. Assim, oleodutos, gasodutos e demais infraestruturas tornam-se instrumentos de poder geopolítico, transformando a Ásia Central em um espaço estratégico de competição, cooperação e disputa por influência.
REFERÊNCIAS
AKROMOV, Otabek. From margins to the core: the rise of Central Asia in the race for critical minerals? The Hague Research Institute, [S.l], out. 2025. Disponível em: https://hagueresearch.org/from-margins-to-the-core-the-rise-of-central-asia-in-the-race-for-critical-minerals/. Acesso em: 10 set. 2026.
CASPIAN Pipeline Consortium. Al-Isra Global, [S. l.], [20–?]. Disponível em: https://www.al-isragroup.com/caspian-pipeline-consortium/. Acesso em: 10 set. 2026.
GAN, Nectar. China, Russia, Belarus become full members of Shanghai Cooperation Organisation. CNN, Hong Kong, 3 jul. 2024. China. Disponível em: https://edition.cnn.com/2024/07/02/china/china-russia-belarus-full-member-sco-summit-intl-hnk/index.html. Acesso em: 10 set. 2026.
SCHUTTE, Giorgio Romano; BIANCHET, Luísa Braga. Geopolítica energética da China na Ásia Central. Boletim de Economia e Política Internacional, n. 41, p. 84-100, jan./abr. 2025. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/29ac47a1-92f7-4778-9b7b-a86eebcecb23/content. Acesso em: 10 set. 2026.
U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Assessment of Undiscovered Conventional Oil and Gas Resources in the Amu Darya Basin and Afghan-Tajik Basin Provinces of Turkmenistan, Uzbekistan, Tajikistan, Afghanistan, and Iran, 2026. USGS, [S.l], aug. 2026. Disponível em: https://pubs.usgs.gov/fs/2026/3024/fs20263024.pdf Acesso em: 14 set. 2026.
U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Mineral commodity summaries 2026. Reston: USGS, 2022.
U.S GEOLOGICAL SURVEY. Rare Earth Element and Rare Metal Inventory of Central Asia. USGS, [S.l], mar. 2018. Disponível em: https://pubs.usgs.gov/fs/2017/3089/fs20173089.pdf Acesso em: 14 set. 2026.
YEFREMOV, Yury Konstantinovich. Asia: Mineral resources. Britannica, [S. l.], [2026]. Asia - Economy. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Asia/Mineral-resources. Acesso em: 10 set. 2026.
Por Bárbara Braga Barbosa
Data: 26/08/2026
A nova fase das relações bilaterais entre Quirguistão e Uzbequistão tem sido marcada pela busca por desenvolvimento dinâmico, crescimento econômico constante e bem-estar das populações, refletindo uma mudança em direção a uma cooperação estratégica de longo prazo. O avanço diplomático entre os dois Estados, antes caracterizados por uma rivalidade mútua, foi consolidado com a assinatura do Tratado de Relações Aliadas¹, através do qual ambos os líderes firmaram seu compromisso com o diálogo, com a estabilidade e com a parceria.
Dois projetos conjuntos são de grande relevância estratégica: a Usina Hidrelétrica de Kambarata-1 (UHE- 1) e a ferrovia China-Quirguistão-Uzbequistão (CQU). Desses, a ferrovia trilateral, um projeto discutido desde o final da década de 1990, traz à tona questões fundamentais para seu sucesso duradouro, isto é, os três governos terão que lidar com dívidas, disputas de terras e riscos ambientais, além da crescente complexidade da rede de corredores comerciais da Eurásia.
No entanto, os benefícios, principalmente econômicos, são substanciais. Além de se mostrar como uma opção de trânsito mais rápida que determinadas rotas do norte, a ferrovia CQU potencialmente impulsionará o turismo, desbloqueará recursos econômicos inexplorados, fomentará novos empregos, negócios e centros logísticos. Do ponto de vista chinês, a projeção é que a ferrovia se torne um ativo estratégico fundamental na sua Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), sendo essencial na diversificação dos seus canais comerciais, concedendo novos acessos terrestres à Ásia Central e além.
Para o Uzbequistão, a ferrovia CQU não é um projeto isolado, mas sim se encaixa em uma estratégia mais ampla de transformar o país em um centro logístico, expandindo sua rede de transporte para o leste e conectando o país de maneira mais direta com a China. De maneira semelhante, para o Quirguistão, por onde passarão 304 km da linha, o projeto é vital: o país espera aumentar as exportações dos seus recursos naturais, como carvão, ferro, alumínio e elementos de terras raras, que permanecem em grande parte inexplorados pela falta de transporte eficiente, além de ganhos significativos em receitas de trânsito.
O custo total do projeto é de aproximadamente US$ 4,7 bilhões, a ser fornecido em sua maioria pela China, bem como a capacidade de engenharia. Desse montante, cerca de metade será fornecido por meio de um empréstimo de 35 anos de um consórcio de bancos chineses, enquanto os US$ 2,3 bilhões restantes serão fornecidos como capital próprio, com 51% de participação chinesa, mais partes iguais entre Quirguistão e Uzbequistão. Apesar do cenário positivo, algumas preocupações permanecem e críticos questionam a sustentabilidade financeira do projeto à luz do empréstimo de longo prazo, especialmente se tratando do Quirguistão, que, no início de 2026, já possuía a China como seu maior credor externo. Além dos debates em torno da dependência financeira do país em relação à China, existe a questão sobre quanto do valor econômico gerado pela ferrovia de fato permanecerá dentro do Quirguistão, somada ainda a uma série de obrigações em seu território. Esse panorama expõe as assimetrias acerca da distribuição dos benefícios.
Segundo Sadyr Japarov, presidente do Quirguistão, a ferrovia CQU deve ser encarada como uma Rota da Seda renovada, de grande relevância também para outras potências como a os Estados Unidos e a Rússia; sendo assim, ela não substitui os corredores já estabelecidos entre Cazaquistão e China, mas sim representa um alargamento da conectividade regional. A China encara a iniciativa como uma oportunidade de diversificação e redução da sua dependência, porém, ainda que a crescente interdependência econômica possa aumentar a capacidade de influência chinesa, sua presença estratégica e seu espaço de manobra geopolítico na região, não se pode subestimar os ganhos em poder de negociação e maior resiliência dos Estados da Ásia Central.
Notas
¹ Documento assinado em 30 de julho de 2026 que visa a resolução definitiva de questões fronteiriças entre os dois países e eleva a cooperação bilateral a um novo patamar qualitativo. Um Conselho Interestatal Supremo está sendo estabelecido para implementar os acordos alcançados.
REFERÊNCIAS
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MIKOVIC, Nikola. China–Kyrgyzstan–Uzbekistan Railway: What It Means for Central Asia. The Times Of Central Asia, [S.l], 20 feb. 2026. Disponível em: <https://timesca.com/china-kyrgyzstan-uzbekistan-railway-what-it-means-for-central-asia/>. Acesso em: 26 ago. 2026.
PIEDRA, Javier M. Kyrgyzstan and Uzbekistan Show What Diplomacy Can Deliver as Vast Rail Project with China Advances. The Times Of Central Asia, [S.l], 24 aug. 2026. Disponível em: <https://timesca.com/kyrgyzstan-and-uzbekistan-show-what-diplomacy-can-deliver-as-vast-rail-project-with-china-advances/>. Acesso em: 26 ago. 2026.
Гармаш, Сергей. How Zaparov Conviced Putin of the Necessity of the China-Kyrgyzstan-Uzbekistan Railway. Open.KG, [S.l], 14 aug. 2026. Disponível em: <https://open.kg/en/news/exclusive/115802-kak-zhaparov-ubedil-putina-v-neobhodimosti-zheleznoj-dorogi-kitaj-kyrgyzstan-uzbekistan.html>. Acesso em: 26 ago. 2026.
Президент Садыр Жапаров и Президент Узбекистана Шавка. [S.l], 30 jul. 2026 Disponível em: <https://president.kg/ru/news/36/40622>. Acesso em: 28 ago.. 2026.
Por Ana Beatriz Moreira Nunes Gama Couto
Análises da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) destacam o potencial de desenvolvimento econômico da Ásia Central, analisando dois dos principais obstáculos enfrentados pela região: a integração de sistemas em prol de uma mobilidade de mercadorias mais eficiente, com foco na área do Corredor Transcaspiano de Transportes (TCTC), e a criação de melhorias na gestão governamental da comercialização das matérias-primas críticas.
Como uma rota essencial para a conectividade entre Ásia Central, Europa e os demais mercados globais, o Corredor de Transporte Transcaspiano vem recebendo diversos investimentos em sua infraestrutura e funcionamento, por meio do aumento no monitoramento e regulação do fluxo de mercadorias nas fronteiras, e entre outras medidas que facilitam o comércio, com o objetivo de intensificar a competitividade no local. No entanto, as autoridades governamentais ainda demonstram preocupação com fatores que podem afetar sua eficiência, desde questões naturais, como o declínio do nível do Mar Cáspio, fatores logísticos, como a falta de integração operacional entre meios de transporte, até elementos conflituosos entre empresas e órgãos governamentais em processos de conformidade e cumprimento das normas regulatórias estabelecidas. Assim, emerge a necessidade de os formadores de políticas buscarem cooperações entre os países em ambas as esferas, pública e privada, compartilhando informações e dados para coordenar medidas coletivas.
