Fernando Pessoa nasce em 1888.
Assiste-se nesse momento a uma crise civilizacional e cultural que questiona o saber científico baseado em "certezas" racionais e no progresso da Ciência.
Por toda a Europa há uma profusão de estéticas distintas, a saber, Impressionismo e Simbolismo (seguidismo da tendência europeia) e Neogarrettismo e Saudosismo (maior apego à literatura portuguesa e afastamento dos movimentos europeus).
Em 1916, Fernando Pessoa define a "arte moderna" como uma tendência para o culto de um "sentimento decadente" e pelo "fascínio pelo mundo mecânico que caracteriza a sociedade urbana em geral (máquinas, indústria, comércio, transportes e instrumentos).
Não podemos esquecer que a passagem de uma monarquia obsoleta para uma república revolucionária vão marcar profundamente a sociedade portuguesa.
A industrialização será uma marca determinante para o mundo futurista que a muitos parecia saído da ficção científica (barcos mais velozes, maquinaria diversa, instrumentos mecânicos de maior potência, luz elétrica, entre outros elementos que se podem apontar.
Emigração em massa para o Brasil e outros países da América Latina que se faz acompanhar de êxodos rurais para os centros urbanos.
Instabilidade governativa da primeira República.
Os movimentos de Modernismo e Vanguarda estão na ordem do dia e proliferam manifestações artísticas no sentido de quebrar modelos e estruturas consignadas como as esteticamente válidas.
O cânone é posto em causa, mediante experiências artísticas que tendem a ser cada vez mais de rutura com a Estética Eurocentrista.
Tertúlias e revistas são os órgãos máximos para a partilha e discussão da arte que se quer por oposição à arte dos tempos passados.
Fascínio por teorias novas que abalam a unidade das coisas e do mundo, fazendo da pluralidade e multiplicidade um lema de ação estética.
Fernando Pessoa falece a 30 de novembro de 1935.
[Texto de João Lourenço de Sousa Rodrigues]
Fernando Pessoa é um poeta moderno, no sentido em que questiona o cânone ocidental do seu tempo de forma radical. Pessoa representa para a literatura mundial um marco único, ou seja, há um A.P. e um D.P., isto é, um milénio literário antes de Pessoa e um milénio literário depois de Pessoa. Sobretudo a nível do sujeito poético que deixa de ser um único sujeito para passar a ser um sujeito plural que não é um nós, mas sim "eus" múltiplos. A galáxia heteronímica ultrapassa qualquer tentativa de fragmentação do "eu" da escrita de todos os tempos. Altamente ficcionada, trata-se de uma poética da alteridade por excelência, onde a fragmentação da identidade confronta aspetos unitários tidos e mantidos como a normatividade da expressão artística até ao século XX.
Centrada na expressão contraditória da existência humana (sentir/pensar), a poética pessoana questionou pela primeira vez o cânone literário centrado num "eu", "aqui" e "agora" para se multiplicar numa teia de relações constelares de identidades diversas que comunicam entre si. A criação poética (poesis) pessoana é de tal forma abrangente que pode ser aplicada como uma arte poética alargada a toda a criação artística. A teorização do fingimento como condição para a expressão artística, porque sempre pensada, põe fim a uma estética da identidade una, coesa e clássica por continuidade. As expressões literárias anteriores mantiveram a centralidade num EU finito, ainda que crítico (Camões, D. Francisco Manuel de Melo, Alexandre Herculano, Eça de Queirós [o pioneiro caso de Fradique Mendes], Antero de Quental, Camilo Pessanha, Cesário Verde a nível nacional) e reflexivo (The Metaphysical Poets, Jean Racine, Johan Wolfgang von Goethe, Nathaniel Hawthorne, Edgar Allan Poe, Conde de Lautréamont, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine, Walt Whitman, Charles Baudelaire, entre outros, a nível internacional).
O fenónemo literário "PESSOA" representa na literatura mundial a passagem para uma estética fragmentária, porque plural e múltipla, questiona a própria criação artística: "o poeta é um fingidor" ["Autopsicografia"] e o lema "ser muitos em todo o lado e já não saber quem é, tendo consciência desse dilema existencial. A expressão poética pessoana é da ordem do filosófico, porque demanda a existência nos limites do ontológico e do gnoseológico. Viver/Existir, Sentir/Pensar, Ser/Não Ser, Tudo/Nada são categorias dessa problematização, pois o poeta (sentido grego de alguém que faz alguma coisa pensada) ensaia na sua expressão poética o conflito primordial sobre a origem do mundo como ele é ou não é. No fundo, por detrás da poética pessoana está uma tradição filosófica anterior: Quem sou eu? O que faço aqui? Qual a medida e a razão de tudo ISTO? "Isto" que será uma carta determinante no baralho da galáxia heteronímica. Eu? Quem? Pessoa, Caeiro, Campos, Soares, Search, Reis...? Eu sentido? Eu pensado?
Daí, podermos dizer que há uma A.P. e D.P. em termos da História da Literatura Mundial. E essa é a grandeza desse HUMANO (sentir) POETA (pensar).
[Texto de João Lourenço de Sousa Rodrigues]