Por Ana Clara Hadad
Data: 14/09/2026
O primeiro trem-bala da Indonésia, que percorre Jacarta e Bandung, começou a operar em 2023, oito anos depois de ter sido concedido a uma joint venture de empresas estatais indonésias e chinesas. Com planos de estender a ferrovia até Surabaya em 700 quilômetros, o ministro das Finanças anunciou uma mudança no controle do projeto, transferindo-o para o fundo soberano INA ou outra agência. Conhecido comercialmente como "Whoosh", o projeto é uma colaboração com empresas chinesas no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, financiado pela China em US$ 7,3 bilhões, porém tem sido assolado por problemas, incluindo o aumento dos custos.
Em 2025, a Indonésia iniciou negociações com a China para reestruturar a dívida do projeto. O ministro das Finanças, Purbaya Yudhi Sadewa, afirmou em agosto que uma agência vinculada ao Ministério das Finanças assumiria uma participação de 60% na empresa que opera a ferrovia, enquanto as empresas chinesas manteriam os 40% restantes. No entanto, Purbaya afirmou na terça-feira que as autoridades avaliavam se concederiam a participação à Autoridade de Investimentos da Indonésia (INA) ou à Sarana Multi Infrastructure (SMI), braço de financiamento para o desenvolvimento vinculado ao seu ministério. A decisão é iminente, com previsão de conclusão da transferência até 15 de setembro. Purbaya não disse se o atual acionista, um consórcio liderado pela empresa ferroviária estatal Kereta Api Indonesia, seria compensado pela transferência.
O novo acionista controlador seria responsável pelo pagamento do empréstimo pendente do projeto e, após negociações de reestruturação, a China concordou em estender o prazo do empréstimo para 80 anos. O empréstimo original de US$ 4,5 bilhões do Banco de Desenvolvimento da China tinha prazo de 40 anos. Posteriormente, a Indonésia contraiu mais empréstimos para cobrir os custos adicionais. Os detalhes sobre o financiamento dessa extensão não foram divulgados, o que levanta dúvidas sobre futuros investimentos estrangeiros. Com o projeto já envolvendo empréstimos substanciais do Banco de Desenvolvimento da China, o plano da Indonésia depende da gestão dessas complexidades financeiras.
REFERÊNCIAS
INDONESIA government to take over state firm's stake in troubled China-funded high-speed railway. The Straits Times, [S.l], 6 ago. 2026. Disponível em: https://www.straitstimes.com/business/indonesia-government-to-take-over-state-firms-stake-in-troubled-china-funded-high-speed-railway. Acesso em: 11 set. 2026.
INDONESIA'S high-speed railway: A new chapter with sovereign wealth fund. Devdiscourse, [S.l], 8 set. 2026. Disponível em: https://www.devdiscourse.com/article/business/3974151-indonesias-high-speed-railway-a-new-chapter-with-sovereign-wealth-fund. Acesso em: 11 set. 2026.
INDONESIA to shift controlling stakeholder of China-funded railway next week. Reuters, [S.l], 8 set. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/indonesia-shift-controlling-stakeholder-china-funded-railway-next-week-2026-09-08/. Acesso em: 11 set. 2026.
INDONESIA to shift controlling stakeholder of China-funded railway next week. The Jakarta Post, Jakarta, 8 set. 2026. Companies. Disponível em: https://www.thejakartapost.com/business/2026/09/08/indonesia-to-shift-controlling-stakeholder-of-china-funded-railway-next-week. Acesso em: 11 set. 2026.
Por Vinicius Jose Ribeiro Carvalho
Data: 09/09/2026
O QUE É A NOVA ROTA DA SEDA COMO DIPLOMACIA CULTURAL?
Lançada em 2013, a Belt and Road Initiative (BRI) envolve hoje mais de 140 países e cerca de 75% da população mundial. Pesquisas acadêmicas descrevem a iniciativa como uma estratégia cultural-geopolítica, que usa infraestrutura cultural, exposições e narrativas civilizacionais para projetar soft power para além do investimento em infraestrutura física. Um exemplo concreto disso é Genebra em 2026, a mostra “Xinhua Silk Road” posicionou a China como ponte entre Oriente e Ocidente, em evento que reuniu representantes de 50 países.
DIPLOMACIA EM AÇÃO: TURNÊS DE ARTE NO SUDESTE ASIÁTICO
Em novembro de 2025, a organização malaia Seni Malaya firmou parceria com o Qiudi Art Centre (Xiamen) para a turnê “Art Beyond National Boundaries”, que levou quase 100 obras de 40 artistas chineses contemporâneos. Bangkok, Tailândia foi a primeira parada da turnê, que seguiu depois para Kuala Lumpur, na Malásia, a mostra marcou os 50 anos de relações diplomáticas entre Malásia e China, e o acordo prevê um programa trienal de residências recíprocas entre jovens a partir de 2026. Em junho de 2026, uma exposição itinerante promovida pelo Vietnã ampliou esse movimento, unindo obras do próprio país, da China, da Malásia, da Tailândia e do Laos, reforçando o turismo cultural na região. Além das turnês de arte, o patrimônio material também virou instrumento diplomático, por meio dos museus.
MUSEUS E PATRIMÔNIO COMO PONTE DIPLOMÁTICA
Em junho de 2026, o Museu de Shanxi, em Taiyuan, recebeu mais de 130 relíquias do Museu Nacional do Camboja. No mês anterior, o distrito artístico 798, em Pequim, havia exibido 122 artefatos cambojanos, incluindo peças de Angkor Wat, enquadrados pela mídia estatal Xinhua como uma “ponte entre civilizações”. Como dado de contexto, até o fim de 2025 a China já contava com 7.188 museus registrados, mais de 91% deles com entrada gratuita, que receberam 1,56 bilhões de visitantes naquele ano, uma escala que mostra como o museu se tornou parte central da estratégia cultural chinesa, não um detalhe isolado.
EDUCAÇÃO E CULTURA POPULAR: A OUTRA FRENTE DO SOFT POWER
Pesquisadores do Yusof Ishak Institute (ISEAS) descrevem o avanço do soft power chinês no Sudeste Asiático como um fenômeno que vai além de exposições e museus, ele passa pela educação e pela cultura popular no dia a dia da região. O instrumento mais visível são os Institutos Confúcio, o Camboja sozinho concentra quatro, combinando ensino de mandarim com festivais, exposições e apresentações de música e dança, mas o mesmo padrão se repete em bolsas de estudos, intercâmbios acadêmicos e produtos de mídia chinesa consumidos por públicos jovens na Indonésia, Tailândia, Malásia e Filipinas.
Um estudo publicado no Journal of Contemporary Eastern Asia sobre a ASEAN encontrou reações divididas, parte do público enxerga intercâmbio cultural genuíno, e outra parte associa os institutos a uma tentativa deliberada de propaganda. Essa divisão tem respaldo acadêmico, autores como Hartig (2015) e Brady (2015) argumentam que a expansão desses programas no Sudeste Asiático revela intenção estratégica de moldar a percepção internacional sobre a China, o que já levou universidades e governos de outros países a restringir ou encerrar parcerias com os Institutos Confúcio por preocupações com autonomia acadêmica.
PONTE CULTURAL OU ESTRATÉGIA DE PODER?
Exposições, museus e educação são, na prática, três frentes da mesma estratégia, usar a narrativa histórica da Rota da Seda para posicionar a China como elo entre civilizações. Essa leitura se aprofunda a luz do conceito de soft power formulado por Keohane e Nye (2012), para os autores, esse tipo de poder não deveria ser de coerção nem de recursos econômicos ou militares, mas da capacidade de atrair, isto é, de levar outros atores a quererem o que se quer, aderindo voluntariamente, a ideias, valores e instituições percebidos como legítimos. É justamente por depender dessa legitimidade percebida que o soft power nunca é neutro, trata-se, por definição, de um instrumento para moldar deliberadamente como o mundo vê um país, mesmo quando se apresenta sob a aparência de intercâmbio cultural desinteressado. Os próprios autores reconhecem que esse recurso pode surgir de política deliberada ou como subproduto não intencional da projeção cultural de um país. No caso chinês, porém, a repetição do mesmo enquadramento simultaneamente em exposições, museus e programas educacionais sugere menos um efeito colateral espontâneo e mais uma estratégia coordenada de Estado. E, como mostra o debate acadêmico apresentado anteriormente, essa ambiguidade entre atração genuína e projeção deliberada de poder já gera desconfiança suficiente para universidades encerrarem parcerias com os Institutos Confúcio.
REFERÊNCIAS
DEY, Boby. Vietnam Aligns with Asian Countries to Create Borderless Travel Network and Transform Indochina Tourism Growth. Travel and Tour World, [S.1.], 26 ago. 2026. Disponível em: https://www.travelandtourworld.com/news/article/9yzu1epl11x0/. Acesso em: 08 de set. 2026.
JUN, Soo Wern. Seni Malaya inks China art collaboration as TRX hosts Asean tour of young contemporary artists from China. Malaymail, Kuala Lumpur, 04 de nov. 2025. Disponível em: https://www.malaymail.com/news/malaysia/2025/11/04/seni-malaya-inks-china-art-collaboration-as-trx-hosts-asean-tour-of-young-contemporary-artists-from-china/197198. Acesso em: 08 de set. 2026.
KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Power and Interdependence. Printed in the United States, 1997.
MARIN, Jorge; FARINACCIO, Rafael. Exército de Terracota: o que ninguém te contou sobre a 8ª maravilha do mundo. Tecmundo, [S.1.], 21 de mai. de 2025. STEM. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/ciencia/404647-exercito-de-terracota-o-que-ninguem-te-contou-sobre-a-8-maravilha-do-mundo.htm. Acesso em: 08 de set. 2026.
MUKESH, Shankar Bharti; SUPRABHA, Kumari. China’s Belt and Road Initiative in Southeast Asia and its implications for ASEAN-China strategic partnership. Asian Review of Political Economy, 2024.
RAMASAUSKAITE, Ornela. Cultural Infrastructure: Examining the Cultural Dimensions of China's Belt and Road Initiative. artXchange Global Newsletter, [S.1.], 17 de set. 2025. Disponível em: https://artxchange.substack.com/p/cultural-infrastructure-examining. Acesso em: 08 de set. 2026.
RANY, Sam. Opinion: Confucius Institute Enhances Chinese Language Education, Cultural Exchange in NW Cambodia. Cam Ness, [S.1.], 3 fev. 2024. Disponível em: https://cambodianess.com/article/opinion-confucius-institute-enhances-chinese-language-education-cultural-exchange-in-nw-cambodia. Acesso em: 08 de set. 2026.
SANTINI, Alexandre. Um mergulho nas políticas culturais da China. Outras Palavras, [S.1.], 01 de set. 2026. Disponível em: https://outraspalavras.net/descolonizacoes/um-mergulho-nas-politicas-culturais-da-china/. Acesso em: 08 de set. 2026.
SHUTO, Motoko. Patterns and views of China’s public diplomacy in ASEAN countries: focusing on Confucius Institutes. Journal of Contemporary East Asia Studies, 2018.
TRANG, Nguyen Minh; DAT, Wu Tuan. Cultural dipllomacy and soft power of China: Theory, strategry and application in South East Asia. Asian Online Journal Publishing Group, 2025.
WINTER, Tim. Diplomacia do patrimônio ao longo da Iniciativa Cinturão e Rota. International Institute for Asian Studies, [S. 1.], [20--?]. Disponível em: https://www.iias.asia/the-newsletter/article/heritage-diplomacy-along-one-belt-one-road. Acesso em: 08 de set. 2026.
XINHUA. Para além das vitrines: os museus constroem pontes entre civilizações. People's Daily, Beijing, 19 de mai. de 2026. Disponível em: https://en.people.cn/n3/2026/0519/c90000-20457571.html. Acesso em: 08 de set. 2026.
XINHUA Silk Road. Xinhua Silk Road: Dehua apresenta três visões em Genebra, promovendo intercâmbio cultural e cooperação industrial. PR Newswire, [S. 1], 02 de mar. 2026. Disponível em: https://www.prnewswire.com/br/comunicados-para-a-imprensa/xinhua-silk-road-dehua-apresenta-tres-visoes-em-genebra-promovendo-intercambio-cultural-e-cooperacao-industrial-302700590.html. Acesso em: 10 de set. 2026.
