Quando as quatro fraternidades foram estabelecidas dentro de Auradon School, seus criadores perceberam que havia um problema que nenhuma regra, professor ou cerimônia seria capaz de resolver sozinho. As novas gerações que chegavam à escola não poderiam ser divididas simplesmente por suas famílias, seus reinos de origem ou pelo tipo de magia que carregavam. Cada aluno possuía uma essência própria, formada por escolhas, valores, medos, sonhos, convicções e pela maneira como enxergava o mundo. Era preciso encontrar uma forma de reconhecer aquilo que existia além daquilo que podia ser visto.
Foi então que Yen Sid, Fada Azul, Rumpelstiltskin e Malévola se reuniram pela primeira vez para criar algo que pudesse realizar essa tarefa. Os quatro eram extremamente diferentes entre si, e justamente por isso a criação se tornou possível. Cada um compreendia uma parte diferente da natureza daqueles que passariam pela escola. Yen Sid trouxe o conhecimento e a compreensão das forças mágicas, utilizando sua capacidade de enxergar a magia não apenas como poder, mas como uma ciência viva, formada por intenção, consequência e equilíbrio. Fada Azul trouxe a essência da esperança, da fé e daquilo que existe dentro de alguém mesmo quando nenhuma palavra consegue explicar. Rumpelstiltskin acrescentou o conhecimento sobre escolhas, desejos, consequências e sobre os caminhos que uma pessoa está disposta a percorrer para alcançar aquilo que realmente deseja. Malévola, por sua vez, trouxe a compreensão das vontades mais profundas, da independência, da força interior e das partes de uma pessoa que muitas vezes permanecem escondidas até mesmo dela própria.
Os quatro não queriam criar uma ferramenta capaz de julgar os estudantes. Queriam criar algo capaz de compreendê-los.
No centro de uma antiga câmara mágica da escola, os quatro fundadores colocaram diante de si um pequeno núcleo de cristal completamente transparente. Ele não possuía cor, brilho ou qualquer forma definida. Era apenas um receptáculo vazio, esperando pela magia que seria depositada nele. Cada fundador então ofereceu uma parte de seu próprio poder. A magia de Yen Sid envolveu o cristal como uma rede de conhecimento, permitindo que ele percebesse e interpretasse diferentes manifestações da essência mágica. A luz da Fada Azul penetrou seu interior e deu ao núcleo a capacidade de reconhecer sentimentos, esperanças e intenções verdadeiras. A magia de Rumpelstiltskin gravou nele o princípio das escolhas e de suas consequências, fazendo com que o artefato não observasse apenas aquilo que uma pessoa era naquele instante, mas também aquilo que suas decisões revelavam sobre quem ela desejava se tornar. Por fim, a magia de Malévola envolveu o cristal com uma energia profunda e poderosa, concedendo ao artefato a capacidade de enxergar além das aparências e reconhecer características que alguém poderia esconder do restante do mundo.
Quando as quatro magias finalmente se encontraram, o cristal começou a flutuar. As diferentes energias não se repeliram. Pelo contrário, começaram a se fundir umas às outras, formando uma esfera de luz que cresceu lentamente no centro da câmara. O brilho atravessou as paredes, percorreu os corredores da escola e alcançou cada canto do campus. Durante alguns instantes, ninguém conseguiu controlar o que estava acontecendo. O artefato havia deixado de pertencer aos seus criadores. As quatro magias haviam criado algo novo.
Assim nasceu o Orbe da Escolha.
O Orbe não recebeu uma programação ou uma lista simples de características. Ele foi criado para compreender. Ao longo dos anos, sua magia passou a observar milhares de escolhas, emoções, conflitos e decisões daqueles que atravessavam Auradon School, tornando sua percepção cada vez mais profunda. Por isso, nenhum estudante consegue descobrir exatamente o que o Orbe procura antes de se colocar diante dele.
Durante a cerimônia de escolha, cada aluno é chamado individualmente ao centro do Salão Principal. Quando se aproxima, o Orbe desperta e começa a reagir à sua presença. A energia ao redor da esfera muda de acordo com aquilo que ela percebe, mas suas reações não significam automaticamente que uma fraternidade específica foi escolhida. O Orbe observa primeiro. Ele reconhece a maneira como aquele estudante pensa, aquilo que valoriza, como enfrenta suas dificuldades, o que procura nas outras pessoas, como lida com poder e responsabilidade e, principalmente, quais princípios permanecem quando ninguém está olhando.
É nesse momento que o verdadeiro propósito da criação dos quatro fundadores se manifesta.
O Orbe não escolhe pela família. Um descendente de alguém associado à luz pode pertencer a uma fraternidade completamente diferente daquela que todos esperariam. Um descendente de um vilão pode possuir valores que o aproximem de outra casa. Um estudante extremamente poderoso pode ser escolhido por uma fraternidade cuja principal característica não seja o poder. Outro, aparentemente tranquilo e gentil, pode carregar uma determinação que o coloque em um caminho inesperado. Para o Orbe, nada disso é suficiente para definir alguém.
Depois de compreender a essência do estudante, o Orbe manifesta sua própria voz. Ele não recita a ficha daquele que está diante dele e não revela informações que qualquer pessoa já poderia conhecer. Em vez disso, fala sobre aquilo que percebeu. Suas palavras funcionam quase como um espelho, descrevendo características que talvez o próprio estudante nunca tivesse conseguido colocar em palavras. É uma breve leitura daquilo que existe em seu interior.
Somente depois disso o Orbe anuncia sua decisão.
A energia da esfera se transforma e a magia correspondente à fraternidade escolhida desperta ao redor do aluno. O nome da fraternidade é então proclamado pelo próprio Orbe, tornando a escolha definitiva. Os fundadores não interferem nesse momento. Mesmo que estejam presentes na cerimônia, nenhum dos quatro possui autoridade para alterar a decisão. O Orbe foi criado justamente para que a escolha pertencesse ao próprio estudante e àquilo que ele verdadeiramente carrega dentro de si.
Após o anúncio, os responsáveis pela escola podem complementar a cerimônia com algumas palavras, mas jamais contradizem ou questionam a decisão do Orbe. Em seguida, os membros mais antigos da fraternidade escolhida recebem o novo integrante, dando início à sua primeira ligação com aquela casa.
E assim acontece com cada estudante.
Um por um, todos passam diante do Orbe. Alguns recebem exatamente aquilo que esperavam. Outros descobrem uma parte de si mesmos que jamais haviam considerado. Há aqueles cuja escolha parece óbvia e aqueles que surpreendem absolutamente todos no salão. Mas nenhuma escolha é considerada errada.
Porque o Orbe nunca foi criado para dizer quem alguém deveria ser.
Ele foi criado para reconhecer quem aquela pessoa é.
Quando o último estudante recebe sua fraternidade, o Orbe retorna ao centro do Salão Principal. As quatro energias originais que deram origem à sua existência despertam simultaneamente dentro dele. Uma grande onda de magia atravessa o salão e se espalha por toda Auradon School, fazendo as marcas das quatro fraternidades brilharem ao mesmo tempo. Por alguns segundos, todas as casas permanecem conectadas pela mesma energia que um dia foi utilizada para criar o Orbe.
É o sinal de que uma nova geração foi escolhida.
E, desde sua criação, o Orbe da Escolha permanece no coração da escola como a maior herança deixada pelos quatro fundadores, não apenas como um artefato mágico, mas como o símbolo de uma ideia que os quatro compreenderam juntos: ninguém deve ser definido apenas por aquilo que herdou. Suas escolhas, seus princípios e a maneira como decide caminhar pelo mundo também fazem parte de quem é.