Por Fernanda Ramalho
Data: 18/09/2026
No dia 12 de setembro, Xi Jinping desembarcou em Nova Delhi para a 18ª cúpula do BRICS. Foi a primeira visita do presidente chinês à Índia em sete anos, um intervalo que reflete as tensões sobre a fronteira himalaia. Ele aproveitou para se reunir com Narendra Modi, reafirmando que Índia e China devem se ver como parceiras, e não rivais. Vale lembrar que esse é o relato do governo chinês, transmitido pelo chanceler Wang Yi.
O encontro veio depois de semanas de negociações intensas, mesmo com uma nova disputa de fronteira provocando trocas duras entre os dois governos. Em 25 de agosto, Wang Yi e o assessor de segurança indiano, Ajit Doval, combinaram em Pequim, seguir buscando uma solução aceitável, com nova rodada marcada para 2027. Em 6 e 7 de setembro, apenas dias antes da cúpula, comandantes militares se reuniram em Arunachal Pradesh, algo inédito no setor leste da divisa.
A disputa, porém, persiste sem perspectiva de encerramento próximo. Segundo a Gateway House, a China quer resolver um trecho de cada vez, a chamada "colheita antecipada", enquanto a Índia, apoiada no acordo de 2005, só aceita o encerramento se a fronteira inteira for fechada conjuntamente. No campo econômico, a Índia flexibilizou em março as regras para investimentos de países fronteiriços, recuando da resistência histórica aos projetos chineses. Essa abertura pode viabilizar projetos de infraestrutura e minerais críticos, dimensões essenciais para iniciativas chinesas de integração continental.
Para o Sul da Ásia, importa o rumo entre a Índia, maior potência regional e historicamente ambivalente à Iniciativa Cinturão e Rota, e a China. O caso ilustra dois atores dialogando sem resolver o principal atrito. Na cúpula, Modi alertou contra o uso de tecnologia e minerais críticos como armas econômicas, enquanto Xi oferecia ajuda em inteligência artificial, expandindo a cooperação chinesa. A China assume a presidência do BRICS em 2027, podendo aproximar os membros de suas prioridades de integração econômica e tecnológica.
REFERÊNCIAS
BASU, Nayanima. Modi-Xi: balancing, not reset. Gateway House, [S. l.], 17 set. 2026. Disponível em: https://www.gatewayhouse.in/modi-xi-balancing-not-reset/. Acesso em: 19 set. 2026.
BEIJING lauds India’s approach to China: ‘Independent of third-party influence’. The Week, [S. l.], 14 set. 2026. India. Disponível em: https://www.theweek.in/news/india/2026/09/14/india-china-partnership-brics.html. Acesso em: 20 set. 2026.
CHINA, India hold border talks, agree to continue search for boundary settlement. The Kathmandu Post, Beijing, 26 ago. 2026. World. Disponível em: https://kathmandupost.com/world/2026/08/26/china-india-hold-border-talks-agree-to-continue-search-for-boundary-settlement. Acesso em: 20 set. 2026.
MONTANINI, Marcelo. China e Índia: disputa de território. Nexo Jornal, [S. l.], 4 abr. 2024. Expresso. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2024/04/04/china-india-disputa-de-territorio. Acesso em: 21 set. 2026.
RAZDAN, Khushboo; CAO, Jiaxuan. Brics summit ends with Xi’s AI offer, Modi’s warning on critical minerals as weapons. South China Morning Post, Beijing, 13 set. 2026. Diplomacy. Disponível em: https://www.scmp.com/news/china/diplomacy/article/3367341/chinese-leader-pledges-help-brics-nations-ai-and-smart-manufacturing. Acesso em: 19 set. 2026.
Por Fernanda Ramalho
Data: 28/08/2026
CHINA, ÍNDIA E O NOVO CHOKEPOINT DAS TERRAS RARAS
Em outubro de 2025, a China ampliou seus controles sobre a exportação de terras raras e ímãs estratégicos, alcançando diferentes etapas da cadeia produtiva e aumentando a pressão sobre países da Ásia, Europa e outras economias que buscam reduzir sua dependência da China. Um mês depois, suspendeu temporariamente essas regras, mas manteve pronta a estrutura legal para reativá-las quando quiser.
Para a Índia, isso expõe uma fragilidade real: o país importa cerca de 90% de suas necessidades de terras raras justamente da China, um insumo essencial para veículos elétricos, energia limpa e defesa. É diante desse cenário que a Índia tenta reduzir a dependência e ganhar mais controle sobre insumos que estão sob forte controle chinês.
O DOMÍNIO CHINÊS DA CADEIA DE TERRAS RARAS
A China responde por cerca de 60 a 70% da mineração mundial de terras raras, mas seu verdadeiro poder está no processamento: quase 90% da capacidade global de refino e cerca de 94% da produção mundial de ímãs permanentes.