XINHUA Silk Road: País chinês realiza exposição de porcelana branca em Genebra. Estadão, Pequim, 05 de mar. 2026. Disponível em: https://bluestudio.estadao.com.br/agencia-de-comunicacao/prnewswire/xinhua-silk-road-pais-chines-realiza-exposicao-de-porcelana-branca-em-genebra/. Acesso em: 08 de set. 2026.
Por Rebeca Barreto
Data: 04/09/2026
A China e a Tailândia vêm buscando fortalecer suas relações com vista ao aprimoramento e desenvolvimento mútuo. Na busca por resultados mais promissores, ambas as partes estabeleceram uma comunidade denominada China-Tailândia, em que se comprometeram a apoiar, de forma mais frequente, os intercâmbios de alto nível, com transferência de conhecimento e tecnologias, assim como os intercâmbios entre os governos e as instituições.
A Galaxyspace, empresa da República Popular da China, pela primeira vez na história, estabeleceu um marco importante ao enviar, no dia 25 de agosto de 2026, o satélite CubeSat Lingzhi-09 Thailand para um país asiático, a Tailândia. O satélite, integrado com sistema terrestre, atua na coleta de dados por meio do sensoriamento para aprimorar a gestão territorial, a agricultura e o monitoramento ambiental. Além disso, sua relevância se estende para a esfera da educação, uma vez que apoia as universidades tailandesas em seus próprios projetos e desenvolvimento de satélites, de forma a capacitá-los para as suas operações. Dessa forma, seu uso dual se mostra eficaz ao apoiar tanto o âmbito civil quanto o militar, fortalecendo a soberania e a defesa do país.
Visando a ampliação e o fortalecimento dessa cooperação tecnológica, a empresa espacial chinesa ofereceu treinamento para os profissionais tailandeses, bem como enviou membros especialistas para a Tailândia a fim de auxiliá-los de forma presencial em suas atividades laborais práticas. Essa colaboração se mostra relevante para ambas as partes, fortalecendo a indústria espacial da China e expandindo sua influência e atuação em regiões como o sudeste asiático, bem como para a Tailândia, na medida que impulsiona as capacidades do país, com tecnologias de ponta e recursos para o desenvolvimento de pesquisas espaciais.
Ademais, a GISTDA, Agência de Desenvolvimento de Tecnologia Espacial e Geoinformática da Tailândia, dedicou recursos para o desenvolvimento do Laboratório Conjunto de Constelação de Satélites de Computação Inteligente – localizado em Wenchang, na China –, buscando o aprimoramento da análise espacial por meio da inteligência artificial, da tecnologia espacial e da geoinformática. Essa cooperação objetiva a inovação tecnológica, bem como aplicações práticas, para garantir benefícios para a economia e para a sociedade.
Assim, o setor espacial tem sido um mercado expansivo tanto para a China quanto para a Tailândia, beneficiando-os economicamente, no que diz respeito ao desenvolvimento e aprimoramento da indústria tecnológica, assim como à inovação do setor agrícola, atuando com a coleta de dados na otimização de seu planejamento e gerenciamento de recursos naturais. Além disso, o domínio de tecnologias espaciais amplia as capacidades de ambos os países em se posicionarem estrategicamente. À China é permitida a expansão de sua presença como potência tecnológica no sudeste asiático, e à Tailândia, ampliação de sua atuação autônoma em seu contexto regional.
REFERÊNCIAS
GALAXYSPACE Becomes the First Chinese Commercial Space Company to Export a Satellite to a Southeast Asian Country. GALAXYSPACE, [S.l.], 25 aug. 2026. Disponível em: https://www.yinhehangtian.cn/en/news/210. Acesso em: 03 set. 2026.
GISTDA Advances Joint Laboratory Collaboration with China, Integrating Space Technology and AI to Drive the Space Economy. GISTDA, [S.l.], 25 ago. 2026. Disponível em: https://www.gistda.or.th/news_view.php?n_id=9522&lang=EN. Acesso em: 03 set. 2026.
Joint Statement between the Government of the People’s Republic of China and the Government of the Kingdom of Thailand towards a China-Thailand Community with a Shared Prosperous Future. Ministry of Foreign Affairs People’s Republic of China, [S.l.], 21 jul. 2026. Disponível em: https://www.mfa.gov.cn/eng/xw/zyxw/202607/t20260721_11986896.html. Acesso em: 03 set. 2026.
Por Kíria Ferraz
Data: 02/07/2026
O Timor-Leste e a China reforçaram a sua cooperação estratégica no setor agrícola durante a reunião bilateral realizada em Pequim entre o ministro timorense do Desenvolvimento Rural e Habitação Comunitária, Mariano Assanami Sabino, e o ministro chinês da Agricultura, Zhang Zhu. O encontro teve como principal objetivo ampliar a parceria entre os dois países para impulsionar o desenvolvimento rural, fortalecer a segurança alimentar e aumentar a produtividade agrícola, consolidando uma agenda de cooperação voltada ao desenvolvimento sustentável de Timor-Leste.
Durante a reunião, foram discutidas iniciativas em áreas como agricultura, pecuária, medicina veterinária, inovação tecnológica e comércio agrícola. Os representantes destacaram a importância da transferência de tecnologia, da capacitação institucional e do compartilhamento de conhecimentos técnicos para promover a modernização do setor agrícola timorense. A cooperação busca fortalecer as capacidades locais por meio da adoção de novas técnicas de produção, melhoria da gestão rural e desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao aumento da eficiência e da competitividade do setor.
Entre as prioridades estabelecidas para a cooperação futura estão o reforço da segurança alimentar, o desenvolvimento do sistema veterinário nacional, a modernização das práticas agrícolas e a incorporação de tecnologias capazes de responder aos desafios impostos pelas alterações climáticas e às crescentes exigências dos mercados internacionais. A intenção é tornar a agricultura timorense mais resiliente, produtiva e sustentável, contribuindo para a redução da pobreza e para a melhoria das condições de vida das comunidades rurais.
O ministro chinês Zhang Zhu reafirmou a disposição da China em continuar apoiando Timor-Leste, ressaltando que a parceria está fundamentada em uma relação de amizade, cooperação e benefício mútuo. Nos últimos anos, os dois países têm intensificado suas relações bilaterais, especialmente por meio do financiamento de infraestruturas rurais, da formação técnica de agricultores e da implementação de programas voltados ao combate à pobreza e ao fortalecimento do desenvolvimento agrícola.
O encontro representa mais um avanço no aprofundamento das relações entre Timor-Leste e a China, evidenciando o papel da cooperação internacional como instrumento de promoção do desenvolvimento econômico e social. A expectativa é que as iniciativas acordadas contribuam para a modernização do setor agrícola timorense, ampliem a segurança alimentar e promovam um crescimento econômico mais sustentável, beneficiando sobretudo as populações que dependem da agricultura como principal fonte de renda e subsistência.
REFERÊNCIAS
CULTIVO de arroz em Timor-Leste. Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Econômica e Comercial entre China e os Países de Língua Portuguesa (Macau), [S.l], 11 dez. 2025. Disponível em: https://www.forumchinaplp.org.mo/pt/economic_trade/view/9385. Acesso em: 25 jun. 2026.
TIMOR-LESTE e China reforçam cooperação agrícola para impulsionar desenvolvimento rural. E-Global, [S.l], [20--?]. Disponível em: https://e-global.pt/noticias/lusofonia/timor-leste/timor-leste-e-china-reforcam-cooperacao-agricola-para-impulsionar-desenvolvimento-rural/. Acesso em: 25 jun. 2026.
TIMOR-Leste reforça parceria agrícola com a China. LH Internacional, [S.l], 8 jun. 2026. Disponível em: https://letzebuerghoje.lu/cooperacao-agricola-entre-timor-leste-e-china-im/. Acesso em: 29 jun. 2026.
Por Dandara Maranho Andrioli
Data: 29/06/2026
A China está a caminho de lançar seu mais novo projeto de produção de energia renovável, um dirigível composto por turbinas, pensado para gerar energia eólica de forma mais estável e eficiente. O dirigível foi projetado para ficar suspenso a 2 mil metros de altura e possuir capacidade de geração de energia de até 3 megawatts (MW). O S2000, criado pela empresa Beijing Lanyi Yunchuan Energy Technology em parceria com pesquisadores da Universidade de Tsinghua, é um dirigível de 60 metros de comprimento e 40 metros de largura, preenchido com hélio, e composto por 12 turbinas em uma estrutura circular. O fato de estar suspenso a 2 mil metros acima do solo, faz com que o equipamento aproveite ventos mais intensos e estáveis do que aqueles encontrados pelas turbinas convencionais instaladas em torres.
O equipamento sobe até a altitude operacional por meio da sustentação do gás e permanece preso ao solo por um cabo inteligente, o qual possui a tarefa de ancoragem e transmissão da eletricidade produzida pelas turbinas diretamente para a rede elétrica. O aumento da eficiência da geração de energia é possibilitado, tanto pelo ambiente de alta altitude, quanto pela engenharia do equipamento. Construído em formato anelar, o dirigível direciona o fluxo de ar para o interior do equipamento, concentrando a passagem do vento sobre as turbinas e aumentando a eficiência da geração. Além disso, são utilizados sistemas automatizados de controle, que ajustam continuamente a altitude e a posição do dirigível para buscar as melhores condições de vento durante a operação.
Apesar de ainda estar em fase de teste e possuir algumas limitações logísticas e econômicas, esse projeto é um exemplo do pioneirismo da China na geração de energia renovável. Hoje, a China assume a posição de líder global em energia limpa, com o aumento de 40% para 60% da participação das fontes renováveis na capacidade instalada de energia elétrica nos últimos cinco anos. Além disso, o país possui a meta de reduzir de 7 a 10% as emissões de gases de efeito estufa, em comparação aos níveis máximos registrados, até 2035. Com a firmação de parcerias com diversos países, o lançamento de novos projetos e a implementação de inovações nessa área, a China fortalece ainda mais sua liderança no combate às mudanças climáticas e na transição para um desenvolvimento sustentável global.
REFERÊNCIAS
CHINA se consolida como líder mundial em energia limpa. TV BRICS, [S.I], 8 jan. 2026. Disponível em: < https://tvbrics.com/pt/news/china-se-consolida-como-l-der-mundial-em-energia-limpa/ > Acesso em: 28 jun. 2026.
CHINA testa dirigível gigante que gera energia eólica a 2 mil metros de altitude; entenda como funciona. O Globo, Rio de Janeiro, 27 jun. 2026. Disponível em: < https://oglobo.globo.com/economia/epoca/noticia/2026/06/27/china-testa-dirigivel-gigante-que-gera-energia-eolica-a-2-mil-metros-de-altitude-entenda-como-funciona.ghtml > Acesso em: 28 jun. 2026.
Por Natielle Ferreira Costa
Data: 17/06/2026
O MARCO INICIAL
Em agosto de 2023, durante a reunião dos Ministros da Economia da ASEAN (AEM) realizada em Semarang, Indonésia, foi oficialmente aprovado o estudo sobre o Acordo-Quadro para a Economia Digital da ASEAN (DEFA). O estudo foi solicitado pelos países membros, e contou com o apoio da Austrália, por meio da iniciativa Aus4ASEAN Futures, envolvendo mais de 2.000 micros, pequenas e médias empresas (MPMEs) e 60 grandes corporações da região. O Secretário-Geral da ASEAN, Dr. Kao Kim Hourn, afirmou na ocasião que a conclusão do estudo representava um marco importante e uma das conquistas mais notáveis de 2023, destacando que o DEFA demonstrava o compromisso de longo prazo da ASEAN em abraçar a transformação digital e impulsionar os negócios do bloco globalmente, abrindo caminho para uma era de crescimento econômico sem fronteiras.
O QUE É O DEFA?
