NOS VENTOS DA MUDANÇA: UMA EXPERIÊNCIA INTER E TRANSDISCIPLINAR*
NOS VENTOS DA MUDANÇA: UMA EXPERIÊNCIA INTER E TRANSDISCIPLINAR*
NOS VENTOS DA MUDANÇA: UMA EXPERIÊNCIA INTER E TRANSDISCIPLINAR*
DOI 10.18224/frag.v30i2.7435
LEONICE ÂNGELA DE JESUS****
Resumo: este artigo tem em vista apresentar a experiência desenvolvida junto aos estudantes das turmas do 9º ano do Ensino Fundamental da Escola Centro de Orientação e Valorização da Adolescente e Mulher, no munícipio de Aparecida de Goiânia, em Goiás. Está, portanto, disposto como estudo de caso e imersão junto à realidade dos alunos. Tendo como base a tentativa de superação de um modelo educacional altamente centrado na perspectiva disciplinar, o projeto em questão tentou romper com um olhar fragmentado acerca dos conhecimentos, dispondo-os de maneira simultânea e não hierarquizada, chamando a atenção para o fato de que a experiência concreta não se constroi de forma cindida, mas articulada – e daí a necessidade de sempre relacionar a teoria e a prática. Para isso, valeu-se de saberes oriundos de diferentes áreas, tais como a geografia crítica, a língua inglesa e a música, dispondo-as de forma simultânea e colaborativa. Entre outras contribuições, tem-se em vista a discussão de uma educação que rompa com o sistema disciplinar, o que apenas será possível pondo em questão o paradigma atual e substituindo-o por novas chaves de leitura, por ora inter e transdisciplinares.
Palavras-chave: Ensino Fundamental. Interdisciplinaridade. Transdisciplinaridade.
* Recebido em: 29.10.2019 Aprovado em: 03.07.2020.
** Doutor em Ciências da Religião, pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Mestre em Filosofia (2014) e em Música (2016), ambos pela Universidade Federal de Goiás. Licenciado e Bacharel em Filoso-fia e Bacharel em Teologia. Atualmente desenvolve pesquisa de doutorado em Filosofia, pela Universidade Federal de Goiás. Pesquisador associado ao Círculo Latinoamericano de Fenomenologia (CLAFEN) e ao Centro Latino-americano de Pesquisas em Cultura (CLAEC). E-mail: jreinaldomartins@gmail.com.
*** Especialista em Língua Inglesa pela UniEvangélica – Centro Universitário de Anápolis. Graduado em Letras-Inglês pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Professor da Rede Pública de Ensino do Estado de Goiás, na Escola Centro de Orientação e Valorização do Adolescente e Mulher (ECOVAM). E-mail: mrlypy@hotmail.com.
**** Graduada em Administração pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e em Musicoterapia pela Uni-versidade Federal de Goiás. Graduanda em Licenciatura em Música pelo Centro Universitário Claretiano. E-mail: leonicemusicoadm@gmail.com.
O especialista “sabe” muito bem seu pedaço mínimo do universo; mas ignora todo o resto radicalmente.
Ortega y Gasset
Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré
[...]
Machado de Assis
projeto de que trata este artigo combina a argumentação teórica com sua ex-plicitação no campo da prática. Neste caso, tratou-se da tentativa de pôr em curso uma metodologia inter e transdisciplinar, que possibilitasse ao educando
o desenvolvimento de suas habilidades de maneira integrada, desdobrando-se numa leitura igualmente integral da realidade que o circunda, e por isso o título inspirado na canção Wind of change, da banda Scorpions. Muitos são os teóricos que têm defendido um processo educacional que se desvencilhe da matriz arbólica, em que os saberes se estendem de forma fragmentada por meio de disciplinas que priorizam objetivos restritos ao seu horizonte de teorização, deixando de lado o sentido prático dos saberes que conservam e transmitem. Nesse sentido, dificilmente se estudará matemática em uma aula de biologia, ou física numa aula de educação artística, como se o saber pudesse ser construído de forma particulari-zada, estando uma área totalmente cindida das demais que a circundam e, muitas vezes, compõem. Esta é a realidade da maior parte dos modelos de ensino em vigor não apenas no Brasil, mas em vários outros lugares do mundo.
