O Aprendizado da Leitura
Processos de Decodificação: A Integração do Velho com o Novo na Leitura
Análise dos processos de decodificação propostos por teóricos da Ciência Cognitiva e da Inteligência Artificial, destacando o papel desses mecanismos na integração da informação nova ao conhecimento prévio do leitor (top-down) e às pistas grafofonêmicas fornecidas pelo texto (bottom-up).
Fundamentação Teórica
Ciência Cognitiva: Linguistas, psicolinguistas, psicólogos e cientistas da computação focados em modelos de compreensão, produção textual e memória (ex.: Fillmore, 1981; Rumelhart, 1980; Bobrow & Collins, 1975).
Inteligência Artificial: Pesquisadores dedicados ao desenvolvimento de modelos de processamento sintático (parsers) (ex.: Wanner & Maratsos, 1978; Marcus, 1980).
Dois Tipos Fundamentais de Processamento Linguístico
1. Processamento Ascendente (Bottom-Up)
Mecanismo: Abordagem linear, indutiva e baseada na análise visual e linguística direta do texto (input).
Direção: Atua da micro para a macroestrutura (da forma para a função).
Funcionamento: Constrói o sentido do texto de maneira composicional, partindo da identificação de letras, sílabas e palavras até atingir a estrutura sintática e semântica global.
Afiliação: Linguística Estruturalista e Psicologia Comportamental (Defensores: Gough, 1972; Kolers, 1975).
2. Processamento Descendente (Top-Down)
Mecanismo: Abordagem não linear e dedutiva, sustentada no uso intensivo de informações não visuais e no conhecimento de mundo do leitor.
Direção: Atua da macro para a microestrutura (da função para a forma).
Funcionamento: O estímulo visual apenas aciona esquemas cognitivos (redes de conhecimento armazenadas na memória de longo prazo). O leitor formula hipóteses, predições e inferências antes ou durante a checagem com o texto.
Afiliação: Psicologia Cognitiva e Teoria dos Esquemas (Defensores: Smith, 1978; Goodman, 1972).
Perfis de Leitores no Processo de Ensino-Aprendizagem
Leitor Descendente (Top-Down): Capta a ideia global do texto de forma veloz e fluente. Contudo, tende a realizar adivinhações excessivas sem buscar a devida confirmação nas pistas textuais, priorizando seu conhecimento prévio em detrimento das informações explícitas no texto.
Leitor Ascendente (Bottom-Up): Constrói o significado estritamente a partir das pistas do texto. Atenta-se detalhadamente à forma (detectando inclusive erros ortográficos), mas apresenta leitura lenta e pouco fluente. Encontra dificuldades em sintetizar o texto por não discernir o essencial do acessório e falha em realizar leituras nas entrelinhas.
Leitor Maduro (Processamento Interativo): Mobiliza de forma articulada, flexível e consciente tanto o processamento ascendente quanto o descendente. Apresenta controle metacognitivo ativo sobre sua própria leitura, ajustando a estratégia de acordo com o objetivo da tarefa e a complexidade do texto.
Níveis de Atuação do Processamento Descendente (Top-Down)
Nível Léxico: Na leitura de uma palavra, o leitor utiliza apenas algumas pistas visuais (letra inicial, contorno, extensão da palavra) e recorre ao seu léxico mental, às regras fonotáticas e às normas de composição grafêmica para reconhecer o vocábulo.
Nível Sintático-Semântico (Sintagma): A segmentação sintática obedece a critérios plausíveis orientados por esquemas conceituais.
Exemplo: Na ambiguidade do sintagma "Bolsa de mulher de crocodilo":
Segmentação (a): [Bolsa de mulher] / [de crocodilo] (Processamento Descendente - considera plausível uma bolsa de couro de crocodilo feita para mulheres).
Segmentação (b): [Bolsa] / [de mulher de crocodilo] (Processamento Ascendente Linear - combina as palavras por contiguidade imediata, gerando a leitura absurda de uma mulher que seria de crocodilo).
Nível Textual e Retórico: Estrutura-se por palavras temáticas que ativam esquemas contextuais e superestruturas textuais (gêneros/formatos).
Exemplo de Quebra de Expectativa:
"O dia do casamento da filha do prefeito amanheceu lindo. A igreja foi toda engalanada de cravos e rosas. O noivo chegou meia hora antes da cerimônia e já encontrou a igreja cheia de convidados. Os padrinhos e as damas de honra também estavam lá. As damas de honra vestiam túnicas de cetim cor-de-rosa. A noiva chegou finalmente, com 20 minutos de atraso. Estava vestida de preto e na mão carregava uma cruz."
No trecho acima, a palavra "casamento" ativa o esquema referente ao evento. Todas as frases confirmam esse esquema até a proposição final ("vestida de preto..."). Quando o texto quebra a predição criada pelo modelo top-down, o leitor maduro reduz o ritmo e migra para o processamento bottom-up para reanalisar e reinterpretar o dado novo e inesperado.
Sugestões de Bibliografia Essencial (Leitura e Psicolinguística)
Para aprofundar e atualizar a fundamentação deste estudo, seguem as referências clássicas e contemporâneas mais recomendadas no campo da Linguística Aplicada:
Obras Fundacionais (Referências do Texto)
GOUGH, Philip B. One second of reading. In: KAVANAGH, J. F.; MATTINGLY, I. G. (Eds.). Language by Ear and by Eye. Cambridge: MIT Press, 1972. p. 331-358.
GOODMAN, Kenneth S. Reading: A psycholinguistic guessing game. In: SINGERING, H. et al. (Eds.). Theoretical Models and Processes of Reading. Newark: IRA, 1970.
KATO, Mary Aizawa. O aprendizado da leitura. São Paulo: Martins Fontes, 1985.
RUMELHARTS, David E. Schemata: the building blocks of cognition. In: SPIRO, R. J. et al. (Eds.). Theoretical Issues in Reading Comprehension. Hillsdale: Lawrence Erlbaum, 1980.
SMITH, Frank. Understanding Reading: A Psycholinguistic Analysis of Reading and Learning to Read. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1978.
Referências Nacionais e Internacionais Complementares (Desenvolvimento do Tema)
ALLIENDE, Felipe; CONDEMARÍN, Mabel. A Leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. Porto Alegre: Artmed, 2005.
BOULWARE-GOODEN, R. et al. Instruction of Metacognitive Strategies Enhances Reading Comprehension and Vocabulary Development of Young Learners. The Reading Teacher, v. 61, n. 1, p. 70-77, 2007.
FULGÊNCIO, Lúcia; LIBERATO, Yara. A leitura na escola. São Paulo: Contexto, 2018.
KLEIMAN, Angela. Texto e Leitor: aspectos cognitivos da leitura. 16. ed. Campinas: Pontes Editores, 2016.
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006.
SOLÉ, Isabel. Estratégias de Leitura. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.
STANLEY, L. E. Interactive Models of Reading. In: CHAPELLE, C. A. (Ed.). The Encyclopedia of Applied Linguistics. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2013.