Segundo o comunicado dos Altos Funcionários Econômicos da ASEAN (SEOM), o DEFA é descrito como uma ferramenta de desenvolvimento e integração, que abrange comércio digital, governança de dados, identidade digital, pagamentos eletrônicos, segurança cibernética, inteligência artificial e mobilidade de talentos digitais. O DEFA também incorpora iniciativas já existentes no bloco, como a Janela Única da ASEAN, a conectividade de pagamentos digitais e o Número de Identificação Empresarial Único (UBIN). Seu objetivo, segundo o comunicado, não é apenas aumentar o volume do comércio digital, mas sim garantir que as oportunidades criadas pela transformação digital sejam compartilhadas entre todos os Estados-membros e suas populações.
CONCLUSÃO DAS NEGOCIAÇÕES
As negociações foram oficialmente lançadas em 2023, e após quase três anos, em maio de 2026, durante a 27ª Reunião do Conselho da Comunidade Econômica da ASEAN (AEC), a SEOM anunciou, nas Filipinas, a conclusão bem-sucedida das negociações do DEFA. De acordo com modelo desenvolvido pelo Boston Consulting Group, a economia digital da ASEAN deverá triplicar até 2030 com a adoção natural de tecnologias, crescendo de US$300 bilhões para quase US$1 trilhão, tendo a possibilidade de dobrar esse valor, podendo dobrar esse valor, desbloqueando US$2 trilhões para a região, com regras progressistas no DEFA.
PRÓXIMO PASSO
O acordo DEFA será formalmente assinado na 49ª Cúpula da ASEAN, durante a 28ª Reunião do Conselho da Comunidade Econômica da ASEAN (AEC), em novembro de 2026, tendo como meta a duplicação do valor da economia digital do bloco, dos atuais US$1 trilhão para US$2 trilhões até 2030. O comunicado da SEOM ressalta, no entanto, que “os plenos benefícios do acordo só podem ser realizados por meio de sua assinatura tempestiva, implementação efetiva e cooperação sustentada entre os Estados-membros e partes interessadas”.
REFERÊNCIAS
ASEAN. Sessão da ASEAN Economic Ministers Meeting dedicada às negociações do DEFA. [S.l], 3 set. 2023. News. Disponível em: https://asean.org/secretary-general-of-asean-delivers-remarks-at-launch-of-defa-negotiations/. Acesso em: 8 jun. 2026.
ASSOCIATION OF SOUTHEAST ASIAN NATIONS (ASEAN). STATEMENT OF THE CHAIRPERSON OF THE ASEAN SENIOR ECONOMIC OFFICIALS (SEOM) ON THE CONCLUSION OF ASEAN DEFA NEGOTIATIONS. ASEAN, Manila, Filipinas, 30 mai. 2026. Disponível em: https://asean.org/wp-content/uploads/2026/06/THE-CHAIRPERSON-OF-THE-ASEAN-SEOM-ON-THE-CONCLUSION-OF-ASEAN-DEFA-NEGOTIATIONS.pdf. Acesso em: 8 jun. 2026.
DIGITAL Economy Framework Agreement (DEFA): ASEAN to leap forward its digital economy and unlock US$2 Tn by 2030. ASEAN, Semarang, 19 aug. 2023. News. Disponível em: https://asean.org/asean-defa-study-projects-digital-economy-leap-to-us2tn-by-2030/. Acesso em: 8 jun. 2026.
ORTEGA, Angelica; PIATOS, Margaret Jane. Philippines Sets Agenda Ahead of ASEAN 2026 Chairmanship. US-ASEAN Business Council, [Filipinas], 25 nov. 2025. Disponível em: https://www.usasean.org/article/philippines-sets-agenda-ahead-asean-2026-chairmanship. Acesso em: 8 jun. 2026.
STATEMENT of the Chairperson of the ASEAN Senior Economic Officials (SEOM) on the Conclusion of ASEAN DEFA Negotiations. ASEAN, [S.l], 01 jun. 2026. In the News, Statements. Disponível em: https://asean.org/statement-of-the-chairperson-of-the-asean-senior-economic-officials-seom-on-the-conclusion-of-asean-defa-negotiations/. Acesso em: 8 jun. 2026.
TIMOR-LESTE participa em reuniões no âmbito da Comunidade Económica da ASEAN. Governo de Timor-Leste, [S.l], 8 mai. 2026. Notícias. Disponível em: https://timor-leste.gov.tl/?lang=pt&p=48996. Acesso em: 8 jun. 2026.
Por Maria Paula Reis (com texto alternativo)
Data: 15/06/2026
Em setembro de 2025, foi inaugurado o Aeroporto Internacional de Techo, o novo principal aeroporto do Camboja, localizado a cerca de 20 km de Phnom Penh.
Com 2.600 hectares, o projeto está entre os maiores aeroportos planejados do mundo e foi construído para ampliar a conexão do país com a região e o mercado internacional.
Capacidade inicial: 15 milhões de passageiros por ano
UM PROJETO DE LONGO PRAZO
O aeroporto foi planejado em 3 fases de expansão:
(em operação): terminal principal + capacidade para 15 milhões de passageiros/ano;
Nova pista e expansão para 30 milhões;
Terceiro terminal + capacidade para 50 milhões
Além do aeroporto, foram reservados 5.000 hectares para uma zona econômica especial com áreas residenciais, comerciais, industriais e logísticas.
Objetivo: transformar o Camboja em um centro regional de circulação de pessoas, comércio e investimentos.
O AEROPORTO NO CONTEXTO DA NOVA ROTA DA SEDA
Embora o Aeroporto Internacional de Techo não seja oficialmente apresentado como um projeto da Nova Rota da Seda, ele ilustra uma lógica central da iniciativa chinesa: investir em infraestrutura de conectividade.
A participação de empresas chinesas na construção e a integração do aeroporto com redes logísticas e econômicas regionais mostram como aeroportos também podem fortalecer fluxos de comércio, turismo e influência econômica no Sudeste Asiático.
REFERÊNCIAS
OCIC GROUP. Techo International Airport. [S. l.]: OCIC, 2026. Disponível em: https://www.ocic.com.kh/projects/techo-international-airport. Acesso em: 17 de jun. 2026.
TECHO International Airport. TIA official website, [S.l], [202?]. Disponível em: https://www.techoairport.com.kh/. Acesso em: 15 de jun. 2026.
VINCI AIRPORTS. Techo International Airport. [S. l.]: VINCI, 2025. Disponível em: https://vinci-airports.com/en/our-airports/cambodia/phnom-penh-airport/. Acesso em: 17 de jun. 2026.
Por Luísa da Silva
Data: 11/06/2026
O QUE É O YUAN DIGITAL?
O yuan digital, também chamado de e-CNY ou DCEP, é a moeda digital oficial da China, emitida e controlada pelo Banco Popular da China, o banco central do país. Apesar de ser digital, ele não funciona como uma criptomoeda comum. Diferente de ativos como Bitcoin ou Ethereum, o yuan digital não é descentralizado, não depende de mineração e não tem como objetivo principal a especulação financeira. Ele é uma extensão da moeda chinesa tradicional, o renminbi, mas em formato digital. Na prática, isso significa que o e-CNY mistura inovação tecnológica com forte controle estatal. Ele pode facilitar pagamentos, reduzir custos de transação e tornar o sistema financeiro mais eficiente, mas também permite que o Estado acompanhe os fluxos de dinheiro com muito mais precisão. Portanto o yuan digital deve também ser entendido como ele representa uma nova etapa da política monetária chinesa, em que tecnologia, soberania financeira e controle econômico caminham juntos.
DA EXPERIÊNCIA LOCAL À AMBIÇÃO GLOBAL
A China já testou o yuan digital em cidades como Shenzhen, Chengdu e Suzhou, inclusive por meio de sorteios entre cidadãos. Um ponto estratégico é que o sistema pode funcionar até mesmo sem internet, por tecnologia de aproximação. Isso amplia seu potencial em regiões com menor cobertura digital e mostra que a China não pensa apenas em inovação, mas também em inclusão e escala.
O que começou como experimento doméstico agora ganha um novo significado que é transformar o e-CNY em uma ferramenta de alcance internacional.
POR QUE ISSO IMPORTA?
O yuan digital não é apenas uma nova forma de pagamento, ele pode ajudar a China a reduzir sua dependência de sistemas financeiros dominados pelo Ocidente, como o dólar, o SWIFT, a Visa e a Mastercard.
Uma comparação possível é com o Pix no Brasil, que também transformou a forma como as pessoas e empresas realizam transações. Assim como o Pix modernizou os pagamentos no contexto brasileiro, o e-CNY busca tornar as transações chinesas mais rápidas, eficientes e integradas ao sistema financeiro.
Já o yuan digital vai além, ele é uma moeda digital emitida pelo próprio Banco Central chinês, com potencial para ser usada em transações internas e internacionais. Em um cenário de sanções, guerras e disputas geopolíticas, controlar a infraestrutura do dinheiro se torna uma forma de poder. Por isso, o e-CNY aparece como parte de uma estratégia chinesa para proteger fluxos comerciais, diminuir vulnerabilidades externas e fortalecer sua autonomia financeira.
ROTA DA SEDA E ASEAN: A NOVA FRONTEIRA DO E-CNY
A expansão do yuan digital entrou em uma nova fase, segundo a Reuters o Banco Popular da China vem incentivando bancos a criarem produtos compatíveis com o e-CNY, como empréstimos, cartas de crédito e títulos, além de ampliar seu uso em gastos públicos, energia verde, cartões pré-pagos e financiamento de cadeias produtivas.
O ponto mais estratégico está no uso internacional da moeda. O e-CNY pode se tornar uma peça da infraestrutura financeira da Iniciativa Cinturão e Rota, facilitando pagamentos comerciais.
Nesse cenário, a ASEAN aparece como uma região prioritária dessa estratégia, por estar integrada às cadeias produtivas asiáticas e manter forte relação comercial com a China, a região funciona como um espaço inicial para testar a expansão internacional do e-CNY.
YUAN DIGITAL E PODER ESTRUTURAL
Na Economia Política Internacional, a moeda não é apenas um meio de pagamento, ela também é uma forma de poder.
A partir da ideia de poder estrutural, de Susan Strange, podemos entender que os países mais influentes não controlam apenas territórios ou exércitos, mas também as estruturas que organizam a economia mundial, como o crédito, os pagamentos, as finanças e as regras de circulação do dinheiro.
Nesse sentido, o yuan digital pode ser interpretado como uma tentativa da China de disputar parte dessa estrutura financeira global. Ao criar uma moeda digital estatal e incentivar seu uso em transações internacionais, especialmente com parceiros da ASEAN e da Nova Rota da Seda, Pequim busca reduzir sua dependência de sistemas dominados pelo Ocidente e ampliar sua autonomia monetária. Representando assim uma estratégia de poder, quem controla os sistemas de pagamento também influencia como o comércio internacional acontece.
YUAN DIGITAL E A DESDOLARIZAÇÃO
Como grande parte do comércio internacional ainda depende do dólar, os Estados Unidos mantêm forte capacidade de influência sobre transações, ativos e sanções econômicas.
Ao desenvolver uma alternativa digital controlada pelo próprio Estado, a China tenta abrir espaço para que parceiros comerciais realizem transações fora da lógica tradicional dominada pelo dólar. Isso não significa que o yuan digital substituirá o dólar no curto prazo, mas mostra que Pequim está construindo caminhos para depender menos dele.
BENEFÍCIOS E CONTROVÉRSIAS
Dentre as vantagens, o yuan digital tende a diminuir os custos das operações, simplificar o processo de pagamento, prevenir fraudes, monitorar despesas públicas e ampliar a inclusão financeira.
Entretanto, essa mesma solução tecnológica que torna os processos mais eficientes suscita inquietações. Como as transações podem ser registradas e rastreadas pelo Estado, críticos alertam para perigos relativos à privacidade, à supervisão financeira e ao controle social.
O e-CNY carrega uma contradição, ao mesmo tempo em que pode modernizar o sistema financeiro chinês e tornar as transações mais eficientes, também pode ampliar o controle do Estado sobre a circulação do dinheiro e sobre os hábitos financeiros da população.