Ademais, a presença de reservas minerais relevantes para a utilização de tecnologias de baixo carbono (manganês, cromo, cobre e titânio) na região, mais especificamente no Cazaquistão, no Quirguistão e no Uzbequistão, evidencia seu potencial econômico e comercial. Nesse sentido, apesar de ser um atrativo, esse setor vem recebendo cada vez menos investimentos privados, como resultado de empecilhos no processo de exploração desses recursos, das lacunas de transparência governamental e da instabilidade nas normas fiscais desses serviços. Contudo, os governos vêm se mobilizando para adequar suas políticas tributárias aos padrões internacionais, adotando princípios de conduta empresarial responsável e pautando-se na garantia da segurança ocupacional e avaliação da eficiência de cada gestão. Além disso, eles reconhecem os riscos ambientais e sociais da mineração e trabalham na supervisão da atividade e construção de estratégias que minimizem seus impactos.
Dessa forma, a partir de medidas políticas de investimento na sua localização favorável para o comércio e em seus recursos naturais, a Ásia Central pode alcançar maiores integrações regionais e globais, que beneficiarão diretamente o seu desenvolvimento econômico.
REFERÊNCIAS:
LECOMTE, Grégory. Railways, Roads, Ships and Critical Raw Materials. OECD, [S.l], 20 mar. 2026. Disponível em: https://www.oecd.org/en/blogs/2026/03/railways-roads-ships-and-critical-raw-materials.html Acesso em: abr. 2026.
Por Heitor Assis Tavares
Data: 01/07/2026
O Movimento de Libertação do Baluchistão reúne organizações separatistas que defendem a independência da província paquistanesa do Baluchistão, alegando marginalização política, econômica e cultural pelo Estado paquistanês. Entre seus principais grupos está o Exército de Libertação do Baluchistão (BLA), cuja unidade de operações especiais, a Brigada Majeed, conduz atentados contra alvos estratégicos. O movimento sustenta que os recursos naturais da região são explorados sem beneficiar a população balúchi, reforçando o sentimento de exclusão e a rejeição à autoridade Paquistanesa (Baloch, 2025).
A oposição à Belt and Road Initiative (BRI), especialmente ao Corredor Econômico China Paquistão (CPEC), decorre da percepção de que os investimentos chineses aprofundam essa exploração. Para os separatistas, projetos como o porto de Gwadar e empreendimentos de mineração utilizam terras e recursos do Baluchistão sem consulta às comunidades locais, além de ampliar a presença militar paquistanesa para proteger a infraestrutura chinesa.
Assim, a BRI é vista como um instrumento de fortalecimento do controle estatal e da influência chinesa sobre um território reivindicado pelo movimento (Elmali, 2022; Basit, 2022).
Essa oposição se fez presente em diversos atentados contra interesses chineses. Em março de 2024, um homem-bomba atingiu um comboio de engenheiros chineses em Besham, matando cinco trabalhadores chineses e um motorista paquistanês. O ataque levou à suspensão temporária de obras do CPEC, ao reforço da segurança em projetos estratégicos e à ampliação da preocupação da China com a vulnerabilidade de seus cidadãos no país (Elmali, 2022; Janjua, 2022).
Os ataques intensificaram a pressão chinesa sobre o Paquistão para ampliar a proteção de trabalhadores e investimentos vinculados à BRI. Em resposta, o Paquistão reforçou destacamentos militares, ampliou escoltas armadas e fortaleceu operações de contraterrorismo ao longo do CPEC. Apesar dessas medidas, a persistência dos atentados continua afetando a confiança chinesa e representa um desafio para a consolidação da parceria estratégica entre os dois países (Elmali, 2022; Janjua, 2022).
REFERÊNCIAS
BALOCH, Imitiaz et al. The Baloch insurgency in Pakistan: evolution, tactics, and regional security implications. CTC Sentinel, [S.l], v. 18, n. 4, abr. 2025. Disponível em: https://ctc.westpoint.edu/the-baloch-insurgency-in-pakistan-evolution-tactics-and-regional-security-implications/. Acesso em: 3 jul. 2026.
BASIT, Abdul. The Majeed Brigade: The Baluch Liberation Army's Suicide Squad. Jamestown Foundation, [S.l], v. 20, n. 13, 1 jul. 2022. Disponível em: https://jamestown.org/the-majeed-brigade-the-baluch-liberation-armys-suicide-squad/. Acesso em: 3 jul. 2026.
BURAK, Elmali. How to stem terrorist attacks on the China Pakistan Economic Corridor. TRT World Research Centre, [S.l], 28 abr. 2022. Disponível em: https://researchcentre.trtworld.com/publications/analysis/how-to-stem-terrorist-attacks-on-the-china-pakistan-economic-corridor/. Acesso em: 3 jul. 2026.
JANJUA, Haroon. Pakistan: are attacks on Chinese workers jeopardizing Beijing's CPEC projects? Deutsche Welle, Islamabad, 28 abr. 2022. Pakistan. Disponível em: https://www.dw.com/en/pakistan-are-attacks-on-chinese-workers-jeopardizing-beijings-cpec-projects/a-61618631. Acesso em: 3 jul. 2026.
JANJUA, Haroon. Pakistan: militant attacks in Balochistan put pressure on China's infrastructure plans. Deutsche Welle, Islamabad, 11 fev. 2022. Pakistan. Disponível em: https://www.dw.com/en/pakistan-militant-attacks-in-balochistan-put-pressure-on-chinas-infrastructure-plans/a-60796264. Acesso em: 3 jul. 2026.
Por Ana Beatriz Moreira Nunes Gama Couto
Data: 26/06/2026
O Mar de Aral, localizado entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, já foi o quarto maior lago interior do mundo, até que, a partir dos anos 1960, sofreu um grave desastre ecológico. A sua bacia, que se estende por todos os países da Ásia Central, foi intensamente explorada durante esse período, quando suas águas foram desviadas para o cultivo de algodão na União Soviética, da qual o Uzbequistão fazia parte até 1991. No decorrer dos anos, a redução do volume de suas águas tornou a região tóxica para a vegetação e a vida marinha, com a forte presença de minerais, salinização do solo e a desertificação das terras. Essas transformações trouxeram impactos severos para o clima da região e para a população, comprometendo a agricultura e a economia local, o que resultou em uma crise ambiental e hídrica.
Atualmente, devido ao mal gerenciamento do uso de suas águas, juntamente com os efeitos das mudanças climáticas, o Mar de Aral possui menos de 90% de sua área original. Nesse contexto, iniciativas de recuperação vêm sendo conduzidas, na tentativa de minimizar as graves implicações que permanecem prejudicando a qualidade de vida e o meio ambiente nos seus entornos.
Diante disso, a China se destaca na colaboração com os países da Ásia Central, por meio da instalação de centros de pesquisa e intervenção em reabilitação ecológica e mais de 80 pontos de monitoramento, destinados a investigar as causas do fenômeno e trabalhar na restauração da região.
Ademais, em parceria com o Uzbequistão, pesquisadores chineses compartilham sua experiência em lidar com áreas afetadas pela desertificação, conduzindo um projeto de criação de jardins com plantas halófitas (espécies adaptadas para se desenvolver em solos com alta salinidade e capazes de absorver excessos de sal), buscando recuperar esse ecossistema e a produtividade das terras. Além disso, estratégias relacionadas ao uso de painéis fotovoltaicos de energia solar para a irrigação eficiente em áreas que não possuem acesso à energia elétrica também estão sendo aplicadas, trazendo resultados positivos na agricultura, com o cultivo de algodão de forma sustentável e econômica, e também na diminuição das tempestades de areia que assolavam a região.
O Centro de Pesquisa para Ecologia e Meio Ambiente da Ásia Central ressalta a importância da cooperação com a China no processo de recuperação desse local crítico para a dinâmica ambiental, social e econômica dos países, destacando o papel do compartilhamento de pesquisas e tecnologias como um recurso chave para que eles consigam conduzir seus próprios esforços de recuperação e manter um desenvolvimento econômico sustentável a longo prazo. Dessa forma, apesar de não existirem expectativas de que o Mar de Aral retornará para suas condições originais, iniciativas como essa são essenciais para mitigar os danos e promover o crescimento econômico baseado em um manejo mais consciente da água.
REFERÊNCIAS
GRABISH, Beatrice. Dry Tears of the Aral. UN Chronicle, [S.l], 12 jun. 2017. Disponível em: https://www.un.org/en/chronicle/article/dry-tears-aral. Acesso em: 27 jun. 2026.
HONGJING, Gou. Cooperação China-Ásia Central traz esperança para restauração do Mar de Aral. Xinhua Português, Almaty, 8 jun. 2026. Disponível em: https://portuguese.xinhuanet.com/20260608/68aff9f9db7e4641889e704ab2303d76/c.html. Acesso em: 27 jun. 2026
TELES, Bruno. Para conter as tempestades de sal que assolam a Ásia Central, cientistas da China e do Uzbequistão uniram forças no antigo leito do Mar de Aral, plantando espécies tolerantes ao sal e usando energia solar para tentar trazer vida de volta a uma terra que virou deserto. Click Petróleo e Gás, [S.l], 5 jun. 2026. Disponível em: https://clickpetroleoegas.com.br/para-conter-as-tempestades-de-sal-que-assolam-a-asia-central-cientistas-da-china-e-do-uzbequistao-uniram-forcas-no-antigo-leito-do-mar-de-aral-btl96/. Acesso em: 27 jun. 2026.
Por Vitória Luine Almeida de Jesus
Data: 23/06/2026
A Segunda Cúpula Ásia Central-China, realizada em 17 de junho de 2025, na capital do Cazaquistão, firmou ainda mais a parceria estratégica de longo prazo entre China e Ásia Central com a assinatura do Tratado de Boa Vizinhança Permanente, Amizade e Cooperação, demonstrando que a relação deixou de ser apenas econômica e passou a adquirir uma nova fase de institucionalização.
