Por Fabio Augusto Faustino da Silva
Data: 17/09/2026
A China, por meio de instrumentos econômicos e do financiamento de projetos de infraestrutura no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), vem ampliando sua influência estratégica no continente africano. A presença econômica e logística chinesa na região confere ao país uma posição importante para a garantia das cadeias globais de suprimento, das fontes de energia e das matérias-primas (Helmy, 2026).
Para compreender o alcance dessa influência, é preciso destacar que, por meio de investimentos, participações financeiras e administrativas e da construção de infraestruturas, a China possui envolvimento em mais de quarenta portos e cerca de setenta e oito instalações marítimas distribuídas por pouco mais de trinta e dois países africanos. Nesse sentido, a presença chinesa não se restringe à construção de portos e de novas rotas, mas integra uma estratégia logística mais ampla, voltada à interligação e à ampliação das rotas já existentes, conectando portos a linhas ferroviárias e industriais que se estendem por diferentes partes do continente africano. Essa estratégia é denominada integração vertical. Entre os exemplos concretos dessa abordagem estão o corredor Djibouti–Etiópia, o porto de Lekki, na Nigéria, e o porto de Mombasa, no Quênia (Helmy, 2026).
Contudo, analistas observam que essas estruturas podem apresentar um potencial de dupla utilização que ultrapassa o seu uso civil e comercial. Nesse sentido, essas infraestruturas podem, no futuro, desempenhar um papel estratégico também em termos militares e logísticos para a marinha chinesa. É a partir dessa possibilidade que a expansão da presença chinesa passa a adquirir relevância também para as dinâmicas de segurança no continente e em áreas estratégicas de circulação marítima (Helmy, 2026).
Nesse contexto, o Mar Vermelho constitui uma importante rota para o comércio chinês com a Europa por meio do Canal de Suez, no Egito. Considerando essa relevância, a expansão dos investimentos chineses no Chifre da África, região estratégica para seus interesses logísticos, resultou no estabelecimento, em 2017, da primeira base militar ultramarina do Exército de Libertação Popular, localizada no Djibuti. A instalação tem como objetivos a proteção das rotas marítimas e o combate à pirataria. Paralelamente, a China também ampliou sua presença na Zona Econômica do Canal de Suez e realizou investimentos no Egito, um de seus principais parceiros, voltados ao fortalecimento de suas atividades industriais e logísticas, contribuindo para a manutenção das rotas de navegação marítima (Helmy, 2026).
A partir desse cenário, a presença chinesa nos portos e projetos localizados no Mar Vermelho e no Chifre da África assume relevância não apenas por sua relação com o comércio e as cadeias de abastecimento, mas também pelo potencial de ampliar a influência chinesa sobre as dinâmicas de segurança marítima e as rotas de navegação da região. Essa atuação está relacionada à estratégia mais ampla da China no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), especialmente em sua dimensão marítima (Maritime Silk Road) (Helmy, 2026).
A partir desse panorama, observa-se que as parcerias econômicas estabelecidas no escopo da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) também podem adquirir relevância estratégica e de segurança, especialmente diante da crescente presença chinesa em áreas centrais para as rotas comerciais e marítimas. Nesse sentido, a expansão da BRI pode estar relacionada a uma presença que vai além das dimensões econômicas e logísticas dos projetos de infraestrutura, alcançando também a construção de uma projeção de longo prazo no continente africano e se relacionando com as transformações nas dinâmicas de segurança da África e do Mar Vermelho.
REFERÊNCIAS
HELMY, N. How China’s Infrastructure Strategy Is Reshaping Africa' s Security and Red Sea. Modern Diplomacy, [S. l.], 13 set. 2026. Middle East & Africa. Disponível em: https://moderndiplomacy.eu/2026/09/13/china-infrastructure-africa-strategic-influence-red-sea/. Acesso em: 14 set. 2026.
HELMY, N. China’s Red Sea Strategy: How Ports Could Expand Beijing’s Maritime Influence. Modern Diplomacy, [S. l.], 18 set. 2026. East Asia. Disponível em: https://moderndiplomacy.eu/2026/09/18/china-red-sea-strategy-ports-maritime-influence/. Acesso em: 19 set. 2026.
HUTCHINGS, Z. Chinese Maritime Expansion and Potential Dual-Use Implications on Critical Maritime Chokepoints. Tearline, [S. l.], 20 jul. 2021. Disponível em: https://www.tearline.mil/printable/bri-maritime-dual-use-hypothetical. Acesso em: 23 set. 2026.
Aporte de US$ 900 milhões reforça presença chinesa em infraestrutura no país e ofusca investimento dos EUA no Corredor do Lobito
Por Julia Pena Bicalho
Data: 01/09/2026
A China reforçou sua posição estratégica em Angola ao fechar, em 20 de julho de 2026, um investimento de US$900 milhões para o desenvolvimento de um novo porto na Barra do Dande, cerca de 600 km ao norte do Porto do Lobito. O acordo foi firmado entre a Huatong Angola, subsidiária do grupo chinês Huatong, a empresa Berkshire Waterhouse Infrastructure e a estatal angolana Barra do Dande Development Society, responsável pela zona franca de desenvolvimento onde o terminal será instalado.