OS LIMITES DA AMBIÇÃO CHINESA
Apesar do avanço, o yuan digital ainda enfrenta obstáculos importantes. A China tem ambição, tecnologia e estratégia, mas transformar isso em confiança global é outra disputa. Na China, os pagamentos do dia a dia continuam muito dominados por plataformas como Alipay e WeChat Pay. No exterior, o desafio é ainda maior, já que outros países, empresas e instituições precisam estar dispostos a aceitar o uso do e-CNY.
A adesão internacional ainda é limitada, o que mostra que a internacionalização do yuan digital tende a ser um processo longo. Para ganhar espaço fora da China, o e-CNY precisa ser visto não apenas como uma ferramenta eficiente, mas também como uma alternativa confiável dentro das relações financeiras internacionais.
CONCLUSÃO
O avanço do yuan digital deve ser entendido como parte de uma disputa mais ampla pela reorganização do poder na economia internacional.
Ao investir no e-CNY, a China não está apenas modernizando seus meios de pagamento. Ela está tentando construir uma infraestrutura financeira menos dependente dos mecanismos dominados pelo Ocidente, especialmente em um sistema ainda fortemente ancorado no dólar. Ou seja, ampliar ao longo prazo, sua autonomia diante de sanções, reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer sua presença em regiões estratégicas, como a ASEAN e as rotas da Nova Rota da Seda.
Ao mesmo tempo, esse projeto carrega contradições, a mesma tecnologia que promete eficiência, rastreabilidade e redução de custos também amplia a capacidade de vigilância financeira do Estado. Além disso, a internacionalização do e-CNY depende de algo que a China ainda não controla plenamente, a confiança dos parceiros estrangeiros.
Por isso, o yuan digital não representa uma ruptura imediata com a ordem financeira liderada pelo dólar, mas sinaliza uma tentativa gradual de disputar suas bases.
REFERÊNCIAS
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Pix. Brasília: Banco Central do Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/pix-sobre. Acesso em: 14 jun. 2026.
CASTRO, Angelo Brian T. China’s Digital Yuan. Taiwan Center for Security Studies, [S.l], [202?].. Disponível em: https://taiwancss.org/chinas-digital-yuan/. Acesso em: 8 jun. 2026.
FROM lottery draws to fiscal spending, China broadens digital yuan footprint. Reuters, [S.l.], 30 may. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/finance/lottery-draws-fiscal-spending-china-broadens-digital-yuan-footprint-2026-05-30/. Acesso em: 8 jun. 2026
STRANGE, Susan. States and Markets. Londres: Pinter Publishers, 1988.
Por Kíria Ferraz
Data: 09/06/2026
A crescente presença econômica da China no Sudeste Asiático tem gerado um cenário contraditório. Ao mesmo tempo em que o país é o principal investidor em energia limpa da região, financiando projetos de energia solar e hidrelétrica, empresas chinesas também expandem suas atividades em setores altamente poluentes, como mineração, processamento de níquel, siderurgia e extração de terras raras.
Na Indonésia, empresas chinesas passaram a dominar grande parte da cadeia de processamento de níquel, mineral essencial para a produção de baterias e tecnologias de transição energética. Além disso, denúncias de violações ambientais e protestos de trabalhadores evidenciam os custos socioambientais associados a esse modelo de desenvolvimento.
Em Mianmar, a expansão da mineração de terras raras por empresas chinesas tem sido associada à contaminação do Rio Mekong por metais tóxicos, afetando comunidades em países vizinhos, como Tailândia e Laos. O aumento dessas atividades após o golpe militar de 2021 intensificou as preocupações sobre a governança ambiental na região.
O caso evidencia uma tensão central entre desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental. Muitos governos do Sudeste Asiático priorizam o crescimento econômico e a atração de investimentos, mesmo diante de riscos ambientais significativos. Ao mesmo tempo, a dependência de capital, tecnologia e infraestrutura chineses fortalece a influência da China na região.
Assim, a atuação chinesa no Sudeste Asiático revela uma dupla face: enquanto contribui para a expansão da energia renovável e para o desenvolvimento econômico regional, também está associada à transferência de indústrias poluentes e à ampliação de conflitos ambientais, levantando questionamentos sobre os limites da sustentabilidade e os custos ambientais do crescimento econômico.
REFERÊNCIAS
HUTT, David. China é vilã ou protetora ambiental no Sudeste Asiático? DW Global Media Forum, [S.l], 2025. Economia | Ásia. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/china-%C3%A9-vil%C3%A3-ou-protetora-do-meio-ambiente-no-sudeste-asi%C3%A1tico/a-73772723. Acesso em: 10 jun. 2026.
Por Dandara Andrioli
Data: 04/06/2026
O Sudeste Asiático está entre as regiões com maior velocidade de crescimento econômico atualmente no mundo. Entre os anos de 2022 e 2024, alguns países da região (Malásia, Tailândia, Filipinas e Vietnã) registraram uma taxa média de crescimento econômico de 5,3% ao ano, maior do que a registrada no mesmo período pelos países da OCDE, de 2,3% ao ano. Com isso, os países da região enfrentam uma demanda crescente por energia, contando com grande apoio do financiamento externo em energia limpa. No ano de 2022, a ASEAN recebeu 43 bilhões de dólares, de investimento externo, para projetos ligados à produção de energia renovável.
Nesse cenário, a China destaca-se como a maior financiadora de energia limpa do Sudeste Asiático, seguida pelo Japão que também realiza investimentos significativos nessa área.
A China lidera os investimentos em energia eólica e hidrelétrica, com mais de 2,7 bilhões de dólares investidos na região entre os anos de 2013 e 2023. O país, que se consolida como líder mundial em tecnologias limpas, realiza o financiamento tanto dentro da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), como fora dela.
Apesar do financiamento da BRI representar apenas uma pequena parcela do investimento direto chinês no exterior, a Iniciativa é uma fonte de financiamento importante para a região, tendo aumentado significativamente os investimentos em energia renovável nos últimos anos. É notável o apoio da BRI a projetos verdes na ASEAN, como projetos de energia solar na Indonésia e em Myanmar e usinas hidrelétricas, parques solares e redes de transmissão no Camboja.
Todo esse investimento em energia limpa no Sudeste Asiático evidencia ganhos para a China tanto políticos, com o fortalecimento da cooperação regional e a construção de relações bilaterais, quanto econômicos, com o aumento da demanda por bens e serviços, aproveitando o crescente comércio de tecnologias de energia limpa. Os investimentos também podem ser uma estratégia para que a China acesse recursos naturais essenciais, incluindo aqueles necessários para a transição energética, como o abundante potencial de energia solar e eólica da região e os minerais de terras raras, além da oportunidade de alcançar o cumprimento das metas climáticas nacionais.
REFERÊNCIAS
THE race to invest in Southeast Asia’s green economy. Zero Carbon Analytics, [S.I], 20 mai. 2025. Disponível em: <https://zerocarbon-analytics.org/insights/briefings/the-race-to-invest-in-southeast-asias-green-economy/> Acesso em: 03 jun. 2026.
Por Amanda Maia Barbosa
Data: 01/06/2026
Em outubro de 2025, durante o 28º ASEAN-China Summit, foi assinada a ata da cúpula com um foco no eixo estratégico para crescimento sustentável, integração econômica e inovação tecnológica na Ásia. Esse novo documento reafirmou o compromisso conjunto com uma parceria baseada em inclusividade e sustentabilidade, fortalecendo a Parceria Estratégica Abrangente (CSP) e delineando novas iniciativas para o período 2026–2030 e 2026-2045.
Um marco central foi a assinatura do CAFTA 3.0 que atualiza a área de livre comércio e amplia a cooperação para nove áreas-chave, incluindo economia digital, economia verde e conectividade das cadeias produtivas. O acordo reflete o compromisso com mercados abertos, multilateralismo e um modelo de crescimento mais resiliente, indo além da liberalização tarifária tradicional.
Em 2026, sua implementação ganha destaque, especialmente no alinhamento tecnológico e no apoio a iniciativas como a ASEAN Power Grid que “por meio da capacitação ou do desenvolvimento de infraestrutura de cabos de energia terrestres e submarinos, que contribuirão para um futuro energético regional seguro, resiliente e interconectado, com baixas emissões de carbono” (ASEAN, 2025, tradução própria)¹ até 2045.
Além do mais, a agenda sustentável é um dos principais pilares da parceria. ASEAN e China intensificam cooperação em energia limpa, transição de baixo carbono e mudança climática, com projetos como o ASEAN-China Clean Energy Cooperation Centre e o desenvolvimento de estratégias ambientais para 2026–2030.
A integração é reforçada por mecanismos como o Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) e pela cooperação entre a Belt and Road Initiative e projetos de conectividade da ASEAN, que ampliam cadeias produtivas e infraestrutura sustentável.
Assim, a parceria ASEAN-China evolui para um modelo abrangente que combina comércio, inovação e sustentabilidade, posicionando-se como vetor relevante de desenvolvimento na região.
NOTAS
¹Including through capacity building or infrastructure development of overland and subsea power cables which will contribute to a secure, resilient, and interconnected low-carbon regional energy future.
REFERÊNCIAS
ASSOCIATION OF SOUTHEAST ASIAN NATIONS (ASEAN). Chairman 's Statement of the 28th ASEAN-China summit. ASEAN, Kuala Lumpur, 28 out. 2025. Disponível em: https://asean.org/wp-content/uploads/2025/11/CHAIRMANS-STATEMENT-28TH-ASEAN-CHINA-SUMMIT.pdf. Acesso em: 02 jun. 2026.
MENGDAVID, Thong. China e ASEAN aproveitam maior integração econômica, tecnológica e cooperação em energia verde. XINHUA Português, [S.l], 16 jan. 2026. Disponível em: https://portuguese.xinhuanet.com/20260116/4bb1b3858cc044e59005845c4f97a415/c.html. Acesso em: 01 jun. 2026.
PRIORITY Areas of Cooperation. ASEAN, [S.l], [20–?]. Disponível em: https://asean.org/our-communities/economic-community/integration-with-global-economy/asean-china-economic-relation/priority-areas-of-cooperation/. Acesso em: 02 jun. 2026
Por Pedro Lan Rodrigues Silva
Data: 26/05/2026
A Belt and Road Initiative (BRI) tem fornecido um enorme apoio aos projetos de infraestrutura no Camboja, transformando o cenário de desenvolvimento do país e fortalecendo sua conectividade regional. O país é um dos aliados mais antigos e próximos da China, com registros da relação entre ambos que remontam ao século XIII. Atualmente, ela é a principal investidora estrangeira do Camboja, uma grande doadora e uma parceira comercial cada vez mais importante, o que tem acelerado a implementação da BRI no território.
Alguns de seus projetos incluem a Autoestrada Phnom Penh-Sihanoukville, o Aeroporto Internacional de Siem Reap Angkor e a Zona Econômica Especial de Sihanoukville, desempenhando um papel crucial no seu estímulo ao desenvolvimento socioeconômico. Além disso, a iniciativa tem feito investimentos na infraestrutura energética do Camboja, desenvolvendo fontes de energia tradicionais e renováveis para atingir a meta do país de acesso universal à eletricidade até 2030, como projetos hidrelétricos e parques solares. Por fim, também há um foco na inovação digital e na conectividade do Camboja, visando reduzir a exclusão digital por meio da promoção redes de internet de alta velocidade, do comércio eletrônico, do desenvolvimento de infraestrutura digital, da inteligência artificial e do desenvolvimento de cidades inteligentes.
Assim, a Nova Rota da Seda proporciona benefícios para o Camboja, incluindo desenvolvimento de infraestrutura física, aumento substancial do investimento estrangeiro direto, desenvolvimento e integração econômica e fortalecimento das relações regionais e internacionais, tornando possível que o país consiga atingir o seu objetivo final de desenvolvimento, que é de se tornar um país de alta renda até 2050.
REFERÊNCIAS
CHANDARITH, Neak. China-proposed Belt and Road Initiative promotes Cambodia's development, regional connectivity. The State Council Information Office, [S.l], 2025. Disponível em: http://english.scio.gov.cn/beltandroad/2025-05/19/content_117882124.html. Acesso em: 27 mai. 2026.