Durante a visita de Xi Jinping, foram assinados 24 acordos bilaterais envolvendo infraestrutura, indústria, agricultura e inovação. Além disso, o governo cazaque informou que o comércio bilateral alcançou cerca de US$44 bilhões, enquanto os investimentos chineses já ultrapassaram US$26 bilhões.
Os governos centro-asiáticos demonstraram interesse em utilizar a parceria com a China para promover a industrialização e a modernização tecnológica. O Cazaquistão propôs a criação de academias de engenharia e laboratórios conjuntos de pesquisa, visando formar mão de obra qualificada para sustentar o desenvolvimento. O Uzbequistão, por sua vez, apresentou as propostas de criação de um Fundo de Desenvolvimento China-Ásia Central, um conselho regional de comércio e investimentos, e um cinturão industrial e de infraestrutura voltado para a cooperação regional.
A estabilidade política da Ásia Central é vista pela China como essencial para a segurança dos corredores comerciais da Nova Rota da Seda, assim como a segurança energética também permanece fundamental. Outro objetivo estratégico é transformar Xinjiang (maior província da China e ponto central na Nova Rota da Seda) em um centro logístico, tecnológico e comercial conectado aos países vizinhos da Ásia Central.
Sob a perspectiva das Relações Internacionais, a expansão chinesa na Ásia Central pode ser interpretada como uma estratégia de projeção de poder por meios predominantemente econômicos. Diferentemente das formas tradicionais de influência baseadas na presença militar, a China utiliza investimentos, comércio, infraestrutura e integração logística para ampliar sua presença regional. A Ásia Central, por sua posição geográfica estratégica e abundância de recursos naturais, tornou-se um espaço central da disputa entre as grandes potências, e fundamental na ascensão global chinesa.
REFERÊNCIAS
BRKIC, Bojan. China set new records in trade and investment in Central Asia in 2025. Euronews, [S.l], 15 apr. 2026. Kazakhstan. Disponível em: https://www.euronews.com/2026/04/15/china-set-new-records-in-trade-and-investment-in-central-asia-in-2025. Acesso em: 22 jun. 2026.
CHAN, Ka Sing. China’s resurgent Belt and Road is built to last. Reuters, Hong Kong, 6 may. 2026. Breaking views. Disponível em: https://www.reuters.com/commentary/breakingviews/chinas-resurgent-belt-road-is-built-last-2026-05-06/. Acesso em: 22 jun. 2026
CHINA’s Xi signs treaty to elevate ties with Central Asia. Reuters, Beijing,17 jun. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/business/media-telecom/chinas-xi-signs-treaty-elevate-ties-with-central-asia-2025-06-17/. Acesso em: 22 jun. 2026.
KHITAKHUNOV, Azimzhan. Second Central Asia-China Summit: Initiatives and Priorities. CAPS Unlock, [S.l], 4 jul. 2025. Blog. Disponível em: https://capsunlock.org/second-central-asia-china-summit-initiatives-and-priorities/. Acesso em: 21 jun. 2026.
Por Sofia Comunian de Carvalho
Data: 19/06/2026
A relação entre China e Paquistão insere-se nas transformações recentes da segurança marítima no Oceano Índico, região que vem adquirindo crescente centralidade estratégica no sistema internacional. Essa posição estratégica está relacionada à importância do Oceano Índico como eixo das principais rotas globais de comércio e energia, que conectam o Oriente Médio, a África e o Leste Asiático. A interconexão dessas rotas torna sua proteção um elemento essencial das estratégias de política externa e segurança dos Estados da região. Nesse contexto, o Oceano Índico configura-se como um espaço de intensa competição geopolítica, no qual diferentes potências buscam ampliar sua influência e presença. A atuação de atores como China, Paquistão, Índia e Estados Unidos reforça a disputa por áreas marítimas sensíveis e pela segurança das linhas de comunicação marítima.
Dentro dessa configuração, a parceria sino-paquistanesa se destaca como elemento relevante da arquitetura de segurança regional. Essa relação não se limita a aspectos econômicos ou diplomáticos, mas se estrutura principalmente em interesses estratégicos ligados à segurança marítima e à projeção de poder no Oceano Índico.
Assim, a cooperação entre os dois países reflete a busca por estabilidade em um ambiente marcado por disputas de influência. A importância do Paquistão decorre, em grande medida, de sua posição geográfica no Mar Arábico, próximo a rotas marítimas que conectam o Oriente Médio ao restante da Ásia. Essa localização confere ao país relevância na circulação global de energia e comércio, tornando-o um ator funcional nas estratégias de segurança marítima regional e ampliando seu valor geopolítico.
Outro fator relevante é a militarização crescente do Oceano Índico, caracterizada pelo aumento da presença naval de diferentes potências e pela disputa por capacidade de controle das rotas marítimas. Nesse cenário, a cooperação entre Estados com interesses convergentes torna-se fundamental para a estabilidade regional. A China, altamente dependente dessas rotas para importação de energia e exportação de produtos, busca ampliar sua presença no espaço marítimo como forma de reduzir vulnerabilidades estratégicas. Nesse processo, o Paquistão assume papel central como parceiro estratégico, devido ao seu alinhamento político com a China e à sua posição geográfica privilegiada. A parceria sino-paquistanesa fortalece a presença chinesa no Oceano Índico e contribui para a inserção de ambos os países em uma dinâmica regional marcada pela competição entre grandes potências.
Portanto, a relação entre China e Paquistão pode ser compreendida como parte de um processo mais amplo de reorganização da segurança marítima no Oceano Índico. Essa parceria reflete interesses estratégicos compartilhados e adaptações às transformações do sistema internacional, marcado pela intensificação da competição entre potências e pela crescente centralidade das rotas marítimas na estrutura do poder global.
REFERÊNCIAS
ALI, Ghulam. China–Pakistan maritime cooperation in the Indian Ocean. Issues & Studies, v. 55, n. 3, p. 1–20, set. 2019. Disponível em: https://www.worldscientific.com/doi/epdf/10.1142/S1013251119400058. Acesso em: 19 jun. 2026.
GUL, A.; MUNIR, M.; SHAFIQ, M.; IMRAN, S. China–Pakistan economic corridor and maritime security collaboration. Asia Pacific Journal of Public Administration, v. 41, n. 3, jul. 2019. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/pa.2599. Acesso em: 19 jun. 2026.
SHABBIR, Anoosh; YASEEN, Zahid. Navegating maritime security in Indian Ocean: A case study of Pakistan. Annals of Human and Social Sciences, v. 5, n. 3, p. 1–9, 2024. Disponível em: https://ojs.ahss.org.pk/journal/article/view/971/1008. Acesso em: 19 jun. 2026.
Por Matheus Cerqueira Moura (sub-região África)
Data: 16/06/2026
No dia 25 de maio de 2026, no Grande Salão do Povo em Pequim, o presidente chinês Xi Jinping e o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif firmaram um "novo consenso amplo" para aprofundar a Parceria Cooperativa Estratégica de Todos os Tempos entre as duas nações. O encontro marcou a conclusão da visita oficial de Sharif à China, focada em atrair investimentos e impulsionar o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), projeto emblemático da Iniciativa Cinturão e Rota, em meio a um cenário de desafios econômicos e tensões regionais com o Afeganistão (Pakistan and China..., 2026).
O Porto de Gwadar, localizado na província do Baluchistão, é o pilar central desta conectividade regional. Com uma profundidade de 18 metros, Gwadar é o segundo porto mais profundo da Ásia, superado apenas por Singapura, o que o torna capaz de atracar navios de grande porte (tipo S).
Sua importância estratégica reside em atuar como um "funil econômico" que converge recursos naturais do Oriente Médio, Ásia Central e Sul da Ásia. Para a China, o porto oferece uma rota alternativa vital ao Estreito de Malaca, reduzindo custos e tempo de transporte de energia ao conectar o Mar Arábico diretamente ao oeste chinês (Chohan; Chandio, 2022).
Além do porto, o novo acordo prevê o desenvolvimento de "alta qualidade" do CPEC, incluindo a modernização da Rodovia Karakoram de 1.300 km e do Passo de Khunjerab (Shahid, 2026). As frentes de cooperação expandem-se para a segurança, com o Paquistão prometendo medidas direcionadas para proteger trabalhadores e investimentos chineses contra ataques militantes (Pakistan and China..., 2026). No setor de energia, os projetos abrangem desde terminais de GNL e oleodutos até usinas hidrelétricas e solares, visando mitigar a crise energética que drena o PIB paquistanês. A Nova Rota da Seda é fundamental para a região pois busca transformar o perfil socioeconômico local, combatendo o analfabetismo e o desemprego, e promover a estabilidade regional através do desenvolvimento industrial e da integração comercial com países vizinhos e a Ásia Central (Chohan;Chandio, 2022).
REFERÊNCIAS
CHANDIO, Amir; CHOHAN, Dildar; AYAZ, Muhammad. China Pakistan Economic Corridor: Its Prospects and Challenges for Pakistan. Journal of South Asian Studies, v. 10, n. 3, p. 345–354, 2022. Disponível em: https://esciencepress.net/journals/JSAS/article/view/4151. Acesso em: 17 jun. 2026.
PAKISTAN and China reach ‘new broad consensus’ on boosting ties. Al Jazeera, [S. l.], 26 may. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/economy/2026/5/26/pakistan-and-china-reach-new-broad-consensus-on-boosting-ties. Acesso em: 16 jun. 2026.
SHAHID, Ariba. China, Pakistan aim to revamp economic corridor, Gwadar port. Reuters, Karachi, 26 may. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/china-pakistan-reach-new-broad-consensus-boosting-ties-2026-05-26. Acesso em: 17 jun. 2026.
