A escola das almas
A família: reunião de espíritos em reajuste
Necessidade de colaboração e renúncia
Conflitos domésticos
Um dos mais graves problemas humanos está na dificuldade de convivência no lar. Pessoas que enfrentam desajustes físicos e psíquicos têm, não raro, uma história de incompatibilidade familiar, marcada por frequentes conflitos.
Há quem os resolva de forma sumária: o marido que desaparece, a esposa que pede divórcio, o filho que opta por morar distante.
Justificando-se em face das tempestades domésticas alguns espíritas utilizam o conhecimento doutrinário para curiosas racionalizações:
- Minha mulher é o meu carma: neurótica, agressiva, desequilibrada. Que fiz de errado no passado, meu Deus, para merecer esse 'trem"?
- Só o Espiritismo para me fazer tolerar meu marido. Aguento hoje para me livrar depois. Se o deixar agora terei que voltar a seu lado em nova encarnação. Deus me livre! Resgatando meu débito não quero vê-lo nunca mais!
Realmente, em relacionamentos explosivos que ocorrem em muitos lares há o que poderíamos definir como "compromisso cármico". Espíritos que se prejudicaram uns aos outros e que, não raro foram inimigos ferozes, reencontram-se no reduto doméstico.
Unidos não por afetividade, nem por afinidade, e sim por imperativos de reconciliação, no cumprimento das leis divinas, enfrentam inegáveis dificuldades para a harmonização, mesmo porque conservam, inconscientemente, a mágoa do passado. Daí as desavenças fáceis que conturbam a vida familiar. Naturalmente situações assim não interessam à nossa economia física e psíquica e acabam por nos desajustar.
Imperioso considerar, todavia, que esses desencontros são decorrentes muito mais de nosso comportamento no presente do que dos compromissos do pretérito. Não seria razoável Deus nos reunir no lar para nos agredirmos e magoarmos uns aos outros.
Henrique Rodrigues, conhecido expositor espírita, teve uma expressão feliz a respeito do assunto:
É incrível, mas somos ainda tão duros de coração, como dizia Jesus, que não conseguimos conviver pacificamente. Reunamos duas ou mais pessoas numa atividade qualquer e mais cedo ou mais tarde surgirão desentendimentos e desarmonia. Isso ocorre principalmente no lar, onde não há o verniz social e damos livre curso ao que somos, exercitando o mais conturbador de todos os sentimentos, que é a agressividade.
Neste particular, o estilete mais pontiagudo, de efeito devastador, é o palavrão. Pronunciado sempre com entonação negativa, de desprezo, deboche ou cólera, é qual raio fulminante. Se o familiar agredido responde no mesmo diapasão, o que geralmente acontece, "explode' o ambiente, favorecendo a infiltração de forças das sombras. A partir daí tudo pode acontecer: gritos, troca de insultos, graves ofensas e até agressões físicas, sucedidos, invariavelmente, por estados depressivos que desembocam, geralmente, em males físicos e psíquicos.
Se desejamos melhorar o ambiente doméstico, em favor da harmonização, o primeiro passo é inverter o processo de cobrança.
Normalmente os membros de uma casa esperam demais uns dos outros, reclamando atenção, respeito, compreensão, tolerância... A moral cristã ensina que devemos cobrar tudo isso sim, e muito mais, mas de nós mesmos, porquanto nossa harmonia íntima depende não do que recebemos, mas do que damos. E, melhorando-nos, fatalmente estimularemos os familiares a fazer o mesmo.
Todos aprendemos pelo exemplo, até o amor. Está demonstrado que crianças carentes de afeto têm muita dificuldade para amar. Será que estamos dando amor aos familiares?
Não é fácil fazê-lo porquanto somos Espíritos muito imperfeitos. Mas foi para nos ajudar que Jesus esteve entre nós, ensinando-nos como conviver harmoniosamente com o semelhante, exercitando valores de humildade e sacrifício, marcados indelevelmente pela manjedoura e pela cruz.
Um companheiro afirma, desalentado:
- Tenho feito todo o possível para harmonizar-me com minha esposa, cumprindo o Evangelho. Esforço quase inútil, porquanto ela é uma pessoa intratável, sempre irritada e agressiva. Não sei o que fazer...
Talvez lhe falte um tanto mais de perseverança, já que é impossível alguém resistir indefinidamente à ação do Bem..Parta-se do princípio lógico: "Quando um não quer, dois não brigam". Não existem brigas unilaterais.
Em qualquer circunstância, em favor de, nossa paz, é importante perseverarmos nos bons propósitos, cumprindo a recomendação de Jesus: Perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete.