CHHEANG, Vannarith; HENG, Pheakdey. Cambodian perspective on the Belt and Road Initiative. In: LIOW, Joseph Chinyong; LIU, Hong; XUE, Gong. Research Handbook on the Belt and Road Initiative, 2021. p. 176-190. Disponível em: https://www.nids.mod.go.jp/english/publication/joint_research/series17/pdf/chapter01.pdf. Acesso em: 27 mai. 2026.
Por Natielle Ferreira Costa
Data: 25/05/2026
CONTEXTO
O Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB) projeta, anualmente, um investimento de 7,1 trilhões de dólares em infraestrutura na Ásia ao longo de 20 anos. Entretanto, os governos do Sul e do Sudeste Asiático enfrentam restrições financeiras, limitando seus gastos a apenas 37% do capital necessário para projetos resilientes. O Investimento Direto Estrangeiro na ASEAN registrou 224 bilhões de dólares em 2022.
Fundos de investimento privado globais como Macquarie, GIP e KKR têm aumentado suas alocações de infraestrutura na região, atraídos pelo rápido crescimento econômico e demográfico, enquanto investidores formam parcerias com entidades locais e bancos multilaterais (MDBs) para usar um financiamento misto. No entanto, gestores hesitam em investir em Parcerias Público-Privadas (PPPs) devido a preocupações burocráticas e prazos de 15 a 20 anos.
O Banco Europeu de Investimento (EIB) investiu 6,5 bilhões de dólares na região do Sudeste Asiático (excluindo a China), e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) comprometeu 130 milhões para o Fundo de Transição Energética na Indonésia. Apesar disso, a região ainda enfrenta uma escassez de projetos a serem executados, especialmente em projetos verdes, ao mesmo tempo em que critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) seguem como conceitos emergentes e exigem reformas para atrair investidores estrangeiros.
OBSTÁCULOS
O relatório da OCDE confirma que, nos três países analisados – Índia, Indonésia e Filipinas –, os processos de aprovação, licitação e premiação de contratos são longos e complexos, e as estruturas de propriedade são parcialmente liberalizadas. A primeira barreira é a aquisição de terras, devido a falta de clareza sobre direitos de acesso estende negociações e exige avaliações adicionais. Além disso, os três países enfrentam fragmentação regulatória, com discrepâncias entre governos nacional e local, que muitas vezes não conseguem cumprir os padrões exigidos por bancos multilaterais.
A segunda barreira é a falta de padronização dos relatórios financeiros e não financeiros, que dificulta a tomada de decisão por investidores estrangeiros. A terceira barreira é a falta de padronização em ESG, já que critérios ambientais, sociais e de governança ainda são emergentes na região, exigindo reformas para atender padrões internacionais. Empresas estatais (SOEs) também têm sua governança impactando decisões, e a região enfrenta tetos de risco de crédito soberano que dificultam o acesso a mercados de capitais internacionais.
SOLUÇÕES E REFORMAS
Na Indonésia, a plataforma centralizada Online Single Submission (OSS) esclareceu procedimentos e reduziu riscos para investidores. A liberalização das regras sobre as SOEs e a remoção de restrições à propriedade estrangeira impulsionaram o investimento privado em infraestrutura, reduzindo o privilégio de SOEs em comparação com empresas privadas.
Já nas Filipinas, o novo Código de Parceria público-privada de 2023 estabeleceu um marco legal unificado, simplificando processos. O governo também emitiu o Decreto Executivo nº 59 (2024), que reduz as agências envolvidas em aprovações de projetos de infraestrutura prioritários de aproximadamente 30 para 12 a 18, estabelece balcões únicos e impõe aprovações automáticas se os prazos não forem cumpridos. O Centro de PPP oferece subsídios para estudos de viabilidade, fortalecendo a capacidade do governo de executar projetos bancáveis.
REFERÊNCIAS
OECD. Addressing Legal and Regulatory Barriers to Quality Infrastructure Investment in India, Indonesia and the Philippines. 2025. 90 p. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/addressing-legal-and-regulatory-barriers-to-quality-infrastructure-investment-in-india-indonesia-and-the-philippines_fb81e1be-en.html. Acesso em: 15 mai. 2026.
Por Luísa da Silva
Data: 19/05/2026
ONDE FICA O ESTREITO DE ORMUZ?
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima localizada entre o Irã, Omã e os Emirados Árabes Unidos. Ele liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e, a partir daí, ao Oceano Índico. Mesmo com uma dimensão relativamente pequena, Ormuz é uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. No seu ponto mais estreito, tem cerca de 33 km de largura, funcionando como um verdadeiro “gargalo” para o comércio energético internacional.
POR QUE ORMUZ É TÃO ESTRATÉGICO?
O estreito é utilizado por grandes produtores de petróleo e gás natural liquefeito do Oriente Médio, como Irã, Iraque, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Segundo estimativas, cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo passam por essa rota. Em 2025, aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo e derivados atravessavam Ormuz por dia.
Isso significa que qualquer instabilidade na região pode gerar impactos imediatos sobre preços, transporte, indústria e abastecimento global.
O SUDESTE ASIÁTICO E OS EFEITOS DE ORMUZ
Mesmo estando no Oriente Médio, o Estreito de Ormuz afeta diretamente o Sudeste Asiático. Isso acontece porque muitos países da região dependem do petróleo e do gás que passam por essa rota para manter suas economias funcionando.
Na prática, essa dependência aparece no dia a dia. O combustível que abastece caminhões, navios, aviões, fábricas e sistemas de transporte está ligado a essas rotas marítimas. Por isso, quando o fluxo em Ormuz é reduzido ou interrompido, o impacto pode chegar rapidamente ao preço dos combustíveis, ao transporte de mercadorias, à produção industrial e até ao custo de vida da população.
Países como Vietnã, Tailândia, Filipinas, Malásia, Brunei e Indonésia ficam mais vulneráveis porque dependem de importações e nem sempre possuem grandes reservas energéticas. Assim, uma crise em uma passagem marítima distante pode obrigar governos a buscar novos fornecedores, controlar preços e adotar medidas emergenciais para evitar desabastecimento.
RESERVAS LIMITADAS E O RISCO DE ESCASSEZ
A crise também revela uma fragilidade importante: muitos países do Sudeste Asiático têm reservas energéticas limitadas.
De acordo com notícias publicadas em março de 2026, no início da crise no Estreito de Ormuz, alguns países do Sudeste Asiático apresentavam reservas energéticas limitadas. O Vietnã teria combustível para cerca de 20 dias; a Indonésia, para aproximadamente 21 a 23 dias; e a Tailândia, por volta de 65 dias.
Esses dados não representam necessariamente a situação atual dos estoques, mas ajudam a mostrar como, naquele momento inicial da crise, a região estava mais vulnerável a interrupções no fornecimento de petróleo.
OS IMPACTOS ECONÔMICOS E SOCIAIS
A instabilidade em Ormuz não afeta apenas governos e empresas. Ela também pode chegar ao dia a dia da população, principalmente em países dependentes de combustíveis importados.
Em março de 2026, alguns governos do Sudeste Asiático começaram a adotar medidas emergenciais para reduzir os efeitos da crise. Nas Filipinas, órgãos públicos passaram para uma semana de trabalho de quatro dias; na Tailândia e no Vietnã, autoridades foram incentivadas a trabalhar de casa e limitar viagens; e em Myanmar, o governo impôs dias alternados de circulação de veículos.
Além disso, a Tailândia anunciou um teto temporário para o preço do diesel, enquanto o Vietnã recorreu ao fundo de estabilização dos preços dos combustíveis. Essas medidas mostram como um conflito em um corredor marítimo distante pode se transformar em alta de preços, pressão sobre transportes, desaceleração econômica e insegurança social no Sudeste Asiático.
CADEIAS PRODUTIVAS SOB PRESSÃO
A crise em Ormuz também afeta produtos derivados do petróleo, como diesel, gasolina, combustível de aviação, nafta, propano e insumos petroquímicos. Esses itens são fundamentais para refinarias, fábricas, transporte marítimo, aviação e produção industrial.
No Sudeste Asiático, essa pressão é especialmente relevante porque parte da região depende de derivados importados e de fornecedores regionais para manter suas cadeias produtivas funcionando. Países como Laos, Camboja e Mianmar, por exemplo, têm pouca ou nenhuma capacidade própria de refino, dependendo de centros regionais como Tailândia, Vietnã e Singapura.
O ESTREITO DE ORMUZ E O LIMITE ESTRATÉGICO DAS ÁGUAS
A crise no Estreito de Ormuz pode ser analisada a partir da lógica realista de John J. Mearsheimer em The Tragedy of Great Power Politics . Para o autor, as grandes potências competem por poder em um sistema internacional anárquico, no qual não existe uma autoridade superior capaz de garantir a segurança dos Estados. Por isso, elas buscam controlar regiões estratégicas, recursos e rotas capazes de ampliar sua posição de poder.
No entanto, Mearsheimer também destaca o chamado “poder parador das águas”: grandes massas de água dificultam invasões e a conquista de territórios por forças terrestres. Esse conceito ajuda a entender por que o mar pode funcionar como barreira militar, ainda que continue sendo essencial para o comércio e para o abastecimento energético.
No caso de Ormuz, o ponto central não é uma invasão territorial, mas a disputa pelo controle das linhas de comunicação marítima. A instabilidade no estreito mostra como uma passagem estratégica pode ser usada para pressionar economias dependentes de petróleo, afetando diretamente regiões como o Sudeste Asiático.
SEGURANÇA ENERGÉTICA TAMBÉM É SEGURANÇA MARÍTIMA
A crise no Estreito de Ormuz evidencia que a segurança energética do Sudeste Asiático não depende apenas de ter petróleo e gás disponíveis no mercado. Ela também depende da proteção das rotas por onde esses recursos circulam. Para países que importam grande parte dos combustíveis que consomem, como Vietnã, Tailândia, Filipinas, Malásia e Indonésia os estreitos, portos e corredores marítimos funcionam como verdadeiras “veias” da economia. É por eles que chegam insumos essenciais para o transporte, a indústria, a geração de energia e o abastecimento cotidiano da população.
Quando uma rota como o Estreito de Ormuz é ameaçada, o problema não fica restrito aos navios. Ele pode aparecer no aumento do preço dos combustíveis, na dificuldade de manter estoques, na pressão sobre empresas e até em medidas emergenciais adotadas pelos governos para evitar desabastecimento. Por isso, proteger corredores marítimos não é apenas uma questão militar ou naval. Para o Sudeste Asiático, é também uma forma de garantir estabilidade econômica, funcionamento das cadeias produtivas e segurança para a vida cotidiana.
REFERÊNCIAS
BUTLER, Gavin; MANN, Toby; JACKSON, Patrick.Why the Strait of Hormuz matters so much in the Iran war? BBC, 07 apr. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c78n6p09pzno. Acesso em: 19 mai. 2026.
EXXONMOBIL invests in Singapore integrated complex to upgrade product slate to higher-value lube base stocks, distillates. ExxonMobil, [S.l], [20--?]. Disponível em: https://www.exxonmobil.com/en/basestocks/news-insights-and-resources/exxonmobil-singapore-refinery-expand-group-ii-base-stock . Acesso em: 19 mai. 2026.
GUERRA no Irã deixa países da Ásia à beira de uma pane seca por escassez de petróleo. O Globo, [S.l], 17 mar. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/17/guerra-no-ira-deixa-paises-da-asia-a-beira-de-uma-pane-seca-por-escassez-de-petroleo.ghtml . Acesso em: 19 mai. 2026.
HALE, Erin. Southeast Asia shuts offices, limits travel as oil crisis deepens. Al Jazeera, Taipei, 12 mar. 2026. US-Israel war on Iran. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/3/12/southeast-asia-shuts-offices-limits-travel-as-oil-crisis-deepens . Acesso em: 19 mai. 2026.
MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York; London: W. W. Norton & Company, 2001.
MESMER, Philippe; PEDROLETTI, Brice; THIBAULT, Harold. Asian oil imports threatened as traffic halts in the Strait of Hormuz. Le Monde, [S.l], 3 mar. 2026. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/economy/article/2026/03/03/asian-oil-imports-threatened-as-traffic-halts-in-the-strait-of-hormuz_6751055_19.html?. Acesso em: 19 mai. 2026.
