Por Alice Helena Guimarães Amaral Bistene
Data: 11/09/2026
No início da Iniciativa da Nova Rota da Seda, a relação entre Oriente Médio e China foi pautada nas construções de rotas terrestres e marítimas no território e nas relações comerciais petrolíferas, prioridade do governo chinês para garantir fontes energéticas estáveis. Porém, com a evolução da Rota, outras áreas foram abordadas e desenvolvidas, como por exemplo, a transição energética para fontes renováveis nos países do Oriente Médio, com o investimento em tecnologias verdes, como painéis solares, turbinas eólicas e tecnologias de veículos elétricos, isto é, materiais essenciais para a mudança energética que possuem a China com líder das vendas globais.
A mudança das fontes energéticas utilizadas pelos países do Oriente Médio é essencial, tendo em vista que a economia da região é dependente de forma excessiva do petróleo e do gás natural, estes sendo não renováveis, ou seja, são finitos. Ao basear a maior parte do comércio de uma região em recursos que inevitavelmente irão acabar, a região se encontra em posição de vulnerabilidade, ademais a diminuição da emissão de dióxido de carbono global, constantes crises geopolíticas, como o atual conflito no Estreito de Ormuz causando uma crise no comércio do petróleo, e o aumento da instabilidade interna de países que são assolados por conflitos políticos internos.
Nesse sentido, de acordo com o Relatório de Investimentos da Iniciativa Cinturão e Rota da China 2025, o investimento em energia verde superou os anos anteriores, porém, de forma contraditória, teve juntamente o mais poluente. O investimento em petróleo e gás aumentou para cerca de US$ 71,5 bilhões, enquanto o financiamento em energia verde atingiu novos recordes, atingindo US$ 18,3 bilhões. A partir disso, é possível concluir que apesar do uso petrolífero ainda ser uma prioridade ao governo chinês, expandir o uso da tecnologia chinesa é atualmente um dos focos chineses com a Rota da Seda Digital, e as tecnologias verdes fazem parte dessa expansão. Um exemplo válido a ser citado como resultado desses financiamentos é a maior usina solar de um único local do mundo, que foi construída no deserto de Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos, construído pela China Machinery Engineering Corporation.
Além dos projetos desenvolvidos no Oriente Médio, o país pretende expandir o financiamento verde até os polos do Sul Global, declaração feita pelo Secretário de Finanças chinês, Paul Chan. Todo o investimento em países do Oriente Médio representa apenas uma parcela do futuro da transição energética. Cada vez mais a China cresce com a comercialização de equipamentos necessários para fabricação de energias renováveis, e pretende continuar liderando o mercado global dessas mercadorias.
REFERÊNCIAS
CHINA ajuda na transição verde do Oriente Médio. Xinhua Português, Cairo, 27 dez. 2024. Disponível em: https://portuguese.news.cn/20241227/af024a4960d3462997cd43a8abef6d8a/c.html. Acesso em: 14 set. 2026.
MIDDLE East. IEA, [s.1], [2026]. Overview. Disponível em: https://www.iea.org/regions/middle-east. Acesso em: 14 set. 2026.
NG, Kang-chung. Hong Kong to deepen ties with Global South and Middle East, finance chief says. South China Morning Post, [S.1] 13 set. 2026. Disponível em: https://www.scmp.com/news/hong-kong/hong-kong-economy/article/3367352/hong-kong-deepen-ties-global-south-and-middle-east-finance-chief-says. Acesso em: 14 set. 2026.
PETRÓLEO sobe quase 3% após ataques na Arábia Saudita e no Estreito de Ormuz. Forbes Brasil, [S.1], 14 set. 2026. Forbes Money Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-money/2026/09/petroleo-sobe-quase-3-apos-ataques-na-arabia-saudita-e-no-estreito-de-ormuz/. Acesso em: 14 set. 2026.
WANG, Christoph Nedopil. China Belt and Road Initiative (BRI) Investment Report 2025. Green Finance & Development Center, [S.1], 18 jan. 2026. Disponível em: https://greenfdc.org/china-belt-and-road-initiative-bri-investment-report-2025/. Acesso em: 14 set. 2026.
Por Heitor Assis Tavares
Data: 31/08/2026
A Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), ganhou importância estratégica no Oriente Médio ao aproximar a China de países fundamentais para as redes de comércio, energia e infraestrutura da região. Nesse processo, a Arábia Saudita ocupa uma posição central por sua localização e por seu peso econômico. A relação entre os dois países se fortaleceu especialmente após a criação da Vision 2030 (plano estratégico e transformador do governo da Arábia Saudita, lançado em 2016, com o objetivo de reduzir a dependência do país em relação ao petróleo e diversificar a economia), permitindo que os objetivos sauditas se conectassem aos investimentos chineses em seus planos de crescimento (Alqahtani, 2020; Alghannam, 2025).