Por um lado, a fim de nos opormos a esta estrutura, encontraríamos ao menos dois pontos de partida: o dia a dia das instituições de ensino básico, que introduzem as bases da formação que será continuada ao longo da vida ou, de outra parte, a estrutura universitária, com foco para formação dos profissionais da educação – docentes, téc-nicos, auxiliares – que estarão em contato direto com os estudantes, no mais das vezes apenas reproduzindo o modelo apreendido – até mesmo como forma de legitimá-lo. Ao contrário do que vemos em nossas instituições de ensino, o mundo real – aquele em que a vida transcorre – não é cindido. O saber se apresenta integralmente, desde as simples ocorrências diárias às decisões que exigem maior elaboração. Por exemplo, ao entrarmos numa padaria e pedirmos alguns pães nossa atenção não se voltará, a princípio, para as operações de matemática necessárias à relação entre valor, peso e quantidade para, apenas posteriormente recorrer às diferentes formas de discurso oportunas para tal contexto. Também não concentraremos nosso esforço na compreensão das reações químicas ne-cessárias para a fermentação dos pães, suas etapas de cozimento. Apenas diremos: “cinco pães, por favor!”; ou “nossa, hoje estão mais tostados”; ou, ainda, “aqui está seu troco de cinquenta centavos”. Isso significa que, embora conservemos um sistema que preconiza a repartição dos saberes, na experiência do mundo vivido tudo ocorre de forma correla-cionada, simultânea, sem que seja necessária a especificação. Assim, se é verdade que as duas frentes anteriormente elencadas – o ensino básico e o universitário – são as chaves de acesso a uma eventual transformação, este texto terá como objetivo mostrar nossa experiência junto a estudantes do Ensino Fundamental.
Rompendo o perfil escolar predominante desde o início do século XVIII, a segunda metade do século XX mostrou-se repleta de teorias que chamam a atenção para a ideia de que o conhecimento humano apenas pode progredir dentro de uma concepção de unidade, ou melhor, de integralidade. Isso é o que está em jogo na noção de “interdisciplinaridade” ou, de forma ainda mais acentuada, no conceito “transdisciplinaridade”, ambos encontrados de maneira particular a partir da reconstrução do pensamento, como defendem o francês Edgar Morin (2010) ou, mesmo, o brasileiro Ubiratan D’Ambrósio (1997). Para estes autores, a transdisciplinaridade é um estágio superior às etapas que a antecedem, qual sejam, a multi-disciplinaridade e a interdisciplinaridade. Na multidisciplinaridade tem-se em conta a intro-dução de diferentes disciplinas no intuito de formar o humano em vista de uma finalidade comum, como no caso das disciplinas que integram as séries da educação básica, ou, o mes-mo, as disciplinas que constituem a matriz curricular de um curso de graduação – embora di-ferentes, tendem à formação do profissional que dali será resultante. Um segundo passo seria a interdisciplinaridade, já muito discutida e, nalguns casos, posta em prática. Interdisciplinar é, por exemplo, o projeto que envolve algumas disciplinas em função de um objetivo comum: a limpeza da cidade, o cuidado com a natureza, a reivindicação de direitos, a promoção da paz etc. Em tais situações um tema comum se beneficia da atuação das diferentes disciplinas, cada uma restrita ao seu horizonte de alcance, tocando-se mutuamente na medida em que contribuem para o propósito comum. Embora este passo seja bastante significativo, ainda permanece orientado por uma referência cindida, estando cada saber a serviço de suas regras. Noutras palavras, o diálogo é apenas superficial. Este, por exemplo, pode ser apontado como o modelo relativo às primeiras etapas do projeto que apresentamos neste artigo.
Enfim, como vanguarda dos processos educacionais, está a “transdisciplinaridade”, em que as barreiras entre as disciplinas são completamente extintas, movendo-se o programa de aquisição do conhecimento por frentes que se interagem. Isso porque as áreas de conheci-mento como estão tradicionalmente organizadas não correspondem mais às exigências de nossa época, em que saberes do passado são constantemente atravessados por novas experiências e olhares, pela insurgência de uma realidade tecnológica, por um tempo que exige a conciliação de diferentes capacidades, a integração de opostos etc. Como aposta no movimento da interdis-ciplinaridade para a transdisciplinaridade, o caso que traremos a fim de ilustrar nossa tentativa de reflexão pôde valer-se de conhecimentos de três frentes – para deixarmos de lado as demais correlações possíveis, que também seriam inúmeras. São elas a geografia política, a língua in-glesa e a música, saberes tomados em iguais níveis de importância (e sobre a questão da trans-disciplinaridade em música ver o que dissemos em MARTINS FILHO, 2018). Dito de outro modo, os alunos foram convidados a desenvolver todas as habilidades necessárias a cada uma dessas áreas ao mesmo tempo, na medida em que revisitaram a língua por meio da música, e, através da música em língua inglesa, aprofundaram seu conhecimento sobre história e geografia política internacional. Como mote eleito para a implementação da discussão esteve a queda do muro de Berlim. Tal atividade foi empreendida junto aos estudantes das turmas do 9º ano do Ensino Fundamental da Escola Centro de Orientação e Valorização da Adolescente e Mulher (doravante, ECOVAM), situada no município de Aparecida de Goiânia, em Goiás. Ao longo da experiência, os conteúdos de inglês e geografia foram incrementados pela introdução da mú-sica como ferramenta de composição social, de internalização dos conteúdos e de mobilização das turmas em função do tema catalizador da discussão, como tentaremos demonstrar no que segue, passando do que era interdisciplinar, para o transdisciplinar.