SERTIN, Carla. Gasolina, vuelos, transporte… el cierre de este cruce por parte de Irán afectaría a consumidores de todo el mundo. Wired en Español, [S.l], 1 mar. 2026. Disponível em: https://es.wired.com/articulos/gasolina-vuelos-transporte-por-que-el-cierre-del-estrecho-de-ormuz-podria-impactar-a-consumidores-de-todo-el-mundo. Acesso em: 19 mai. 2026.
Por Dandara Andrioli
Data: 12/05/2026
O Canal Funan Techo é um projeto de construção de uma infraestrutura hidroviária no Camboja que ligará a capital do país, Phnom Penh, ao mar. Projetado para ter 100 metros de largura, 5,4 metros de profundidade e acomodar embarcações de até 3.000 toneladas, o canal ligará o Rio Mekong ao Rio Bassac e, em seguida, através das províncias de Kandal, Takéo e Kampot, à província de Kep e ao Golfo da Tailândia. O projeto está inserido dentro da Iniciativa Cinturão e Rota da China, com um custo de 1,7 bilhão de dólares e previsão de conclusão para 2028. O modelo de financiamento abarca uma parceria do Camboja com a empresa estatal chinesa China Road and Bridge Corporation (CRBC), que financiará 49% do projeto através do modelo BOT (Construir-Operar-Transferir).
O principal objetivo da construção do canal é possibilitar ao Camboja uma alternativa mais eficiente de transporte de produtos da capital até o mar. O país busca fortalecer sua soberania econômica, diminuindo sua dependência comercial de rotas estrangeiras, sendo 33% do comércio do Camboja realizado através do rio Mekong, que passa pelo Vietnã. Outro fator importante é ser uma alternativa mais sustentável às rodovias nacionais, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa e diminuindo as taxas de trânsito na região. Além disso, o projeto visa reduzir os custos de transporte, modernizar a infraestrutura logística e impulsionar a conectividade regional, trazendo possibilidades de crescimento econômico com o abastecimento das províncias ao sul.
Porém, a construção do canal levanta pontos de contestação e controvérsias. Apesar de ter notificado a Comissão do Rio Mekong sobre o projeto de construção do Canal Funan Techo, conforme previsto no Acordo do Mekong de 1995, o Camboja não realizou uma consulta prévia aos países da região, alegando que o projeto interferiria em um rio nacional, o Bassac. Contudo, há preocupações em relação ao equilíbrio do ecossistema ao longo do rio Mekong, como a possibilidade de seca no Delta do Mekong, no Vietnã, incidindo diretamente na agricultura do país, responsável por 12% de sua economia. Além disso, há questionamentos em torno da viabilidade do projeto, na dúvida de que os lucros não cubram seus custos, podendo deixar o Camboja em débito com a China por um bom tempo.
REFERÊNCIAS
CAMBODIA launches construction of Funan Techo Canal Section II. Xinhua, [S.I], 12 abr. 2026. Disponível em: <https://english.news.cn/20260412/37fce935341c4d72990ceff2d78147c1/c.html > Acesso em: 11 mai. 2026.
LACH, Chantha; GUARASCIO Francesco. Cambodia says it will cut shipping through Vietnam by 70% with new China-funded Mekong canal. Reuters, [S.I], 7 mai. 2024. Disponível em: < https://www.reuters.com/world/asia-pacific/cambodia-says-it-will-cut-shipping-through-vietnam-by-70-with-new-china-funded-2024-05-07/ > Acesso em: 11 mai. 2026.
NINDITA, Hasya; FENG Zhaoyin. This canal project aims to elevate Cambodia’s economy, but what does it mean for the Mekong? Global Voices, [S.I], 13 nov. 2025. Disponível em: < https://globalvoices.org/2025/11/13/this-canal-project-aims-to-elevate-cambodias-economy-but-what-does-it-mean-for-the-mekong/ > Acesso em: 11 mai. 2026.
PHAM, Phan Long. Cambodia’s Funan Techo Canal project: A catalog of worries (analysis). Mongabay, Ásia, 15 jul. 2024. Disponível em: <https://news.mongabay.com/2024/07/cambodias-funan-techo-canal-project-a-catalog-of-worries-analysis/> Acesso em: 11 mai. 2026.
PHAN, Xuan Dung. Vietnam’s Response to Controversial Mekong Projects in China, Laos, and Cambodia. ISEAS – Yusof Ishak Institute, [S.I], 22 mai. 2025. Disponível em: <https://fulcrum.sg/vietnams-response-to-controversial-mekong-projects-in-china-laos-and-cambodia/> Acesso em: 11 mai. 2026.
STANHOPE Grace; BUCKLEY Hannah. The murky waters of Cambodia’s Funan Techo Canal. Lowy Institute, Camboja, 5 dez. 2024. Disponível em: <https://www.lowyinstitute.org/the-interpreter/murky-waters-cambodia-s-funan-techo-canal > Acesso em: 11 mai. 2026.
Por Kíria Ferraz
Data: 15/05/2026
A China realizou a primeira missão internacional do C909 MSJ, uma aeronave hospitalar desenvolvida pela COMAC, no Laos.
O avião, adaptado para serviços médicos especializados, faz parte da iniciativa “Air Health Silk Road” e será utilizado em ações de saúde pública, incluindo atendimentos móveis, cirurgias, treinamentos de profissionais locais e doação de materiais médicos.
O projeto foi desenvolvido em parceria entre a COMAC e o Hospital de Olhos e Otorrinolaringologia da Universidade Fudan. A aeronave possui cabine modular equipada com unidade de terapia intensiva, equipamentos médicos avançados e ambiente estéril adequado para cirurgias oftalmológicas e otorrinolaringológicas.
O C909, anteriormente chamado ARJ21, é um jato regional chinês certificado desde 2014 e já conta com mais de 170 unidades entregues até 2025. Além do transporte comercial de passageiros, o modelo também vem sendo utilizado em missões médicas em regiões remotas da China e em países parceiros, reforçando a estratégia chinesa de cooperação internacional na área da saúde.
REFERÊNCIAS
FERREIRA, Yuri. O incrível hospital aéreo criado pela China: cirurgias e alta tecnologia nas alturas. Revista Forum, [S.l], 12 fev. 2026. Disponível em: https://revistaforum.com.br/global/china-em-foco/o-incrivel-hospital-aereo-criado-pela-china-cirurgias-e-alta-tecnologia-nas-alturas/. Acesso em: 10 mai. 2026.
Por Pedro Lan Rodrigues Silva
Durante o período de 2014 até 2022, a Indonésia foi o segundo maior receptor de investimentos chineses na região do sudeste asiático, atrás apenas de Singapura, representando 16% do total de capital enviado para a ASEAN. A Nova Rota da Seda apoiou diversos programas governamentais estratégicos, principalmente na indústria de metais básicos. O país decidiu banir a exportação de minérios, como o Níquel, focando na construção de indústrias de processamento mineral, como forma de encorajar o processamento doméstico e aumentar o valor agregado de seus produtos. Além disso, também foram feitos outros investimentos na infraestrutura do país, como na sua indústria petrolífera e na construção de usinas de geração de energia movidas à carvão, a principal fonte utilizada no país.
Desde a assinatura da parceria, a China tornou-se uma importante parceira comercial da Indonésia, passando de 8,7% do valor total do comércio do país do sudeste asiático em 2005 para 23% em 2023, superando a marca de 100 bilhões de dólares anuais. O investimento direto realizado pela China também apresentou um crescimento expressivo, partindo de 0,6 bilhão de dólares em 2015 e alcançando a marca de 8,2 bilhões de dólares em 2022. Somado a isso, os empréstimos com origem chinesa aumentaram significativamente, de 66 bilhões de dólares em 2013, para 246 bilhões de dólares em 2023.
Apesar disso, a visão dos indonésios sobre a participação do país na Nova Rota da Seda é mista. O governo local considera a China um importante parceiro estratégico para a sua agenda de desenvolvimento e entende o projeto como uma oportunidade de acessar o capital e a tecnologia chinesa para apoiar seus projetos de infraestrutura. Similarmente, os grandes empresários, principalmente aqueles com conexões com empresas chinesas, enxergam a possibilidade de promoção das relações comerciais entre os países. Para os pequenos e médios negócios, no entanto, a Nova Rota da Seda representa uma ameaça potencial, trazendo mais prejuízos do que benefícios. Isso se deve ao aumento da competição no mercado nacional, graças a entrada de produtos chineses baratos, o que tem levado ao fechamento de empresas locais. Outro problema levantado foi a degradação ambiental causada pela execução dos projetos.
Recentemente, a China tem investido no desenvolvimento da nova capital da Indonésia, Nusantara, e o projeto ferroviário de alta velocidade que liga Jacarta a Bandung. Em 2025, investidores chineses gastaram 29 milhões de dólares durante o ano de 2025 para desenvolver partes da capital e comprometeram-se com mais 3,08 bilhões de dólares. Um impulso à construção de capital ajudaria a China a estreitar relações com o maior país do Sudeste Asiático, uma relação que se torna ainda mais importante em meio às incertezas mais amplas nas relações comerciais entre a China e os Estados Unidos. A Indonésia inclusive aderiu ao BRICS em 2024, o que evidencia o crescente alinhamento econômico entre os dois países.
REFERÊNCIAS
HAKIM, Elsie et al. Understanding the Belt & Road Initiative and its impact in Indonesia. CDR Essential Intelligence, 2025. Disponível em: https://www.cdr-news.com/cdr-essential-intelligence/belt-and-road-initiative/indonesia/. Acesso em: 01 mai. 2026
JENNINGS, Ralph. Muddy yet clear-cut: how Chinese investors are turning jungle into Indonesia’s new capital. South China Morning Post, 2026. Disponível em: https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/3350981/muddy-yet-clear-cut-how-chinese-investors-are-turning-jungle-indonesias-new-capital?module=perpetual_scroll_0&pgtype=article. Acesso em: 01 mai. 2026
NEGARA, Siwage Dharma. Revisiting the Belt and Road Initiative in Indonesia: Progress, Challenges, and Prospects. Journal of Southeast Asian Economies 41, no. 1, p.28–46, 2024. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/27306813. Acesso em: 01 mai. 2026
Por: Natielle Ferreira Costa
A Zona Econômica Especial de Sihanoukville (SSEZ), localizada na costa sudoeste do Camboja, junto a um porto de águas profundas, registrou um aumento de 20,5% nas exportações nos primeiros dois meses de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. O dado, divulgado em março pelo operador da zona, confirma o fortalecimento da conectividade marítima no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) na região do Sudeste Asiático.
A SSEZ é um projeto flagship da Iniciativa do Cinturão e Rota, resultado de uma parceria estratégica entre investidores chineses e cambojanos, e desde sua criação, em 2008, a zona de 11 km² tornou-se um dos principais motores da industrialização do país. Até o momento, o projeto já atraiu 217 empresas e instituições internacionais, gerando 35 mil empregos para trabalhadores locais.
Dessa forma, o diferencial estratégico da SSEZ é sua localização, uma vez que está situada nas proximidades do Porto Autônomo de Águas Profundas de Sihanoukville, um dos poucos terminais no Sudeste Asiático continental capazes de receber navios de grande porte.
Além disso, esse aspecto integra a SSEZ diretamente à Rota Marítima da Seda do século XXI, o braço oceânico da BRI, que conecta a China à ASEAN, à África e à Europa por meio de corredores portuários. Thong Mengdavid, o diretor-adjunto do Centro de Estudos China-ASEAN da Universidade de Tecnologia e Ciência do Camboja, disse à agência Xinhua que os números “enfatizam a ascensão da zona como o polo industrial mais avançado e globalmente conectado do Camboja”. Para ele, o desempenho aponta para “robusta confiança dos investidores e alta eficiência operacional”. O sucesso do Porto de Sihanoukville se alinha à estratégia do corredor internacional de comércio terrestre-marítimo, lançado em 2019, pela Iniciativa do Cinturão e Rota. Assim, de acordo com o Belt and Road Portal, esse corredor conecta 14 províncias do interior da China aos portos do Golfo de Beibu e, de lá, aos portos da ASEAN, incluindo Sihanoukville.
