INTERFERÊNCIA, INTERLÍNGUA E FOSSILIZAÇÃO
Transferência, Interlíngua e Fossilização na Aquisição de Línguas Estrangeiras
Ricardo Schuz
As pesquisas em Linguística Aplicada e no campo de Aquisição de Segunda Língua (SLA) demonstram que o conceito de interlíngua se articula organicamente aos fenômenos de transferência, interferência e fossilização.
1. Transferência e Interferência Linguística
Transferência: Processo cognitivo pelo qual o aprendiz mobiliza conhecimentos, estruturas e habilidades da sua língua materna (L1) para subsidiar a assimilação e a produção da língua-alvo (L2). Esse recurso é predominantemente observado entre línguas que compartilham proximidade tipológica e lexical.
Interferência: Manifestação da L1 na L2 que gera desvios em relação à norma da língua-alvo. Esses desvios ocorrem nos níveis fonético-fonológico (pronúncia e entonação), lexical, morfossintático e sociocultural/pragmático. A interferência constitui o mecanismo central na formação da interlíngua e no eventual estabelecimento da fossilização.
2. Interlíngua
Sistema linguístico dinâmico e de transição construído pelo aprendiz ao longo de seu processo de desenvolvimento interlinguístico. A interlíngua engloba desde as produções iniciais do aprendiz — marcadas pela forte presença da L1 — até o ponto de estabilização do seu desenvolvimento linguístico (o teto de proficiência alcançado pelo indivíduo).
3. Fossilização (ou Cristalização)
Internalização permanente de estruturas, formas e desvios linguísticos na L2 que resistem à correção e ao ensino formal. Trata-se do congelamento da interlíngua em um determinado estágio de desenvolvimento. A fossilização é particularmente frequente em contextos de aprendizagem escolar nos quais o aprendiz não exposto a modelos autênticos da língua-alvo.
A Dinâmica Cognitiva da Interlíngua e o Papel do Input
A caracterização da interlíngua fundamenta-se na presença inevitável de formas da língua materna no uso da língua-alvo. A persistência desse sistema transitório é significativamente mais expressiva em adultos do que em crianças.
Conforme aponta Harpaz, o aprendiz de uma segunda língua enfrenta um duplo desafio cognitivo:
Execução de novas operações: Processamento mental de novas estruturas sintático-semânticas e coordenação motora para a articulação de novos padrões fonéticos.
Inibição de hábitos consolidados: Supressão automatizada das rotinas linguísticas da L1, as quais se encontram profundamente arraigadas devido ao uso contínuo.
Em adultos, a automação dos hábitos da L1 impõe uma carga cognitiva elevada, dificultando a inibição de padrões motores (sotaque e pronúncia) e mentais (organização sintática). Em crianças, a maior plasticidade e a menor consolidação dos hábitos linguísticos da L1 reduzem significativamente essa barreira.
A Importância do Modelo da Língua-Alvo (Input)
O grau de interferência presente na interlíngua do aprendiz relaciona-se diretamente com a qualidade do modelo linguístico ao qual ele é exposto (input).
Na ausência de um modelo de linguagem autêntico — como no caso de instrutores com proficiência limitada na língua-alvo —, o aprendiz assimila desvios do próprio modelo, acelerando a fossilização e culminando no desenvolvimento do que David Crystal denomina de classroom pidgin (um código restrito e funcional circunscrito ao ambiente de sala de aula).
Para que o desenvolvimento interlinguístico ocorra de forma plena e sem cristalizações precoces, o aprendiz necessita de exposição contínua a um ambiente linguístico autêntico, análogo ao suporte visual constante de que um artista precisa para retratar com fidelidade as formas, luzes e nuances do real.