Com o advento da ciência moderna, na passagem dos séculos de XVI para XVII, instaurou-se na humanidade o comportamento de “dividir para conhecer”. É isso que está retratado em perspectivas como as de Galileu Galilei, no texto O Ensaiador, de 1623, ou no famoso Discurso do Método de René Descartes, em que lemos: “conhecendo os vários ofícios de nossos artífices, poderíamos utilizá-los da mesma forma em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como senhores e possuidores da natureza” (DESCARTES, 2000, p. 86-87 – grifos nossos). Tal ambição, contudo, encontraria seu desdobramento como concepção de formação humana na consolidação das práticas disciplinares legitima-das ao longo do século XVIII. Daí em diante a escola se conformaria completamente ao modelo que ainda hoje persiste entre nós, disciplinas isoladamente dispostas com o intuito de se abordar o máximo de conteúdos possível, habilitando indivíduos versados nas dife-rentes frentes do conhecimento, desde as ciências exatas às humanas, às artes e à literatura. A dimensão conceitual estaria encarregada de manter a coesão entre todas as partes, incu-tindo a concepção de que apenas no conceito é possível identificar participação de uma ciência junto à outra.
Como se isso já não fosse dramático o suficiente, o cenário que se apresenta à nossa análise é ainda mais estarrecedor. Isso porque embora estejamos há mais de três séculos sepa-rados da consolidação do sistema disciplinar, basta olharmos ao redor para constatarmos a sua aplicação ainda nos dias atuais – isso a despeito das contínuas críticas apontadas a respeito de suas limitações. Mais que isso, como observam os pesquisadores que mencionaremos a seguir, vemos a configuração de uma realidade mista: o modelo educacional é o mesmo do século XIX, o executor do ideal teórico implementado no século anterior (disposição dos alunos nas classes, uso do quadro negro etc.), os professores, porém, foram formados com a mentalidade do século XX, já marcados pela crítica, e os alunos são o resultado mais recente dos processos de evolução tecnológica, isto é, “produtos” do século XXI. Desse modo, caso não repensemos seriamente as estruturas das quais nos valemos em nosso esforço por ensino e aprendizagem será inócua toda a nossa atividade, ao ponto de continuarmos com a impressão de que a esco-la básica não prepara sujeitos capazes de enfrentar o mundo contemporâneo, habilitando-os aos conhecimentos necessários para a vida cotidiana, desde as iniciativas mais sutis às mais complexas. Isso porque o problema de raiz não é enfrentado, o que, segundo nossa percepção, toca a questão do currículo escolar e sua estrutura multidisciplinar, que deve ser transposta por uma nova forma de compreensão dos conhecimentos e de sua relação com a vida vivida para além dos muros da escola. Na verdade, trata-se de um problema ao qual já se referiram inúmeros teóricos nas últimas décadas. Entre estes, como dissemos, escolhemos enfatizar o que tem sido pensado pelo francês Edgar Morin e pelo brasileiro Ubiratan D’Ambrósio – ambos ainda vivos e atuantes.
