Em março de 1610, era lançada por Galileu Galilei uma das obras mais emblemáticas do acervo da Revolução Científica, o "pequenino" (MARICONDA; VASCONCELOS, 2020, p. 89) livro entitulado Sidereus Nuncius — muitas vezes referido por Galileu como Avisso Astronomico. Alguns tradutores nomeiam esta obra com uma certa "liberdade poética" justamente por conta da ambiguidade gerada pelo termo em latim Nuncius que pode se remeter à "mensagem" ou "mensageiro", porém, no contexto deste website, usaremos o título traduzido "O Mensageiro das Estrelas", pois esse faz uma certa homenagem a figura de Galileu Galilei, colocando-o como o enunciador das descobertas celestes que revolucionaram a história da ciência (LEITÃO, 2010, p. 20-22).
Nesse curto, porém, revolucionário livro, Galileu atribui ao telescópio um papel central na investigação da natureza e, com isso, revela ao mundo o relato de suas observações celestes realizadas durante o meses finais de 1609 e iniciais de 1610. O Mensageiro teve um impacto imediato no meio científico e, além disso, representou uma reviravolta na carreira de Galileu Galilei, pois, antes da publicação, os interesses do italiano estavam concentrados, sobretudo, no ramo da mecânica dos sólidos e dos fluidos e, após seus relatos celestes, grande parte de seus trabalhos se voltaram à área da astronomia.
Sendo assim, a obra não significou apenas uma mudança de paradigma no meio astronômico, mas também e principalmente, na vida do cientista italiano, que passou de um "professor universitário discreto" para o "enuciador das mais espantosas notícias" (LEITÃO, 2010, p. 23) e, como bem colocado pelo professor de História, Astronomia e Astrofísica da Universidade de Chicago, Noel Swerdlow, "as descobertas de Galileu mudaram o mundo, mas primeiro mudaram Galileu" (SWERDLOW, 1998, apud LEITÃO, 2010, p. 23). A explicação do porquê o Sidereus teve um grande impacto tanto na vida do italiano, quanto no pensamento científico da época está ligado justamente ao fato das observações celestes relatadas nessa obra darem apoio ao modelo de Copérnico e, assim, servirem como argumentos favoráveis à descentralização da Terra no nosso sistema.
Antes de iniciar seus relatos observacionais, Galileu reservou parte de seu discurso para apresentar o telescópio, todavia, como não haviam muitos estudos acerca da óptica envolvida nesse instrumento, o italiano se limitou a descrever a estrutura do aparato e suas funcionalidades de forma breve e objetiva, de modo a justificar suas observações. Após isso, o primeiro astro a ser analisado e ilustrado por Galileu foi a Lua, nessas observações, o italiano percebeu que esse satélite natural não apresentava um relevo regular e polido como era imaginado, mas sim, uma superfície composta por grandes cadeias montanhosas.
Logo depois, seu discurso se voltou para a análise das constelações de estrelas fixas, concluindo que elas estavam em maior quantidade do que aparentavam a olho nu e que, além disso, apenas essas e o Sol detinham de luz própria (retirando da Lua e dos outros planetas essa característica). Por fim, Galileu Galilei descreve — tanto com palavras, quanto com ilustrações — o comportamento do que ele acreditava serem "três pequenas estrelas" (GALILEI, 1610 [2010], p. 179) que cercavam Júpiter, porém eram, na verdade, os satéletes naturais desse grande planeta, denominados por ele de "estrelas mediceias", em homenagem ao grão-duque de Toscana (LEITÃO, 2010, p. 49; MARICONDA; VASCONCELOS, 2020, p. 90-93).
Assim, através de seus relatos astronômicos, Galileu concedeu um fator imprescindível para fortalecimento do modelo Copernicano: dados empíricos que provassem a mobilidade terrestre. Além disso, as representações artísticas que o italiano desenvolveu durante toda a obra significaram uma ruptura com os códigos que eram normalmente utilizados no estudo da astronomia e ajudaram na valorização de tais observações. As gravuras da Lua colocadas pelo cientista, por exemplo, foram, na época, mais determinantes para a aceitação da superfície rugosa desse astro do que qualquer argumento verbal ou matemática. A descrição visual do movimento dos satélites de Júpiter, por sua vez, foi inovadora e se aproximou de uma narrativa cinematográfica atual, trazendo, assim, um caráter artístico para meio científico. Logo, é percebtível que a obra possui um teor revolucionário não somente na astronomia e na ciência, mas também em outras áreas do conhecimento e da cultura, demonstrando o motivo pelo qual esse pequeno livro é, ainda, um dos volumes mais marcantes e estudados da Revolução Científica (LEITÃO, 2010, p. 26).