Diante disso, com a entrada em vigor do RCEP (Parceria Econômica Regional Abrangente), os fluxos de contêineres entre a China e o Sudeste Asiático cresceram de uma forma consistente. Em um comunicado à imprensa, o operador da SSEZ informou que vem investindo em infraestrutura de água, eletricidade e vapor, além de serviços urbanos como comércio, moradia, educação e saúde. Por fim, o próximo passo do projeto visa atrair cadeias de suprimentos de maior valor agregado, como montadoras de veículos e componentes de novas energias, além de máquinas e equipamentos de energia.
REFERÊNCIAS
BELT AND ROAD PORTAL. Land-sea transport service boosts China-ASEAN trade under RCEP. 2022. Disponível em: https://eng.yidaiyilu.gov.cn/p/261055.html. Acesso em: 18 abr. 2026.
XINHUA. BRI-backed economic zone in Cambodia reports export growth in first 2 months of 2026. 2026. Disponível em: https://english.news.cn/20260311/7da5a61972e04292886c800db721f72c/c.html. Acesso em: 18 abr. 2026.
HENDLER, Bruno; SANTOS, Douglas. Portos, aeroportos e zonas econômicas especiais Os projetos de infraestrutura da China no Camboja e suas implicações econômicas e geopolíticas. Revista da Escola de Guerra Naval. v. 28, n. 1, p. 183-224, jan./abr. 2022. Disponível em: https://portaldeperiodicos.marinha.mil.br/index.php/revistadaegn/article/view/4154/4011. Acesso em: 18 abr. 2026.
Por: Luísa Silva
A entrada da Itália na Belt and Road Initiative, em 2019, foi vista como uma oportunidade estratégica. Como único país do G7 a aderir ao projeto, Roma buscava ampliar exportações, atrair investimentos chineses e corrigir um histórico desequilíbrio comercial. A iniciativa simbolizava não apenas cooperação econômica, mas também uma aproximação política relevante entre Europa e China.
Apesar das expectativas, os resultados ficaram aquém do esperado. O investimento chinês não compensou o déficit comercial, e a assimetria nas trocas permaneceu. Em 2023, a Itália decidiu deixar a iniciativa, sinalizando uma mudança de estratégia diante de pressões internas e externas, especialmente da União Europeia e dos Estados Unidos.
Mesmo fora da iniciativa, China e Itália mantiveram o diálogo econômico. Em 2024, os dois países estabeleceram um plano para reequilibrar suas relações comerciais até 2027. No entanto, os dados mais recentes indicam uma tendência contrária:
exportações chinesas seguem em crescimento
importações italianas diminuíram
O desequilíbrio, portanto, não apenas persiste, como se aprofunda.
Mesmo não pertencendo mais a iniciativa, China e Itália mantiveram o diálogo econômico. Em 2024, os dois países estabeleceram o Plano de Reequilíbrio Econômico (2024-2027). No qual continha os seguintes pontos chaves:
Cooperação industrial e novas tecnologias: O foco está na colaboração industrial, com destaque para setores como veículos elétricos e energias renováveis.
Investimentos estratégicos: A Itália busca atrair investimentos chineses, enquanto tenta equilibrar o seu déficit comercial, que aumentou significativamente com as exportações chinesas superando as italianas nos últimos anos.
Multilateralismo: A China expressou disposição para reforçar a coordenação com a Itália no G20 e na ONU, praticando o multilateralismo
A composição do comércio ajuda a explicar esse cenário. A China exporta majoritariamente bens industriais e produtos de baixo custo, enquanto a Itália depende de setores mais específicos, como o farmacêutico e o mercado de luxo. Com a desaceleração da economia chinesa, a demanda por esses produtos italianos enfraquece, tornando ainda mais difícil reduzir a diferença entre importações e exportações.
Esse caso ultrapassa a relação bilateral. Ele reflete disputas maiores envolvendo a China, a União Europeia e os Estados Unidos, especialmente em temas como proteção industrial, dependência econômica e competição tecnológica. Medidas como tarifas contra veículos elétricos chineses mostram que a Europa busca limitar a influência econômica de Pequim, ainda que países como a Itália mantenham interesse em investimentos produtivos chineses.
A experiência italiana sugere que sair da Belt and Road Initiative não resolve automaticamente os desequilíbrios estruturais da relação com a China. Mais do que um acordo específico, o desafio está na própria dinâmica do comércio internacional entre economias com perfis distintos. A questão que permanece é se o reequilíbrio até 2027 será viável ou se a assimetria continuará sendo a regra.
Fonte:
REUTERS. China touts Italy trade ties even as data casts doubt on rebalancing plan. 2026. Disponível em:
https://www.reuters.com/world/asia-pacific/china-willing-explore-potential-with-italy-says-commerce-chief-2026-04-17/Acesso em: 22 abr. 2026.
Por: Dandara Andrioli
O rio Mekong, localizado no Sudeste Asiático continental, é de grande importância para a integração econômica, social e cultura da sub-região. Atravessando a China, – onde ganha o nome de Lancang – Mianmar, Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã, o rio tem cerca de 4.900 km de extensão e uma bacia hidrográfica que abrange 810 mil km² de área. Ele nasce no Planalto Qinghai-Tibete, desaguando no Mar da China Meridional, no delta do rio Mekong.
Tendo o rio como um importante recurso compartilhado, esses seis países formaram em 1992, com o apoio do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), uma cooperação econômica sub-regional que ficou conhecida como Programa da Sub-região do Grande Mekong (GMS). Seu principal objetivo é fortalecer as relações econômicas entre os países da região apostando em projetos sub-regionais nas áreas de agricultura, energia, meio ambiente, saúde e desenvolvimento de recursos humanos, tecnologia da informação e comunicação, turismo, transporte, facilitação do transporte e do comércio e desenvolvimento urbano. Desde 1992, mais de 20 bilhões de dólares em investimentos foram canalizados diretamente por meio do programa.
Com o objetivo de concretizar sua visão de uma sub-região próspera, integrada e harmoniosa, o programa aborda uma estratégia de três frentes, ou os chamados “3Cs”: comunidade, competitividade e conectividade. Um exemplo concreto de conectividade proporcionado pelo programa é a construção da Ferrovia China-Laos, que liga a capital do Laos, Vientiane, com Kunming, na China. Tendo transportado mais de 41,7 milhões de passageiros e 46,7 milhões de toneladas de carga, incluindo mercadorias transfronteiriças, desde o seu lançamento no final de 2021, este vínculo essencial transformou o Laos, um país sem litoral, em um centro de conectividade. Além disso, o projeto também contribuiu para a expansão da rede logística internacional, reduzindo significativamente os custos e o tempo de transporte e injetando vitalidade na economia regional.
Outra iniciativa da sub-região é o Mecanismo de Cooperação Lancang-Mekong, de 2016, que tem como objetivo fortalecer a cooperação abrangente e amigável entre a China e os países do Mekong e promover o desenvolvimento regional como um todo, operando como um importante fator para disseminar a teoria chinesa de governança ambiental na sub-região.
REFERÊNCIAS
TCBRI. GMS Economic Corridor. Disponível em: https://tcbri.org/gms-economic-corridor/. Acesso em: 18 abr. 2026.
LMEC. Our mission. Disponível em: http://en.lmec.org.cn/about_us/our_mission/. Acesso em: 18 abr. 2026.
PEOPLE’S DAILY ONLINE. Cooperação Lancang-Mekong serve como exemplo para construção de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade, diz chanceler chinês. 24 mar. 2026. Disponível em: http://portuguese.people.com.cn/n3/2026/0324/c309809-20439271.html. Acesso em: 18 abr. 2026.
XINHUA. China e países do Mekong criam cooperação de alta qualidade para prosperidade compartilhada. 11 nov. 2024. Disponível em: https://portuguese.xinhuanet.com/20241111/67b386a61c5d451886ba3835811a6eae/c.html. Acesso em: 18 abr. 2026.
XINHUA. Cooperação Lancang-Mekong serve como exemplo para construção de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade, diz chanceler chinês. 24 mar. 2026. Disponível em: https://portuguese.news.cn/20260324/725e1d0da6094a4ead76d01dd87ce39e/c.html. Acesso em: 18 abr. 2026.
XINHUA. China e Tailândia prometem impulsionar laços e cooperação Lancang-Mekong, 2025. Disponível em: https://portuguese.news.cn/20250814/bed5e6c370e541c8806f35ea2c00d9ba/c.html. Acesso em: 18 abr. 2026.
RELAÇÕES EXTERIORES. Vietnã e a incômoda vizinhança com a China. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/vietna-e-a-incomodo-vizinhanca-com-china/. Acesso em: 18 abr. 2026.
GREATER MEKONG SUBREGION. Economic corridors in the Greater Mekong Subregion. Disponível em: https://greatermekong.org/g/economic-corridors-greater-mekong-subregion. Acesso em: 18 abr. 2026.
GREATER MEKONG SUBREGION. About Greater Mekong Subregion. Disponível em: https://greatermekong.org/about-greater-mekong-subregion. Acesso em: 18 abr. 2026.
Por: Amanda Barbosa
A ASEAN é um bloco que reúne países do Sudeste Asiático e atua para fortalecer a cooperação econômica, política e diplomática da região. Nos últimos anos, o grupo tem buscado diversificar suas parcerias internacionais para reduzir a dependência de grandes potências e tornar suas economias mais resilientes a questões externas.
Embora a aproximação entre a ASEAN e os países do Golfo tenha ganhado visibilidade recentemente, o diálogo entre as duas regiões não é novo. Os primeiros contatos formais ocorreram ainda no início dos anos 1990, mas por décadas essa relação permaneceu limitada e pouco institucionalizada.
A partir do fim dos anos 2000, ASEAN e Golfo passaram a estruturar a cooperação por meio de reuniões ministeriais, planos de ação conjuntos e memorandos de entendimento. Esse processo marcou a transição de contatos pontuais para um relacionamento mais organizado, com áreas prioritárias como comércio, energia, investimentos, turismo, educação e segurança alimentar.
Em 2023 ocorreu o principal avanço dos últimos anos, a realização da primeira cúpula entre líderes da ASEAN e do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). Esse encontro elevou a relação ao nível de chefes de Estado e de governo, sinalizando compromisso político de longo prazo e abrindo caminho para uma cooperação mais profunda.
O impacto da instabilidade no Oriente Médio
Conflitos e tensões no Oriente Médio produzem efeitos imediatos para a Ásia. Rotas marítimas essenciais para o transporte de petróleo e gás passam por áreas sensíveis, o que gera preocupação com o abastecimento energético, aumento de custos e riscos para a estabilidade econômica asiática.
A elevação dos preços de energia e as disrupções logísticas afetam diretamente economias que dependem de importações energéticas. Projeções indicam desaceleração do crescimento regional e pressões inflacionárias, levando governos da ASEAN a adotar medidas emergenciais para proteger seus mercados internos.
Avanços relevantes
Nos últimos anos, todos os países do GCC aderiram ao Tratado de Amizade e Cooperação no Sudeste Asiático (TAC) da ASEAN, voltado à promoção da paz e da cooperação regional. Além disso, alguns Estados do Golfo aprofundaram vínculos bilaterais com o Sudeste Asiático, incluindo o reconhecimento de parcerias formais com o bloco.
Apesar do avanço institucional, o intercâmbio econômico entre ASEAN e Golfo continua relativamente limitado. O comércio e os fluxos de investimento ainda representam parcela pequena das relações exteriores do Sudeste Asiático, indicando que o potencial afirmado nas declarações políticas ainda não se transformou em mudanças estruturais. Com isso, essa aproximação entre ASEAN e Golfo não representa uma transformação imediata, mas sim um processo que está sendo realizado de forma gradual.
A importância do Golfo
Os países do Golfo possuem grande relevância no mercado global de energia e acumulam significativo capital financeiro. Para a ASEAN, aproximar-se dessa região representa uma tentativa de ampliar fontes de investimento, comércio e segurança energética, especialmente em um contexto de crescente instabilidade global.