Tendo origem na ciência do século XX, com Kurt Gödel, a questão da transdiscipli-naridade se refere à insuficiência de todos os sistemas axiomáticos em sua apropriação da rea-lidade. Nenhuma vertente teórica, ciência ou método são capazes de determinar a verdade sobre qualquer assunto adotando uma perspectiva individual, sem se beneficiar de outros saberes relativos ao mesmo tema – mesmo quando contrastantes e, até opositivos. Ultrapassando os limites da ciência, voltados para todas as questões relativas ao universo do conhecimento e, por isso, também no que tange aos processos educativos que envolvem a escola, em 1994 aconteceu a Primeira Grande Manifestação Mundial da Transdisciplinaridade, amplamente apoiada pela Unesco e com a participação de uma série de personalidades da ciência e da educação, entusiastas da nova perspectiva. Em poucas palavras, tratou-se de perceber que a realidade da vida humana não é fragmentada e, tampouco, dividida em disciplinas lineares. Uma educação de qualidade deve admitir esse pressuposto como fundamental no desenvol-vimento de seus métodos, caso almeje a inserção dos sujeitos novamente na esfera da vida concreta. É preciso, para tanto, considerar todas as frentes do ser, a cultura, as relações e as interrelações. A escola, então, assumiria um papel determinante na composição da sociedade, como útero na formação de indivíduos autônomos, mas capazes de inserir-se numa realidade mais ampla, que exige a consideração dos seus pares, a imersão num universo de sentidos e significados comuns. É esse o entendimento buscado por Morin ao tratar a urgência de se reformar o pensamento. Para ele:
[...] reformar um pensamento é um problema paradoxal, pois para reformar o pensamento é necessário antes de tudo reformar as instituições que permitem esse novo pensar. Mas para reformar as instituições é necessário que já exista um pensamento renovado. Este não deve ser ultrapassado deve começar por movimentos marginais / movimento piloto pelas universidades e escolas de boa formação. O grande problema é a reeducação dos educadores (MORIN, 2010, p. 99).
Aqui tocamos uma das frentes elencadas anteriormente, isto é, que o ponto de partida para a introdução de uma nova perspectiva educativa também deve partir da forma-ção dos educadores. Ocorre que o modelo disciplinar/multidisciplinar estabeleceu-se desde o ensino básico até o nível universitário, incluindo o aporte constituído entre aqueles que se encarregarão deste processo, os licenciados e demais habilitados à carreira docente. Para Mo-rin, como vimos, nosso contexto exige que o novo paradigma da educação a princípio se volte para a reforma do pensamento, para, apenas posteriormente, poder voltar-se para a reforma das estruturas. A transdisciplinaridade seria, por isso, uma chave para a leitura da educação a partir de novos olhares, conceitos e ideias, oportunizando um melhor aproveitamento do processo de ensino e aprendizagem, tornando as aulas diversificadas e até mais atraentes. Isso incidiria decisivamente sobre o aproveitamento por parte dos estudantes, que, de certo modo, também se tornariam protagonistas de seu processo de aprendizagem, não meros receptores. Resta, portanto, urgente a introdução de uma educação dialógica, que considere o contexto vital em que os estudantes estão inseridos e, simultaneamente, não despreze nenhuma forma de conhecimento como inferiorizada ante qualquer outra. Isso significa dizer que o enfoque transdisciplinar “está entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina”, como nos ensinou Nicolescu (2000, p. 2).
Transdisciplinaridade, então, é uma metodologia que visa a mudança radical no en-sino estabelecido em nosso país, ao mesmo tempo em que o reordenamento de nossa própria compreensão acerca do que significa o processo ensino e aprendizagem. Como consequência, na visão de Morin, isso acabaria com os limites entre as disciplinas, superando a questão da hierarquização e valorizando o que já havia sido introduzido antes do contexto escolar, o que se aprende extraclasse, numa conjugação com o ensino formal. Caso se almeje a formação plena de um ser humano, não há disciplinas superiores às outras. Esta é a mesma constatação apresentada por D’Ambrósio, quando afirma que: Se pretendemos uma educação abrangente, envolvida com o estado do mundo, abrindo perspectivas para um futuro melhor, temos que repensar nossa prática, nossos currículos. Os objetivos da educação são muito mais amplos que aqueles tradicionalmente apresen-tados nos esquemas disciplinares. Devem necessariamente situar a educação no contexto da globalização evidente do planeta (D’AMBRÓSIO, 1997, p. 89).
Assim, deixaríamos de lado o processo tradicional, o qual está ancorado em con-ceitos pré-estabelecidos e incontestáveis, na autoridade absoluta do professor em termos de conhecimento, em função de adotarmos a perspectiva transdisciplinar, em que todos os in-tegrantes do processo são protagonistas, ativos, sujeitos de seu itinerário de conhecimento. Um conhecimento que se constroi na perspectiva do todo e não das partes, deixando para trás uma abordagem fragmentada das disciplinas, isoladas como estavam, dando lugar ao compartilhamento de ideias, pensamentos e opiniões. Isto é, passar-se-ia a transitar pela di-versidade dos conhecimentos, abrangendo todas as disciplinas do currículo escolar de ma-neira equilibrada. Como define Lembert (2001, p. 530), esse novo modelo apontaria para “a necessidade de introduzir outras modalidades pedagógicas que permitam à criança obter sucesso primeiro e entender depois, com estratégias de alternação, que implicam uma produ-ção e não somente um consumo do saber”. Em suma, este foi o propósito da experiência compartilhada por este trabalho, a qual quis fazer confluir diferentes formas de apreensão do conhecimento e, ao mesmo tempo, acionar múltiplas perspectivas sobre o tema, como testemunham as abordagens da geografia política e história, da língua inglesa e da música – sem que um conhecimento se sobrepusesse ao outro e contribuindo na aquisição de ha-bilidades específicas. Entre outras apropriações é possível apontar brevemente os principais conteúdos trabalhados de forma simultânea pelo projeto, num movimento que certamente se irrompeu interdisciplinar na tentativa de alcançar ao menos um esboço do que seria uma experiência transdisciplinar.