O projeto está dividido em dois contratos de valor equivalente: um destinado à concessão da gestão do terminal portuário por 25 anos e outro voltado à construção da infraestrutura. A primeira fase deve ficar pronta em dois anos, permitindo o início das exportações a partir da zona franca, com conclusão das demais etapas previstas para 2030. Segundo dirigentes angolanos, o porto terá capacidade para navios de até 80 mil toneladas, deve gerar cerca de 21 mil empregos e receitas anuais estimadas em US$10 bilhões.
O movimento ocorre justamente quando os Estados Unidos tenta consolidar sua presença em Angola por meio do Corredor do Lobito, projeto ferroviário apoiado por EUA e Europa para escoar minerais críticos da República Democrática do Congo e da Zâmbia até o Atlântico. Até agora, os americanos destinaram cerca de US$553 milhões ao corredor via sua agência de financiamento ao desenvolvimento internacional, valor bem inferior ao novo aporte chinês.
Para analistas ouvidos pela imprensa, as empresas chinesas mantêm vantagem competitiva na execução de grandes obras públicas a custos reduzidos, enquanto a estratégia americana segue concentrada em segurança e acesso a matérias-primas estratégicas. O caso angolano ilustra, assim, uma disputa geoeconômica mais ampla: enquanto os EUA apostam em corredores logísticos pontuais ligados à extração mineral, a China mantém presença transversal em portos, ferrovias, indústria e logística, apoiada em quatro décadas de cooperação bilateral que remontam à Guerra Civil angolana.
REFERÊNCIAS
CHINA investe 900 milhões de dólares no Porto da Barra do Dande e consolida vantagem sobre os EUA. Ecos e Factos, [S.l], 5 ago. 2026. Disponível em: https://www.ecosefactos.com/china-investe-900-milhoes-de-dolares-no-porto-da-barra-do-dande-e-consolida-vantagem-sobre-os-eua/. Acesso em: 1 set. 2026.
Por Fabio Augusto Faustino da Silva
Data: 27/08/2026
O setor energético continua sendo uma das principais prioridades da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), movimentando cerca de US$ 36,3 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026. Desse montante, destacam-se projetos voltados para a produção e captação de energia verde (eólica, solar e conversão de resíduos), que correspondem a cerca de US$ 14,3 bilhões, e projetos de energia hidrelétrica, estimados em US$ 5,3 bilhões.
Conforme o relatório publicado em conjunto pelo Centro de Finanças Verdes e Desenvolvimento da Universidade de Fudan, em Xangai, e pela Escola de Negócios da Universidade de Queensland, na Austrália, as forças motrizes que impulsionaram os investimentos foram os projetos de manufatura, de energia e infraestrutura. Em uma perspectiva global, o relatório ainda aponta que o engajamento na Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) alcançou o maior nível da série histórica para um primeiro semestre desde o lançamento da Iniciativa, em 2013, totalizando uma movimentação estimada em US$ 49,8 bilhões em investimentos e US$ 76,5 bilhões em contratos de construção.
Diante desse contexto, o continente africano se destacou como o principal destino dos investimentos chineses vinculados à Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) no primeiro semestre de 2026. Estima-se que o montante dos investimentos tenha ficado em torno de US$ 33,5 bilhões de dólares, representando um aumento de 254% em relação ao mesmo período do ano passado.
Dentre os países africanos, a Etiópia registrou o maior índice de crescimento no engajamento com a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) em nível global, atraindo cerca de US$ 18,9 bilhões de dólares. Acordos firmados entre a Comissão de Investimentos da Etiópia e o grupo chinês de Energia Inteligente Ming Yang movimentaram cerca de US$ 14 bilhões de dólares em iniciativas voltadas ao setor energético e ao desenvolvimento de energia verde. Os projetos incluem empreendimentos em energias renováveis, como a energia eólica e energia solar, a produção de amônia verde¹ e a fabricação de equipamentos para facilitar a transmissão de energia elétrica e a produção de turbinas eólicas.
Segundo o relatório, o Egito também registrou um considerável aumento nos investimentos chineses no período correspondente ao primeiro semestre deste ano, mobilizando cerca de US$ 12,2 bilhões de dólares. Destaca-se o projeto de desenvolvimento de um complexo industrial e siderúrgico situado na zona industrial de Ain Sokhna, com foco na produção de aço para o setor automotivo e outros produtos siderúrgicos, liderado pela empresa chinesa do setor siderúrgico Xinfeng Steel.
A partir desse panorama, podemos perceber que o fortalecimento da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) no continente africano perpassa pela expansão e diversificação dos investimentos chineses, especialmente nos setores energético, industrial e de infraestrutura. Esse movimento reforça a crescente relevância estratégica do continente africano para o aprofundamento das relações econômicas sino-africanas.