Por Heitor Assis Tavares
Data: 08/06/2026
A AMBIÇÃO DE XI JINPING
O chamado “sonho das três Copas” surgiu após a chegada de Xi Jinping ao poder, em 2012. Apaixonado por futebol, o presidente transformou em política de Estado três metas ambiciosas: classificar a China regularmente para a Copa do Mundo, sediar o torneio e, por fim, conquistar o título mundial. O projeto foi oficialmente incorporado ao Plano de Desenvolvimento do Futebol Chinês 2016–2050.
Mais do que uma estratégia esportiva, a iniciativa buscava fortalecer o prestígio internacional da China. O futebol seria utilizado como instrumento de soft power, ajudando a promover a imagem do país como uma potência moderna, capaz de competir e liderar também no esporte mais popular do planeta.
O CURTO SUCESSO
Nos primeiros anos, o plano gerou grande entusiasmo. O governo estabeleceu metas para criar milhares de escolas especializadas em futebol, construir dezenas de milhares de campos e envolver milhões de jovens na prática esportiva. A expectativa era criar uma base ampla de atletas capazes de elevar o nível da seleção nacional.
Ao mesmo tempo, a Super Liga Chinesa atraiu atenção mundial com contratações milionárias. Jogadores como Oscar, Hulk e Paulinho chegaram ao país por valores recordes, enquanto os clubes passaram a investir bilhões de dólares no setor. Em 2017, a liga chinesa chegou a superar a espanhola em gastos com transferências, alimentando a esperança de que a China pudesse repetir no futebol o sucesso obtido em áreas como economia e infraestrutura.
O FIM DO SONHO
Apesar dos investimentos, os resultados esportivos nunca corresponderam às expectativas. A seleção masculina permaneceu distante das principais potências asiáticas e continuou sem disputar uma Copa do Mundo após 2002. Em 2023, Xi Jinping reconheceu publicamente as dificuldades do projeto e afirmou que o futebol depende não apenas de planejamento, mas também de um pouco de sorte para alcançar grandes resultados.
A situação se agravou com sucessivos escândalos de corrupção. Diversos dirigentes foram investigados e condenados, incluindo o ex-treinador da seleção masculina, Li Tie, que recebeu uma longa pena de prisão por envolvimento em esquemas de suborno. Paralelamente, a crise financeira de grandes empresas que sustentavam os clubes provocou falências, cortes de gastos e o enfraquecimento da Super Liga Chinesa, reduzindo significativamente o impulso inicial do projeto.
COMO ESTÁ A CHINA NO FUTEBOL HOJE?
Diferentemente do que ocorreu nos Jogos Olímpicos, nos quais a China se tornou uma das maiores potências esportivas do mundo, o país não conseguiu reproduzir o mesmo sucesso no futebol. A seleção masculina continua distante da elite internacional, enquanto a seleção feminina apresenta resultados relativamente mais expressivos e mantém maior relevância competitiva.
O fracasso parcial do projeto revelou que recursos financeiros e planejamento estatal não são suficientes para construir rapidamente uma tradição futebolística consolidada. Ainda assim, a China permanece presente no futebol internacional, seja por meio de patrocínios, investimentos e participação institucional. O legado do projeto de Xi Jinping demonstra tanto a capacidade de mobilização do Estado chinês quanto os limites dessa estratégia quando aplicada a um fenômeno cultural tão complexo quanto o futebol.
REFERÊNCIAS
CASTRO, Raul de Paiva Oliveira. A nova rota econômica do futebol: megaeventos esportivos e o sonho chinês das três Copas. Cadernos de História, Belo Horizonte, v. 22, n. 37, nov. 2021. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/cadernoshistoria/article/download/24643/18907/101087. Acesso em: 6 jun. 2026.
MARSH, Nick. O sonho das três Copas de Xi Jinping enfrenta obstáculos. BBC News Brasil, [S.l], 28 mar. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c05m342em3lo. Acesso em: 6 jun. 2026.
SIMONS, Rowan. Bamboo Goalposts: One Man's Quest to Teach the People's Republic of China to Love Football. Londres: Penguin Books, 2008.
WANG, Kristy. China 0, World Cup 1: Xi Jinping's World Cup Dreams Dashed. Columbia Political Review, Columbia, 19 apr. 2023. Disponível em: https://www.cpreview.org/articles/2023/4/china-0-world-cup-1-xi-jinpings-world-cup-dreams-dashed. Acesso em: 6 jun. 2026.
Por Ana Beatriz Moreira Nunes Gama Couto
Data: 03/06/2026
Como resultado da visita de Estado de quatro dias do presidente do Tadjiquistão, Emomali Rahmon, e dos esforços chineses de aproximação com a Ásia Central, foi assinado no dia 12 de maio o Tratado China-Tajiquistão sobre Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação Permanentes. Durante as reuniões que definiram esse acordo histórico das relações diplomáticas entre os dois países, o presidente Xi Jinping celebrou os quase 35 anos da independência do Tadjiquistão e reafirmou a importância da parceria para o plano de desenvolvimento de ambos. Ademais, foram negociados outros documentos de cooperação intergovernamental, direcionados principalmente para os setores econômico e comercial, porém, incluindo também campos emergentes como os de inovação tecnológica e científica, inteligência artificial, agricultura, mineração verde e energias limpas.
No contexto da Iniciativa Cinturão e Rota, o Tadjiquistão possui potencial para se tornar uma artéria secundária do Corredor Médio, que une o continente Europeu e a China, por isso, a China vem conduzindo uma série de investimentos necessários à infraestrutura do país, incluindo rodovias, túneis e outras instalações.
Os interesses chineses na região também se relacionam à presença de minerais críticos (antimônio, ouro, lítio e tungstênio), relevantes para a cadeia de produção e fornecimento de energias sustentáveis, e às fronteiras compartilhadas pelo Afeganistão e o Tadjiquistão, que podem representar uma ameaça para seu território nacional. Esse receio resultou na construção de um posto militar de observação no leste do Tadjiquistão (ponto de conexão entre os três países) há alguns anos e, com base em dois ataques afegãos ocorridos em 2025, motivou novamente a China a investir em outros nove postos de fronteira.
A partir disso, no contexto atual de conflitos no Oriente Médio e diante da exposição da Ásia Central aos seus desdobramentos econômicos, a nação aderiu à Convenção da Organização Internacional para a Mediação (OIMed), promovida pela China e relevante na discussão de possíveis soluções alternativas para essas tensões, que estão majoritariamente centradas nos debates realizados no Ocidente.
A parceria promete acordos de cooperação no valor de US$ 647 milhões e US$ 800 milhões em financiamentos, como parte de um plano de investimento de longo prazo realizado pelo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB). Além de US$ 400 milhões em projetos de infraestrutura já em andamento e negociações entre empresas tajiques e chinesas, que podem atrair mais de US$ 8 bilhões em investimentos.
Dessa forma, os países se comprometem a aprofundar suas estratégias de cooperação, trabalhando conjuntamente para seu desenvolvimento, combate ao crime transnacional e promoção da paz.
REFERÊNCIAS
NOROV, Kulobiddin. Tajikistan and China sign permanent friendship treaty. The Diplomat, [S.l], 14 mai. 2026. Disponível em: https://thediplomat.com/2026/05/tajikistan-and-china-sign-permanent-friendship-treaty/ . Acesso em: 3 jun. 2026.
PANNIER, Bruce. Rahmon looks to China as Tajikistan's options narrow.The Times of Central Asia, [S.l], 15 mai. 2026. Disponível em: https://timesca.com/rahmon-looks-to-china-as-tajikistans-options-narrow/ . Acesso em: 3 jun. 2026.
XI Jinping Meets Tajik President Emomali Rahmon In Beijing, Signs Cooperation Deals | APT. APT NEWS, 12 mai.2026 . 1 vídeo (6 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3DwuFUj9h7Y . Acesso em: 4 jun. 2026.
XINHUA. Entrevista: relações entre Tadjiquistão e China continuam alcançando novos patamares, diz presidente tadjique. Xinhua Português, Dushanbe, 13 mai. 2026. Disponível em: https://portuguese.news.cn/20260513/69a2477b598a494cab2e21bc8b80049e/c.html. Acesso em: 3 jun. 2026.
Por Vitória Luine Almeida de Jesus
Data: 29/05/2026
Em 2026, a Ásia Central voltou ao centro das disputas geopolíticas internacionais após o anúncio de novos projetos nucleares no Cazaquistão envolvendo Rússia e China. O governo cazaque aprovou acordos para a construção de usinas nucleares com participação de empresas dos dois países, demonstrando como a região se tornou estratégica para as grandes potências eurasiáticas.
A Rússia, tradicionalmente influente na Ásia Central desde o período soviético, assinou um acordo para construir a primeira usina do Cazaquistão por meio da estatal Rosatom. Ao mesmo tempo, a China ampliou sua presença regional com a aprovação de um segundo projeto nuclear ligado à empresa chinesa CNNC (China National Nuclear Corporation). Os investimentos reforçam a competição silenciosa entre Moscou e Pequim pela liderança política, econômica e energética da região.
Os projetos fazem parte da estratégia do país centro-asiático de ampliar sua capacidade energética e reduzir possíveis problemas futuros de abastecimento elétrico. O país, um dos maiores produtores mundiais de urânio, busca diversificar suas fontes de energia diante do aumento da demanda interna. Além da construção de usinas, os acordos incluem cooperação tecnológica e participação internacional no desenvolvimento da infraestrutura energética do Cazaquistão.