A paisagem histórica, política e social vislumbrada pelo projeto fez menção ao icô-nico Muro de Berlin, construído em 1961 com a finalidade de dividir a capital alemã em ocidental e oriental. Tal visão, além disso, mostrou-se elucidativa a respeito das duas princi-pais tensões mundiais, deixando a parte ocidental como símbolo do capitalismo, encabeçado pelos Estados Unidos, e a oriental para o conjunto das repúblicas socialistas, lideradas pela União Soviética. O muro praticamente tornou impossível a passagem de migrantes do lado leste (soviético) para o oeste (capitalista) por mais de um quarto de século, inclusive contando com a morte dos que tentaram ultrapassar o bloqueio. Em 1989, em plena onda de contesta-ção libertária, com a permissão aos cidadãos do lado leste de visitarem a Alemanha Ocidental, uma multidão em celebração conseguiu arrancar partes do muro, pondo fim a mais de duas décadas de separação. A queda do Muro de Berlim abriu caminho para a reunificação da Ale-manha, ocorrida em outubro de 1990. Este fato também pode ser apontado como o fim da Guerra Fria. Resumidamente, este é o contexto de discussão em que se insere a composição Wind of Change da banda alemã Scorpions, cujo texto situa o momento de mudança a partir de um famoso parque de Moscou, o Gorky Park. A expressão “ventos da mudança” insinua o movimento inaugurado do ocidente para o oriente.
Uma vez decidido pela abordagem instrumental na condução das aulas de língua inglesa, o professor propôs-se a pesquisar e a preparar materiais interdisciplinares em sintonia com a disciplina de geografia. Em suma, foram textos em sua maioria extraídos de fontes autênticas, tais como notícias atuais de diferentes jornais publicados em língua inglesa, todos pertinentes aos assuntos discutidos pelo livro didático de Geografia – que continuou sendo a referência curricular para o transcurso da disciplina. Para provocar e facilitar o letramento dos estudantes em língua inglesa, o professor lançou mão de várias estratégias de leitura, como: exploração do título, conhecimento prévio sobre o assunto proposto pelo título, predição, inferência, skimming, scanning, sufixação, prefixação, leitura global, uso de palavras cognatas, processo bottom up e processo bottom down. Como objetivo principal esteve a compreensão do material lido e discutido, sem que fosse necessária a sua tradução literal para o português. Além disso, os estudantes também puderam praticar noções de pronúncia a partir das pala-vras dispostas tanto nos textos de base, quanto na letra da canção realizada.
Enfim, por intermédio da música os estudantes foram incentivados a desenvolver habilidades relativas à cooperação em grupo, ritmo, afinação, manuseio de instrumentos mu-sicais, percepção de diferentes sonoridades. Ao serem divididos entre meninos e meninas, por exemplo, também adquiriram a capacidade de percepção das diferenças entre timbres – o que também pode ser considerado pela distinta sonoridade dos instrumentos utilizados: violão, percussão e metais. As habilidades específicas à dimensão musical foram, então, conjugadas às demais – língua inglesa e contexto histórico – dispondo o entendimento de que a música não é resultado de uma determinada composição social e histórica, mas elemento que con-tribui ativamente na construção dessa realidade. Além disso, também foi possível transpor os limites entre as três principais fases necessárias para uma aproximação qualificada da experi-ência sonora: a apreciação, a composição e a performance. A princípio os estudantes foram aproximados do horizonte musical pela apreciação conjunta e discussão sobre a canção Wind of change. Em seguida, divididos em grupos (em um espaço os instrumentistas e em outro os cantores) entraram em acordo sobre como cada instrumento ou grupo vocal integraria a obra para o momento da execução – o que implica certos aspectos da composição: decisão sobre quando cada instrumento iria intervir na performance, divisão vocal, solos etc. Enfim, como última etapa do processo esteve a performance propriamente dita.