Em outubro de 2025, a China usou esse domínio como uma ferramenta de política externa: passou a exigir licença chinesa até para produtos fabricados fora do país que contenham insumos chineses acima de 0,1% do valor. É justamente esse controle sobre uma etapa difícil de substituir que caracteriza um “chokepoint”: um ponto da cadeia em que poucos países conseguem oferecer alternativas.
Imagem 1 - Reserva Mundial de Terras Raras
Fonte: Asia Financial (2025).
A DEPENDÊNCIA INDIANA EM NÚMEROS
A Índia tem cerca de 8% das reservas mundiais de terras raras, mas responde por menos de 1% da mineração global, resultado de décadas de controle estatal sobre o setor. Essa baixa capacidade produtiva tornou o país altamente dependente das importações.
O gráfico a seguir mostra que as importações indianas de terras raras aumentaram de 1.848 toneladas em 2019–20 para 2.270 toneladas em 2023–24. Quando os controles chineses de 2025 entraram em vigor, estoques industriais indianos duraram apenas algumas semanas, evidência direta da fragilidade dessa cadeia de suprimentos.
Imagem 2 - Total de importações indianas de terras raras por categoria (metais/ligas, compostos e ímãs), ano a ano.
Fonte: Observer Research Foundation (2026).
A RESPOSTA INDIANA
A Índia respondeu com um pacote de medidas: a National Critical Mineral Mission (NCMM), lançada em 2025, com orçamento inicial de cerca de US$ 1,7 bilhão para integrar exploração, processamento, reciclagem e reservas estratégicas de minerais críticos. Em março de 2025, o país liberou a mineração de terras raras à iniciativa privada, encerrando décadas de monopólio estatal. Em novembro do mesmo ano, aprovou um programa de incentivo de cerca de US$ 763 milhões voltado à fabricação de ímãs permanentes sinterizados, e o orçamento 2026-27 anunciou a criação de corredores dedicados à mineração e à produção de ímãs em Odisha, Kerala, Andhra Pradesh e Tamil Nadu.
Ao mesmo tempo, a Índia tem fechado acordos bilaterais para diversificar fornecedores de minerais críticos e urânio, incluindo parcerias recentes com países da América Latina e da África, mostrando que a busca por autonomia também passa por reduzir a dependência de um único fornecedor global.
Imagem 3 - Corredores estratégicos para terras raras criados na Índia
Fonte: The Recykal Review (2026).
MINERAIS COMO PODER
O controle de insumos estratégicos como as terras raras é uma forma de poder comparável a outros "chokepoints" históricos, como o controle de estreitos marítimos. Ao regular a exportação de matérias-primas, tecnologia e produtos fabricados no exterior com insumos chineses, a China passou a controlar cadeias inteiras, desde veículos elétricos até defesa. Para a Índia, a disputa com a China não se resume a fronteiras ou comércio, pois envolve também não depender de decisões tomadas pelo governo chinês para manter setores estratégicos funcionando.
O PAPEL DA CHINA NAS CADEIAS DE MINERAIS CRÍTICOS
O caso indiano é a expressão bilateral de uma estratégia chinesa mais ampla de controle sobre cadeias globais de minerais críticos, na qual a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) funciona como um dos principais instrumentos de acesso a essas matérias-primas fora da China. Segundo o Africa Center for Strategic Studies, bancos estatais chineses concederam US$ 24,9 bilhões em empréstimos ligados à BRI para mineração só no primeiro semestre de 2025, além de cerca de US$ 57 bilhões entre 2000 e 2021 para minerais de transição energética (entre eles, terras raras) em países em desenvolvimento.
Financiar, minerar e transportar minerais estratégicos no exterior sustenta o quase monopólio chinês sobre o refino e a fabricação de ímãs, sendo a base do poder de pressão da China sobre países dependentes, como a Índia. A BRI não causou os controles de exportação, mas faz parte da mesma lógica: transformar cadeias minerais em instrumento de influência econômica e geopolítica.
REFERÊNCIAS
Abundance & Scarcity: What India's Resource Story Really Telling Us. The Recykal Review, [S.l.], [s.d.], 19 fev. 2026. Disponível em: https://www.linkedin.com/pulse/abundance-scarcity-what-indias-resource-story-really-telling-q2ldc/. Acesso em: 31 ago. 2026.
BURGUERS, Tobias; VU, Hoang Trung. Why the World's Hedging Responses to China's Rare Earth Dominance Have Failed. The Diplomat, [S.l], 21 aug. 2026. East Asia. Disponível em: https://thediplomat.com/2026/08/why-the-worlds-hedging-responses-to-chinas-rare-earth-dominance-have-failed/. Acesso em: 25 ago. 2026.
MANKIKAR, Kalpit A.; ALOK, Amit Ranjan. "Chokepoint Politics": China's Rare-Earth Statecraft and India's Search for Strategic Autonomy. ORF (Observer Research Foundation), [S.l], 15 jul. 2026. Occasional Papers. Disponível em: https://www.orfonline.org/research/-chokepoint-politics-china-s-rare-earth-statecraft-and-india-s-search-for-strategic-autonomy. Acesso em: 25 ago. 2026.
