Camisa de Corações:
a escuta ativa como instrumento de acessibilidade e transformação
na mediação judicial
Camisa de Corações:
a escuta ativa como instrumento de acessibilidade e transformação
na mediação judicial
Na mediação e conciliação, às vezes, o que abre caminhos não é um argumento jurídico, mas um simples gesto de humanidade.
Era mais uma audiência virtual, como tantas outras. Ao entrar na sala, ouvi uma voz firme, apressada:
— Bom dia. A autora é cega.
A frase, embora informativa, chegou como um aviso ríspido. Não houve tempo para conexões. Mas como conciliadora, aprendi que cada início é uma chance de recomeçar.
Respirei, sorri (mesmo que não pudessem me ver) e disse:
— Bom dia a todos. Antes da declaração de abertura, peço licença para fazer a minha autodescrição e descrever o espaço desta sessão de conciliação.
E então me voltei à parte autora:
— Dona Julia, me chamo Fernanda. Sou branca, cabelos compridos e um pouco despenteados, pois estou usando fones de ouvido. Meus olhos são castanhos claros, estou com um óculos de leitura bem colorido e, neste momento, falo de dentro do que parece uma televisão cheia de quadradinhos menores — é o que chamamos de sala virtual de audiência de conciliação, realizada por meio do computador. Estou muito feliz em receber a senhora aqui, assim como todos os demais participantes.
Um silêncio diferente tomou conta da sala. Dona Julia, até então em silêncio, me agradeceu emocionada. Disse que jamais havia imaginado como era uma audiência — e que, até aquele momento, tudo o que podia perceber era o som da minha voz.
✨ Foi o som da escuta acolhedora que abriu as portas daquele encontro.
Antes mesmo da minha declaração de abertura, o representante da parte ré — emocionado — pediu a palavra fora da ordem:
— Fernanda, me permita um adendo. Eu nunca tinha visto isso. E antes mesmo da fala da advogada da parte autora, gostaria de dizer à Dona Julia: hoje teremos o tão esperado acordo.
Silêncio.
Um silêncio bom, denso, cheio de significados. Um silêncio onde se podia quase ouvir o sorriso nos rostos das pessoas.
Na sequência, a advogada falou, os valores foram ajustados e o acordo foi firmado.
Mas o maior acordo daquela manhã não foi jurídico. Foi emocional, humano, sensível. Foi um acordo entre mundos distintos, que se encontraram pela escuta verdadeira.
Ao final da audiência, Dona Julia pediu a palavra. Já mais leve, confiante, sorrindo com a voz:
— Muito mais importante que o valor recebido foi a senhora me reconhecer. Hoje, eu não apenas ganhei o processo. Eu ganhei o dia. A semana. O meu coração está aqui. Obrigada por me tratar com tanto carinho.
Antes de encerrar, sorri e confessei:
— Dona Julia, além de tudo que descrevi, estou vestindo a minha camisa da sorte: vermelha, cheia de corações brancos. Tenho certeza que ajudou o meu e o seu dia.
🛠 Ferramentas de Conciliação e Mediação Utilizadas:
Rapport imediato: iniciado com um “bom dia” genuíno e um gesto de empatia.
Acolhimento ativo: escuta sensível que transforma ambientes virtuais em espaços de conexão real.
Autodescrição com afeto: ferramenta de inclusão e respeito à dignidade da parte.
Empoderamento: devolver voz e participação à parte cega, reconhecendo-a como protagonista.
Gestão emocional do grupo: uso do silêncio, da escuta e do tempo certo para promover a cooperação.
Uso da linguagem simples: aproximando, explicando e criando segurança emocional.
Flexibilidade processual com ética: adaptando a condução sem comprometer a imparcialidade.
🌱 Conclusão
O acordo mais poderoso não foi assinado. Foi sentido.
Na mediação, a escuta é uma veste. E naquele dia, a minha camisa de corações se tornou também a armadura do afeto — onde cabiam todos.
Porque, no fim, fazer acessibilidade é construir imagens com palavras e oferecer ao outro a chance de montar sua própria história.
E se isso não for amor, então, o que mais seria?
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