A EXPERIȋNCIA COMO FONTE DE APREENSÃO
Como dissemos de início, o objetivo geral da experiência foi introduzir as turmas do 9º ano do Ensino Fundamental da ECOVAM ao conhecimento dos principais temas relativos à construção política da segunda metade do século XX, o que envolve, notadamen-te, a Guerra Fria, a crise entre União Soviética e Estados Unidos, culminando na queda do Muro de Berlin (ocorrida em 1989), através da música como interface de compreensão dos conceitos tratados, os quais foram expostos também em língua inglesa. Paralelamente a estes objetivos, também alcançaram o escopo temático do projeto objetivos de natureza específica, tais como: a) apresentar os principais conceitos relativos à geografia política; b) introduzir noções elementares de compreensão em língua inglesa; c) fomentar o desenvolvimento de habilidades integradas, mormente a partir da língua inglesa, da música, da história e da geo-grafia política; d) discutir a relação dos eventos relatados pela música com o contexto político atual; e) construir uma mentalidade politizada entre os estudantes, capazes de discutir concei-tualmente e de maneira pertinente (qualificada) os assuntos abordados – sempre mantendo a coerência com sua faixa etária. Todo este itinerário coincide com a tentativa de desenvolver entre os estudantes envolvidos a capacidade de leitura e de compreensão em língua inglesa paralelamente à compreensão e ao aprofundamento de um importante episódio da história política internacional do passado recente. Isso simultaneamente à introdução de ferramentas da música, tais como rítmica, afinação e canto em conjunto, como estratégias de internaliza-ção dos conteúdos abordados, bem como da integração dos estudantes entre si.
Enquanto isso, do ponto de vista da discussão teórica buscou-se refletir acerca da exequibilidade de um projeto inter e transdisciplinar, como forma de verificação da teoria expressa anteriormente – especialmente no que toca à articulação das áreas temáticas, sem a necessidade de se apresentarem isoladamente. Disso resultaram suas principais justificativas. Em primeiro lugar, como forma de vencer a mentalidade vigente – e bastante difundida entre os alunos – de que as disciplinas visam cumprir a aquisição de habilidades cindidas, restritas de uma área em relação à outra, substituindo tal entendimento por uma visão ampliada e jus-tificada pela transdisciplinaridade. Por conseguinte, também devemos pensar esta experiência como forma de aproximar os estudantes dos conteúdos propostos, de maneira integrada, sen-do a música um importante instrumento de articulação tanto dos conteúdos desenvolvidos, quanto como forma de integração dos estudantes entre si – sobretudo dada a possibilidade do canto em conjunto, do aprofundamento na compreensão da história e do vocabulário utili-zado em língua inglesa, da possibilidade de suscitar talentos antes não considerados e/ou, mesmo, considerados inferiores em relação a outros saberes. Em terceiro lugar, apostar em metodologias dessa natureza tende a romper com uma visão hierarquizada dos saberes es-colares, dispondo-os num mesmo nível de apropriação e de aplicação sobre a vida concreta e, ao mesmo tempo, fomentar uma formação mais integral, em que os conteúdos curriculares pudessem ser pensados de maneira transversal, na relação de uns com os outros e destes com a experiência vivida pelos estudantes em seus contextos vitais.
DESCRIÇÃO DAS ETAPAS
Num primeiro momento os alunos foram aproximados da temática que seria ex-plorada através da explanação histórica e contextualização oferecida pelo professor regente, simultaneamente ligada a atividades de introdução de vocabulário em língua inglesa e acesso a outras fontes de pesquisa por parte dos estudantes, tais como sites da web (sob orientação do professor). Em seguida os estudantes tiveram acesso a um texto em língua inglesa que dis-corria sobre o contexto da composição (político, histórico, social) e sua inserção no horizonte mais amplo da discussão política em que estava imersa; os estudantes deveriam desenvolver a compreensão do texto oferecido e, paralelamente, discutir temas relativos à problemática geopolítica em questão. Apenas num terceiro momento foi introduzida a canção em sentido estrito, a princípio por meio da audição conjunta, da abordagem dos principais elementos estéticos e, em seguida, do canto em grupo, focando as propriedades da língua inglesa e sua disposição através do canto. Esta última etapa foi conduzida com auxílio de professores de música e contou com a participação ativa de estudantes das turmas que manifestaram suas habilidades instrumentais.