O caso evidencia como a transição energética também está ligada à geopolítica contemporânea, pois para a China, ampliar parcerias energéticas faz parte da estratégia da Nova Rota da Seda, para a garantia de segurança energética e expansão dos corredores econômicos, enquanto para a Rússia, a cooperação serve como instrumento de manutenção de poder regional e aproximação diplomática.
Em suma, embora os projetos sejam apresentados como soluções para diversificação energética e redução de emissões, eles também funcionam como mecanismos de influência internacional. Assim, o avanço nuclear no Cazaquistão demonstra que a competição entre China e Rússia na Ásia Central ultrapassa o campo econômico e se consolida como uma disputa estratégica por poder e liderança regional.
REFERÊNCIAS
BILYAL, Tomiris. Kazakhstan enlists Russia and China to build first nuclear power plants since Soviet era. Euronews, [S.I], 16 jun. 2025. Disponível em: https://www.euronews.com/2025/06/16/kazakhstan-enlists-russia-and-china-to-build-first-nuclear-power-plants-since-soviet-era. Acesso em: 28 mai. 2026.
RUSSIA’s Rosatom eyes role in second Kazakhstan nuclear plant as Balkhash deal nears. Reuters, Moscow, 27 mai. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/energy/russias-rosatom-eyes-role-second-kazakhstan-nuclear-plant-balkhash-deal-nears-2026-05-27/. Acesso em: 29 mai, 2026.
VAAL, Tamara; GORDEYEVA, Mariya; LYRCHIVOKA, Anastasia. Russia signs $16.5 billion deal to build first nuclear power plant in Kazakhstan. Reuters, Astana, 28 mai. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/energy/russia-signs-agreement-build-nuclear-power-plant-kazakhstan-2026-05-28/. Acesso em: 28 mai. 2026.
Por Sofia Comunian de Carvalho
Data: 27/05/2026
O QUE É O CPEC?
O Corredor Econômico China–Paquistão (CPEC) é um dos principais projetos da Belt and Road Initiative. Ele faz parte da estratégia chinesa de ampliar conexões físicas entre países por meio de infraestrutura como ferrovias, rodovias e portos. No caso do CPEC, o objetivo é ligar o oeste da China ao porto de Gwadar, no Paquistão, que dá acesso direto ao Mar Arábico, no Oceano Índico.
OBJETIVO ESTRATÉGICO
O projeto busca reduzir a dependência da China de rotas marítimas longas e vulneráveis, especialmente o Estreito de Malaca, por onde passa grande parte do comércio chinês. Com isso, o corredor cria uma alternativa terrestre mais curta e estratégica para o transporte de mercadorias e energia.
INFRAESTRUTURA DO PROJETO
O CPEC reúne diferentes tipos de infraestrutura, como rodovias e ferrovias, que permitem o transporte terrestre em larga escala, além de oleodutos e gasodutos, que transportam petróleo e gás. Também inclui zonas econômicas especiais, que são áreas com incentivos para atrair empresas e investimentos, e a modernização do porto de Gwadar, que funciona como ponto de saída para o comércio marítimo.
IMPACTOS E INTERESSES
Para o Paquistão, o projeto representa a entrada de investimentos e melhorias na infraestrutura, o que pode impulsionar o desenvolvimento econômico. Para a China, ele fortalece sua presença no Oceano Índico, facilita o acesso ao Oriente Médio e reduz vulnerabilidades nas suas rotas comerciais globais.
DESAFIOS E CONTROVÉRSIAS
Apesar dos benefícios, o projeto também gera críticas. Entre elas estão o possível aumento da dívida externa do Paquistão, a assimetria na relação entre os dois países e a instabilidade em algumas regiões onde as obras são realizadas. Por isso, o CPEC é interpretado de duas formas: como um projeto de desenvolvimento econômico e também como um instrumento de projeção de poder geopolítico da China.
CONCLUSÃO
O CPEC mostra como projetos ligados à Belt and Road Initiative vão além da infraestrutura. Eles também reorganizam fluxos de comércio e influenciam relações de poder na Ásia, tornando a infraestrutura uma ferramenta estratégica nas relações internacionais.
REFERÊNCIAS
AKHTAR, Nadeem; et. al. Exploring the Determinants of the China-Pakistan Economic Corridor and Its Impact on Local Communities. Sage Open, [S.l], v. 11, n. 4, oct. 2021. Disponível em:https://journals.sagepub.com/doi/epub/10.1177/21582440211057127 Acesso em: 25 mai. 2026.
ASHRAF, Sajjad. The China-Pakistan Economic Corridor: India’s Dual Dilemma. China US Focus, [S.I], 25 jun. 2015. Disponível em: https://www.chinausfocus.com/finance-economy/the-china-pakistan-economic-corridor-indias-dual-dilemma Acesso em: 25 mai. 2026.
BHOWMICK, Soumya. The China-Pakistan Economic Corridor and regional connectivity in Eurasia. Observer Research Foundation (ORF), [S.I], 15 jun. 2023. Disponível em: https://www.orfonline.org/expert-speak/forgotten-promises-the-china-pakistan-economic-corridor?shem=rimspwouoeAcesso em: 25 mai. 2026.
CPEC: The Corridor of Uncertainty. Civilsdaily, [S.I], [20--?]. Disponível em:https://www.civilsdaily.com/news/cpec-the-corridor-of-uncertainty/ Acesso em: 25 mai. 2026.
DICKISON, Jacob. China-Pakistan Economic Corridor (CPEC) analysis report. Dyami Security Intelligence, [S.I], 11 apr. 2024. . Disponível em: https://www.dyami.services/post/china-pakistan-economic-corridor-balancing-risks-and-strategic-interests?shem=rimspwouoe Acesso em: 25 mai. 2026.
RAUF, Shayan. China-Pakistan Economic Corridor. Encyclopaedia Britannica, [S.I], 9 may. 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/China-Pakistan-Economic-Corridor Acesso em: 25 mai. 2026.
Por Matheus Cerqueira Moura (sub-região África)
Data: 22/05/2026
Em 20 de maio de 2026, o presidente Xi Jinping recebeu o presidente Vladimir Putin para uma visita de Estado no Grande Palácio do Povo, em Pequim. Durante o encontro diplomático, os líderes assinaram uma declaração conjunta e testemunharam a oficialização de 20 documentos de cooperação bilateral em áreas técnica e comercial. Um dos temas centrais da agenda foi o projeto do gasoduto Power of Siberia 2 (PoS2), que visa expandir a infraestrutura de transporte de gás entre as duas nações (Adler; 2026).
O projeto Power of Siberia 1 (PoS1) é um sistema de transmissão de gás que conecta os campos russos de Kovyktinskoye e Chayandinskoye à fronteira chinesa em Blagoveshchensk. O acordo para sua implementação foi assinado em maio de 2014, com o início das operações em 2 de dezembro de 2019. Com mais de 3.000 quilômetros de extensão, o gasoduto transporta 38 bilhões de metros cúbicos de gás anualmente para o mercado chinês. Este projeto foi a maior obra de infraestrutura da Rússia desde o fim da União Soviética (Gazprom, [20--?]).
Atualmente, a Rússia apresenta necessidade de novos mercados devido à redução das exportações para a Europa, motivada por embargos ocidentais estabelecidos a partir de 2022 (Adler; 2026). A participação russa no fornecimento de gás via gasodutos para a União Europeia caiu de 40% para 11% entre 2021 e 2024. Nesse contexto, a China é utilizada como oportunidade para o redirecionamento de recursos, elevando sua participação nas importações chinesas de gás de 10% em 2021 para mais de 25% em 2024 (Tan, 2025).
O projeto Power of Siberia 2 ainda não possui cronograma definido ou termos comerciais finais, com negociações pendentes sobre a precificação do recurso. O gasoduto representa um passo para a China garantir suprimento para sua demanda, que deve atingir o pico entre 2035 e 2040, e reduzir a dependência de rotas marítimas. Para a Rússia, a obra busca estabilizar uma economia limitada por sanções, garantindo um comprador de longo prazo para suas reservas de gás (Adler,2026).
REFERÊNCIAS
ADLER, Nils. What is the Power of Siberia 2 pipeline that Russia, China are planning? Al Jazeera, [S. l.], 20 maio 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/features/2026/5/20/what-is-the-power-of-siberia-2-pipeline-that-russia-china-are-planning. Acesso em: 21 mai. 2026.
POWER of Siberia: the largest gas transmission system in Russia’s East. Gazprom, [S.l], [20--?]. Disponível em: https://www.gazprom.com/projects/power-of-siberia/. Acesso em: 21 mai. 2026.
Por Heitor Assis Tavares
Data: 14/05/2026
O conceito de "Colar de Pérolas" refere-se a uma rede de infraestruturas portuárias e logísticas no Oceano Índico que a China desenvolve para assegurar suas rotas comerciais. No âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), essa região assume relevância estratégica por conectar mercados e garantir o fluxo de recursos energéticos vitais ao desenvolvimento chinês (Tiezzi, 2014). Essa estrutura visa integrar as cadeias de suprimento globais, embora gere interpretações divergentes sobre sua finalidade.
As relações entre a China e a Índia nessa área são marcadas por uma dualidade entre interdependência econômica e desconfiança estratégica. O principal empecilho reside na percepção indiana de um "cerco" geográfico, visto que investimentos chineses em locais como os portos de Gwadar (Paquistão) e Hambantota (Sri Lanka) são interpretados como uma ameaça à influência da Índia no seu entorno marítimo (Bose, 2025). Esse impasse é alimentado pelo dilema de segurança, onde ações de infraestrutura são lidas como potenciais bases militares, dificultando avanços diplomáticos significativos e transformando a região em um ponto de atrito persistente (Scispace, 2020).