Quem sempre perdoa, mantém sempre o próprio equilíbrio.
- Exerça severa vigilância sobre o que fala. Geralmente as desavenças no lar têm origem no destempero verbal
- Diante de familiares difíceis, não diga: "É minha cruz!" O único peso que carregamos, capaz de esmagar a alegria e o bom-ânimo, é o de nossa milenar rebeldia ante os sábios desígnios de Deus.
- Elogie as virtudes do familiar, ainda que incipientes, e jamais critique seus defeitos. Como plantinhas tenras tanto uns como outros crescem na proporção em que os alimentamos.
- Evite, no lar, hábitos e atitudes não compatíveis com as normas de civilidade vigentes na vida social. Sem respeito pelos companheiros de jornada evolutiva fica dificil sustentar a harmonia doméstica.
- Cultive o diálogo. Diz André Luiz que quando os componentes de um lar perdem o gosto pela conversa, a afetividade deixa a família.
Eram encargos normais, saudáveis: cuidar dos filhos, dirigir o lar, instruir a doméstica, efetuar compras. Mas Zilda aborrecia-se. Sentia-se frustrada. Ninguém parecia reconhecer seu esforço. Além do mais, sonhava trabalhar fora, ter seu próprio dinheiro, freqüentar uma Faculdade, alargar horizontes...
Irritava-se com frases pomposas, tipo "rainha do lar" ou "doadora da Vida”, que lhe pareciam engodos masculinos para estimular a submissão das mulheres.
Resolveu consultar um psicólogo, desses modernos, idéias arejadas, "prá-frente'... Expôs-lhe suas angústias.
- Minha cara Zilda - orientou o profissional, enfático. - Seu problema fundamental é aprender a gostar um pouco de si mesma! Solte-se! Conquiste seu espaço!
- O senhor tem razão! Anseio por vôos mais altos, além da rotina... No entanto, estou amarrada. Os encargos domésticos são numerosos. A família precisa de mim. Alguém deve ficar na retaguarda...
- Esqueça! No momento é preciso cuidar de seu bem-estar. Ninguém deve ser mais importante do que você mesma! Liberte-se! Seja autêntica! Exercite suas próprias asas!
Sob orientação do psicólogo Zilda começou a mudar. Encontrou tempo para o massagista, o tratamento de beleza, a ginástica. Importante afinar a silhueta, rejuvenescer.. Em breve matriculou-se em curso de nível superior, conseguiu emprego de meio expediente, entrosou-se com novas amigas, igualmente "avançadas” ...
Sem tempo para o lar, este começou a apresentar problemas. O desleixo tomou conta, os filhos foram descuidados. O esposo, perplexo, indagou-lhe o porquê de tantas mudanças...
- É preciso cuidar de mim mesma. Tenho sido uma escrava. Chegou o tempo de minha libertação. Vocês se virem !...
Empolgada pela própria audácia, Zilda distanciou-se progressivamente da família até que, concluindo que precisava de mais espaço, partiu para cidade distante, integrada em serviço promissor. Aparecia apenas nos fins de semana, visita em sua própria casa. Era preciso cuidar de si mesma!
Todavia, não chegou a parte alguma, alienada das realidades mais simples, perdida em caminhos tortuosos. Embora livre para movimentar-se, jamais se libertou da angústia e da insatisfação, nem da impertinente sensação de que talvez fosse mais feliz 'como humilde "rainha do lar?
No dicionário da Vida, felicidade é sinônimo de doação. Por mais sofisticadas e brilhantes sejam as idéias não resolveremos o problema de nossa estabilidade Intima, nem nos realizaremos como filhos de Deus, enquanto pensarmos muito em nós mesmos. Quem se fecha em si, sufoca-se em estreitos limites, ainda que se julgue na amplidão.
Os movimentos feministas são respeitáveis quando reivindicam os direitos da mulher como ser humano, com aspirações inerentes à sua condição. Cometem, entretanto, grave engano quando, pretextando sua libertação, a induzem a aborrecer-se com os encargos domésticos, negligenciando as sagradas tarefas da maternidade, em que a mais nobre, a mais sublime de todas as missões lhe é confiada: preparar os filhos para a Vida, tarefa que lhe confere o supremo encargo de colaboradora de Deus.
Se fomos reunidos aqui e agora aos seres com os quais convivemos, é este, portanto, o melhor tempo de
solucionarmos comportamentos inconvenientes, posturas de vida intransigentes e promover
transformação interior, fatores impressindíveis para o crescimento de nossa alma.
Hammed
Referências bibliográficas:
Richard Simonetti – Uma razão para viver
Richard Simonetti – Endereço certo
Richard Simonetti – Atravessando a rua