Um dos aspectos mais relevantes dessa aproximação é a Rota da Seda Digital. A cooperação passou a envolver redes 5G, fibra óptica, computação em nuvem, inteligência artificial, cidades inteligentes e governo digital. Empresas chinesas, especialmente a Huawei, ampliaram sua presença no país, enquanto a Arábia Saudita busca utilizar essas tecnologias para transformar sua economia e diminuir sua dependência do petróleo. Assim, a iniciativa deixou de representar apenas estradas, portos e energia e passou também a envolver o controle e a construção de infraestruturas digitais essenciais (Alghannam, 2025).
Essa expansão também ocorre por meio de novos acordos em energia, investimentos, inteligência artificial, aplicações do sistema de navegação, transporte inteligente e energias renováveis. Ao mesmo tempo, a China mantém uma relação estratégica com o Irã, importante parceiro comercial e energético. A capacidade chinesa de dialogar simultaneamente com os dois países, apesar da rivalidade histórica entre a Arábia Saudita e o Irã, demonstra uma estratégia baseada menos em alianças rígidas e mais na construção de interesses econômicos e diplomáticos sobrepostos (Patrick, 2026).
Nesse sentido, a BRI no Oriente Médio pode ser entendida como uma ferramenta de projeção de poder que combina economia, tecnologia, energia e diplomacia. A aproximação com a Arábia Saudita amplia a presença chinesa no Golfo e fortalece sua Rota da Seda Digital, enquanto a manutenção dos vínculos com o Irã garante outro importante ponto de influência regional. Mais do que escolher um lado na rivalidade regional, a China procura ocupar uma posição própria, capaz de negociar com diferentes atores e transformar sua interdependência econômica em influência política, se firmando como a maior potência do sul global.
REFERÊNCIAS
ALQAHTANI, Khaled Mohammed. Does Saudi Arabia benefit from China’s Belt and Road Initiative? Journal of Management and Strategy, v. 11, n. 1, 2020. Disponível em: https://www.sciedupress.com/journal/index.php/jms/article/view/15803/0. Acesso em: 31 ago. 2026.
ALGHANNAM, Hesham. How China aligned itself with Saudi Arabia’s Vision 2030. Carnegie Endowment for International Peace, [S.l], 21 jan. 2025. Commentary. Disponível em: https://carnegieendowment.org/posts/2025/01/how-china-aligned-itself-with-saudi-arabias-vision-2030. Acesso em: 31 ago. 2026.
PATRICK, Igor. A Guerra no Irã testa a influência da China no Oriente Médio. Folha de S.Paulo, 3 mar. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/03/como-transicao-politica-no-ira-testa-influencia-da-china-no-oriente-medio.shtml. Acesso em: 31 ago. 2026.
Por Alice Helena Guimarães Amaral Bistene
Data: 24/08/2026
CCG E A ROTA DA SEDA
O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) é uma união política e econômica fundada em 1981, com o objetivo de integrar os países do golfo arábico, com discussões acerca do comércio, cooperação em segurança regional e diplomacia entre os integrantes do Conselho. São seis países que integram tal união, sendo eles: Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Historicamente, as relações entre China e o CCG são pautadas principalmente pelo fornecimento de energia do Golfo à China.
As trocas de recursos entre países tiveram aumentos substanciais desde 2013, com o lançamento da Iniciativa Cinturão e Rota da Seda, alcançando um novo patamar nas relações, visando novos cursos estratégicos e diálogos a respeito de energia, comércio, investimentos e segurança. Atualmente, governo chinês enxerga o Conselho muito além de fonte de recursos energéticos, mas também como um mercado comercial muito relevante, um importante centro de transporte ao longo da Iniciativa Cinturão e Rota da Seda.
COMÉRCIO INTERNACIONAL E PROJETOS DA NOVA ROTA DA SEDA
Desde 2013, a Nova Rota da Seda e o CCG ampliaram suas relações, a China tornou-se o maior parceiro comercial do conselho, ultrapassando os Estados Unidos e a União Europeia. Os produtos comercializados incluem desde maquinário e eletrônicos até equipamentos de energia renovável. Atualmente a China tem fornecido muito a esses países em questão de segurança, disponibilizando drones avançados, tecnologia de mísseis, segurança cibernética e tecnologias de dupla utilização. Além das questões econômicas, o governo chinês enxerga o valor estratégico da crescente influência política dos países membros do Conselho. A China possui a concepção que esses Estados se apresentam na atual ordem internacional multipolar como potências médias, que influenciam por meio da mediação, pela diplomacia econômica e a não interferência pautada em princípios que se alinham com a política externa chinesa.