Notas
¹Amônia verde, também denominada amônia renovável, refere-se à amônia produzida a partir de hidrogênio renovável, obtido por meio da eletrólise da água utilizando eletricidade proveniente de fontes de energia renováveis, e de nitrogênio separado do ar. Dessa forma, sua produção utiliza insumos e energia de origem renovável, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis no processo convencional de produção de amônia (International Renewable Energy Agency; Ammonia Energy Association, 2022, p. 11).
REFERÊNCIAS
INTERNATIONAL RENEWABLE ENERGY AGENCY; AMMONIA ENERGY ASSOCIATION (AEA). Innovation Outlook Renewable Ammonia. IRENA – AEA, Abu Dhabi; Brooklyn, 2022.
MUTETHYA, Edith. Africa takes lead in BRI investment, report says. China Daily, Nairobi, 3 ago. 2026. Africa. Disponível em: https://europe.chinadaily.com.cn/a/202608/03/WS6a6fec28a310986e2b468a00.html. Acesso em: 21 ago. 2026.
XI apresenta proposta de 3 pontos sobre desenvolvimento de relações China-África. Xinhua Português, Osaka, 28 jun. 2019. Disponível em: https://portuguese.xinhuanet.com/2019-06/28/c_138182128.htm. Acesso em: 21 ago. 2026.
Por Lívia Maria de Carvalho
Data: 03/07/2026
A expansão da aproximação entre a China, o Egito e os Emirados Árabes Unidos demonstram uma nova dimensão da Nova Rota da Seda, a chamada Military Silk Road, voltada à proteção dos interesses estratégicos chineses por meio de parcerias militares e de segurança. Em vez de estabelecer uma ampla rede de bases militares próprias, Pequim busca ampliar sua influência regional por meio da cooperação com aliados considerados politicamente estáveis e estrategicamente localizados.
Nesse contexto, o Egito ocupa posição central na estratégia chinesa. Além de controlar o acesso ao Canal de Suez e ocupar uma localização privilegiada entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho, o país tem intensificado sua cooperação militar com a China por meio de exercícios conjuntos, negociações para aquisição de equipamentos militares e fortalecimento das relações de defesa.
A estratégia chinesa busca reduzir sua dependência de uma presença militar direta na região, privilegiando uma rede de parceiros capazes de garantir a estabilidade necessária para seus investimentos e para a segurança das cadeias logísticas da Nova Rota da Seda. Dessa forma, a cooperação entre China, Egito e Emirados Árabes Unidos fortalece a projeção de poder chinesa sem reproduzir o modelo tradicional de alianças militares liderado pelos Estados Unidos. A evolução dessa parceria demonstra que a Belt and Road Initiative vai além da infraestrutura e da conectividade econômica. A crescente integração entre investimentos, cooperação tecnológica e articulação militar indica que a China busca consolidar uma arquitetura regional capaz de proteger seus interesses estratégicos no Oriente Médio, ao mesmo tempo em que fortalece sua posição como alternativa à liderança tradicional exercida pelos Estados Unidos na área de segurança internacional.
REFERÊNCIAS
HELMY, N. Egypt’s Role in China’s Military Silk Road: UAE Bases and Joint Strategy. Modern Diplomacy, [S.l], 10 mai. 2026. Disponível em: https://moderndiplomacy.eu/2026/05/10/egypts-role-in-chinas-military-silk-road-uae-bases-and-joint-strategy/ Acesso em: 06 jul. 2026.
Por Pedro Lan Rodrigues Silva (Sub-região Sudeste Asiático)
Data: 18/06/2026
Gana e China possuem uma forte relação diplomática que remonta a 1960, o mesmo ano em que Gana se tornou uma república. Mesmo antes da sua entrada na Belt and Road Initiative (BRI), em 2018, os países já haviam estabelecido parcerias estratégicas em diversos campos, incluindo nas áreas econômica, agrícola, educacional, de saúde, entre outras. Desde então, Gana tem sido beneficiária de diversos projetos e benefícios significativos, com o objetivo de promover o crescimento, a compreensão mútua e os benefícios entre os dois países. Além disso, busca-se a eliminação de barreiras comerciais entre ambos, beneficiando o setor agrícola de Gana e contribuindo para que seus produtos passem a ocupar posições mais vantajosas nas Cadeias Globais de Valor.
O investimento da China em no país vai além da construção de estradas, incluindo eletrificação rural, centros de formação profissional, portos marítimos, áreas de pesca costeira, infraestrutura digital e energias renováveis, entre outras áreas. Entre os projetos realizados, pode-se destacar a construção da Usina Termelétrica de Sunon Asogli, resultado da cooperação entre investidores chineses e ganeses do setor energético, e que desempenhou um papel significativo no setor energético do país, tornando-se uma de suas maiores centrais termoelétricas e contribuindo substancialmente para a capacidade de geração de eletricidade da nação. Outro projeto significativo é a expansão do Porto de Tema, transformando-o no maior porto do oeste africano. Desse modo, espera-se que ele deverá transformar as capacidades marítimas do país e impulsionar seu desenvolvimento socioeconômico.
Por fim, a tendência de investimento chinês em Gana também demonstra diversificação, com empresas de tecnologia chinesas como a Huawei, a Tecno Mobile e a StarTimes estabelecendo escritórios em Accra, capital do país, indicando uma mudança da infraestrutura física para a infraestrutura digital ao longo da Rota da Seda Digital.