É impossível falar de astronomia e de história da ciência sem citar a figura de Nicolau Copérnico (1473-1543). O astrônomo e matemático polonês foi um dos nomes mais importantes da Revolução Científica e é, até hoje, referido como o "fundador da astronomia moderna" (HAWKING, 2004, p. 13) devido ao grande impacto de seu trabalho. Sua grande contribuição para o meio científico foi propor, de forma fundamentada cientificamente, um novo modelo de organização do cosmo, o modelo heliocêntrico. Nessa proposta, o Sol passa a ocupar a posição central do nosso sistema e todos os outros astros, inclusive a Terra, passam a girar em torno dele realizando órbitas perfeitamente circulares, contrariando, assim, a concepção aristotélica de organização do cosmo — essa que foi modelada por Cláudio Ptolomeu (90-168) e recebeu um forte apoio da Igreja Católica.
Esse apoio que a Igreja dava ao modelo geocêntrico foi um fator crucial na vida de Copérnico, pois, além de matemático e astrônomo, o polonês era, também, padre, e foi justamente o fato de pertencer à Igreja Católica, que o levou a não publicar e não discutir abertamente seus trabalhos sobre os movimentos do corpos celestes durante grande parte de sua carreira científica. O medo tanto do desprezo da população católica, quanto de uma possível condenação por heresia, fizeram com que Copérnico só tornasse público a síntese de todo o seu estudo acerca desse tema no ano de sua morte, em 1543, através do livro De revolutionibus orbium coelestium (Sobre as revoluções das esferas celestes). Assim, o astrônomo não viveu o suficiente para presenciar o impacto de sua obra e acompanhar os nomes que sua hipótese heliocêntrica revelou no meio científico, como o de Giordano Bruno (1548-1600) e de Galileu Galilei (HAWKING, 2004, p. 13-18).
O impacto que o modelo Copernicano gerou provém muito do momento histórico que a Europa e o pensamento científico se encontravam. Uma proposta heliocêntrica já havia sido colocada em pauta quase vinte séculos antes por Aristarco de Samos (310-230 a.e.c), porém, essa não chegou a receber um tratamento sério visto que a concepção aristotélica de organização do cosmo ainda era suficiente para tratar as questões astronômicas exploradas até então. Todavia, no contexto das discussões acerca do modelo de Copérnico (séculos XVI a XVII), tanto o modelo geocêntrico Ptolomaico, quanto a Filosofia de Aristóteles enfrentavam complicações em sua fundamentação por conta do avanço do pensamento científico, complicações essas que a concepção heliocêntrica conseguia cobrir teoricamente, levando o geocentrismo à crise. Dentre os diversos problemas que o modelo de Ptolomeu encontrava, podemos citar, por exemplo, o fato dele não oferecer uma explicativa física consistente para o movimento retrógrado dos planetas e, além disso, não conseguir explicar o porquê Mercúrio e Vênus sempre eram visto nas proximidades do Sol e Marte, Júpiter e Saturno sempre estavam em oposição a ele (ZANETIC, 1996, p. 46-51).
Nesse sentido, com tais problemas apresentados pela concepção geocêntrica, o modelo heliocêntrico — agora melhor articulado por Copérnico — se tornou uma boa alternativa à cosmologia vigente. Os movimentos realizados pela Terra (rotação em torno do seu eixo e translação ao redor do Sol) conseguiam explicar o fenômeno dos planetas retrógrados, definindo que a configuração “anômala” que esses astros apresentavam eram apenas aparentes justamente por conta do movimento terrestre. Além disso, ao descentralizar a Terra do nosso sistema, o fato de Mercúrio e Vênus sempre se encontrarem nas proximidades do Sol e Marte, Júpiter e Saturno distantes dele ganharam uma nova interpretação: a posição da Terra como o terceiro planeta do Sistema Solar. Assim, astronomicamente falando, o modelo heliocêntrico apresentava diversas vantagens em relação ao modelo geocêntrico, porém, sua aceitação no meio científico e social não foi imediata e tampouco simples, tendo em vista que o paradigma aristotélico-ptolomaico não era apenas um paradigma científico, mas também, e sobretudo, um dogma religioso de uma instituição que, na época, possuía a hegemonia político-social (ZANETIC, 1995, p. 49-61).