Ao longo das etapas iniciais, verificou-se quais estudantes já possuíam a habilidade de tocar algum instrumento musical. Ao todo dezesseis estudantes, do total de aproximada-mente noventa – entre meninos e meninas – manifestaram-se. Os instrumentos utilizados na dinâmica grupal foram: violão, ukulele, trombone de vara, trompete, cajón e caixa de percus-são – todos tocados pelos próprios estudantes.
Figura 1: Mosaico Fotográfico do Projeto
Fonte: Os autores
No último dia dedicado ao projeto as turmas foram divididas entre os instru-mentistas e os cantores. Simultaneamente ao ensaio da canção Wind of Change, em in-glês, os estudantes iam apresentando suas pesquisas a respeito do tema, com intervenções orais e participação dos demais. Todo o processo foi registrado em fotografias e vídeo, para arquivo junto à instituição escolar. Ao término dos ensaios, as três turmas do 9a ano envolvidas no processo apresentaram juntas a canção, resultado de sua construção transdisciplinar.
A avaliação do projeto foi realizada levando em conta algumas frentes: a) a discus-são avaliativa entre o professor regente das disciplinas e os professores colaboradores acerca do que foi alcançado, das dificuldades enfrentadas etc; b) a discussão avaliativa entre o professor regente, os professores colaboradores e a direção da escola; c) a avaliação realizada pelos alunos envolvidos através de respostas livres e por escrito, no qual poderão apresentar sua perspectiva sobre os seguintes pontos: i) validade do projeto transdisciplinar; ii) eventuais impactos do projeto sobre seu processo de aprendizagem; iii) impressões sobre o uso da música articulado ao ensino regular das disciplinas curriculares.
As respostas dos alunos demonstram receptividade e otimismo com relação aos resultados do projeto, como apontam estes relatos:
Nós tivemos muita ajuda para esse projeto que envolveu os 9º anos. [...] a música Wind of Change é realmente uma música linda, pois ela inspira a nação de que um dia tudo ficará melhor e que todos nós, no futuro, estaremos juntos e unidos como irmãos. Foi uma experiência incrível (Evelym Ketlen de Assis Manzi).
Achei toda a ideia do projeto, desenvolvimento, muito interessante e fez até com que os alunos passem a ter mais interesse nas aulas, em aprender o conteúdo passado e a participar das aulas. Foi até perceptível o interesse e envolvimento, não de todos, mas da maioria dos alunos. Por isso um projeto interdisciplinar, o envolver diversas matérias (disciplinas) é possível criar uma ligação entre o conteúdo estudado e nossa realidade atual, e isso faz com que melhore a forma dos alunos de ver as aulas, até mesmo com os professore que estão envolvidos. É algo que poderíamos fazer mais vezes e ter mais atenção nas escolas, para que os alunos também tenham mais vontade de estudar do que ficar nas ruas. Foi também interessante o empenho dos professores envolvidos em ajudar-nos com tudo o que era necessário (Stephany Ferreira de Oliveira).
Bom, essa vai ser uma produção sobre o nosso projeto interdisciplinar onde nós aprende-mos mais de 4 matérias ao mesmo tempo em uma única aula. [...] Espero poder trabalhar de novo nesse tipo de projeto (Lukas Gabriel da Silva Andrade).
Houve também quem realçou a dimensão da motivação, necessária ao processo de ensino e aprendizagem desenvolvido pela escola. Motivação, aliás, que é fundamental para o aprendizado de uma língua estrangeira. Também é possível destacar a passagem da apreciação para a performance em música, como forma de transição pelas principais habilidades neces-sárias a um contato qualificado com a expressão musical. Note-se o que é dito nos relatos que seguem:
Esse projeto me fez sentir valorizada e eu gostei muito por que envolveu todos os alunos. Esse projeto contribuiu parra a minha aprendizagem lendo o texto em inglês e entendendo o que estava escrito. Neste projeto o que mais me chamou a atenção foi que todos tiveram o interesse de aprender uma coisa diferente, porque nós saímos da rotina e tentamos algo novo (Clara Beatriz Rodrigues).
A minha opinião foi um grande projeto o qual envolve duas disciplinas a qual tenho dificuldade. Para mim foi um grande auxílio porque tenho muito interesse em música além da letra falar do ocorrido histórico e conectar com o todo que aprendemos. Aprendi a traduzir o texto realmente compreendo o que está escrito (Gabriel Augusto).
Esse projeto me ajudou a aprender a trabalhar em equipe e também foi bom, pois inte-ragimos uns com os outros, e só nesse projeto nos ajudou em várias matérias: Geografia, Inglês, História e Música. Nos ajudou a aprender a traduzir textos em inglês. Também nos ajudou a aprender muito mais sobre o mundo [...] (Luiz Felipe Rocha).