REFERÊNCIAS
LOMOTEY, Janice Ofeibea. Research on the Implementation of One Belt One Road Initiative in Ghana. Open Journal of Business and Management, v. 14, n. 1, jan. 2026. Disponível em: https://www.scirp.org/journal/paperinformation?paperid=149145. Acesso em: 19 jun. 2026
ODURO, Michael. The Belt and Road Initiative: Impact on Ghana's development. China Daily, [S.l], 18 set. 2024. Disponível em: https://www.chinadaily.com.cn/a/202409/18/WS66ea49b5a3103711928a86ea.html. Acesso em: 19 jun. 2026
Por Maria Fernanda Oliveira Neiva
Data: 12/06/2026
Em maio de 2026, a China iniciou a retirada de tarifas para todos os países africanos, exceto Eswatini (antiga Suazilândia), que possui relações estáveis com Taiwan. Destaca-se o fato de que a China é a primeira potência mundial com isenção unilateral à África, além disso, o comércio entre o país e o continente possui um conjunto de relações favoráveis a China, e que neste caso, os ganhos chineses tendem a aumentar.
Tendo em vista esse cenário, no ano passado, o déficit comercial da África com a China teve um aumento de 65%, chegando a cerca de US$102 bilhões. Atualmente, os maiores parceiros comerciais no continente são a África do Sul, Angola e República Democrática do Congo, países com características econômicas, políticas e sociais diferentes.
Em relação a postura chinesa com Taiwan, a manutenção das tarifas demonstra uma tentativa de isolamento diplomático com Taiwan e suas nações aliadas. No cenário atual, apesar de ser um Estado independente, com um governo eleito democraticamente, uma Constituição, Forças Armadas e passaportes próprios, Taiwan é reconhecido como país por apenas 12 Estados. Somado a isso, Taiwan não é reconhecido como um Estado soberano pela China, que o tem apenas como uma província rebelde.
As pressões econômicas e políticas da China em todo o mundo, não apenas no continente africano, levou ao isolamento diplomático de muitos Estados e organizações com Taiwan. Em março , o presidente taiwanês, Lai Ching-te precisou cancelar uma viagem à Eswatini depois que três países – Seychelles, Madagascar e Ilhas Maurício – proibiram o avião taiwanês de sobrevoar os territórios. Tal ação vem sendo discutida por cientistas políticos ao redor do mundo: se trata de ações baseadas em acordos coercitivos da China ou apenas uma demonstração de apoio aos interesses chineses, sem pressão imposta. Mas muitos analistas acreditam que a exclusão de Eswatini pode ser uma manobra política com impacto econômico para o país, com mais concessões econômicas por parte de Taiwan.
REFERÊNCIAS
MOREIRA, Matheus; SCHOSSLER, Alexandre. O histórico das tensões entre China e Taiwan. Deutsche Welle, [S.l], 12 abr. 2023. China. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/o-hist%C3%B3rico-das-tens%C3%B5es-entre-china-e-taiwan/a-65293548 . Acesso em 17 jun. 2026.
NG, Kelly. China scraps tariffs for all but one African nation. BBC, [S.l], 30 abr. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cwy2v509217o . Acesso em: 17 jun. 2026.
Por Lívia Maria de Carvalho
Data: 10/06/2026
A “Digital Silk Road” expande sua influência na África por meio de investimentos em redes de telecomunicações, fibra óptica e centros de dados. Empresas chinesas têm tido um papel fundamental na ampliação da conectividade africana, já que muitas vezes empresas ocidentais não se sentem incentivadas a investir em tecnologia digital no continente africano. Em muitos casos, companhias chinesas oferecem custos mais baixos, financiamento acessível e maior disposição para atuar em mercados considerados de maior risco, tornando-se uma alternativa viável para governos que buscam acelerar sua digitalização.
Atualmente, as empresas chinesas têm um papel gigantesco na construção das redes de 4G na África, com cerca de 70% das redes do continente sendo de origem chinesa, o que evidencia a profundidade da presença tecnológica da China no continente.
Com isso, foi possível ampliar o acesso à internet, fortalecer serviços digitais e criar oportunidades de crescimento econômico em diversos países africanos, reduzindo parte da exclusão digital que assola o continente.
Por outro lado, a crescente presença chinesa também vem despertando há tempos desconfiança e sendo alvo de debates. Além da dependência de infraestrutura construída e operada por empresas estrangeiras, organizações como a Article 19 alertam para os efeitos colaterais , como o controle da informação, a vigilância estatal e as restrições à liberdade de expressão. Dessa forma, a cooperação tecnológica não envolve apenas equipamentos e investimentos, mas também a difusão de normas e práticas sobre como o espaço digital deve ser administrado.
A Digital Silk Road revela, portanto, uma realidade complexa para a África: ao mesmo tempo em que oferece recursos essenciais para reduzir a exclusão digital e impulsionar o desenvolvimento tecnológico, também levanta questionamentos sobre soberania digital, autonomia tecnológica e proteção de direitos fundamentais.