Ademais, a ideia de um universo não centrado na Terra poderia levar a população a acreditar ser apenas parte de uma totalidade e não a peça principal dessa e, na concepção da Igreja Católica e da nobreza, esse pensamento teria o potencial de comprometer as relações de organização social estabelecidas até então. Portanto, dar voz ao copernicanismo significava uma ameaça à supremacia social vigente e, como era de se esperar, a disseminação das ideias heliocêntricas foi fortemente combatida por parte dessa comunidade. Episódios marcantes desse conflito são a condenação de Giordano Bruno à morte na fogueira, em 1600, e a intimação, em 1633, de Galileu Galilei a cumprir sua pena em prisão domiciliar até o dia de sua morte. Desta forma, fica evidente a proporção que a proposta de Nicolau Copérnico tomou e os impactos não somente no meio científico, mas também, no meio político-social que ela causou, fazendo assim, que o nome “Revolução Copernicana” seja adequado para representar essa grande mudança de paradigma no pensamento humano (HAWKING, 2004, p. 18).
O motivo que fez com que o pequeno Sidereus Nuncius se destacasse dentre as obras do acervo da Revolução Científica foi justamente sua relação com o modelo heliocêntrico de Copérnico. As observações celestes relatadas por Galileu durante o decorrer do livro concederam, ao debate científico, um fator determinante para o início do tratamento do modelo Copernicano como uma alternativa interessante ao modelo cosmológico vigente: dados observacionais que provassem a mobilidade terrestre. Desta forma, para entender como tais relatos astronômicos deram esse apoio à concepção Copernicana, devemos, primeiramente, destacar quais características fundamentais do modelo geocêntrico e da Filosofia aristotélica entravam em conflito com os dados observacionais explorados por Galileu Galilei no Mensageiro.
Como sabemos, na concepção aristotélica, o universo era separado em dois domínios físicos distintos, o terrestre (sublunar) e o destinado aos céus (supralunar), sendo que, o primeiro, possuía a característica de ser mutável, enquanto, o segundo, de ser perfeito e imutável. O modelo cosmológico de Ptolomeu se apoiou na Filosofia de Aristóteles e definiu um universo bem delimitado, com a presença de esferas cristalinas (demonstrando a ideia de imutabilidade e perfeição do cosmo) e centrado na Terra — com todos os outros astros a orbitando. Sendo assim, qualquer observação que contestasse o caráter perfeito e imutável do universo supralunar significaria um grande problema para a hegemonia aristotélica-ptolomaica, e foi exatamente isso que os relatos observacionais de Galileu fizeram.
Inicialmente, quando o italiano representou a Lua e demonstrou que esse satélite natural possuía uma superfície rugosa e, além disso, não era uma fonte de luz primária, isto é, não tinha luz própria, ele ofereceu um argumento contrário à ideia de separação física entre céus e Terra, pois, assim como nosso planeta, a Lua também possui um relevo montanhoso, fato que, na concepção aristotélica, não seria possível, justamente por conta da Terra e dos céus não compartilharem do mesmo domínio físico e, assim, não poderem apresentar características semelhantes. De forma análoga, ao levar sua análise para as nebulosas e para constelações de estrelas fixas, Galileu percebeu que as estrelas que enxergamos a olho nu não correspondem a todas as estrelas presentes no cosmo, concluindo, assim, que o universo é muito maior do que era imaginado e essa imensidão do cosmo só seria possível se mais uma das bases do modelo geocêntrico fosse contestada: a ideia de uma universo delimitado pelas esferas cristalinas, sendo a última composta por estrelas fixas (MARICONDA; VASCONCELOS, 2020, p. 91).
Desta forma, tendo em mãos esses dois relatos realizados nos meses finais de 1609, o italiano já possuía argumentos interessantes a favor da descentralização da Terra no nosso sistema, porém, foi apenas nos meses iniciais de 1610 que uma situação oportuna o revelou uma das mais importantes observações celestes da época: naquele ano, Júpiter estava em uma posição interessante para análise em Terra e, em um determinado dia, apontando o telescópio a esse planeta, Galileu reparou a presença de três pontos luminosos dispostos em uma linha reta, sendo dois a leste e uma a oeste do astro.
Sem nenhuma pretensão, no dia seguinte, o italiano voltou a analisar a situação de Júpiter e encontrou uma configuração diferente dos pontos luminosos que ele havia observado, dessa vez, todos os três se encontravam a oeste do grande planeta. Percebendo essa divergência, Galileu centrou suas observações a esses pontos luminosos e concluiu que eles eram, na verdade, astros que orbitam o planeta Júpiter, entrando, assim, em conflito com a base do sistema geocêntrico: todos os astros celestes orbitarem a Terra.
Assim, com as observações relatadas por Galileu, o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico finalmente ganhou a forças que lhe faltavam no debate científico. Esse fato causou imediatamente uma "estrondosa comoção" (LEITÃO, 2010, p. 19) não somente no meio científico, mas também no meio político e social, gerando uma grande preocupação para a Igreja Católica e influenciando diretamente no seguimento da carreira e da vida do italiano (MARICONDA; VASCONCELOS, 2020, p. 91).