Diante disso, a China mantém a narrativa de que suas ações na Rota da Seda Marítima possuem caráter civil e de fomento ao desenvolvimento regional (Yung, 2015). Em contrapartida, a Índia busca equilibrar essa presença através de parcerias estratégicas e do fortalecimento de sua projeção naval.
Apesar da rivalidade, documentos indicam a existência de fóruns multilaterais onde o diálogo ocorre, sugerindo que a colaboração em áreas de segurança, como o combate à pirataria, pode servir como canal de mitigação de tensões (Orfonline, 2018).
Atualmente, a dinâmica no Índico reflete uma competição, onde a busca por hegemonia regional coexiste com a necessidade de evitar escaladas diretas. O impasse do Colar de Pérolas consolidou-se como elemento central das relações sino-indianas, evidenciando que a estabilidade na Ásia depende de um equilíbrio entre as ambições de conectividade da China e as garantias de segurança da Índia.
REFERÊNCIAS
BOSE, Sohini. Ports and Geopolitics: the case of sino-indian rivalry in the bay of bengal. ORF, [S.l], 04 nov. 2025. Occasional Papers Disponível em: https://www.orfonline.org/research/ports-and-geopolitics-the-case-of-sino-indian-rivalry-in-the-bay-of-bengal. Acesso em: 13 mai. 2026.
MCINERNEY, Rob. China maritime quest in the indian ocean: new delhi options. ORF, [S.l], 21 abr. 2018. Disponível em: https://www.orfonline.org/research/china-maritime-quest-in-the-indian-ocean-new-delhi-options. Acesso em: 14 mai. 2026.
PAUTASSO, Diego; NOGARA, Tiago Soares; RIBEIRO, Erik Herejk. A Nova Rota Da Seda E As Relações Sino-Indianas: O Desafio Do “Colar De Pérolas” . Mural Internacional, Rio de Janeiro, v. 11, 2020. Disponível em: https://scispace.com/pdf/a-nova-rota-da-seda-e-as-relacoes-sino-indianas-o-desafio-do-4s3ya4y0r4.pdf. Acesso em: 14 mai. 2026.
TIEZZI, Shannon. The Maritime Silk Road vs. The String of Pearls. The Diplomat, [S.l], 13 feb. 2014. Disponível em: https://thediplomat.com/2014/02/the-maritime-silk-road-vs-the-string-of-pearls. Acesso em: 13 mai. 2026.
YUNG, Christopher D. Burying China’s ‘String of Pearls’. The Diplomat, [S.l], 22 jan. 2015. East Asia. Disponível em: https://thediplomat.com/2015/01/burying-chinas-string-of-pearls/. Acesso em: 14 mai. 2026.
Por Ana Beatriz Moreira Nunes Gama Couto
Data: 11/05/2026
O TRÂNSITO AO LONGO DA ROTA INTERNACIONAL DE TRANSPORTE TRANSCASPIANA
Segundo o Ministério de Transportes do Cazaquistão, o fluxo de cargas por essa rota quintuplicou nos últimos sete anos, registrando um aumento de 0,8 milhão de toneladas para 4,5 milhões de toneladas ao ano. Esse corredor é de extrema relevância para a logística global, pois liga a China, o Cazaquistão, a região do Cáucaso e a Turquia aos mercados europeus, contornando a Rússia.
Assim, dentre os fatores que impulsionaram esse crescimento está o aumento de parcerias estratégicas entre países participantes e as empresas do setor de transportes, facilitando a realização de procedimentos aduaneiros. A partir disso, os investimentos em infraestrutura portuária e o desenvolvimento de projetos para expansão da capacidade marítima dos países envolvidos são essenciais para suportar o volume de operações e aumentar as capacidades do corredor.
OS INVESTIMENTOS NO PORTO DE AKTAU
Em junho de 2025, teve início um projeto significativo para o setor de transportes do Cazaquistão, a construção de um novo centro de contêineres no porto de Aktau. O local é um polo portuário e logístico essencial para a região, devido ao seu contato com o Mar Cáspio e sua participação na Rota de Transporte Transcaspiana. Nesse sentido, a sua expansão e a realização do projeto compõem uma série de medidas estratégicas adotadas pelo governo do Cazaquistão, concretizadas devido à Iniciativa Cinturão e Rota da China.
Isso ocorre por meio da parceria entre o país da Ásia Central e o governo chinês, mais especificamente o porto de Lianyungang, que já colaborou com a nação em outros momentos. Assim, ele entra como investidor em questões de infraestrutura e gestão, transmitindo suas experiências e conhecimentos em operações portuárias e assegurando um maior fluxo de mercadorias entre ambos os países.
Além disso, esse novo centro de containers é fundamental para o fortalecimento interno do Cazaquistão, como uma forma de aumentar seu potencial de exportação e também a comercialização com outros mercados e parceiros globais.
O PANORAMA ATUAL
A conclusão do projeto ocorreu ainda em 2025, porém, outras obras de infraestrutura na região do corredor e no Porto de Aktau vem sendo realizadas ao longo de 2026, como trabalhos de dragagem e reconstrução de cais, além de mais projetos de expansão programados para 2027, contando com investimentos da União Europeia.
Essas iniciativas são fundamentais para que o Cazaquistão mantenha sua posição de relevância como um centro de trânsito no corredor transcaspiano e, consequentemente, na Nova Rota da Seda.
REFERÊNCIAS
BELOUS, Katia. Aktau’s Port Is Growing Faster Than Its Workforce: The Talent. KiTalent, [S.l], 12 abr. 2026. Disponível em: https://kitalent.com/articles/article-aktau-maritime-port-logistics-talent . Acesso em: 11 mai. 2026.
BIRBAYEVA, Ayana. Trans-Caspian Transport Route Cargo Volumes Increase Fivefold in Seven Years.The Astana Times, [S.l], 10 mar. 2026. Disponível em: https://astanatimes.com/2026/03/trans-caspian-transport-route-cargo-volumes-increase-fivefold-in-seven-years/ . Acesso em: 11 mai. 2026.
BIRBAYEVA, Ayana. Transit Along Trans-Caspian Route Triples Over Five Years as Kazakhstan Expands Port Infrastructure. The Astana Times, [S.l], 23 apr. 2026. Disponível em: https://astanatimes.com/2026/04/transit-along-trans-caspian-route-triples-over-five-years-as-kazakhstan-expands-port-infrastructure/ . Acesso em: 11 mai. 2026.
CUNHA-BUSCH, A. Cazaquistão dragará porto para importante rota comercial entre a China e a UE 12/05/2025. The Green Amazon News, [S.l], 11 mai. 2025. Disponível em: https://www.thegreenamazon.com/post/cazaquist%C3%A3o-dragar%C3%A1-porto-para-importante-rota-comercial-entre-a-china-e-a-ue-12-05-2025 . Acesso em: 11 mai. 2026.
MOLDAKHMETOV, Dauren. Will the Port of Aktau Become the Logistical “Heart” of the Trans-Caspian Route? The Times of Central Asia, [S.l], 4 aug. 2025. Middle Corridor. Disponível em: <https://timesca.com/will-the-port-of-aktau-become-the-logistical-heart-of-the-trans-caspian-route/>. Acesso em: 11 mai. 2026.
Por Vitória Luine Almeida de Jesus
Data: 05/05/2026
POR QUE A ÁSIA CENTRAL SE TORNOU TÃO IMPORTANTE PARA A CHINA?
Além de possuir enormes reservas de gás natural, a região ocupa uma posição geográfica central entre China, Europa e Oriente Médio, funcionando como uma ponte terrestre fundamental para a nova Rota da Seda. Para a China, fortalecer sua presença na Ásia Central significa ampliar a segurança energética, expandir rotas comerciais e consolidar influência geopolítica na Eurásia. Por isso, estes países passaram a ocupar um papel cada vez mais importante na política externa chinesa.
O GASODUTO ÁSIA CENTRAL-CHINA
O principal símbolo dessa aproximação é o Gasoduto Ásia Central-China, uma das maiores infraestruturas energéticas da Eurásia. O sistema conecta o Turcomenistão, Uzbequistão e Cazaquistão ao território chinês, garantindo o fornecimento de gás natural para a economia da China.
Agora, o projeto da Linha D pretende expandir ainda mais essa rede, incluindo Tajiquistão e Quirguistão no corredor energético. Com isso, a China busca aumentar sua segurança energética e reduzir a sua dependência de rotas marítimas vulneráveis, especialmente em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e disputas comerciais.
Segundo o relatório do “The People 's Map of Global China”, a linha D poderá elevar significativamente a capacidade total do sistema de gasodutos, chegando a cerca de 85 bilhões de metros cúbicos de gás por ano quando totalmente integrada ao restante da rede.
O CASO DO TURCOMENISTÃO
Em 2026, o país anunciou a meta de produzir 76 bilhões de metros cúbicos de gás natural, sendo grande parte destinada ao mercado chinês. O campo de gás Galkynysh, considerado um dos maiores do mundo, é peça central dessa parceria.
Enquanto a China garante acesso a recursos energéticos estratégicos, o Turcomenistão recebe investimentos, infraestrutura e expansão de suas exportações. Ao mesmo tempo, cresce a dependência econômica da região em relação a China, levantando debates sobre a influência política e autonomia regional.
MAIS DO QUE ENERGIA: UMA DISPUTA POR INFLUÊNCIA
A expansão da Nova Rota da Seda na Ásia central vai muito além da economia. A China vem fortalecendo acordos diplomáticos, projetos de infraestrutura e cooperação em segurança para garantir estabilidade aos seus investimentos estratégicos na região.