REFERÊNCIAS
AKWAGYIRAM, Alexis. China’s Digital Silk Road tightens grip on Africa. SEMAFOR, [S.l], 7 mai. 2026. Disponível em: https://www.semafor.com/article/05/07/2026/africas-digital-silk-road-still-faces-hurdles. Acesso em: 10 jun. 2026.
COOPERAÇÃO China-África: a visão de Pequim levanta preocupações com a liberdade de expressão. Article 19, [S.l], 3 out. 2024. Disponível em: https://www.article19.org/pt-pt/resources/cooperacao-china-africa-a-visao-de-pequim-levanta-preocupacoes-com-a-liberdade-de-expressao/. Acesso em: 10 jun. 2026.
Por Maria Fernanda Neiva
Data: 20/05/2026
A Etiópia possui uma posição crucial nos âmbitos político e econômico de sua região, sua capital Adis Abeba é sede da União Africana, possui a segunda maior população da África e é localizada no Chifre da África, um local estratégico nas principais rotas comerciais do Mar Vermelho ao Golfo de Aden. Além disso, é o único país do continente africano que nunca foi colonizado. Apesar de se situar em uma posição geográfica vantajosa, a Etiópia encontra alguns desafios que corroboram na estagnação do seu desenvolvimento econômico como desafios logísticos no setor de transportes, recursos energéticos pouco desenvolvidos e instituições governamentais relativamente pouco estruturadas.
O país depende simultaneamente do investimento de países do BRICS para ter mais destaque dentro do bloco enquanto depende de investimentos oriundos da Nova Rota da Seda como um todo. Além disso, quase ⅓ dos produtos importados são de países membros do BRICS, em especial da China e da Índia.
O governo etíope tem expressado forte interesse em se juntar ao Novo Banco do Desenvolvimento (ou Banco dos BRICS) para realizar empréstimos a fim de desenvolver mais projetos de infraestrutura local, para além dos já iniciados pela Nova Rota da Seda.
Entretanto, alguns fatores aparentam mitigar os obstáculos supracitados, como a sua população jovem e os crescentes investimentos no setor industrial, com tais, o país possui o potencial de tornar-se uma grande economia manufatureira e com colaboração dos países membros do BRICS, pode desenvolver uma agricultura mais mecanizada, por exemplo. A partir da inclusão da Etiópia no BRICS em 2024, percebeu-se o aumento da influência do país na região do Chifre da África e do Oriente Médio, pela proximidade com esta região.
Descrita como uma das economias africanas que mais crescem nos últimos anos, a Etiópia iniciou a “digitalização” de sua economia nos maiores setores e mercados, visto que menos de 25% da população etíope possui acesso à internet. Por isso, também tem visado projetos de infraestrutura digital e conectividade nas tecnologias de informação e comunicação, nos quais a China tem um papel central através da Rota da Seda Digital e da construção de parques tecnológicos e industriais no país, as quais foram responsáveis por um aumento na criação de empregos em várias cidades do país.
REFERÊNCIAS
FABRA, Jordi Bernal. The New Silk Road and Chinese Investments in Ethiopia. Centinelas, [S.l], 28 ago. 2025. Disponível em: https://centinelas.es/en/la-nueva-ruta-de-la-seda-y-las-inversiones-chinas-en-etiopia-2/ . Acesso em: 24 mai. 2026.
MONTENEGRO, Renan Holanda Montenegro; OLIVEIRA, Octávio Henrique Alves Costa. Digital Silk Road and Cyberpolitics in Africa: The Ethiopian Case. IDEAS, [S.l], 2025. Disponível em: https://ideas.repec.org/h/spr/sprchp/978-3-031-80400-7_15.html Acesso em: 23 mai. 2026.
OSSA, Temesgen Woldetsadik. Ethiopia's Membership in BRICS: Opportunities and Challenges. International Journal of Research and Innovation in Social Science (IJRISS), Lobachevsky State University, Russia, 22 mai. 2026. Disponível em: https://doi.org/10.47772/IJRISS.2026.100500022 . Acesso em 23 mai. 2026.
SCHNEIDER, Guilherme Barcha. Ethiopia and BRICS: From Membership to Strategic Economic Partnership. BRICS Russia, [S.l], 21 jan. 2026. Disponível em: https://infobrics.org/en/post/78698/ . Acesso em: 24 mai. 2026.
Por Lívia Maria de Carvalho
Data: 18/05/2026
A expansão da chamada “Health Silk Road” demonstra como a saúde deixou de ser apenas uma questão humanitária para se tornar também uma ferramenta estratégica de poder internacional. Integrada à Belt and Road Initiative, a iniciativa chinesa combina investimentos em áreas da saúde e de cooperação sanitária para ampliar a presença de Pequim no sistema internacional.
Para o pesquisador Paul Frimpong, a cooperação chinesa na área da saúde representa uma oportunidade para países africanos solidificarem suas infraestruturas hospitalares, o acesso a medicamentos e à tecnologia médica.