O projeto contribui para que eu possa aprender a cantar uma musica em inglês e ao mes-mo tempo aprender geografia. Os professores Leonice e Reinaldo nos ajudaram bastante, principalmente a forma de como se canta a musica e de que é possível juntar as demais matérias para “compormos” uma música. O projeto New orld Order foi bastante satisfa-tório, eu adorei esse projeto e podia acontecer mais vezes (Paula Michaelli dos Santos).
De maneira geral, como temos insistido, os resultados foram positivos e apontam para a receptibilidade por parte dos estudantes de métodos que realcem o seu protagonismo no processo educacional e, além disso, confirmem a possibilidade de um ensino integral e não cindido, que vise o ser humano em sua integralidade. O passo interdisciplinar firma-se, então, como um primeiro impulso em vista da configuração de uma nova realidade escolar, aberta à interação com a comunidade, apropriando-se das diferentes formas de conhecimento, não hierarquizados, mas comprometidos com uma leitura conjunta, que ultrapassa os limites da escola e atinge a comunidade como um todo.
De maneira geral, como experiência preliminar acerca de um ensino articulado e coeso, em que se ponha em questão a teoria em sua articulação com a vida e a corre-lação dos saberes sem que estes precisem se dispor hierarquicamente, consideramos os resultados do projeto bastante positivos. Esta é a impressão deixada tanto por parte dos alunos, conforme expresso em seus relatos, quanto por parte dos educadores envolvidos e da comunidade escolar como um todo. No entanto, há também limites os quais gosta-ríamos de mencionar neste momento. Entre outros, chamou-nos a atenção a dificuldade ainda premente na passagem de uma educação disciplinar para o seu outro extremo, a transdisciplinaridade. Embora o último estágio do projeto possa ser considerado como uma vivência transdisciplinar, isto é, em que não se intenciona a fragmentação dos co-nhecimentos em disciplinas, graças ao modelo vigente, profundamente incrustrado no horizonte de leitura de mundo dos próprios estudantes, dificilmente isso se fará perce-ber sem que novas iniciativas ocorram. Mesmo quando tratados simultaneamente, os conhecimentos ainda tendem a ser enxergados de maneira particularizada, como disci-plinas diferentes, na melhor das hipóteses postas lado a lado em vista de uma finalidade comum – isto é, interdisciplinarmente. Visto por outro ângulo, também não podemos deixar de reconhecer que a positividade da recepção abre uma brecha para a introdução de novos formatos nos modelos das atividades desenvolvidas pela escola. Neste projeto, por exemplo, não houve adesão de outros professores da escola, mas a participação de professores externos ao seu quadro docente. É preciso apostar mais na construção de um saber coletivo e à disposição de todos. Em suma, a interdisciplinaridade se mostrou como o passo necessário e possível neste momento do amadurecimento de nossas concepções de educação, de aprimoramento das estruturas disponíveis para um ensino integrado e de capacitação de docentes, discentes e demais integrantes da comunidade escolar para mais adiante ensaiarmos novas iniciativas com vista à transdisciplinaridade. Apesar dos limites que sempre estarão presentes em propostas desta natureza, parece valer a pena continuar apostando numa educação de qualidade e que considere o ser humano em todas as suas potencialidades: cognitivas, emocionais, relacionais, criativas.
IN THE WINDS OF CHANGE: AN INTER AND TRANSDISCIPLINARY EXPERIENCE
Abstract: the purpose of this article is to present an experiment carried out with three ninth grade school students in the school ECOVAM - Escola Centro de Orientação e Valorização do Adolescente e Mulher, located in the municipality of the city of Aparecida de Goiânia, Goiás. The present study falls under the umbrella of case study and immersion in the reality of the students attempting to break with the current traditional teaching model which is highly focused on the disciplinary per-spective, thus, the conducted research attempted to break with a fragmented view of knowledge, providing them with simultaneous rather than hierarchical knowledge, drawing attention to the fact that concrete experience is not build in a split up way, but in an articulated way, hence re-quiring the need to correlate theory and practice. In order to achieve its objectives, the study relied on the knowledge of different areas, such as critical geography, English language and music, organ-izing them simultaneously and collaboratively. Among other contributions, we have in view the discussion of an educational system that breaks with the disciplinary model of teaching, which will only be achieved through questioning of the current teaching paradigm and replacing it for new ways of teaching towards an interdisciplinary and transdisciplinary approach.
Keywords: Elementary School. Interdisciplinarity. Transdisciplinarity.
Referências
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