Esse movimento ocorre em um momento de reconfiguração geopolítica regional após a guerra da Ucrânia. A região tornou-se um espaço cada vez mais importante para a disputa de influência entre grandes potências. O gasoduto representa a estratégia chinesa para ampliar seu poder e presença na Eurásia.
SEGURANÇA ALÉM DAS FRONTEIRAS: A ESTRATÉGIA CHINESA
Além da questão energética, a expansão chinesa na região também está profundamente ligada à segurança regional. O Estado chinês vem demonstrando entender a estabilidade política e controle fronteiriço como elementos para proteger os projetos da Nova Rota da Seda. Por isso, a China vem ampliando a cooperação militar em países centro-asiáticos e o compartilhamento de inteligência.
Esse ponto é especialmente importante pois a região faz fronteira com Xinjiang, território chinês considerado estratégico e sensível para o governo chinês. Nesse contexto, a China passou a associar a estabilidade da Ásia Central à sua proteção interna e ao funcionamento dos corredores energéticos e comerciais da Iniciativa Cinturão e Rota.
CONCLUSÃO
A expansão do gasoduto Ásia Central-China mostra como a Nova Rota da Seda vai muito além do comércio e da infraestrutura. Para a China, garantir acesso ao gás natural da Ásia Central significa fortalecer sua segurança energética, ampliar sua influência geopolítica e consolidar corredores estratégicos na Eurásia.
Mais do que garantir um fornecimento de gás, a China busca construir uma forte e consolidada rede de integração para fortalecer seu papel como potência global. Sendo assim, a região central da Ásia passa a ocupar uma posição estratégica nas transformações geopolíticas contemporâneas.
REFERÊNCIAS
AMINJONOV, Farkhod; DOVGALYUK, Olesya. Central Asia–China Gas Pipeline (Line D). The People’s Map of Global China, [S.l], 07 feb. 2023. Disponível em: <https://thepeoplesmap.net/project/central-asia-china-gas-pipeline-line-d>. Acesso em: 5 mai. 2026.
CENTRAL Asia-China Gas Pipeline. Global Energy Monitor Wiki, [S.l], [20--?] Disponível em: <https://www.gem.wiki/Central_Asia%E2%80%93China_Gas_Pipeline?> . Acesso em: 5 mai. 2026.
GONÇALVES, Jorge William Ferreira. A Ásia Central E O Novo Grande Jogo Energético (Ngje) - Dois Níveis. Dois Níveis, [S.l], 12 dez. 2021. Ásia Central. Disponível em: <https://www.doisniveis.com/asia/a-asia-central-e-o-ngje/>. Acesso em: 5 mai. 2026.
MONIÉ, F. O novo “Grande Jogo” e a geopolítica dos oleodutos no Mar Cáspio. In: MONIÉ, F.; BINSZTOK, J. (eds) Geografia e geopolítica do petróleo. Rio de Janeiro: Mauad X, 2012. p. 237–262.
SARYBAYEV, M. et al. Regional security collaboration between Central Asia and China contemporary challenges and future prospects. Frontiers in Political Science, v. 8, 30 mar. 2026.
TURKMENISTAN Targets 76 Bcm Gas Output in 2026 as Exports to China Continue. Petroleum & Gas Journal, [S.l], 17 abr. 2026. Disponível em: <https://pgjonline.com/news/2026/april/turkmenistan-targets-76-bcm-gas-output-in-2026-as-exports-to-china-continue>. Acesso em: 5 mai. 2026.
Por: Sofia Comunian
CONTEXTO
A posição do Quirguistão na Ásia Central evidencia os desafios enfrentados por países menores em um cenário dominado por grandes potências. Por ser localizado no interior do continente asiático, não ter acesso ao mar e possuir uma economia pouco diversificada, o país enfrenta dificuldades para se integrar de forma independente ao comércio global, tornando-se mais dependente de parceiros externos. Entretanto, sua posição geográfica é estratégica, isso faz com que ele esteja diretamente inserido na disputa de influência entre a Rússia e a China.
A RELAÇÃO RÚSSIA E QUIRGUISTÃO
A influência da Rússia vem principalmente do passado soviético, que deixou marcas profundas nas instituições políticas, na estrutura de segurança e nas relações externas do Quirguistão. Esse legado histórico ainda molda, em grande medida, as dinâmicas internas e regionais do país. Até hoje, Moscou mantém um papel relevante, especialmente na área militar e estratégica, sendo vista como um parceiro importante para a estabilidade do Quirguistão, além de exercer influência em decisões políticas e na cooperação econômica.
A RELAÇÃO CHINA E QUIRGUISTÃO
Por outro lado, a China tem ganhado cada vez mais espaço na economia do país, principalmente por meio da Belt and Road Initiative. Com investimentos em infraestrutura, energia e transporte, o país passou a depender mais da presença chinesa para seu desenvolvimento. No entanto, esses investimentos muitas vezes vêm acompanhados de empréstimos, o que aumenta a dívida externa e levanta preocupações sobre dependência.
EQUILIBRAR OU DEPENDER?
Assim, o Quirguistão vive um equilíbrio delicado, pois depende da Rússia para garantir sua segurança e da China para impulsionar seu crescimento econômico. Ao mesmo tempo, o país busca diversificar suas parcerias e manter relações próximas com ambos, na tentativa de ampliar suas opções no cenário internacional. No entanto, essa estratégia também limita sua autonomia, já que o governo precisa constantemente equilibrar interesses e lidar com pressões externas vindas dessas grandes potências.
CONCLUSÃO
O caso do Quirguistão mostra um ponto importante da geopolítica atual: estar em uma posição estratégica e participar de grandes projetos não significa, necessariamente, ter controle sobre eles. Mesmo sendo relevante nas rotas e conexões da região, o país ainda enfrenta dificuldades para transformar essa posição em poder real de decisão.
REFERÊNCIAS
CHIOZZA, Giacomo; SIDDIQUI, Mohammad Amaan. How the Sino-Russian Geopolitical Alignment Shapes China's Image in Kyrgyzstan. Journal of Chinese Political Science, [S.I], 2 mai. 2026.
HONGJING, Gou; YU, Zheng. Entrevista: Presidente do Quirguistão espera que modernização chinesa traga novas oportunidades para o país e para a Asia Central. Xinhua Português, Bishkek, 06 fev. 2025. Disponível em: https://portuguese.news.cn/20250206/d71fc81f3973408ca56718074a6283d3/c.html. Acesso em: 2 mai. 2026.
HAWKINS, Amy. Xi's central Asia trip aims to cement ties as China vies for influence with Russia. The Guardian, [S.I], 3 jul. 2024. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/article/2024/jul/03/xi-jinping-central-asia-trip-china-vies-regional-influence-russia. Acesso em: 2 mai. 2026.
KAZANTSEV, Andrei et. al. Between Russia and China: Central Asia in Greater Eurasia. Journal of Eurasian Studies, [S.|], v. 12, n. 1, p. 57 - 71, jan. 2021. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/epub/10.1177/1879366521998242. Acesso em: 2 mai. 2026.
LAHIRI, Indrabati. Quirguistão é o novo intermediário de Moscovo para fazer negócios na Europa. EuroNews, [S.I], 39 set. 2024. Disponível em: https://pt.euronews.com/business/2024/09/30/quirguistao-e-o-novo-intermediario-de-moscovo-para-fazer-negocios-na-europa. Acesso em: 2 mai. 2026
ROTA da Seda: o papel estratégico da Ásia Central, disputada por China e Rússia. Reportagem especial: BBC S.I]: BBC, 8 abr. 2025. 1 vídeo (15m55s). Disponivel em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c078z335mxo.amp. Acesso em: 2 mai. 2026.
SINOR, Denis. History, of Kyrgyzstan. Britannica, [S.I], 2 may. 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Kyrgyzstan/History. Acesso em: 2 mai. 2026.
TURGUNBAEVA, Aigerim. Kyrgyzstan criticises EU sanctions on its banks over Russia links, calls for dialogue. Reuters, Bishekek, 24 Oct. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/kyrgyzstan-criticises-eu-sanctions-its-banks-over-russia-links-calls-dialogue-2025-10-24/. Acesso em: 2 mai. 2026.
Por Heitor Assis Tavares
O que são minerais críticos?
Os minerais críticos são recursos naturais estratégicos, indispensáveis para o desenvolvimento econômico e tecnológico global. Eles desempenham um papel fundamental na produção de tecnologias avançadas, na transição energética e na segurança, sendo considerados essenciais para o avanço da geopolítica mundial.
O Cazaquistão possui uma enorme reserva de minerais críticos, como urânio, cobre e terras raras, o que o torna um ator relevante na geopolítica mundial. Além de sua abundância mineral, o país se destaca por sua posição geográfica estratégica, sendo um elo central na Iniciativa Cinturão e Rota (BRI).
O interesse da China no local
O interesse da China pelos minerais críticos do Cazaquistão está ligado à necessidade de garantir recursos estratégicos para sustentar seu desenvolvimento tecnológico e industrial. Esses recursos também têm papel importante em setores sensíveis, como defesa e sistemas avançados. Logo, assegurar o acesso a essas matérias-primas é fundamental para manter o ritmo de crescimento da economia chinesa.
Além disso, a China se destaca por seu domínio nas etapas mais avançadas da cadeia produtiva, especialmente no refino e processamento desses minerais. Mesmo países ricos em recursos dependem dessa capacidade industrial chinesa para transformar matéria-prima em produtos utilizáveis. Esse controle fortalece sua posição nas cadeias globais de suprimento e amplia sua influência econômica. Dessa forma, o interesse no Cazaquistão também tem caráter estratégico, garantindo segurança de abastecimento e liderança em setores-chave do futuro.