A atuação chinesa aparece, nessa perspectiva, como parte de uma parceria baseada em desenvolvimento mútuo e cooperação Sul-Sul, especialmente em um momento de redução do apoio ocidental à saúde global. A China vem ampliando sua presença no continente por meio da construção de hospitais, envio de equipes médicas, acordos farmacêuticos e investimentos em saúde pública. Durante e após a pandemia, o Estado chinês fortaleceu ainda mais essa projeção internacional, utilizando a saúde como eixo central de sua diplomacia.
Por outro lado, há uma leitura mais estratégica dessa expansão. A “Health Silk Road” também funciona como instrumento de soft power chinês, ampliando a influência política, econômica e diplomática da China em regiões consideradas estratégicas. Nessa perspectiva, a ajuda humanitária deixa de ser apenas cooperação internacional e passa a integrar uma disputa global por influência.
Com isso surge uma questão central nessa suposta ajuda altruísta chinesa: a atuação chinesa na África representa uma alternativa legítima ao modelo ocidental de desenvolvimento ou uma nova forma de projeção de poder global?
REFERÊNCIAS
BURGESS, Bryan. China’s Health Silk Road and Soft Power. Think Global Health, [S.l], 20 apr. 2026. Disponível em: https://www.thinkglobalhealth.org/article/chinas-health-silk-road-and-soft-power. Acesso em: 18 mai. 2026.
MUTETHYA, Edith. China expected to help Africa's health industry. China Daily, [S.l], 10 mar. 2026. Disponível em: https://www.chinadaily.com.cn/a/202603/10/WS69af7342a310d6866eb3ce5c.html. Acesso em: 18 mai. 2026.
A IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA DO QUÊNIA PARA A ROTA DA SEDA DIGITAL - ESTUDO DE CASO
Por Maria Fernanda Neiva
CONTEXTO DO PAÍS
O Quênia é um país localizado na África Oriental, no litoral do Oceano Índico e fazendo fronteira com cinco países: Uganda, Sudão do Sul, Etiópia, Somália e Tanzânia. O país possui uma economia relativamente estável com forte setor de serviços e crescente aumento na variedade de exportações desde o último século, desde produtos alimentícios até veículos. Desde a Crise de 2008, o país vem direcionando recursos para o desenvolvimento e industrialização da nação pelo programa Kenya Vision 2030.
SOBRE A ROTA DA SEDA DIGITAL
Fundada em 2015 como a parte tecnológica da Iniciativa Cinturão e Rota, a Rota da Seda Digital visa construir infraestruturas digitais como centros de dados e telecomunicações e satélites em países parceiros. Atualmente, somam-se cerca de 40 países com parcerias tecnológicas com a China, estes frequentemente encontram-se no Oriente Médio, no Sudeste Asiático e na África. Além disso, a Rota da Seda Digital vem se tornado cada vez mais substancial para a cooperação internacional e da política externa chinesa. visando acompanhar o crescimento acelerado do uso de inteligências artificiais e desenvolver redes de telecomunicações, e-commerces, e da necessidade de otimização de medidas de cibersegurança nos governos dos países beneficiários.
RELAÇÕES CHINA - QUÊNIA
A China, como uma das maiores investidoras em tecnologia e informação em todo o continente africano, possui relações diplomáticas estáveis com o Quênia desde a independência do país em 1963, mas os países estabeleceram relações estratégicas visando principalmente o comércio e a cooperação em 2017.
A China contribuiu com os setores de turismo, educação, agricultura, tecnologia, entre outros. Recentemente, tem prestado apoio financeiro a grandes projetos de infraestrutura, principalmente no setor de transporte ferroviário, proporcionando também reformas legais, operacionais e técnicas para assegurar a expansão do setor de maneira mais sustentável.
IMPACTOS NA ROTA DA SEDA DIGITAL
Através de um estudo de caso, o Center for a New American Security (CNAS) analisa o papel do Quênia como uma liderança política e econômica forte na África Ocidental com altos índices de desenvolvimento tecnológico na região, que somados a um bom ambiente de negócios e uma democracia solidificada torna o país atraente para investimentos estrangeiros em larga escala para o “Vale do Silício da Savana”. A posição estratégica e importância geopolítica do Quênia fez com que o país tenha se tornado um parceiro comercial muito disputado pelos Estados Unidos e pela China, dois países com laços longevos com o estado queniano, sendo o primeiro o maior mercado consumidor do Quênia (além de colocá-lo como o único aliado africano), e o segundo, o maior parceiro comercial do país. À longo prazo, as parcerias com grandes potências tecnológicas podem influenciar na diplomacia digital queniana, na modernização tecnológica através de investimentos na expansão do Vale do Silício da Savana.
REFERÊNCIAS
AU, Adam; CHEN, Felicia Feiran. China expands AI globally through the Digital Silk Road. East Asian Forum, 2025. Disponível em: https://eastasiaforum.org/2025/04/11/china-expands-ai-globally-through-the-digital-silk-road/ . Acesso em 28 abr. 2026.
CHILUKURI, Vivek; SCANLON, Ruby. Countering the Digital Silk Road: Kenya. Center for a New American Security,. Washington D.C, 2025. Disponível em: https://www.cnas.org/publications/reports/countering-the-digital-silk-road-kenya . Acesso em: 27 abr. 2026.