A imagem acima demonstra o ranking de Exportações da China em países do Oriente Médio. Para Arábia Saudita (A), o valor das exportações chinesas somam $ 38.39B, ocupando o primeiro lugar de destino das exportações chinesas em países do Golfo Arábico. Em 4º lugar (D), Omã contabilizando $17.98B em exportações chinesas. As exportações chinesas dominam o primeiro lugar no país há mais de uma década. Em 5º lugar (E), Emirados Árabes Unidos com $15.3B, representando um novo território de negociações no escopo da BRI. Em 6º lugar (F), Kuwait, $14.48B representa o valor da receita chinesa de exportações no país. Em 7º lugar (G), Catar apresentava em 2020 uma relação tímida com a China, contando apenas com $9.6B, com seu comércio sendo relacionado a demanda chinesa por gás natural e a expansão do comércio de gás do Catar. Por fim, não foram encontrados dados sobre Bahrein.
A EXPANSÃO DAS RELAÇÕES
Para além das relações comerciais, a crescente aproximação entre os dois atores evidencia o fortalecimento de sua importância estratégica mútua. Na atual ordem internacional, visto os diversos conflitos ao redor do globo, como o conflito entre Estados Unidos-Israel e Irã, e Israel e Palestina, ficou em evidência a importância da cooperação e troca de recursos entre países. Em 2026, em consequência da tensão Estados Unidos-Israel-Irã, os países enxergaram a necessidade de outras alternativas dentro do sistema internacional, uma lógica que acelerou ainda mais a cooperação entre os atores. Essa intensificação na parceria foi causada pelo foco da China no fornecimento confiável de energia, tendo o Golfo como principal opção; e o Golfo necessitando de diversificar seus parceiros econômicos para além dos Estados Unidos, tendo a China como principal parceiro.
Recentemente, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, afirmou a necessidade de diálogo e negociações o mais rápido possível no conflito entre EUA e Irã, frisando que a escalada do conflito está repercutindo sobre o Oriente Médio e a região do Golfo. A China ao se posicionar desta forma, explícita a importância da região para o país, por deixar claro em seu discurso a preocupação especificamente com a região do Golfo e do Oriente Médio. Pensando na Nova Rota da Seda, a decisão iraniana de impedir as exportações de petróleo do Golfo e a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz caso o conflito continuasse, poderia atrapalhar fortemente o comércio de um importante centro de transporte e mercado comercial relevante do projeto chinês.
CONCLUSÃO
Partindo dos mais recentes acontecimentos citados anteriormente, pode-se concluir que na medida em que as relações econômicas da China com os países membros da CCG vão aumentando, cada vez mais a estabilidade da região é de interesse chinês, por ser algo que impacta dentro da Iniciativa Cinturão e Rota da Seda. Uma relação que se baseava principalmente em comércio energético, agora mobiliza uma declaração pública chinesa em apoio aos países membros do Conselho de Cooperação do Golfo, visando a cooperação que sustenta muito além de fornecimento de energia, mas também nos campos do comércio, dos investimentos, e da infraestrutura.
A Nova Rota da Seda representou uma mudança de perspectiva entre a China e o Conselho de Cooperação do Golfo, aprofundou a cooperação diplomática entre eles e, principalmente, ampliou a participação chinesa nas dinâmicas econômicas e geopolíticas do Oriente Médio.
REFERÊNCIAS
CHINA chama guerra dos EUA e Israel contra Irã de 'ilegítima', mas pede para iranianos liberarem Ormuz. CBN, [S.l], 06 mai. 2026. Mundo. Disponível em: https://cbn.globo.com/mundo/noticia/2026/05/06/china-chama-guerra-dos-eua-e-israel-contra-ira-de-ilegitima-mas-pede-para-iranianos-liberarem-ormuz.ghtml Acesso em: 26 ago. 2026.
CHINA says Middle East at critical point, calls for cooling tensions and dialogue. Reuters, Beijing, 24 ago. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/china/china-says-middle-east-critical-point-calls-cooling-tensions-dialogue-2026-08-24/. Acesso em: 24 ago. 2026.
REPRESENTAÇÃO Brasileira no Mercosul | Sigla – CCG. Câmara dos Deputados, [S.l], [20--?] Disponível em: https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-mistas/cpcms/siglas/siglario2/c/CCG.html. Acesso em: 24 ago. 2026.
THE MIDDLE East and China’s Belt and Road Initiative. Jahangir’s World Times, [S.l], 8 jan. 2020. Disponível em: https://www.jworldtimes.com/old-site/internationalaffairs/middle-east-chinas-belt-road-initiative/ Acesso em: 26 ago. 2026.
ZHANG, Chuchu; ZOUBIR, Yahia H. China–GCC relations in an emerging multipolar order. Middle East Council on Global Affairs, [S.l], 21 jul. 2026. Disponível em: https://mecouncil.org/publication/china-gcc-relations-in-an-emerging-multipolar-order/. Acesso em: 24 ago. 2026.