NANTULYA, Paul. China's Critical Minerals Strategy in Africa. Africa Center for Strategic Studies, [S.l], 9 dez. 2025. Spotlight. Disponível em: https://africacenter.org/spotlight/china-africa-critical-minerals/. Acesso em: 27 ago. 2026.
POLLARD, Jim. Carmakers stressed by China's curbs on critical mineral exports. Asia Financial, [S.l.], 4 jun. 2025. Disponível em: https://www.asiafinancial.com/carmakers-stressed-by-chinas-curbs-on-critical-mineral-exports. Acesso em: 31 ago. 2026.
SCHIPANI, Andres; FILDES, Nic. Narendra Modi steps up India's hunt for uranium and critical minerals. Financial Times, New Delhi; Sydney, 17 jul. 2026. Indian politics and policy. Disponível em: https://www.ft.com/content/c5868e2f-8d19-4393-93be-2ad726a636a1. Acesso em: 26 ago. 2026.
SINGH, Satyam; RAJA, Waseem; KUMAR, Sandeep; UPPAL, Akriti; RANI, Neeta. India-Middle East-Europe Economic Corridor: A Strategic Energy Alternative. Energy Research Letters, v. 6. n. 4, 16 mar. 2025. Disponível em: https://erl.scholasticahq.com/article/123649-india-middle-east-europe-economic-corridor-a-strategic-energy-alternative. Acesso em: 27 ago. 2026.
Por Anna Beatriz Silvino
Data: 28/06/2026
A presença chinesa no Sul da Ásia não está mais relacionada apenas a portos, ferrovias e rodovias. Desde 2026, a China também vem aumentando sua influência na região por meio da exportação de veículos elétricos, baterias e infraestrutura de recarga. Em abril de 2026, a Ásia se tornou o maior mercado comprador de veículos elétricos chineses, com as exportações aumentando quase 40%. Nesse cenário, países como Nepal, Bangladesh, Sri Lanka, Paquistão, Butão e Maldivas aparecem como mercados importantes para a expansão chinesa.
Esse movimento pode ser relacionado à lógica da Nova Rota da Seda. Assim como acontece com outros projetos de infraestrutura, a China não está apenas exportando os veículos, mas também tecnologias, baterias e equipamentos necessários para esses países. Com isso, os países que passam a utilizar essas tecnologias também aumentam sua relação com empresas e cadeias de produção chinesas.
A participação do governo chinês também é importante nesse processo. Em janeiro de 2026, a China doou 100 ônibus elétricos ao Sri Lanka, que seriam utilizados em rotas entre Colombo, Kandy e Galle. O Nepal também recebeu iniciativas semelhantes. Além de ajudar na modernização do transporte público, essas ações aumentam a presença chinesa no setor de mobilidade desses países.
Esses casos mostram que a expansão dos veículos elétricos não envolve apenas a venda dos carros, mas também uma maior participação chinesa nas cadeias de produção e na infraestrutura necessária para esse mercado.
Para a Índia, esse avanço representa um desafio. O país ainda depende bastante da China para a produção de veículos elétricos, principalmente quando se trata das baterias de íon lítio. Cerca de 75% das baterias utilizadas na Índia são importadas da China, enquanto a produção nacional ainda está muito abaixo da meta estabelecida pelo governo. Mesmo com programas como o PM E DRIVE e o PLI, a Índia ainda não conseguiu diminuir essa dependência.
Dessa forma, os veículos elétricos passam a ser mais uma área de disputa por influência no Sul da Ásia. A presença chinesa na região não envolve somente grandes obras de infraestrutura, mas também tecnologias que estão cada vez mais presentes no cotidiano dos países.
REFERÊNCIAS
FUEL hikes set stage for India-China collab on e-mobility. China Global South Project, 30 jun. 2026. Disponível em: https://chinaglobalsouth.com/analysis/india-china-ev-partnership-transform-e-mobility/. Acesso em: 24 ago. 2026.
GOWDARA SHIVAMURTHY, Aditya; KAPOOR, Sakshi. Driving influence: China's EV strategy in South Asia and implications for India. ORF, 2026. Disponível em: https://www.orfonline.org/expert-speak/driving-influence-china-s-ev-strategy-in-south-asia-and-implications-for-india. Acesso em: 23 ago. 2026.
GUPTA, Alok. Fuel hikes set stage for India-China collab on e-mobility. Dialogue Earth, 12 jun. 2026. Disponível em: https://dialogue.earth/en/energy/fuel-hikes-set-stage-for-india-china-collab-on-e-mobility/. Acesso em: 24 ago. 2026.
INDIA eyes EV supply chain independence from China. Journal of Supply Chain, 2 jul. 2026. Disponível em: https://journalofsupplychain.com/news/india-must-cut-china-dependence-in-ev-supply-chain-says-pmo-advisor. Acesso em: 23 ago. 2026.
SHAH, Aditi. India file: China EV tech drives change under the hood. Reuters, 30 jun. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/india/india-file-china-ev-tech-drives-change-under-hood-2026-06-30/. Acesso em: 22 ago. 2026.