KENYA, Ministry of Foreign Affairs. Kenya China Relations, 2025. Disponível em: https://www.mfa.go.ke/kenya-china-relations . Acesso em 27 abr. 2026.
KURLANTZICK, Joshua; WEST, James. Assessing China's Digital Silk Road Initiative: A Transformative Approach to Technology Financing or a Danger to Freedoms?. Council on Foreign Relations, 2025. Disponível em: https://www.cfr.org/china-digital-silk-road/#:~:text=The%20DSR%20could%20also%20help%20recipient%20countries,moderation%20%2C%20data%20localization%2C%20and%20surveillance%20. Acesso em 28 abr 2026.
PEOPLE'S REPUBLIC OF CHINA, Ministry of Foreign Affairs. China and Kenya Relations, 2025. Disponível em: https://www.fmprc.gov.cn/eng/gjhdq_665435/2913_665441/3014_664044/ . Acesso em 27 abr 2026.
OMINDE, Simeon Hongo. People of Kenya. Encyclopedia Britannica, 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Kenya/People#ref37532 Acesso em: 27 abr 2026.
THE VISION. Kenya Vision 2030, [S.l], [20--?]. Disponível em: https://vision2030.go.ke/# Acesso em: 27 abr 2026.
Por Lívia Carvalho
A África, ao longo da história, teve, majoritariamente, relações comerciais desvantajosas, baseadas na exploração de seus recursos naturais e de sua mão de obra pelo continente ocidental, o que acabou por atrasar seu desenvolvimento industrial e formar gargalos sociais. Entretanto, no século XXI, suas parcerias vêm adotando uma configuração diferente. A China tem se tornado um dos parceiros comerciais mais influentes no continente e tem buscado, ao contrário das grandes potências ocidentais, priorizar a transferência de capacidade produtiva, oferecendo alternativas de desenvolvimento econômico e social que se encaixem na realidade africana.
A Nova Rota da Seda tem impulsionado a industrialização africana por meio da construção de parques industriais, como a Zona de Cooperação Econômica e Comercial Zâmbia-China (ZCCZ), e da integração entre infraestrutura e produção local. Empresas chinesas respondem por grande parte do mercado de construção no continente (cerca de 61,9% somente em 2019), gerando empregos, fortalecendo cadeias de suprimento e conectando mercados regionais.
A aposta em produção voltada ao consumo local, em vez de apenas exportação. O compromisso chinês está em focar no desenvolvimento socioeconômico e no respeito às características particulares do continente tanto quanto no comercial.
Vem ocorrendo entre especialistas o debate sobre quais são os limites dos benefícios que tais iniciativas chinesas podem gerar nos países africanos. Muitos argumentam sobre o possível endividamento dos países após contraírem grandes empréstimos, tornando-os mais vulneráveis às empresas chinesas. A assimetria comercial e a entrada de produtos baratos da China podem sufocar o mercado interno africano, que é incapaz de abaixar seus preços para o nível chinês, junto à possível perda de soberania sobre ativos estratégicos. Ademais, os vários portos construídos pela China, na África, também servem como apoio logístico a navios militares chineses, ampliando sua presença geopolítica na região e criando a possibilidade de acirramento de disputas entre potências no continente.
REFERÊNCIAS
Tito - Geopolítica. A Nova Rota da Seda e seus impactos na África. 2020. Disponível em: https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-rota-da-seda-e-seus-impactos-na-%C3%A1frica. Acesso em: 21 abr. 2026.
TRICONTINENTAL. A Nova Rota da Seda da China e a industrialização africana. 2023. Disponível em: https://thetricontinental.org/pt-pt/wenhua-zongheng-2023-3-nova-rota-seda-industrializacao-da-africa/. Acesso em: 21 abr. 2026.
Por: Matheus Cerqueira
Em abril de 2026, representantes dos governos da China e da Somália realizaram encontros de alto nível em Mogadíscio para consolidar uma parceria estratégica voltada à segurança e ao comércio. O movimento busca reafirmar o apoio de Pequim à integridade territorial somali e integrar o país definitivamente aos projetos de infraestrutura da Nova Rota da Seda, em um momento de crescente tensão diplomática na região (Hassan, 2026).
O aprofundamento das relações foi destacado pelo embaixador chinês na Somália, Wang Yu, que descreveu a China como uma "fonte de estabilidade e energia positiva" em um cenário mundial turbulento. Em artigo publicado em 5 de abril, o diplomata reforçou o compromisso com o desenvolvimento somali, citando a implementação de tarifas zero para exportações africanas a partir de maio de 2026. Segundo Wang Yu, a meta é construir uma "comunidade de futuro compartilhado", permitindo que a Somália amplie suas exportações de produtos pesqueiros e agrícolas para o vasto mercado chinês (Ministry of Foreign AffairsPeople’s Republic of China, 2026).