Apesar do discurso estratégico, a relação econômica entre ASEAN e Golfo ainda é relativamente limitada. O volume de comércio entre as duas regiões é pequeno quando comparado ao total do comércio da ASEAN, indicando que essa diversificação, até o momento, não altera de forma significativa a estrutura econômica regional.
Fontes:
ASEAN. Overview of ASEAN-GCC Relations - Janeiro de 2025. Disponível em: https://asean.org/wp-content/uploads/2025/01/Overview-of-ASEAN-GCC-Relations-January-2025-fn.pdf Acesso em: 13 de abril de 2026.
ASIAN DEVELOPMENT BANK. Asia and Pacific growth to slow to 5.1% amid global uncertainties. 10 de abr. 2026. Disponível em: https://www.adb.org/news/asia-and-pacific-growth-slow-5-1-percent-weighed-down-middle-east-conflict. Acesso em: 13 de abril de 2026.
EAST ASIA FORUM. ASEAN’s Gulf ties put diversification to the test. 10 abr. 2026. Disponível em: https://eastasiaforum.org/2026/04/10/aseans-gulf-ties-put-diversification-to-the-test/. Acesso em: 13 de abril de 2026.
REUTERS. ASEAN foreign ministers urge US and Iran to push for permanent resolution. 13 abr. 2026. Disponível em: https://www.thejakartapost.com/world/2026/04/13/asean-foreign-ministers-urge-us-and-iran-to-push-for-permanent-resolution.html?utm_source=(direct)&utm_medium=single_latest. Acesso em: 13 de abril de 2026.
REUTERS. Asia-Pacific faces weaker growth, higher inflation as Middle East crisis deepens, ADB warns. 09 abr. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/asia-pacific-faces-weaker-growth-higher-inflation-middle-east-crisis-adb-warns-2026-04-10/ . Acesso em: 13 de abril de 2026.
THE ASIA CABLE. Asia Daily Briefing – April 13, 2026. 13 abr. 2026. Disponível em: https://www.theasiacable.com/p/asia-daily-april-13-2026. Acesso em: 13 de abril de 2026.
Por: Kíria Ferraz
Uma parceria estratégica de carga aérea entre o Aeroporto Internacional de Kuala Lumpur (KLIA), na Malásia, e o Aeroporto Internacional de Zhengzhou Xinzheng (CGO), na China, representa um novo impulso à integração econômica entre a China e os países da ASEAN. Inserida no âmbito da “Rota Aérea da Seda”, parte da Iniciativa Cinturão e Rota, a cooperação busca ampliar a conectividade logística na Ásia e consolidar ambos os aeroportos como importantes pólos regionais de transporte de cargas.
A iniciativa foi destacada durante o Fórum Rota Aérea da Seda Zhengzhou-Kuala Lumpur para Cooperação Internacional, no qual autoridades e representantes do setor enfatizaram seu potencial para estimular o crescimento econômico regional. Segundo o ministro dos Transportes da Malásia, a conexão entre Zhengzhou, um dos centros logísticos mais dinâmicos da China Central — e o KLIA — porta de entrada estratégica para a ASEAN, deve abrir novas oportunidades em setores de alto valor agregado, como comércio eletrônico, eletrônicos, produtos farmacêuticos e produtos perecíveis.
O projeto também prevê o fortalecimento da infraestrutura logística, com investimentos em digitalização, modernização de processos e simplificação alfandegária, permitindo maior agilidade no fluxo de mercadorias e acesso mais rápido aos principais mercados asiáticos. Além disso, autoridades chinesas confirmaram o aumento da frequência de voos internacionais de carga entre Zhengzhou e a Malásia, consolidando o avanço do projeto piloto da Rota Aérea da Seda na região.
Por fim, o fórum resultou na assinatura de diversos acordos entre empresas e instituições chinesas e malaias, abrangendo áreas como expansão da capacidade de transporte aéreo, exportações agrícolas, desenvolvimento da logística de cadeia fria e facilitação do comércio. Em conjunto, essas medidas reforçam a cooperação bilateral e evidenciam o papel estratégico da conectividade aérea na promoção da integração econômica regional.
Fonte: Xinhua Português
Visita de Xi Jinping ao Sudeste Asiático em tempos de incerteza estadunidense: uma oportunidade para a Iniciativa Belt and Road
Por: Arthur Bernardes
A recente visita do presidente Xi Jinping do Sudeste Asiático, realizada entre os dias 14 e 18 de abril, ocorre em um contexto caracterizado por tensões comerciais entre os Estados Unidos e os países da região. Em contraste com a política tarifária agressiva de Donald Trump, Xi apresentou uma agenda voltada para o crescimento econômico. Anunciadas por Washington, os três países visitados por Xi (Vietnã, Malásia e Camboja) foram alvo de algumas das tarifas mais elevadas da lista de Trump, respectivamente 46%, 24% e 49%. Embora tenham sido revogadas dias depois, o clima de incerteza persiste. A recepção calorosa por parte dos líderes desses países sinaliza que a presença de Xi representa uma alternativa de estabilidade frente à volatilidade da política comercial estadunidense.
Diante deste contexto, a Belt and Road Initiative (BRI) ressurge como instrumento potencial de diplomacia pública e projeção de poder. A região, apesar da pressão estadunidense, permanece altamente dependente de matérias-primas chinesas. No entanto, ao mesmo tempo, a BRI encontra desafios: projetos como o Melaka Gateway, na Malásia, e o sistema ferroviário de Mindanao, nas Filipinas, enfrentaram paralisações motivadas por entraves legais e, sobretudo, pelas tensões geopolíticas envolvendo o Mar do Sul da China. Isso alimentou uma percepção de desconfiança por parte de comunidades locais, especialmente da opinião pública. Por outro lado, iniciativas bem-sucedidas, como a ponte Binondo–Intramuros em Manila, demonstram o potencial positivo da BRI quando os projetos são efetivamente implementados.
Apesar da combinação de sucessos e fracassos da BRI e da desconfiança em relação à influência chinesa na região, durante a visita de Xi à Malásia, foi acordada a implementação de novos projetos-chave da BRI como a Ligação Ferroviária da Costa Leste, que promete promover o transporte ferroviário-marítimo e fortalecer a conectividade regional. De toda forma, o desafio chinês consiste em superar a percepção de que a BRI é um instrumento de dominação estratégica e afirmar-se como uma plataforma legítima de desenvolvimento multilateral.
Fonte: The Diplomat, Xinhua
Desde o golpe militar de 2021, Mianmar enfrenta uma escalada da violência política e uma guerra civil que fragmentou o país. As forças militares e grupos de oposição disputam o controle das regiões centrais, enquanto organizações armadas étnicas (EAOs) dominam áreas periféricas. Em 2023, uma ofensiva das EAOs enfraqueceu significativamente os militares, forçando-os a recuar.
Apesar do caos, a China manteve o plano de construir o Corredor Econômico China-Mianmar (CMEC), parte da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), atravessando áreas conflituosas. O projeto, avaliado em mais de US$ 15 bilhões, enfrenta sérios atrasos, com obras paralisadas em várias partes.
Estudo recente mostra que os riscos enfrentados pelo CMEC estão levando a mudanças na política externa e de segurança da China. A atuação chinesa em Mianmar tem sido fragmentada, marcada por conflitos de interesse entre seus próprios atores e pela associação do projeto a atividades extrativas e ilegais, inclusive envolvendo crimes cibernéticos.
A percepção local do CMEC é majoritariamente negativa, sendo visto como sustentador da junta militar e promotor da exploração de recursos. A China tenta proteger seus interesses negociando com diversos grupos, mas isso deteriora sua imagem e reduz a viabilidade do projeto. O plano original de integração nacional foi substituído por iniciativas isoladas, que reforçam a fragmentação de Mianmar e exigem da China uma diplomacia mais ativa e adaptável frente aos riscos de conflito, com implicações para seus investimentos globais sob a BRI.
Fonte: The Diplomat
A Rota da Seda Digital (RSD), lançada pela China em 2015, tem promovido a expansão global de sua infraestrutura digital, com investimentos em cabos de fibra óptica, data centers e sistemas de computação em nuvem. Embora projetada para fortalecer telecomunicações e fintechs, desde a pandemia ela vem servindo também ao avanço de sistemas de IA chineses no exterior. O anunciado “Skyvast Cloud” da Skyvast Corporation, com seu servidor Altermatic DT250 baseado em GPUs Huawei Ascend e o LLM DeepSeek, pretendia ser a primeira infraestrutura de IA “soberana” da Malásia, escalável a 3.000 GPUs até 2026. Contudo, o apoio governamental foi logo revertido: nem chips Ascend foram vendidos ao governo nem há plano de adoção estatal.
Apesar das parcerias em torno do discurso de cooperação/soberania e a ambição de verticalização, controle doméstico desde os data centers até as ferramentas de IA, a Malásia e os vizinhos da região permanecem vulneráveis a formas de dependência digital. O cerne da questão é que, mesmo com infraestrutura localizada, os dados e sistemas seguem sob controle das empresas chinesas. Fornecedores chineses mantêm o “backend” e os metadados em suas sedes, concedendo acesso a relatórios selecionados e restringindo inspeções. Esse modelo centralizado confere veto tecnológico a Pequim e cria um “lock-in” geoestratégico, pois substituir plataformas chinesas por alternativas ocidentais exigiria investimentos bilionários em hardware, migração de software e capacitação técnica, além de não garantir soberania.
Ademais, governos da região têm recorrido a novas tecnologias de vigilância (em um movimento semelhante ao de governantes brasileiros que buscam inspiração em países como Israel e El Salvador). No entanto, a Rota da Seda Digital não exporta apenas infraestrutura, mas carrega consigo uma lógica de governança algorítmica moldada pelo contexto de vigilância interna da China. Plataformas de reconhecimento facial e monitoramento comportamental, utilizadas em regiões como Xinjiang e Hong Kong, correm o risco de fortalecer tendências autoritárias sob a justificativa de segurança e modernização.
Fonte: The Diplomat, Depositphotos
A via expressa Phnom Penh-Sihanoukville, de 187 km, é a primeira do Camboja e tem desempenhado um papel fundamental na modernização da infraestrutura do país, conectando a capital ao porto marítimo internacional de Sihanoukville. Desde sua inauguração em novembro de 2022, a rodovia tem impulsionado o comércio, o turismo e a logística, reduzindo significativamente o tempo de viagem de cinco para duas horas. O projeto foi realizado com um investimento de US$ 2 bilhões da China Road and Bridge Corporation (CRBC) no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), passando pelas províncias de Kandal, Kampong Speu e Koh Kong.
De acordo com Chhem Chomnan, presidente da Associação de Ônibus do Camboja, a via expressa tem gerado grandes benefícios econômicos e sociais, facilitando investimentos e incentivando a criação de zonas econômicas especiais, fábricas e centros logísticos ao longo da rota. Além de fortalecer a indústria local, a estrada também trouxe melhorias ao setor de transportes, oferecendo viagens mais rápidas, seguras e confortáveis. Motoristas elogiam a infraestrutura moderna e a qualidade da estrada, que proporciona maior eficiência no transporte de passageiros e mercadorias.
A infraestrutura também impactou positivamente o setor de turismo, atraindo mais visitantes para Sihanoukville e outras regiões. Para garantir benefícios contínuos ao setor de transportes, a Cambodia Bus Association e a Cambodian PPSHV Expressway firmaram um memorando de entendimento em março de 2023, permitindo tarifas especiais para operadores de ônibus. No entanto, o acordo expirou recentemente, e há expectativas de uma renovação para manter as vantagens aos usuários da rodovia.
Além dos impactos econômicos, a rodovia gerou empregos diretos e indiretos, melhorando as condições de vida das comunidades próximas. Segundo Chomnan, a infraestrutura é um marco para o Camboja, que nunca teve uma via expressa antes. O projeto fortalece a parceria entre o Camboja e a China, promovendo o desenvolvimento sustentável, a integração econômica regional e a modernização do transporte no país.
Fonte: Belt and Road Portal