Ações no Cazaquistão
A China tem ampliado significativamente sua atuação no setor mineral do Cazaquistão por meio de grandes empresas como a Zijin Mining Group e a Xinjiang Xinxin Mining, direcionando bilhões de dólares para garantir acesso a recursos estratégicos. Um exemplo é a aquisição de uma grande mina de ouro por cerca de US$1,2 bilhão, além de investimentos iniciais de aproximadamente US$100 milhões em novos empreendimentos minerais.
A presença crescente demonstra uma estratégia consistente de Pequim para consolidar o controle sobre cadeias de suprimento, utilizando o Cazaquistão como uma base próxima e rica em recursos para sustentar sua indústria tecnológica e energética.
Relação Cazaquistão-China ganha força
A relação entre China e Cazaquistão, no contexto da mineração, é marcada por uma clara assimetria, em que a China exerce maior poder ao controlar as etapas mais avançadas da cadeia produtiva e o destino final dos minerais extraídos. A proximidade territorial facilita o fluxo desses recursos em direção ao mercado chinês, reforçando uma dinâmica em que o Cazaquistão atua majoritariamente como fornecedor.
Desse modo, o país se insere na iniciativa, como uma ligação estratégica voltada ao abastecimento industrial chinês, consolidando-se como o principal ativo da iniciativa na Ásia Central justamente por sua capacidade de garantir acesso contínuo a minerais críticos.
Referências
DIÁLOGOS INTERNACIONAIS. A Iniciativa Cinturão e Rota na Ásia Central: minerais críticos no Cazaquistão. 2025. Disponível em: https://dialogosinternacionais.com.br/?p=3222. Acesso em: 14 abr. 2026.
BRASIL MINERAL. China tenta controlar segmentos primordiais da cadeia de fornecedores. 2024. Disponível em: https://www.brasilmineral.com.br/noticias/china-tenta-controlar-segmentos-primordiais-da-cadeia-de-fornecedores. Acesso em: 14 abr. 2026.
CHINA GLOBAL SOUTH. China-Kazakhstan BRI metals mining analysis 2025. 2025. Disponível em: https://chinaglobalsouth.com/analysis/china-kazakhstan-bri-metals-mining-2025/. Acesso em: 14 abr. 2026.
GRIFFITH UNIVERSITY. China Belt and Road Initiative (BRI) Investment Report 2025. 2025. Disponível em: https://blogs.griffith.edu.au/asiainsights/china-belt-and-road-initiative-bri-investment-report-2025/. Acesso em: 15 abr. 2026.
Por: Rafael Gandra
A evolução da abordagem estratégica da China em relação à Ásia Central se tornou especialmente cristalizada após o lançamento da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), em 2013, por Xi Jinping. Em 2017, a Iniciativa foi oficialmente integrada à Constituição do Partido Comunista Chinês, revelando a face política, estratégica e econômica do programa. Esse assunto remonta décadas antes da concepção da BRI como um projeto governamental, haja vista a denominação dos “círculos econômicos” – conceito dos territórios econômicos que integravam partes das províncias chinesas com fronteiras em países da Ásia Central –, além de um processo de “desrussificação” dos países da antiga União Soviética, permitindo a expansão de uma crescente China para as nações periféricas. É interessante notar como essa expansão contrapôs a política de “grande diplomacia” de Deng Xiaoping, que concentrava o interesse, pós-abertura econômica, em dialogar diretamente com as grandes potências da época.
Incorporar os países em desenvolvimento se sustenta no discurso de “Mundo Harmonioso” de Hu Jintao e se desenvolve com Xi Jinping na “Comunidade de Destino Comum”, sobre a qual o desenvolvimento e adaptação de interesses da China estariam diretamente ligados à boa relação e à promoção de comércio com as nações em seu entorno. O objetivo primordial da BRI é justamente produzir uma esfera de influência sinocêntrica calcada no desenvolvimento econômico, influência política e estabilidade na Ásia Central. Mesmo com uma certa resistência de alguns países dessa região em confiarem nos projetos chineses, o recente declínio de influência russa (principalmente pelas declarações que minam as soberanias dos Estados que faziam parte da antiga URSS e pela guerra russo-ucraniana) abre espaço para a influência chinesa se estruturar cada vez mais na região, adaptando os interesses geralmente relacionados a projetos de infraestrutura e integração tanto nacional – quanto aos países da Europa. A incorporação chinesa está posicionada além das capacidades materiais de investir nesses países, afinal, a construção de instituições culturais, educacionais e militares conflui em um processo de soft power que junta a influência prática com a influência ideológica.
Fonte: The Asan Forum
Por: Érika Fóscolo
No dia 2 de abril, o atual presidente dos Estados Unidos decretou o “Dia da Libertação” e impôs “tarifas recíprocas” em mais de 180 países, variando, em sua maioria, entre 10% a 50%. Depois de uma semana de negociações, encontros diplomáticos e noticiamento midiático, Washington anunciou 90 dias de suspensão das medidas tarifárias, com exceção da China, que arca com tarifas de 145%. A razão da alta taxa, segundo os porta-vozes estadunidenses, é a política retaliatória da China: ambas as nações estão, atualmente, em uma guerra tarifária, ameaçando a penalização de países que se alinharem com uma potência econômica – ou com a outra.
O esforço de integração regional chinês na Ásia Central – marcado principalmente pela fundação da Iniciativa da Roda da Seda – resultou na criação de fundos monetários, bancos e instituições que comercializavam majoritariamente em yuans (reduzindo a dependência do dólar), além do estabelecimento de relações políticas sólidas com seus vizinhos (reduzindo a dependência da Europa e dos Estados Unidos). No ano de 2024, por exemplo, os Estados Unidos atingiram um valor de comércio total de bens de 3.4 bilhões de dólares com o Cazaquistão: a China, por sua vez, atingiu mais de 40 bilhões.
É nessa discrepância que reside a vantagem chinesa: segundo Mark Temnycky, membro do Centro Eurásia do Conselho Atlântico, a política tarifária de Trump “(...) pode intensificar a relação da Ásia Central com a China, aumentando a dependência dos estados da região do comércio chinês. Visto a proximidade da China com a Ásia Central, ela também pode causar a redução das relações comerciais com a União Europeia e com os Estados Unidos, uma vez que eles favorecerão os preços chineses”.
Na Ásia Central estão localizados os países do C5 (Uzbequistão, Tajiquistão, Cazaquistão, Turcomenistão e Quirguistão), plataforma diplomática estadunidense que se dedica, nos últimos anos, em negociar minerais críticos para o avanço da energia renovável, indústria e segurança nacional.
Apesar da relevância estratégica da região para os Estados Unidos, a política tarifária da atual administração tende a enfraquecer a presença do setor privado estadunidense e diminuir sua influência no mercado estrangeiro. Segundo Tyler Schipper, economista e professor associado da Universidade de St. Thomas, “(...) isso torna a China, e potencialmente a Rússia (...) como as fontes mais prováveis de Investimento Direto Externo da região”.
Fonte: The Times of Central Asia
Por: Rafael Gandra
A China investe em carros elétricos para reduzir a poluição e a dependência de combustíveis fósseis, juntando objetivos ambientais, estratégias de desenvolvimento industrial, oportunidades econômicas e o crescimento do setor automotivo nacional. Nesse sentido, essa indústria inovadora vem liderando uma tendência global de transição aos veículos elétricos, com significativo avanço nos países da Ásia Central. Graças a décadas de investimento em tecnologia, infraestrutura e capacitação, empresas como Xpeng e Li Auto estão expandindo suas operações para mercados emergentes como a Ásia Central e o Oriente Médio, com apoio do governo chinês.
Durante uma visita ao Tajiquistão, o presidente Xi Jinping destacou a importância da colaboração em tecnologias ecológicas, sinalizando a intenção de fortalecer laços com a região. No entanto, pesquisadores alertam para um provável custo ambiental a curto prazo pela expansão desse mercado na Ásia Central, afinal, essa região possui vastas reservas de minerais essenciais para a produção de baterias de VEs, como lítio e níquel. O problema das dependências domésticas em combustíveis fósseis também é alvo do debate, com o carvão representando 67% da energia do Cazaquistão e tendo sua produção aumentada em 40% no Uzbequistão.
Laurent Ruseckas, da S&P Global Commodity Insights, elucida sobre as preocupações com o aumento da demanda energética na região: “No curto prazo, eles são menos úteis para reduzir a emissão de carbono do que se poderia pensar. A rede elétrica na Ásia Central está muito longe de ser descarbonizada”. Por outro lado, o analista prevê uma boa relação de cooperação a longo prazo entre a China e os países da Ásia Central: “(Os veículos elétricos chineses) são acessíveis. Eles reduzem a demanda por produtos petrolíferos, uma parcela dos quais é importada da Rússia, e são a tendência futura”.
Essa rede de cooperação na região também fomenta a transição energética pretendida por países como Cazaquistão e Uzbequistão. Na visita em julho de 2024 ao país cazaque, Xi Jinping prometeu ajudar e colaborar com o crescimento em áreas de energia renovável e minerais críticos. Uma das metas é justamente a descarbonização dos países, podendo ser amplamente beneficiada pelo aumento da implantação de veículos elétricos, recorrendo à China, líder mundial desse mercado. A expansão chinesa tem sido considerada bem-sucedida, pois apesar das altas tarifas impostas pelos EUA e Europa visando conter sua expansão de veículos elétricos, a China agora representa quase 60% de todos os novos veículos elétricos vendidos no mundo.
Fonte: Global Voices