Este fortalecimento diplomático ocorre em um contexto internacional complexo, marcado pelo recente reconhecimento da independência da Somalilândia por Israel, em dezembro de 2025 (Baptista; Parakozov; Lee, 2025). A Somalilândia, que se autodeclarou autônoma em 1991, busca reconhecimento internacional, o que tem gerado forte oposição de Pequim (Zhang; Slodkowski, 2026). O Ministério das Relações Exteriores da China condenou o que classificou como "atividades separatistas" e conluio com forças externas, reiterando seu apoio total à soberania e unidade da Somália contra tentativas de fragmentação territorial (Baptista; Parakozov; Lee, 2025).
Para a iniciativa Belt and Road (Nova Rota da Seda), o Chifre da África é um pilar estratégico, servindo como uma porta de entrada vital para o comércio e a conectividade regional. A independência da Somalilândia, caso seja consolidada, representaria um grande problema para a logística chinesa na região. A fragmentação do território dificulta a implementação de infraestruturas de larga escala e compromete a segurança das rotas comerciais que Pequim planeja estabelecer, desafiando a visão de um corredor econômico unificado e estável sob a influência da parceria sino-somali (Ministry of Foreign AffairsPeople’s Republic of China, 2026).
REFERÊNCIAS
Mogadishu Talks. DawanAfrica, 14 abr. 2026. Disponível em: <https://www.dawan.africa/news/somalia-china-pledge-to-deepen-srategic-ties-in-mogadishu-talks> Acesso em: 28 abr. 2026.
Chinese Ambassador to Somalia Wang Yu Publishes an Article Titled “China: Source of Stability and Positive Energy in Turbulent World”on Somali National News Agency. Ministry of Foreign AffairsPeople’s Republic of China, 06 abr. 2026. Disponível em: https://www.fmprc.gov.cn/eng/xw/zwbd/202604/t20260408_11888205.html Acesso em: 28 abr. 2026.
Zhang, Yukun; Slodkowski, Antoni. China voices support for Somalia after top diplomat postpones visit, 11 jan. 2026. Disponível em: < https://www.reuters.com/world/china/china-voices-support-somalia-after-top-diplomat-postpones-visit-2026-01-11/ > Acesso em: 28 abr. 2026.
Baptista, Eduardo; Parakozov, Sfundo; Lee, Liz. China opposes recognition of Somaliland, affirms support for Somalia. Reuters, 29 dez. 2025. Disponível em: < https://www.reuters.com/world/china/china-opposes-recognition-somaliland-affirms-support-somalia-2025-12-29 > Acesso em: 28 abr. 2026.
Por: Matheus Amorim Ambósio
Em setembro de 2024, durante uma reunião do Fórum de Cooperação China-África em Pequim, Tanzânia e Zâmbia assinaram um memorando de entendimento (MoU) para a revitalização da linha ferroviária Tanzânia-Zâmbia (TAZARA), com um investimento de mais de um bilhão de dólares. O investimento vem em um momento de expansão da Iniciativa Cinturão e Rota e como um exemplo de cooperação entre os países.
A ferrovia foi construída em 1970, com financiamento e mão de obra chines, beneficiando Tanzânia e Zâmbia, possibilitando a este último uma forma de escoar seus produtos, se tratando de um país encravado (sem saída para o mar). Kaunda e Niyerere, então presidentes de Zâmbia e Tanzânia, respectivamente, buscaram incialmente um auxílio das nações como EUA, Reino Unido, e de instituições como Banco Mundial e ONU, que recusaram a proposta. A China emergiu então como uma parceira aos países do até então chamado “Terceiro Mundo”, estabelecendo uma nova promessa de cooperação. Foram 400 milhões de dólares investidos na ferrovia em um empréstimo sem juros e mais de 20 mil trabalhadores que auxiliaram em sua construção, que terminou 5 anos após seu início. A cooperação pode ser considerada como um exemplo de fraternidade socialista e um exemplo da postura panafricanista dos líderes locais.
O projeto de revitalização da ferrovia deve seguir um modelo semelhante aqueles da construção original por parte da China, em uma defesa da Cooperação Sul-Sul (CSS) em tempos marcados novamente por uma disputa geopolítica de divisão do mundo. Com a BRI expandindo seus projetos, os EUA, em conjunto com a União Europeia, investiram na renovação do Corredor de Lobito, que liga Zâmbia e a RDC à Angola.
A disputa de mercados e do desenvolvimento da infraestrutura desses países ocorre paralelamente à alta dos minerais críticos, aqueles que são considerados essenciais e estratégicos para a transição energética global. Nesse caso, se destacam os países da região, principalmente a RDC com sua produção de cobalto, componente para a construção das baterias de lítio; e a Zâmbia, um dos maiores produtores de cobre do mundo – minério utilizado principalmente na confecção de cabos elétricos.
Diante disso, os projetos da BRI enfrentam competição e precisam se mostrar diferenciar daqueles apresentados pelos países do Norte Global, e para isso será necessário dar continuidade às relações históricas através da CSS e de seus princípios fundamentais.
Fonte: NURDUN, Rahman. The Evolution of China’s Foreign Aid Perspective towards Africa: The Case Study of TAZARA Railway from the Cold War to the Present. Asian Studies, 2024.